quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Induta: "Carlos Gomes Jr deu-me ordens para mandar executar João Bernardo Vieira"





A DESPREZÍVEL ELITE GUINEENSE

Numa quarta-feira, 6 de Outubro de 2010, no Ditadura do Consenso, de António Aly Silva, jornalista guineense, em Bissau, foi publicada a peça que aqui reproduzimos, em que é revelado por Zamora Induta ao Procurador-Geral da República da Guiné-Bissau que o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior lhe ordenou “para mandar executar o presidente João Bernardo Nino Vieira”, dessa denúncia o PGR deu conhecimento ao então presidente da República, Malam Bacai Sanha, recentemente falecido em França.

O documento vale o que vale. É a elite da Guiné-Bissau no seu pior no que diz respeito à podridão de valores e de princípios que ostenta, comprovando o seu desprezo pela vida humana, pelos direitos dos seus concidadãos, pelo seu país, pela história da libertação do jugo colonial português, pelos heróis que com membros do seu corpo e com a sua vida escreveram nas bolamas páginas de sangue que há anos estão a ser espezinhadas, desprezadas, pelos que herdaram os proventos da luta, um país que deveria ser livre, pacífico, do povo, e não de uns quantos que tomaram abusivamente os poderes a que retiram a dignidade. Uma desprezível elite guineense.

Será verdade o que consta na carta? Será mentira? Será mais uma jogada política? Sobre documento vindo da Guiné-Bissau e com origem num dos que demonstrou ser tão putrefacto quanto os seus pares da elite assassina e antidemocrática guineense nem sabemos no que acreditar. Mais sensato será, simplesmente, deixar à apreciação dos que a quiserem ler. (Leandro Vasconcelos, do PG)

“Procuradoria-Geral da República

Sua Excelência Senhor
Malam Bacai Sanha
Presidente da República

Assunto: Processo nº10/2010 assassinato do então Presidente da República João Bernardo Vieira; processos relativos aos casos 4 e 5 de junho: assassínios de Hélder Proença e Baciro Dabó respectivamente.

Excelência,

No âmbito dos processos acima referenciados, atendendo o ponto a que se chegou com a investigação, bem como as implicações políticas que poderá acarretar, entendo ser meu dever trazer, ao conhecimento da Vossa Excelência para a necessária e devida ponderação, os factos relevantes que se conseguiu apurar.

Com efeito, as últimas audições de alguns cidadãos permitiram ao Ministério Público recolher informações sobre os autores materiais do homicídio do então Presidente da República, General João Bernanro Vieira, pois alguns deles assumem a sua perpetração.

Os pormenores de preparação e perpetração do crime, consiste resumidamente no seguinte:

No seguimento do atentado ocorrido no dia 1 de março, no Estado Maior general das Forças Armadas, que vitimou o então CEMGFA, General Batista Tagmé Na Waié, foram concentrados militares na sede do Estado Maior, entre os quais um grupo vindo do Batalhão de Mansoa. Passado algum tempo, o então Vice-CEM da Marinha, José Zamora Induta ordenou a formatura, os referidos militares no largo do Estado Maior, para explicar o sucedido, e comunicar-lhes o decesso do então CEMGFA.

À mesma formatura, informou que o Primeiro-Ministro Carlos Gomes Jr deu-lhe ordens para mandar executar o Presidente João Bernardo Vieira, com o fundamento de que em caso de este não ser executado num período de 24 horas, todas as chefias militares iriam sofrer as consequências.

Na sequência deste discurso, o comandante José Zamora Induta, deu ordens aos 6 militares vindos de Mansoa que estavam na referida formatura para irem executar a operação.

Refere-se que integravam o grupo o Major Martinho Djata, que comandou a operação; o soldado José Sana Sambú; 2º Sargento Bicut Tchuda; Alferes Buam Na Dum; 2º Sargento Solnaté N’cuia; Furriel Wassat Besna.

Segundo declararm unanimemente os 6, deslocaram-se viatura dupla cabine ara a residência do malogrado Presidente, onde chegaram entre as 2 e as 3 da manhã. Ao chegarem a residência do Presidente Nino Vieira para o cumprimento da missão depararm com uma outra força militar vinda da Marinha, também instruídos para a mesma missão pelo então Vice-CEM da Marinha José Zamora Induta com o mesmo propósito da eliminação física do PR.

Todavia, o grupo de 6 militares do exército comandados pelo Major Marinho Djata assumiu o protagonismo na eliminação f´sica do PR Nino, ficando o grupo da Marinha encarregue de controlar o perímetro onde se iria desenrolar a operação.

As portas da resiência do PR Nino foram arrombadas com tiros e algum tiroteio que se ouviu foi mais para afuguentar pessoas do local e repelir qualquer eventual força que pudesse obstar o cumprimento da missão.

Os homens comandados pelo Major Martinho Djata, penetraram na residência do PR que, entretanto, se encontrava escondido com a esposa, tendo sido encontrado deitado no chão ao lado da cama debaixo da qual também se encontrava a esposa que foi descoberta algum tempo depois.

O Presidente foi conduzido para a sala de visitas onde foi sentar-se numa cadeira para, depois, ser morto a tiros.

De referir que os militares, só se aperceberam que a esposa do senhor Presidente afinal se encontrava debaixo da mesma cama, ao lado da qual encontraram o Presidente, já depois de terem conduzido este para a sala; porém, antes de o executarem, foram retirar a esposa debaixo da cama, tendo o comandante da operação ordenado que a conduzissem ara a casa de um familiar que morava nas redondezas.

Segundo as declarações dos militares, a esposa do ex-Presidente não presenciou o momento do cometimento do crime e a morte do PR Nino Vieira foi ocasionada pelos tiros que desferiram, ou seja, negaram categoricamente terem torturado o PR antes da sua morte. Negaram, ainda, ter utilizado outras armas tipo catana ou machado, precisando que no acto da execução só se utilizou armas de fogo.

Das declarações dos 6 militares resulta que um outro grupo teria penetrado na residência do PR, após a morte deste, infligindo mutilações à catanada ao corpo da vítima.

Conforme as declarações destes implicados, os autores morais do homicídio do R João Bernardo Vieira, o actual CEMGFA Contra-Almirante José Zamora Induta, e o Primeiro-Ministro Carlos Gomes Jr.
A audição do CEMGFA para ser feita implica segundo a legislação penal que o mesmo terá que constituir um Advogado.

Ora, atendendo a situação da prisão em que se encontra, na sequ~encia do Caso 1 de Abril, esta questão deverá ser devidamente aquilatada. Por outro lado, o Ministério Público necessita ouvir o Primeiro-Ministro em autos, com as implicações jurídico-político advenientes.

II – Casos 4 e 5 de Junho

Quanto aos casos 4 e 5 de Junho, na sequência dos quais foi morto os então candidato à presidência da República e o ex-Ministro da Defesa, senhores Baciro Dabó e Hélder Proença respectivamente, dos autos de inquérito resultaram fortes indícios de que foram executados por um grupo de militares comandados pelo Capitão e Membro da Contra-Inteligência Militar, Pansau Intchama, sob ordens expressas do Contra-Almirante José Zamora Induta, conforme o testemunho do senhor Coronel Samba Djaló, comandante da Contra-Inteligência Militar.
O Capião Pansau Intchama, encontra-se, desde algum tempo a esta parte em Portugal, alegadamente por motivo de formação militar, frequentando o curso de capitães.

Afigura-se ao Ministério Público que a audição do Capitão Pansau Intchama é de extrema importância para o apramento da verdade dos factos, pelo que já iniciou diligências no sentido de pedir a sua extradição.

Olhando para o quadro global da situação e do panorama emergente dos acontecimentos do 1 de Abril, acreditamos que o momento político exige uma intervenção veemente e cuidada de Sua Exelência Senhor Presidente.

O Procurador-Geral da República - Amine Michel Saad”

1 comentário:

Anónimo disse...
- «O documento vale o que vale. [...] Será verdade o que consta na carta? Será mentira? Será mais uma jogada política? Sobre documento vindo da Guiné-Bissau e com origem num dos que demonstrou ser tão putrefacto quanto os seus pares da elite assassina e antidemocrática guineense nem sabemos no que acreditar. Mais sensato será, simplesmente, deixar à apreciação dos que a quiserem ler.»
(Leandro Vasconcelos, no "Página Global", em 07Mai2012 09:56)

Reproduz-se a opinião do Comandante Guilherme Almor de Alpoim Calvão (remetida por email em 08Mai2012 11:26):
- «A tentativa de incriminação do Primeiro-Ministro, que, como os factos demonstraram, não tinha comandamento sobre os militares, é uma construção política sem pés nem cabeça. O capitão Pansau, no depoimento que prestou, nunca se referiu a Induta mas sim a Indjai. Induta foi nomeado CEMGFA para ser derrubado pelo António Indjai, que o Governo foi obrigado a engolir. O reaparecimento desta peça, ajuda à tentativa dos golpistas de não querer repôr a legalidade constitucional. Era do conhecimento geral a ojeriza que Malan Bacai Sanha dedicava a Carlos Gomes, que tinha ganho a votação para a chefia do PAIGC e o ajudou lealmente a ganhar as presidenciais. Também deixo uma pergunta, de que o Povo da Guiné sabe a resposta: quem conduzia à distância o narcotráfico?; quem o conduz agora? O tempo clarificará tudo. Entretanto, reponha-se a legalidade constitucional e não se apoiem os golpistas nem os seus mentores, Senegal e Burkina Faso - a que se juntou agora Conakry, para realizar o sonho francês de finais do séc.XIX, i.e. a eliminação da Guiné-Bissau que seria dividida pelo rio Geba, ficando o N para o Senegal e o Sul para Conakry. Sekou Touré bem o quis. Felizmente em Dacar restava Senghor com "sa petite goute de sang portugais".»

Polícia Federal desarticula em SP grupo acusado de sonegação e lavagem de dinheiro

 

31/10/2012 14:41, Por Redação, com ABr - de São Paulo
Outra forma de atuação do grupo era a subtração de processos administrativos com a ajuda de servidores públicos
A Polícia Federal (PF) prendeu nesta quarta-feira seis pessoas e cumpriu 12 mandados de busca e apreensão na capital paulista e nas cidades de Atibaia e Valinhos, como resultado da Operação Lava-Rápido. Segundo a PF, o grupo era especializado em crimes contra o sistema financeiro nacional, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e subtração de procedimentos fiscais da receita estadual paulista.
Entre os presos, um era empresário, autuado em flagrante por posse ilegal de armas e com prisão preventiva decretada pela Justiça Federal, e quatro eram servidores públicos. Foram apreendidos com o grupo 14 veículos, cinco procedimentos fiscais de pessoas jurídicas e um de pessoa física, 30 mil dólares e R$ 100 mil.
As investigações, iniciadas em março deste ano, partiram da suspeita sobre uma pequena instituição religiosa que havia movimentado quase R$ 400 milhões em operações financeiras. “A associação foi criada por gozar de imunidade tributária, o que diminuiria as probabilidades de fiscalização na visão dos integrantes do grupo”, informou em nota a PF.
Os policiais federais descobriram também que empresas de fachada foram criadas com a finalidade de realizar sonegação fiscal e evasão de divisas. As empresas fictícias recebiam recursos que eram remetidos ilegalmente, por meio de doleiros, ao exterior.
Outra forma de atuação do grupo era a subtração de processos administrativos com a ajuda de servidores públicos vinculados à área tributária. Empresas devedoras do fisco estadual, já autuadas ou com recursos administrativos julgados improcedentes, recorriam à quadrilha para que desaparecessem com procedimentos fiscais.
Esses servidores públicos, além de subtrair os processos físicos, também apagavam os registros nos sistemas de informática. A investigação apontou que os processos volumosos eram levados em partes, escondidos em bolsas ou mochilas. Posteriormente, os documentos eram entregues aos chefes da quadrilha, que repassavam aos empresários envolvidos.
De acordo com a PF, há evidências de que as multas fiscais de cada processo variam de R$ 1 milhão a R$ 35 milhões. O prejuízo total à União e ao estado de São Paulo pelo não recolhimento dos tributos e pelas fraudes detectadas passam de R$ 150 milhões ao ano.
Os investigados responderão por crimes contra o sistema financeiro, subtração de processos, corrupção ativa e passiva, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, falsidade ideológica e sonegação fiscal. As penas somadas para cada acusado podem atingir 28 anos de prisão.

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FRELIMO - Mais revelações do Inferno (3)

Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
 

A MORTE DE FILIPE SAMUEL MAGAIA E AS DIVISÕES NA FRELIMO
Entretanto morreu, assassinado, Filipe Samuel Magaia, chefe do Departamento de Defesa e Segurança da FRELIMO, numa emboscada preparada pela facção de Samora Machel. Foi uma cilada na Província do Niassa, cujo executor foi Lourenço Matola, braço direito de Samora, que baleou Filipe Magaia, quando este tentava atravessar um riacho de madrugada. Lourenço Matola, após o crime, foi entregue à polícia tanzaniana. Nunca foi ouvida por moçambicanos a razão pela qual tinha cometido aquele crime hediondo, apenas Samora, Marcelino, Chissano e o próprio Mondlane sabiam desses motivos.Quando nós, os “Quadros” destacados para aquela missão de abertura de uma frente de guerra, recebemos tal bárbara notícia, tivemos uma queda de moral e a tristeza que se notava em todos os rostos. Não tínhamos outra saída senão a de permanecer com a facção, liderada por Samora Machel, para evitar o confronto entre combatentes.Aceitamos acatar as ordens do criminoso Samora Machel e seu grupo. A partir desse dia começamos a notar alterações no seio das estruturas da FRELIMO até ao 2º Congresso da Organização, realizado na Província do Niassa, Congresso que não foi nada pacifico. Desse Congresso quase surgiram duas FRELIMOS:
· Uma, ligada a Eduardo Mondlane, Samora Machel, Chissano e Marcelino dos Santos, apoiados por uma facção de militares predominantemente Macondes;
· Outra, dirigida por Uria Timóteo Simango (Vice-Presidente da “Velha FRELIMO”), apoiado por Nungo, Lázaro Kavandame, entre outros. Era a mais fraca porque a primeira tinha cortado praticamente todos os contactos entre Simango e os combatentes. Vivia em Dar-es-Salaam ou era confinado em Mbeya e por vezes deslocava-se ao estrangeiro.
Essas duas divisões no seio da FRELIMO, evidentemente, não interessavam a ninguém, já que a luta pelo poder sobrepunha-se à luta pela independência. Foi isto que provocou a morte de Eduardo Mondlane e daí em diante a facção de Samora Machel ganhou mais força do que a de Uria Simango.
Com a morte de Mondlane, começámos a assistir a novas “cenas públicas”. Recordo-me que, quando estive, temporariamente, na Zâmbia em tratamento, após o ferimento que tive no primeiro combate em Tete, Samora apareceu em Lusaka com o seu braço direito, Alberto Joaquim Chissano. Estes começaram a destruir toda a obra de Uria Simango, desde documentos importantes sobre a criação da FRELIMO até às fotografias que se encontravam nas instalações da Organização.
De referir que por causa desses conflitos de luta pelo poder, Casal Ribeiro, que era adjunto de Filipe Magaia, também desapareceu “sem deixar rasto”. Este tinha sido um combatente bem notável. Foi ele que dirigiu as primeiras operações na zona de Mutarara, em Tete, operações que viriam a fracassar devido à falta de material bélico, isto em 1964.
Os crimes praticados dentro da FRELIMO tiveram cumplicidades dos governos Tanzaniano, com Mwalimo Julius Nyerere, e Zambiano, com Kenneth Kaunda, porque era nos territórios destes que eles eram cometidos! Por isso muitos moçambicanos pediram asilo no Kenya, no Uganda ou na Etiópia até aos dias de hoje.
(Excertos do livro a publicar)
Ovar, 4 de Janeiro de 2010
Álvaro Teixeira (GE)

Do Pelotão Maldito ao efeito boomerang

 
Manuel Mapfavisse era um dos mais temidos carrascos de M'telela desde a abertura do Centro em 1975. Estava à testa de um pelotão de guardas e, por ser mais instruído literariamente do que a maioria de outros guardas, servia de correio entre M'telela e Lichinga.
Natural de Ampara, no distrito de Búzi em Sofala, Mapfavisse havia recebido a alcunha de "o Bazuca", dada a sua estatura latagónica. Tal como o comandante e a grande parte dos que integravam a Compa­nhia de 150 homens que guarnecia o Centro, Mapfavisse vivia com a família nas cercanias do mesmo.
A páginas tantas, a situação dos presos começou a preocupar um certo grupo de guardas. Condoía-lhes a situação de alguns presos doentes e particularmente da Dra. Joana Simeão. Como esta era ainda muito jovem, chegado o período menstrual, viam-na na sua cela a con­torcer-se de cólicas sem poderem ajudá-la. Aos trapos que lhe atira­vam como pensos para conter o fluxo sanguíneo, cabia a eles voltar a recebê-los através da portinhola da cela e desembaraçarem-se dos mes­mos.
Deste modo, até princípios de 1977, havia em M'telela dois tipos de guardas para mesmos prisioneiros: Um grupo de defensores acérrimos da causa do regime e um outro que aparentava ser defensor dos direitos dos prisioneiros. Bazuca alinhou com o segundo grupo constituído pelo pelotão que ele chefiava. Num dia, sem dar conta da dimensão do problema que ia criar, planeia com alguns do seu pelotão a fuga de três prisioneiros dentre os quais a Dra. Joana Simeão. Mas antes, Bazuca ter-se-á queixado junto do comandante dos transtornos que aqueles três presos davam. Falou da situação de Simeão e de ho­mens que se prezavam como tal - como aqueles guardas - terem que suportar situações que contrariam a tradição, lidando com coisas ínti­mas que só às mulheres diziam respeito, apenas porque a infeliz prisio­neira não podia sair da cela. Aparentemente, a lamentação foi ao en­contro da sensibilidade de Mombola e este, tomando a peito a questão, garantiu que encontraria uma solução. Efectivamente, Mombola enca­minhou a preocupação a Lichinga, usando como argumento a tradição africana e os "perigos" que advinham de um homem lidar com coisas femininas daquele tipo. A resposta de Lichinga não se fez esperar. Veio "curta e grossa": "Mandem a Joana e os outros dois cortar le­nha!...'»9.
Na gíria da guerrilha da Frelimo, especialmente desde a abertu­ra da base Moçambique D, próximo de Nangololo, na província de Cabo Delgado, "cortar lenha" significava execução sumária de prisio­neiros.
Recebida a Ordem de Serviço, Mombola incumbiria a missão precisamente a Bazuca, a quem deu aval para escolher alguns do seu pelotão para executarem a missão. Bazuca escolheu então quatro guar­das dentre os que com ele conspiravam e deu instruções claras, alertando-os como deviam agir para libertarem os três presos sem le­vantar suspeitas.
As instruções de Lichinga haviam chegado numa altura em que o Comandante preparava uma viagem para aquela cidade, exactamente na companhia de Bazuca. Assim, achou-se por bem executar a "missão Joana" antes da partida, de forma a poder relatar os resultados à chefia da Contra Inteligência Militar na capital provincial.
Ao entardecer, os quatro homens, sob ordens de Bazuca, que na circunstância se viu impossibilitado de se fazer à mata dado o avalanche de trabalho que tinha que executar antes de seguir para Lichinga, retiraram os presos e encaminharam-nos para o local da exe­cução. Chegados aí, os quatro guardas deram instruções aos presos para que escapulissem. Mas antes, terão exigido que estes lhes assegu­rassem possuir capacidades para alcançarem "terra firme" , isto é, o vizinho Malawi. E mais, exigiram aos presos que nunca revelassem as circunstâncias da sua fuga. O receio de possíveis transtornos recaía sobre Joana Simeão por na época o seu nome ter sido muito sonante na opinião pública moçambicana. Se reaparecesse no estrangeiro, certa­mente que iria complicar a vida dos guardas. Joana Simeão assegurou, então, que se manteria calada, e uma vez a salvo no estrangeiro adop­taria um outro nome como garantia de passar ao anonimato.
Tendo concordado que tudo ficaria no segredo dos deuses, os guardas dispararam alguns tiros ao acaso e depois instruíram os presos como deviam caminhar e comportar-se na densa floresta de Niassa. Iniciou assim a fuga dos três prisioneiros incómodos. Todavia. Joana ficaria para trás por não conseguir manter a passada" dos seus compa­nheiros de cárcere. Como consequência disso, viria a ser recapturada dias depois.
Mas antes, regressados ao Centro, os quatro carrascos relataram os factos ao seu chefe - Bazuca - o qual, por sua vez, informou ao Comandante sobre o "pleno cumprimento" da Missão Joana. Sossega­do, no dia seguinte, Mombola empreende então a viagem programada a Lichinga, na companhia de Bazuca para, entre vários afazeres, infor­mar aos seus superiores hierárquicos acerca da execução da Dra. Joana Simeão e de outros dois prisioneiros.
Contudo, contrariamente às garantias dadas pêlos presos, as coisas no terreno complicaram-se. Um dos prisioneiros, conhecedor da mata e natural de Majune, uma vila situada a norte de M'telela, conse­guiu lá chegar pedindo protecção a familiares seus. Estes imediatamen­te esconderam-no, para mais tarde tratar do seu envio para o Malawi onde residiam pessoas de família. Antes, porém, o antigo prisioneiro revelaria as atrocidades cometidas pelas autoridades em M'telela e as circunstâncias da sua fuga na companhia de Joana Simeão e de outro prisioneiro. Se bem que o homem não tivesse denunciado os guardas que lhe facilitaram a fuga, não evitou que a notícia se espalhasse entre os aldeões, chegando ao conhecimento das autoridades locais.
Notificadas as autoridades em Lichinga sobre o acontecido em Majune, Mombola, ainda mergulhado nos seus afazeres na capital pro­vincial, foi posto ao corrente da situação pelo chefe provincial da CIM. Perante o choque inicial da notícia, e longe de imaginar que Bazuca fosse a pessoa que planificou tudo, o Comandante recorre a este para com ele estudar a forma de se livrar da situação. Igualmente alarmado, Bazuca apercebe-se da dimensão do problema que criou. Precavido, ciente do que lhe aconteceria se Mombola regressasse primeiro à M'telela, sugere ao comandante do centro que permaneça em Lichinga para ultimar os seus afazeres, e que ele regressaria de imediato a M'telela para acudir à situação. Tanto Mombola como o Chefe da CIM terão concordado com a ideia e deu-se instruções para que assim que che­gasse ao Centro, Bazuca perseguisse os fugitivos. Aos infractores que deixaram escapulir os presos, devia-se-lhes "mandar cortar lenha", vituperou o chefe da CIM.
De regresso a M'telela, Bazuca move-se no sentido de evitar que o seu nome se associe ao plano da fuga. Age com cautela e rapi­dez. Fala em surdina com os outros chefes de pelotões que ficam estu­pefactos com a notícia. Informa-os sobre os passos à seguir, de acordo com as instruções que trazia. Numa missão silenciosa, os quatro carrascos foram imediata­mente presos e não se lhes deu tempo para se explicarem, pois perante um quadro devidamente pintado por um homem de extrema confiança como o era Bazuca, a medida não sofreu qualquer suspeita dos restan­tes chefes de M'telela. Na calada da noite, os detidos foram levados para um local afastado e executados a golpes de baioneta desferidos por Bazuca e outros chefes de pelotões.
"Aqueles tipos morreram sem perceber porquê. Primeiro por­que não lhes passou pela cabeça que um dos presos foi parar ao Posto administrativo de Majune. Segundo, como cada um deles foi amordaçado, tendo uma venda colocada sobre a vista, não era possí­vel perceber quantas pessoas estavam a sua volta. Depois foram ar­rastados para sítios diferentes e mortos."50.
No dia seguinte a morte dos 4 guardas, iniciou a caçada aos fugitivos. Um grupo de cerca de quinze homens armados de kalashnicovs fizeram-se ao mato à caça dos fugitivos. A Dra. Joana Simeão viria a ser recapturada pouco tempo depois. Sozinha na mata de Majune, não conseguiu ir longe. Os guardas, ao avistarem-na, grita­ram para que parasse. Por não obedecer à ordem, um dos guardas dis­parou, atingindo-a na mão direita. Meses depois seria sumariamente executada na companhia do Rev. Uria Simango e dos restantes prisio­neiros políticos.
Cerca de uma semana após a execução dos quatro carrascos e da recaptura de Joana Simeão, Mombola regressou ao Centro tendo felicitado Bazuca pelo trabalho. Todavia, para as autoridades, os guar­das de M'telela haviam vacilado. Era necessário imprimir uma maior rigidez na disciplina do Centro. Mombola regressou a M'telela com uma ordem severa para cumprir, e, aos chefes dos vários pelotões, viria a declarar:
" (...) o que aconteceu aqui é grave. Todos vocês sabem que isto não é brincadeira camaradas. Nós que somos responsáveis aqui podemos ser culpados e morrermos por brincadeiras de alguns desordeiros. Trago ordens que devem ser cumpridas, doa a quem doer. Todos aqueles que estavam de serviço naquele dia também sa­biam do jogo. Os chefes em Lichinga disseram que é preciso punir severamente todos para servir de lição para que ninguém no futuro aceite mais ser comprado ideologicamente por estes reaccionários aqui:51 .
Dessa forma, os restantes quinze guardas de um pelotão de 20 homens comandados por Bazuca, morriam. Levados para o local da matança, foram todos executados.
Entretanto, eliminados os guardas, surgiu o problema de como se informar as esposas de alguns deles sobre o brusco desaparecimento dos maridos. A solução encontrada foi a de se liquidar não só as senho­ras, mas também os filhos52.
Medida semelhante estava, ao que se diz, reservada aos filhos do Rev. Uria Simango. Depois de o ter mandado executar, o regime da Frelimo insistentemente endereçava convites aos filhos do casal Simango para que se deslocassem ao Niassa a fim de "visitarem" os pais. "0s meus tios disseram-me que, por duas vezes, apareceram na Beira, vindas de Maputo, pessoas das nossas relações familiares ligadas a Frelimo. Não vou dizer os nomes dessas pessoas. Diziam que o go­verno queria que nós fossemos visitar os nossos país em Niassa. Nunca falavam directamente comigo. Dirigiam-se aos meus tios e os tios nunca nos diziam nada porque éramos menores, para além de que se nos dissessem nós imediatamente passaríamos a viver ima­ginando sempre a hora da partida para Niassa e o reencontro com os país"*.
Desconfiados da "boa fé" do regime, os tios dos três rapazes sempre se opuseram. Tinham informações, vindas de outras pessoas ligadas ao poder, de que tais convites encerravam em si algo de sinis­tro, que culminaria com o desaparecimento dos filhos do casal Simango.
-"Arranjem-se como puderem, mas não deixem que os meni­nos sigam para Niassa porque de lá não mais regressarão com vida" – diziam.
Mas a uma dada altura a nostalgia provocada pela separação forçada da família ter-se-á apossado de forma dramática do filho mais velho do Reverendo Simango. O jovem optou então por arriscar, es­pantando a fera na sua toca. Nos fins de 1981, sem o conhecimento dos tios, Lutero escreveu uma petição ao então ministro residente na pro­víncia de Sofala, solicitando-lhe que autorizasse a sua deslocação e dos irmãos a Niassa, a fim de visitar os pais. Numa reflexão retrospectiva, Lutero Simango acredita também numa possível existência de separa­ção de poderes no seio da Frelimo daquela época, pois, segundo suas palavras, a existir um plano para os liquidar, ou o ministro residente não estava ao par dele ou, simplesmente, quis poupa-los. "De contrá­rio, não faria o que fez"55.
Com efeito, em face da petição que lhe chegou as mãos, o en­tão ministro residente mandou chamar o rapaz. Eis o que diz Lutero Simango:
" Quatro ou cinco dias depois de ter recebido a minha peti­ção, logo de manhã cedo mandou um jeep militar lá para casa do tio Francisco onde eu vivia, no bairro do Esturro. Foram lá 4 militares bem fardados e armados com AKM's. Os meus irmãos viviam no Bairro do Vaz com o tio Elijah. Como o jeep chegou antes das sete horas, ao tocarem a campainha quem abriu aporta foi o tio Fran­cisco que se preparava para ir ao serviço. Ao deparar com dois ho­mens armados, o velho entrou em pânico. Mas os homens acalma­ram-no. Disseram-lhe que não havia problemas nenhuns. Pergun­taram muito civilizadamente se era naquela casa onde vivia o filho de Uria Simango. O meu tio disse que sim mas quis saber o que se estava passando. Os homens insistiram que não havia problemas nenhuns. Tinham vindo a mando de sua excelência levar o senhor Lutero para ir ao gabinete do governo, porque sua excelência queria falar com ele. Eu ainda estava na cama. Acordaram-me. E como o velho nada sabia da carta que eu havia feito, ficou mais baralhado. Preparei-me então para seguir com aqueles homens. Os tipos até me deixaram matabichar. Estavam todos atentos aos meus gestos e sor­ridentes. Acho que nunca tinham visto de perto um filho de um reaccionário!... Achavam graça me vendo comer. Depois saí com eles direitinho para o gabinete do ministro residente. Só que quando lá chego, quem me recebe não é o ministro. Foi o chefe do gabinete. O homem foi muito gentil também. Estava todo sorridente. Começou por oferecer-me um café que recusei. Depois disse que o ministro recebeu a minha carta e pediu-lhe que conversasse comigo antes de estar frente a frente com ele num encontro que se previa para a semana seguinte. Disse que o governo sabia que nós estávamos pas­sando algumas necessidades. Que o camarada ministro deu instruções para disponibilizar uma casa recheada de mobílias e uma viatura para nos os três, etc., etc. Estavam dispostos a disponibilizar-nos uma mesada e garantir as necessidades escolares. Eu deixei-lhe fa­lar e depois disse-lhe: ok, diga ao camarada ministro que eu aceito que o governo tome conta de nós e nos dê mundos e fundos. Mas há uma condição: Que tudo isso esteja aliado a preocupação número um, visitar os nossos pais. Que nos fosse permitido, nem que uma vez de seis em seis meses, visitar nossos país. De contrário, nada feito.
Ele disse que ia encaminhar a preocupação ao ministro. Só que nunca mais me contactaram e eu também não insisti, porque quando regressei a casa os tios estavam em alvoroço. Coitado do tio, nem foi trabalhar nesse dia. A tia Mazwiona, então, estava mergu­lhada num charco de lágrimas. Só parou de soluçar quando me viu a entrar. Contei-lhes o que havia feito. Nesse dia levei um bom pu­xão de orelhas e avisaram-me de que nunca mais queriam ouvir falar disso. Foi daí que passei a saber que já houve tentativas de levar-nos para Niassa, e tudo fora água abaixo porque outros dizi­am que isso significava morte certa. Isso aconteceu entre 1977 e 1978. Como eu não soubesse nada disso, durante as férias escolares de 1981, se a memória não me engana, fiz então a petição, sem co­nhecimento dos tios. No ano seguinte vim para a Universidade em Maputo. Nunca mais se falou do assunto, porque os tios voltaram a avisar-me que em Maputo eu tinha a missão de estudar e nada de me meter em coisas que podiam dificultar os meus estudos. Penso que eles já desconfiavam que os nossos pais estavam mortos."56.
Bazuca saiu limpo do esquema por ele montado, mas não vive­ria por muito mais tempo. Nos meados de Janeiro de 1982, eclodiu no Centro de M'telela um problema de índole passional. Uma das filhas do comandante Mombola, já suficientemente donzela para atrair a gula dos homens, seria o centro de gravitação de dois amores: o de Manuel Mapfavisse (Bazuca) e o do jovem operador de rádio de comunica­ções do Centro. Enquanto Mapfavisse se esgrimia em presentear a ra­pariga de bugigangas que trazia de Lichinga onde constantemente se deslocava em missão de serviço e em visita a sua esposa que já nessa altura vivia naquela cidade, clandestinamente, a donzela correspondia ao amor do jovem operador de rádio, fazendo de Bazuca um bobo contente. Bazuca sabia que apesar das suas aliciantes ofertas, quem efectivamente tirava proveito da beldade da rapariga era o homem das telecomunicações que, para além de ainda jovem e com boas perspec­tivas de vir a casar com a rapariga, era, por outro lado, mais culto literariamente do que ele. Bazuca não encontrava formas de se desem­baraçar do jovem apaixonado.
Um dia, a esposa do comandante, vê, na calada da noite, um vulto a sair da janela que dava acesso ao quarto da filha. Alarmada com a situação, informou de imediato o marido o que acabava de presenci­ar. Ferido no seu ego, o casal Mombola entende então pôr a filha na "prensa", para que dissesse quem havia saído pela janela naquela noite. A menina nega pelas "cinzas dos seus antepassados" ter visto alguém. O assunto não morreu por aí. No dia seguinte ao acontecimento, Mombola pôs em formatura todos os guardas que não estavam de ser­viço na noite anterior. Deles procura saber quem andava a saltar das janelas das meninas na calada na noite.
Enquanto aguardava pela resposta, confidenciou o sucedido à Bazuca, um que se encontrava a seu lado. Este, sem perca de tempo, sentenciou:
"É o Radista" - referindo-se ao jovem operador de rádio:
Havia muito tempo que Bazuca andava desconfiado dos movi­mentos do rapaz. O operador de rádio foi assim arrastado da formatura e de seguida, severamente punido. Tudo ficou por aí.
Entretanto, a simples punição que consistiu em fazer buracos de dois metros de profundidade e tornar a tapá-los durante quatro dias consecutivos não agradou a Bazuca. O "radista" tinha que sair do seu caminho.
Numa das suas habituais viagens à Lichinga, Bazuca forja um documento, com carimbo e tudo, onde se lia que o "radista" devia ser fuzilado, porque, segundo dados em poder da Contra Inteligência Mi­litar em Lichinga, o rapaz passava informações ao inimigo. No seu regresso ao Centro, Bazuca exibe a Ordem de Serviço a Mombola. Dada a autenticidade do documento, ao comandante nada restou se­não executar a medida. Para alegria de Manuel Mapfavisse, aliás, Bazuca, o jovem "radista" foi executado, deixando-lhe livre o cami­nho para a rapariga em disputa.
Passaram-se semanas até que o comandante se deslocou a Lichinga, desta feita sem ser acompanhado de Bazuca. O jovem opera­dor de rádio, fora, entretanto, substituído por outro, o qual, perante os insistentes pedidos de colegas em Lichinga, não ousava informá-los por via da rede de telecomunicações os pormenores do que ocorrera com o jovem colega. A notícia da liquidação do "radista" chegou a Lichinga por vias não claras. Os operadores de rádio naquela cidade faziam notar ao novo operador de M'telela que o assunto já constava da agenda do chefe provincial da CIM. De facto, assim que Mombola chegou a capital provincial, o chefe da CIM quis ouvir do comandante do campo de M'telela o que se passara com o jovem operador das telecomunicações daquele Centro. Mombola, perplexo e boquiaberto, apercebe-se de que algo não batia certo, pois que a execução daquele rapaz fora a mando daquele mesmo homem que agora o questionava. Não fazia sentido que o chefe local da CIM quisesse saber de histórias passadas. Decide-se a contar tudo e informa que agiu de acordo com a Ordem de Serviço vinda do gabinete do próprio chefe do CIM.
Em face do que acabava de escutar, o chefe da CIM aconselhou Mombola a manter-se calmo. Deu ordens para que Bazuca fosse cha­mado à Lichinga com a maior urgência possível.
Uma vez em Lichinga, Bazuca comparece no gabinete do chefe da CIM. A princípio não se apercebe de que havia algo de errado. Desperta quando viu o seu Comandante, de semblante pesado, a entrar e tomar lugar no gabinete sob ordens do chefe da CIM. Confrontado com a célebre Ordem de Serviço, Bazuca nada soube explicar. É imedi­atamente preso e encaminhado para as celas do comando provincial da CIM em Lichinga. Depois de se confirmar que a Ordem de Serviços havia sido forjada, e que afinal, a história da fuga de Joana Simeão havia igualmente sido por si esquematizada, Bazuca viria a morrer en­quanto se encontrava sob detenção em Lichinga, ao que se diz, vítima de um golpe de baioneta espetada por um outro prisioneiro. O golpe, desferido do lado inferior esquerdo do pescoço, provocou-lhe morte instantânea e um certo alívio entre alguns dos seus colegas em M'telela que já andavam cansados das peripécias de Bazuca58.
"A partir da morte de Bazuca começou a desvendar-se muita coisa em torno dos seus segredos e da forma como Simango e outros presos foram mortos. Mombola, apesar de na altura ser o coman­dante do Centro, era um homem calmo. Era apenas obediente às ordens de Lichinga e não queria problemas para ele. Bazuca não. Esse inventava ordens dele e até aldrabava Mombola. Alguns até ficaram felizes quando se soube que ficou preso em Lichinga. Quando chegou a notícia da sua morte, então é que se pulou de alegria por­que era daqueles que punia a torto e a direita lá no Centro. Alguns guardas tinham cicatrizes provocadas pelas punições dele e sempre que se envolvesse em problemas pessoais com pessoas em Lichinga, arranjava forma de trazê-las como presos em M'telela para maltratá-las. Quem me conta a história dele é um dos guardas lá de M'telela, pouco tempo depois que nos chegou a notícia da sua morte"59.
Precavendo possíveis transtornos por parte da esposa de Bazuca que certamente não tardaria a procurar saber junto da CIM em Lichinga das causas do silêncio do marido, e dado que esta não possuía filhos ou familiares próximos naquela cidade que pudessem reclamar o seu desa­parecimento, a chefia da CIM entendeu "por bem" encaminhá-la à M'telela para visitar o marido "que estava passando alguns problemas de saúde!..."60. A senhora havia sido colocada na mesma palhota onde viviam Celina Simango e Lúcia Tangane. Foi executada no mesmo dia com estas duas61.

PRISÃO E PROVAÇÕES DE LUÍS FERNANDES EM TERRITÓRIO SOBRE ADMINISTRAÇÃO PORTUGUESA DE MOÇAMBIQUE

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO CAP. LUIS FERNANDES - GEP

PRISÃO E PROVAÇÕES DE LUÍS FERNANDES EM TERRITÓRIO SOBRE ADMINISTRAÇÃO PORTUGUESA DE MOÇAMBIQUE
Para acabar, para já, com esta saga sobre os acontecimentos de Moçambique e relacionados, quero falar hoje da prisão do Capitão Luís Fernandes.
O Luís já tinha sido vítima de represálias aquando da sua tomada de posição no jornal Expresso (Maio 74). Em 7 de Setembro encontrava-se em Lisboa. Pouco tempo depois avança para Moçambique, enquanto o Comandante das Operações (um Coronel) aguardava, na África do Sul, para entrar em Moçambique de acordo com o desenvolvimento das acções do nosso Luís.
Entrando (semi-clandestinamente) em Moçambique por via-férrea é transportado para Lourenço Marques (como ajudante de camionista). Na sua bagagem o seu uniforme. Várias vezes parado pelo bloqueio frelimista e dos MFA, consegue, contudo, chegar à capital de Moçambique, onde inicia (de imediato) os seus contactos. Traído por alguém é preso pelo MFA em 19 de Outubro de 74. É interrogado pelo famoso Capitão Camilo (Hoje Major General desta tropa que temos, e nomeado - por Paulo Portas !!!! - vice presidente da liga dos combatentes).
Dois dias depois (e já resultado da sua acção) ocorre a revolta dos Comandos, que eles tiveram grande dificuldade em travar.
Com ele livre e junto dos GE e GEP seria muito difícil ao MFA aguentar-se!
O resto da história é conhecido. Luís Fernandes é entregue (pelas FFAA “portuguesas”???) à Frelimo. E transportado em avião militar português para as bases da Frelimo, juntamente com Joana Simeão e etc. A ordem de entrega à Frelimo é também do MFA Camilo. (o amigo do Portas!!! - Paulo, que não Miguel…).Pela primeira vez na História de Portugal um Oficial do nosso exército é entregue ao inimigo.
E só em Janeiro de 1976, depois de passar o indescritível, é que o Luís é solto (depois de um período de “engorda e restabelecimento” propiciado pela Frelimo para evitar demasiadas críticas internacionais. Regressado a Lisboa, poucos dias depois está já em Madrid, parta continuar o combate, apesar de bastante diminuído fisicamente. Porque moralmente nunca o conseguiram abater, pese embora a quantidade de fuzilamentos a que assistiu.
E, já em Madrid, dispôs-se a continuar de imediato o seu combate. Fosse onde fosse e para o que fosse. Foi aí que eu (acabadinho de regressar de umas coisas) o reencontrei e pude de novo abraçá-lo comovidamente!
PRISÃO DE LUÍS FERNANDES
Pois, eu passo a vida a dar o dito por não dito. Disse que encerrava - para já - o dossier Moçambique e eis que encontro na minha papelada a primeira entrevista dada por Luís Fernandes sobre o seu calvário. Não resisto a publicá-la na íntegra. Também há entrevista ao Diabo. Vou ver se a encontro.
Pois aqui vai:
“MOÇAMBIQUE POR DETRÁS DAS GRADES - ANTES E DEPOIS DA INDEPENDÊNCIA
Andava eu, algures, por terras do Algarve, cumprindo o meu roteiro profissional, quando por felicidade inesperada encontrei um velho Amigo e Camarada – o termo é militar – que supunha irremediavelmente perdido pelas latitudes tropicais de Moçambique, nos campos de concentração da Frelimo, malgrado as afirmações peremptórias do ministro Vítor Crespo, a 7 de Dezembro do ano, negando a existência de prisioneiros portugueses no paraíso de Machel.
Recordo-me da última vez que nos abraçámos. Foi no Hospital Militar de Lourenço Marques, onde, em circunstâncias diferentes nos encontrávamos. Eu com baixa e ele de consulta, mas cercado por antigos companheiros de armas como se de um criminoso se tratasse.
Luís Fernandes, capitão miliciano dos “GEP`s”, era uma das muitas vítimas imoladas no holocausto da descolonização concebida pelos “moscovozinhos” da nossa Pátria. Mas deixemos que seja Luís Fernandes a fazer-nos o relato do nosso Portugal oitocentos anos secular, reduzido como está agora, às dimensões anãs do ano de 1400.
DETIDO COM APARATO EM LOURENÇO MARQUES
Século – Quando e onde se deu a detenção que se prolongou num cativeiro de 16 meses?Cap. Luís Fernandes – Foi em Lourenço Marques e no Hotel Polana, em 18 de Outubro de 1974. A detenção foi efectuada por dois capitães do Exército Português, que se encontravam acompanhados por cerca de quinze militares da Polícia Militar.

Século – Perante tamanho aparato militar a surpresa decerto não foi pequena, até porque, aparentemente, nada justificava a referida actuação por parte das Forças Armadas…Cap. Luís Fernandes – Exactamente, eu estava hospedado no Hotel Polana, sem problemas de ordem jurídica, porquanto pagava as minhas contas e não provocava desacatos, pelo que não havia alguma razão que motivasse qualquer medida a tomar pelas autoridades civis ou militares da Província de Moçambique.

Século – Quais foram os motivos alegados para a detenção que obrigou à mobilização espalhafatosa de mais de uma dezena de militares?
Cap. Luís Fernandes – Os motivos não foram de ordem jurídica mas do que se pode considerar de ordem revolucionária. Foram fundamentados em suspeitas que se afirmavam existir a meu respeito, quanto a supostos “crimes” contra a descolonização, o que constitui matéria não prevista no Código Penal Português em vigor, nem em qualquer diploma existente naquela altura.

Século – Portanto, não houve acusação de um delito concreto…
Cap. Luís Fernandes – Não havia qualquer acusação concreta. Havia, sim e apenas, o termo genérico de “crimes contra a descolonização” que era uma matéria que justificava ou pretendia justificar todas as prisões arbitrárias que se sucederam a partir da minha detenção em Lourenço Marques, e foram em crescendo até ao período da entrega total da Província de Moçambique à Frelimo, por altura da independência.
DESERTORES E GUERRILHEIROS – “AS NOSSAS TROPAS”
Século – Verificada a detenção foi-lhe facultada a assistência de um advogado, ou terão decorrido os interrogatórios sem a satisfação dessa norma elementar?
Cap. Luís Fernandes – Fui preso, como anteriormente afirmei, por indivíduos trajando civilmente, mas identificados como elementos da Polícia Militar Portuguesa e oficiais do Exército, nomeadamente dois capitães. Estes transportaram-me para o Quartel-General do Comando Territorial do Sul, onde cheguei às 4 horas da madrugada do dia da minha detenção, tendo seguido escoltado pela P.M. para uma sala que era, se não erro, a 2.ª Repartição. Nessa sala aguardava-me um representante da Frelimo, recém-instalada em Lourenço Marques, que não era nada menos que um desertor da Força Aérea Portuguesa, concretamente, Jacinto Veloso, ex-tenente da F.A.P., que anos antes se tinha passado para Dar-es-Salam a bordo de um bombardeiro “T/6″ que entregou ao inimigo, estando assim dentro do estabelecido pelo Código de Justiça Militar para os casos de pena de morte.
Concluindo, não me foi permitido um advogado e como inquiridor nomearam um desertor das Forças Armadas Portuguesas.

Século – Quer dizer então que foi interrogado por Jacinto Veloso?
Cap. Luís Fernandes – Não. Aquele desertor pretendeu de facto interrogar-me, mas como recusou identificar-se, quando por mim instado, também me neguei ao diálogo por ele proposto. Fiquei assim a aguardar interrogatório posterior entre dois guerrilheiros uniformizados da Frelimo, e de resto mal uniformizados, os quais me apontavam ameaçadoramente as suas espingardas “kalashs”.
Ante atitude tão insólita, porque era um antigo combatente português, preso por oficiais portugueses e pela Polícia Militar do meu país, perguntei a um dos capitães que interveio na minha detenção – capitão Camilo – se não havia ninguém mais, para além dos guerrilheiros da Frelimo, para me guardar, ao que me respondeu, ironicamente, dizendo eu estar a leste do Acordo de Lusaka, porque naquele momento os guerrilheiros eram “as nossas tropas”. Não haja espanto, porque as “ironias” do capitão Camilo não ficaram por aqui, antes se salientaram quando, no primeiro interrogatório, não obtendo o que pretendia, como afirmações susceptíveis de comprometer determinadas individualidades civis e militares, me ameaçou com a entrega à Frelimo que poderia ocasionar uma atitude mais colaborante da minha parte.
Perante a minha indignação – que se expressou do seguinte modo: será você capaz de entregar à Frelimo antigos camaradas de guerra? – Respondeu o capitão Camilo que, naquele momento, o inimigo era eu.
ROTEIRO DO PRISIONEIRO
Século – Foi sujeito ao longo dos interrogatórios levados a cabo pelo capitão Camilo a uma persuasão agressiva, com ameaças físicas?Cap. Luís Fernandes – Ele não me ameaçou propriamente com maus tratos físicos, mas deixou entender, para quem não fosse desprovido de imaginação que o tratamento dado pela Frelimo não seria o previsto na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Século – Relate-nos, cronologicamente, o seu primeiro roteiro como prisioneiro.Cap. Luís Fernandes – Fui detido às 3 horas da madrugada de 18 de Outubro de 1974 e no próprio dia transferido para a cadeia da Machava onde me mantiveram no mais absoluto segredo durante quatro dias. Ao cabo de dois ou três interrogatórios ao estilo daquele que já citei, fui conservado em regime de menor vigilância dentro dessa prisão, tendo em seguida sido transferido, com outros companheiros entretanto presos, para a Penitenciária de Lourenço Marques.
Mas, deixe-me referir, no que respeita às atitudes dos inquiridores durante o processo instrutório que o tal capitão Camilo reconheceu não haver contra mim qualquer prova de ordem jurídica mas, acrescentou, que no período revolucionário as provas jurídicas não tinham importância relativa e se era verdade que a meu respeito não tinham provas, também não tinham dúvidas. Isto significava, nos termos do “revolucionário” Camilo que podiam fazer de mim o que desejassem e achassem mais útil. E fizeram…

Século – Portanto, situa-se este relato que faz em período anterior à independência de Moçambique…Cap. Luís Fernandes – Precisamente. Todo o relato que acabo de fazer situa-se no período do chamado Governo de Transição, em que a autoridade era exercida em nome do Presidente da República por um Alto-Comissário que representava a Soberania de Portugal em Moçambique, na medida em que era a Bandeira Verde-Rubra que lá se içava legal e legitimamente.

Século – Quando foi entregue à Frelimo e como se verificou a transferência dos prisioneiros portugueses sob a alçada da responsabilidade do Alto-Comissário para os carcereiros de Machel?Cap. Luís Fernandes – Houve vagas sucessivas, seguidas de dois em dois dias, em que alguns elementos escolhidos, não sei com que critério, mas habitualmente antigos militares passados à disponibilidade em alturas muito recentes foram transferidos das autoridades portuguesas do Comando Territorial do Sul, em Lourenço Marques, para as pseudo-autoridades da Frelimo. Muitos foram enviados para Porto Amélia e dali para as chamadas “zonas libertadas”, no interior do Distrito de Cabo Delgado.

Século – A vossa ida para os campos de concentração existentes nas “zonas libertadas” efectuou-se antes ou depois do 25 de Junho de 1975?Cap. Luís Fernandes – Fomos enviados para os campos de concentração como prisioneiros da Frelimo cerca de três meses antes da data da independência de Moçambique, ou seja, em plena vigência da autoridade do Alto-Comissário. Em plena vigência da autoridade do hoje general Melo Egídio, então Comandante do Comando Territorial do Sul, a quem os presos estavam confiados e, portanto, esta transferência nunca se poderia ter dado sem o consentimento do Alto-Comissário da República Portuguesa, Vítor Crespo.
AVIÃO DA FORÇA AÉREA PORTUGUESA TRANSPORTOU PRISIONEIROS DE MUEDA PARA A TANZÂNIA

Século – Para que “campos de recuperação” foram posteriormente conduzidos?
Cap. Luís Fernandes – Antes de sermos enviados para os chamados “campos de reeducação” da Frelimo, transferiram-nos para Mueda, onde em bloco fomos submetidos a julgamento popular, que teve por consequência a nossa condenação à morte sob as acusações mais diversas e caricatas, tendo a referida pena sido substituída, ulteriormente, por trabalhos forçados indefinidos.
O grupo de prisioneiros era então constituído por portugueses originários da Metrópole e alguns elementos oriundos da Província de Moçambique, dos quais citarei a Dr.ª Joana Simeão, Pedro Mondlane e outros dirigentes indígenas que haviam desertado das fileiras da Frelimo e recolhido às autoridades portuguesas para se reintegrarem na Comunidade Lusíada, e depois por estas entregues aos apaniguados de Samora Machel. Lembro-me de alguns nomes destes últimos: Dr. Júlio Razão e o Eng. Paulo Marquesa.
Após o julgamento popular foram os portugueses originários da Metrópole dispersos por diversas bases que serviam de campos de concentração, nomeadamente a Base Beira, próximo de Nangade e de Omar, a Base Moçambique –. A também conhecida por Base Central, localizada relativamente perto do Nangololo, a Base Gungunhana é outras cujo indicativo não recordo.
Quanto ao grupo formado por elementos naturais da Província Portuguesa de Moçambique, foi-lhes dado como destino o Campo de Nashingwea, no território da Tanzânia, sendo para ali transportados em avião militar português, Nord/Atlas da Força Aérea Portuguesa, que rumou da pista de Mueda para Dar-es-Salam.
PRISIONEIROS ABANDONADOS PELAS AUTORIDADES PORTUGUESAS
Século – Qual o número de portugueses seus companheiros de cativeiro nos campos de concentração de Cabo Delgado?Cap. Luís Fernandes – Dos presos pelas autoridades militares de Lourenço Marques, éramos sete. Mas, para além de nós, havia nas prisões e campos de concentração da Frelimo muitos ex-militares portugueses, principalmente elementos de tropas especiais, directamente detidos por guerrilheiros ainda no período em que a única soberania que se exercia oficialmente em Moçambique era a de Portugal, sem que isso obstasse o total abandono a que nos votaram na altura da independência em circunstâncias deploráveis, que facilmente se imaginam.
Acho que não serão necessários grandes raciocínios para classificar esta situação como escandalosa, pois que para além dos aspectos humano, político e patriótico que encerra, denuncia uma aberração jurídica que, por si só, define uma capitulação total de uma autoridade que se recusava a existir por abdicar dos seus direitos e deveres para com os cidadãos que representava.

Século – Punham-vos ao corrente das “démarches” que entretanto se promoviam com vista à vossa libertação?Cap. Luís Fernandes – De modo algum. Para que faça uma ideia da nossa existência, peço-lhe que recorde as imagens do filme “O Planeta dos Macacos” e dimensione a nossa vivência à dos extraterrestres desvinculados de qualquer rumor da civilização. Para além de tudo o mais, tínhamos os responsáveis da Frelimo pela nossa vigilância que gaguejavam, e muito mal, o português, sendo carcereiros cuja missão era a de nos dificultar a todo o momento a vida e não segredar-nos palavras de esperança.
TRABALHOS FORÇADOS SEM OBJECTIVOS DE RENTABILIDADE – EVACUAÇÃO DE TÁXI AÉREO

Século – Pode concretizar o tipo de regime a que vos sujeitavam os homens da Frelimo?Cap. Luís Fernandes – Éramos sujeitos a um regime de trabalhos forçados da mais diversa ordem, principalmente no domínio agrícola. É evidente, mesmo para quem desconheça as realidades locais, que o estilo de produção é do mais primitivo possível, sendo o trabalho totalmente manual, de resto de pouca rentabilidade económica, até porque os trabalhos a que nos sujeitavam eram destinados mais a tornar-nos a vida insuportável do que a visar objectivos rentáveis.

Século – Quando se verificou o vosso regresso a Lisboa?Cap. Luís Fernandes – O nosso regresso realizou-se após a deslocação do Secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros a Lourenço Marques. Fomos então, (…) de Porto Amélia para a Beira, onde embarcámos com destino a Lisboa, escalando em Luanda.
UM POLÍCIA ESQUECIDO EM PORTO AMÉLIA
Século – Havia ainda em Porto Amélia (Pemba) algum elemento da P.S.P. portuguesa?Cap. Luís Fernandes – Não. O único polícia português que lá se encontrava e encontra ainda, era um agente de origem europeia e natural de Portugal, detido pela Frelimo e por esta, muito mal tratado. Convém salientar que o referido agente foi abandonado por camaradas seus da P.S.P., que regressaram a Portugal findo o contrato com o governo de Moçambique, em Dezembro do ano passado, sem exigirem o seu repatriamento.

Século – Já não era, portanto, aquando da vossa libertação, embaixador de Portugal em Moçambique, o Dr. Albertino de Almeida?Cap. Luís Fernandes – Não. Albertino de Almeida que não é, aliás diplomata de carreira mas apenas um advogado, já não se encontrava à frente da Embaixada de Portugal em Moçambique.
De resto, considero oportuno referir que o advogado Albertino de Almeida sempre foi um elemento da confiança do Partido Comunista Português, tendo sido em Angola colaborador directo de Lopo do Nascimento, do M.P.L.A. e talvez por isso se compreenda que quando embaixador de Portugal em Moçambique jamais tivesse tomado uma atitude a favor dos prisioneiros portugueses, como ainda impediu os funcionários consulares de promoverem qualquer diligência no sentido de melhorar a situação dos cidadãos portugueses encarcerados pela SNASP, que são em número superior a três centenas, não obstante as declarações em contrário proferidas pelo ministro Vítor Crespo.
O FURRIEL MOTA DOS COMANDOS AINDA PRESO EM MOÇAMBIQUE
Século – Quando do regresso a Lisboa foram alvo de interesse por parte da Imprensa portuguesa?Cap. Luís Fernandes – A nossa chegada quase passou despercebida, não tendo havido por parte da Imprensa portuguesa qualquer interesse em saber o que tínhamos passado e o que sucedia ainda aos muitos portugueses detidos em Moçambique, sujeitos a um regime de desgaste físico e psíquico que os visa aniquilar.

Século – Colocamos o nosso espaço ao seu dispor para o caso de pretender referir qualquer assunto que não tenha sido abordado ao longo deste diálogo.Cap. Luís Fernandes – Gostaria de frisar que há ainda em Moçambique muitos cidadãos portugueses detidos depois da independência daquele território. Há também um caso escandaloso que é o do furriel Mota, dos Comandos, preso pela Frelimo pouco depois da passagem à disponibilidade, antes da independência de Moçambique, portanto ainda sob a soberania portuguesa, o qual se encontra ainda num campo de concentração, ao que suponho algures em Cabo Delgado. Urge que as autoridades diplomáticas e governamentais do nosso País actuem rapidamente, com firmeza e energia, no sentido de serem libertados todos os nossos compatriotas.
Texto de Carlos Didier
In O Século de Joanesburgo, 19.04.1976, pág. 15″
Cap. Luis Fernandes e Álvaro Teixeira (foto de 30/05/2009)
PRISÃO E PROVAÇÕES DE LUÍS FERNANDES
“Levado sob escolta militar para o Comando Territorial Sul, fui conduzido a uma vasta sala do edifício. Deparei com dois sujeitos: um, sentado atrás de uma secretária, fardado, com galões de capitão, que se identificou como sendo o capitão Camilo, … Os soldados portugueses retiraram-se e enquanto o capitão Camilo me mandava sentar numa cadeira à sua frente, colocaram-se à minha esquerda e à minha direita, dois jovens guerrilheiros da FRELIMO, andrajosos e sujos, apontando-me as suas Kalashnikovs.

Como reagiste?Surpreendido ainda protestei, perguntando ao capitão Camilo se não tinha soldados nossos para me guardar e se era preciso que o Inimigo o fizesse. Conservo bem viva na memória a resposta do hoje major-general: “Então você não leu o tratado (sic) de Lusaca? Eles agora são as nossas tropas.” E acrescentou com um sorriso sarcástico: “O Inimigo é você!”

Foste interrogado?Nem por isso. Não com pés e cabeça. O capitão Camilo, satisfeito com o efeito da sua inesperada declaração, perante o meu ar de espanto, folheou a minha agenda e revistou a minha carteira, fazendo-me diversas perguntas a que eu invariavelmente respondia: “não me lembro”. Concluiu, sempre com o mesmo sorriso sarcástico na face, que “eu comia demasiado queijo e que talvez a Frelimo conseguisse que eu recuperasse a memória….”.
Fez-te ameaças?Não de olhos nos olhos. Só insinuações como a que reproduzi acima. Lá foi dizendo que o tratamento que poderia esperar da Frelimo não seria exactamente aquele que a Declaração Universal dos Direitos do Homem preconizava. Por isso, indignado, protestei com veemência e disse-lhe textualmente que “parecia impossível que um capitão do Exército Português pudesse entregar ao inimigo antigos camaradas de armas” e acrescentei que me mantinha nesta situação “sem terem, em termos jurídicos, encontrado a menor prova contra mim.” O capitão Camilo encolheu os ombros e disse displicentemente que, na presente situação, “se não tinha provas, também não tinha dúvidas, pelo que em termos revolucionários, faria de mim o que entendesse.”

Terminado o interrogatório, ficaste preso?Dada a avançada hora, o interrogatório foi dado por findo e fui levado, com os mesmo aparato militar, para a antiga cadeia da Machava, …
Fui fechado numa cela que, para além da porta de grades tinha uma porta de madeira, pelo que não vias o que se passava no exterior. A alimentação era o rancho da tropa portuguesa, … O oficial português que comandava essa tropa e que vim a conhecer, era cortês.
Voltaste a ver o capitão Camilo?Duas ou três vezes apareceu o capitão Camilo na cadeia para me interrogar. Nada conseguindo saber pela minha parte. Vinha fardado, conduzindo ele próprio o jipe militar e trazendo como guarda-costas um guerrilheiro armado no banco de trás, como se tivesse aproveitado uma boleia.
Terminado o isolamento juntei-me aos meus companheiros de cárcere no pavilhão onde nos encontrávamos detidos e que tinha as portas abertas.
A prisão ia-se enchendo com a entrada de novos presos e fiquei na mesma cela em que se encontravam um juiz de direito e um engenheiro doutorado por uma universidade sul-africana. O meio era realmente selecto.
Tiveste direito a advogado? Que soubeste do enquadramento legal da tua situação?
Fui visitado por um advogado de Lourenço Marques, Dr. Antero Sobral, pertencente ao grupo dos “Democratas de Moçambique” e que fora um dos signatários dos acordos de Lusaca (a que o capitão Camilo chamava pomposamente de tratado), mas que se dava com amigos meus entretanto refugiados na África do Sul. Mostrou-me a legislação revolucionária entretanto elaborada pelo alto-comissário Vítor Crespo: em dois decretos-lei publicados no Boletim Oficial da Província que “instituíam os crimes contra a descolonização! Como a lei penal não tem efeitos retroactivos se não para benefício dos réus e como já me encontrava preso à data da publicação desses diplomas, não se me aplicavam. Disse-me então o Dr. Antero Sobral, visivelmente constrangido, dada a sua formação jurídica, que nem valia a pena constituí-lo como defensor porque “tudo era feito à margem da Lei, e até contra os princípios gerais do Direito». Agradeci a visita e o seu interesse, tanto mais que éramos adversários políticos.
Além de ti e dos outros seis ex-militares detidos pela mesma altura, houve mais prisões?
Em dada altura juntou-se a nós outro grupo de prisioneiros, também presos pelo MFA. Esses eram todos negros e, se bem que, pessoalmente, não conhecesse nenhum deles, sabia quem eram, pois eram figuras públicas. Todos eles ou quase todos tinham pertencido à Frelimo e tinham, por diversos motivos, abandonado o movimento terrorista, vindo a acolher-se à protecção das autoridades militares portuguesas, bem antes do 25 de Abril. Confiados nas promessas então feitas, tinham permanecido em Moçambique vindo agora ser presos pelo Exército Português. Entre eles, estavam Joana Simeão, Dr. Júlio Razão, Paulo Mondlane, Paulo Gumane, Mateus Gwengere, fomos, mais tardem brancos e negros, levados para a cadeia penitenciária, onde começaram a afluir, em Dezembro de 1974, vagas sucessivas de presos, maioritariamente brancos, sendo muitos deles antigos combatentes oriundos do recrutamento provincial, que haviam passado à disponibilidade, como eu, muito recentemente. Já não havia sequer interrogatórios: aquilo era “um depósito de reaccionários”. Escusado será dizer que o ambiente entre os presos, brancos e negros, era de sã camaradagem e que gozávamos da camaradagem dos soldados portugueses que nos guardavam conjuntamente com o destacamento armado da Frelimo.
O comandante da penitenciária era um capitão de cavalaria que manteve um comportamento correcto connosco, dadas as circunstâncias. Hoje é coronel na reserva e também teve atritos com os turbulentos guerrilheiros da FRELIMO, pelo que regressou à Metrópole farto dos tiranetes do MFA, entre os quais o capitão Camilo, e os “libertadores” de Samora Machel.
Fome e “trabalhos agrícolas”
Foi então que foram entregues à Frelimo e levados para os famigerados “campos de reeducação”?Sim, cerca de três meses antes da independência de Moçambique. Um dia, de madrugada, apareceu na penitenciária o recém-nomeado inspector da PJ Jorge Costa, antigo estudante contestatário de Coimbra, também ele desertor, à civil e com una pistola-metralhadora a tiracolo que, escoltado por guerrilheiros, nos veio buscar a mim, ao capitão miliciano na disponibilidade Rui Leal Marques e mais cinco metropolitanos, escolhidos a dedo, bem como a um grupo de negros, cuja lista, disse-me ele durante a viagem, fora elaborada pelo capitão Camilo e pelo “camarada” Veloso. Levaram-nos para o aeroporto e daí seguimos viagem até Cabo Delgado num bimotor civil, com escala técnica no aeroporto da Beira. Em Porto Amélia, entregaram-nos ao comando local da FRELIMO e dali seguimos, em Land Rovers,…, passando por Macomia, Chai, Mocímboa da Praia (onde pernoitámos), Diaca, Nacatar, Sagal, Nangololo, até atingirmos finalmente Mueda. Mueda, onde já não havia tropa portuguesa, tinha-se tornado o epicentro da ocupação frelimista de Cabo Delgado. …
Reunidos guerrilheiros e elementos da população autóctone em número apreciável, fomos submetidos a um “julgamento popular”, pelos crimes supostamente cometidos. O comandante Mingas, que era então a autoridade máxima da Frelimo em Mueda, proferiu um longo discurso em Maconde, entrecortado por palavras de ordem. Não entendemos nada do que ele disse, mas não gostámos. Seguidamente, “perfilou-se” diante de nós um pelotão de fuzilamento. Mas a nossa hora ainda não tinha chegado. Tratava-se de uma encenação, imprópria para cardíacos.
Recolhemos à nossa prisão provisória, que era uma antiga caserna. No dia seguinte, aterrou na pista de Mueda um Nord/ Atlas da FAP, pilotado por oficiais portugueses, e os detidos negros (Joana Simeão e todos os outros), foram embarcados, contra sua vontade, para a Tanzânia. Alegavam a sua cidadania portuguesa e, embora o seu portuguesismo de fresca data pudesse ser oportunista. Seja como for, foram levados na Nachingwea e todos eles mortos.
Quanto a nós, os sete brancos e metropolitanos, fomos separados e enviados para “campos de reeducação” situados nas antigas bases Beira, Gungunhana, Central, etc. Longos meses depois, fomos reagrupados em Porto Amélia, onde um casal de médicos búlgaros, cooperantes em Cabo Delgado, mandaram-nos dar injecções, suponho que de vitaminas, para termos um aspecto menos depauperado, e deram-nos também bastante comida para recuperar algo do peso perdido.
Entretanto, na Metrópole tinha-se gerado um movimento para a nossa libertação, tendo até o Dr. Jaime Gama tido uma intervenção nesse sentido na Assembleia Constituinte. A derrota da extrema-esquerda militar em 25 de Novembro de 1975 tornou possível que o ministério dos Negócios Estrangeiros começasse finalmente a actuar e obtivesse, com a ida a Lourenço Marques de um alto funcionário, a nossa libertação.
Como era o dia-a-dia nesses campos?Fome. Sobretudo fome. E cerca de 14 horas diárias de “trabalhos agrícolas” que, na verdade, nada produziam dada a forma rudimentar como era praticada. Claro que não havia medicamentos nem qualquer tipo de assistência.
Maus tratos?Sobretudo à nossa dignidade. Mas quase nunca maus tratos físicos. Isto em relação aos brancos. Com os negros, as coisas já eram bastante diferentes.
No entanto, ficaste muito debilitado e vieste a ter problemas de saúde.
Já na Metrópole tive um forte ataque de paludismo e depois de ter feito análises, foi-me diagnosticado uma hepatite não-A e não-B, devida, sem dúvida, à quase inexistente assepsia nos tratamentos a que fomos submetidos em Cabo Delgado. Mais tarde, em 1994, submeti-me a uma biopsia hepática e foi então confirmada uma hepatite C, crónica, com a qual tenho vivido com a graça de Deus.
Passados estes quase trinta anos, como recordas o capitão Lopes Camilo?Tenho o privilégio de ser sócio da Liga dos Combatentes, com as quotas em dia, desde 1978. Se há sócios que não têm pejo em cumprimentar o major-general Lopes Camilo, considerando de somenos importância as provações que outros combatentes por culpa dele passaram em Moçambique, que lhes faça bom proveito. Quanto a mim não me deixo obnubilar pelo brilho da grã-cruz da Ordem da Liberdade que ele ostenta … no seu uniforme … Não sou obrigado a apertar-lhe a mão, assim como não tive possibilidade de lhe apertar o pescoço quando tão alegremente confraternizava com um desertor.
Mas, como diz o Poeta “a mim ninguém me cala”, que fique aqui registado para “memória futura” (como hoje parece ser moda) o meu depoimento sobre as façanhas do major-general Lopes Camilo em Moçambique nos longínquos anos da vergonha de 1974 e 1975. Decerto o alto-comissário e comandante-chefe de Moçambique que lhe terá outorgado generosamente um ou dois “louvorzinhos” por relevantes serviços ao Exército Português, que se foram agregar à sua já reluzente folha de serviços.
FUI ENTREGUE À FRELIMO
Como fora prometido, eis as declarações de Luís Fernandes, preso por militares portugueses e por eles entregues à Frelimo, quando Moçambique ainda era terra portuguesa. Uma página vergonhosa da nossa «descolonização exemplar» que a correcção política que ora se vive, a brandura consabida dos nossos costumes e alguns compadrios de circunstância tentam fazer esquecer. Luís Fernandes, licenciado em Ciências Sociais e Política Ultramarina, oficial miliciano com o curso de Acção Psicológica, ofereceu-se na Região Militar de Moçambique para os Grupos Especiais Pára-quedistas, onde, concluído o respectivo curso, combateu no mato, meses a fio, os terroristas da Frelimo, primeiro como alferes e depois graduado em capitão. Não aderiu ao MFA e mantém-se coerentemente fiel às suas ideias. Leccionou durante dez anos na Universidade Autónoma de Lisboa, onde foi regente das cadeiras de Introdução às Ciências Sociais, e Ciência Política. Presentemente prepara uma tese de mestrado. Foi um dos fundadores da Associação dos Grupos Especiais e Grupos Especiais Pára-quedistas, de cuja mesa da assembleia-geral é vice-presidente. Continua fascista.
“Mantenho o que disse”
Porém, como se viu na carte que enviou a “O Diabo”, publicada na semana passada, o agora general Lopes Camilo, refuta todas as tuas acusações. Ele invoca, até, uma carreira prestigiante e sem mácula.
Que o senhor major-general Lopes Camilo, no decorrer da sua longa carreira militar, possa ter feito coisas muito meritórias, não o questiono. Nem lhe contesto o valor daquilo que, digno de louvor, eventualmente tenha feito até se envolver na conspiração dos capitães, durante a qual, segundo o então capitão José C. Pais, acompanhou esse oficial, hoje coronel, e outros dois camaradas, os então capitães Lobato Faria e Mariz Fernandes, entregar na Presidência do Conselho o texto aprovado na assembleia de Évora de 9 de Setembro de 1973. Nessa altura, ele, capitão Lopes Camilo aguardou corajosamente num carro, com os então, capitão Vasco Lourenço e tenente Marques Júnior, que os outros fossem eventualmente presos.
O que está aqui em causa, e me interessa salientar, reporta-se exclusivamente ao comportamento que teve em Moçambique nesse conturbado período de 1974/75.
Dou testemunho da verdade, nua e crua, sem o menor manto diáfano de fantasia. E não há nada mais brutal do que um facto. Aconteceu. É assim, sem tirar nem pôr. Só mentindo com quantos dentes tem, poderá o senhor major-general Lopes Camilo negar a evidência.
Terá sido um caso de dupla personalidade? Um remake do Dr. Jekill and Hyde? O brioso oficial, em noites de luar, transformar-se-ia em lobisomem? Mistério…
É realmente inacreditável que alguém com o perfil de militar impoluto, apresentado pelo próprio na sua carta de 17 de Outubro de 2003, nascido numa boa família, educado, ao que parece, no culto da honra e do dever militar, temente a Deus e devotado à Pátria, possa ter assumido comportamentos e atitudes em tão flagrante contradição com os mesmos princípios e valores que a Família e a Escola lhe haviam, aparentemente, incutido.
Foi apanhado pela voragem tresloucada do PREC em África? Ultrapassado pelos acontecimentos? Ou responsável consciente e determinado da tragédia que foi a “exemplar descolonização”, com o arrastar da bandeira das quinas na lama, pelas ruas da amargura?
Passando por cima das suas declarações acerca da sua carreira militar, como analisas o pouco que diz realmente relacionado com os acontecimentos de 1974, em Lourenço Marques?
O que é que o senhor major-general entende por “nunca ter pertencido a qualquer estrutura organizativa do movimento das forças armadas”? Valha-me Deus! Eu nunca disse que ele tivesse pertencido ao Conselho dos Vinte ou ao Conselho da Revolução. Mas havia outras estruturas menos conhecidas, mais informais, a nível local, que assumiam uma importância bem superior às “inseridas na cadeia hierárquica e funcional existente”.
Era público e notório, em Lourenço Marques, que o então capitão Camilo era, de facto, uma figura proeminente do MFA local e um esteio fundamental da diabólica “aliança MFA/Frelimo”, fizesse ou não parte oficialmente da Comissão Militar Mista. Conheço por aí muita gente que afirma o mesmo.
Oficiais superiores do Exército Português houve que foram vistos “a tiritar de coragem” face aos bravos rapazes do MFA, cujo poder paralelo ao da hierarquia formal constituía esse Novíssimo Príncipe, denunciado pelo Prof. Adriano Moreira; uma estrutura de carácter revolucionário, omnipresente e omnipotente, que controlava tudo e todos. Quem – só para ser desautorizado, desobedecido, saneado ou até preso – corria o risco de desafiar a autoridade dos “homens sem sono” que, de facto, mandavam, sem se preocuparem com as opiniões, as sensibilidades, ou os pruridos das altas patentes do velho Exército?
Que o senhor major-general Lopes Camilo tenha bem presente que à sua volta, em Lourenço Marques, havia muitos militares que observavam e não compartilhavam das suas ideias, muita gente que não sentia nenhuma afinidade com o MFA e muito menos com a Frelimo…
Havia de facto bastantes oficiais que se sentiam incomodados, e até chocados, com as manifestações de amizade e confraternização ao “seu camarada” Jacinto Veloso que, para todos os efeitos, não passa de um desertor das Forças Armadas Portuguesas, um tenente piloto aviador (PQP) da Força Aérea Portuguesa que havia desertado, aterrando com um bombardeiro T-6 na Tanzânia onde fora recebido com braços abertos “pelos seus camaradas da Frelimo”. (Será que também teve direito a alguma comendazita da Ordem da Liberdade, por exemplo). Em suma, um traidor que tinha passado ao Inimigo e se tornara deste modo cúmplice, senão autor directo, da morte de muitos dos nossos soldados.
O senhor major-coronel Lopes Camilo terá de entender que a maioria dos militares portugueses, dos antigos e dos actuais, não compartilham da opinião do meu amigo (sem ironia) major (sem general…) Mário Tomé, quando este defendeu num artigo inserido no Público de 18 de Agosto de 2003 que “houve milhares de desertores do Exército Português, dignos do maior respeito, porque não aceitaram lutar contra a liberdade no exército colonial ao serviço de um estado colonialista e fascista.”
Manténs, portanto, todas as tuas acusações? Que esperas conseguir?
Mantenho o que disse, com toda a minha veemência, até aos finais dos meus dias. Esperar, espero muito pouco. Que o general Lopes Camilo abandone a Direcção da Liga dos Combatentes. A sua permanência na Direcção é um insulto para todos os que se bateram por um Portugal que ele ajudou a destruir.
(Com a devida autorização do Blog Xiconhoca)