segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Eleições americanas começam com país polarizado

Raramente o início de uma campanha eleitoral foi tão tensa. E poucas vezes os EUA estiveram tão divididos. Bernie Sanders, de um lado, e Donald Trump, do outro lado, são os rostos destes extremos nas primárias de Iowa.
Pré-candidato republicano à Casa Branca Donald Trump
Nos Estados Unidos, quase ninguém sabe direito como é realizado um caucus, qual é a diferença entre as primárias dos republicanos e dos democratas. Mas todo americano sabe: são as primárias em Iowa, nesta segunda-feira (01/02), e New Hampshire, marcadas para 9 de fevereiro, que definem o futuro daqueles que lutam para se tornarem candidatos presidenciais de seus respectivos partidos.
Para alguém que não cresceu com este sistema, é difícil entender por que exatamente Iowa desempenha tal importância mundial – logo este pequeno estado, onde vive apenas 1% da população total dos Estados Unidos, onde há quatro vezes mais porcos que pessoas e onde uma em cada cinco espigas de milho americanas é cultivada. Nele, começa a batalha oficial para a nomeação dos candidatos presidenciais.
Pequenas primárias com grande importância
O significado do papel representado por essas primeiras primárias é uma questão quase filosófica. Será que elas são tão importantes porque tantas vezes anteciparam a tendência geral das batalhas de pré-candidatura? Ou será que são tão importantes porque as decisões das pessoas que participam são tidas como tão importantes que, por conseguinte, determinam a tendência dos próximos meses?
Para os principais candidatos, uma coisa é clara: nesta bizarra corrida presidencial de 2016, aqueles que não pontuarem desde o início dificilmente conseguirão se recuperar mais tarde. Mesmo para um dos favoritos, não ganhar em nenhum dos dois estados pode significar o fim da candidatura.
Nestas primárias, os candidatos devem mostrar que também são realmente elegíveis, que não só são capazes de recolher milhões de dólares e atrair apoios de peso – mas também de ganhar os votos dos eleitores. Têm que mostrar poder não só ganhar pesquisas, mas também as pessoas. Eles têm que mostrar neste grande teatro da mídia que são realmente capazes de cumprir as expectativas que despertaram.
O show de Trump não agrada a todos
Estas expectativas são um pouco diferentes, naturalmente, dependendo do candidato, a começar por Donald Trump. Há mais de meio ano, ele domina a atenção midiática sobre os republicanos. Mesmo com todas as críticas dos comentaristas e apesar de suas apresentações perturbadoras, ele domina as manchetes.
As pesquisas apontam que as pessoas o amam porque ele tem sido capaz de se posicionar como um candidato alternativo independente, como alguém que não é corruptível, no qual as pessoas querem acreditar e, acima de tudo, é um homem que sabe ganhar.
Hillary Clinton e Bernie Sanders: antes tido como azarão, pré-candidato pode largar na frente da favorita dos democratas
E exatamente isso pode ser a ruína de Trump em Iowa, que é um estado pequeno, muito branco e muito religioso. A maioria da população é de agricultores que creem em Deus e não tanto em piadas grosseiras e presunçosas. É bem possível que eles não gostem muito do show de Trump. E que mesmo Sarah Palin, que o multimilionário nova-iorquino tirou da cartola para ajudá-lo a atrair a classe trabalhadora religiosa, não consiga ajudá-lo na tarefa.
E o que pode acontecer? O que faz alguém que aposta na sua fama de vencedor quando perde? Ele desiste? É bem possível. Seus adversários internos do partido também vão saber explorar isso. Os republicanos tradicionais o odeiam tanto que até mesmo o bilionário e ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg cogita publicamente uma possível candidatura, caso Donald Trump ganhe a nomeação dos republicanos, e Bernie Sanders, a dos democratas.
Os democratas
Sanders é a provocação do outro lado do espectro. Algumas semanas atrás, parecia inconcebível que este desconhecido, autodenominado socialista, pudesse realmente ter uma chance séria contra o Império Clinton, agora com Hillary à frente. Caso as sondagens estejam corretas, parece exatamente isso o que está acontecendo.
O que uma vitória de Sanders em Iowa, numa repetição do que ocorreu com Barack Obama em 2008, significaria para Hillary? O vencedor recebe toda a atenção e a cobertura midiática positiva, enquanto ao perdedor resta a grande questão: será que ele é alguém que tem mesmo capacidade de convencer os eleitores americanos?
Estas dúvidas são um veneno para os doadores da campanha, para os seguidores e, sobretudo, para os indecisos. A história está repleta de exemplos de pessoas que sacrificam suas convicções para estarem do lado do vencedor.
Raramente o início de uma campanha eleitoral foi tão tensa e emocionante. E nunca os Estados Unidos modernos estiveram tão divididos. Bernie Sanders, de um lado, e Donald Trump, do outro lado, são os rostos destes extremos.

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Quem luta contra quem na guerra da Síria?

Desde 2011 uma sangrenta guerra civil toma conta da Síria. Está programada a participação de diversos partidos em conflito nas negociações de paz em Genebra. Quem são eles e quais suas posições?

Soldado do Exército nacional ostenta retrato de Assad no uniforme
Bashar al-Assad e aliados
Em 2011, dezenas de milhares de sírios foram às ruas protestar contra o governo de Bashar al-Assad. O presidente reagiu com violência extrema, mandando atirar nos manifestantes, mobilizando, assim, as Forças Armadas nacionais contra a própria população. Durante um bom período os protestos permaneceram pacíficos, até uma parte dos ativistas se armar e formar milícias.
À medida que o conflito escalava, muitos soldados desertaram ou se uniram aos grupos rebeldes. Em 2009, as forças sírias contavam cerca de 325 mil homens; em 2013 o contingente estava reduzido à metade. Atualmente o governo Assad depende de apoio externo, embora seja o único dos protagonistas do conflito a dispor de uma Força Aérea.
Irã apoia o regime Assad desde o início dos levantes, em 2011. O país vizinho envia milhares de homens para os combates, sobretudo brigadas revolucionárias e mercenários. O enviado especial das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, calcula que Teerã invista 6 bilhões de dólares por ano no auxílio militar a Assad. Outros especialistas estimam um total de até 20 bilhões de dólares por ano.
Hisbolá, a milita xiita do Líbano com laços estreitos e financiamento a partir do Irã, também combate ao lado de Assad, como segundo maior grupo pró-Damasco.
Rússia é outro aliado importante do regime sírio. Desde o fim de 2015, o país realiza ataques aéreos na Síria – oficialmente, contra a organização jihadista "Estado Islâmico". Entretanto observadores criticam os russos por também bombardearem territórios controlados pelos rebeldes do Exército Livre da Síria, causando mortes frequentes de civis.
Participação nas negociações de paz: 
O governo de Bashar al-Assad subordina a decisão final sobre sua presença nas negociações em Genebra à lista dos grupos de oposição participantes.
Combatente do Exército Livre da Síria
Adversários de Assad
Exército Livre da Síria se compôs originalmente a partir dos grupos oposicionistas democráticos, com o fim de proteger a população. Não se trata de um exército propriamente dito e não há uma liderança central. Seus grupos controlam amplas regiões, no noroeste e no sul do país, cujos habitantes tentam constituir uma sociedade civil, apesar das bombas de barril que o regime Assad lança diariamente contra áreas residenciais e a infraestrutura local.
Como o Exército Livre conta com quase nenhum apoio internacional, muitos de seus homens desertaram. Em contrapartida, o número dos patrocinadores fundamentalistas islâmicos é grande, por isso muitos combatentes passaram para o lado dos grupos islamistas, parte dos quais luta agora contra o regime.
Jaish Al-Fatah (Exército de Conquista) conta entre as alianças de maior porte. Trata-se de uma associação de grupos moderados e extremistas, entre os quais a radical Frente Al Nusra, braço sírio da Al Qaeda, e a milícia islamista mais moderada Ahrar Al Sham. Em vários desses grupos lutam há anos também jihadistas da Jordânia, Argélia, Afeganistão, Tchetchênia e outros países.
Participação nas negociações de paz: 
É grande a insegurança quanto a quais opositores de Damasco tomarão parte das negociações de paz. Enquanto a Arábia Saudita deseja que também sejam ouvidas as milícias radicais como o Ahrar Al Sham, Moscou insiste na presença dos grupos mais moderados, tolerados por Damasco.
Jihadistas do "Estado Islâmico" querem fundar califado na região
"Estado Islâmico" (EI)
A organização terrorista "Estado Islâmico" (EI) formou-se em seguida à retirada militar dos Estados Unidos do Iraque. Após o início das revoltas populares na Síria, o EI aproveitou-se do caos da guerra civil para ocupar vastas regiões do país. Os jihadistas controlam territórios importantes, sobretudo nas cercanias da cidade de Rakka, no nordeste sírio. Sua meta é a instituição de um califado.
O EI se financia, em grande parte, através da venda de petróleo, também à Turquia, entre outros países. Contudo as ofensivas aéreas das Forças Armadas russas e da aliança militar liderada pelos EUA destruíram numerosos campos de extração e vias para transporte do combustível, colocando os terroristas sob pressão financeira.
Participação nas negociações de paz: 
Todos os partidos com presença prevista nas conversas em Genebra descartam a participação do EI.
YPG curdas: valorizadas pelos Ocidente, demonizadas por Ancara
Unidades Curdas de Defesa Popular
Também as tropas curdas são protagonistas importantes na Síria, com papel vital no combate ao EI. Às Unidades de Defesa Popular (YPG, em idioma curdo) pertencem cerca de 50 mil combatentes de ambos os sexos. Ela é o braço armado do principal grupo curdo da Síria, o PYD, por sua vez ramo sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Sediado na Turquia, este é classificado pelos Estados Unidos e a União Europeia como organização terrorista.
As YPG colaboram, em parte, com o regime sírio, mas também com os adversários deste. Recentemente, porém, elas entraram em choque com grupos rebeldes na cidade de Aleppo, no norte da Síria.
Participação nas negociações de paz: 
Ancara rejeita a participação das milícias curdas, enquanto o Ocidente as considera um aliado importante na luta contra os jihadistas do EI.
Aliança militar liderada pelos EUA
Sob a liderança dos Estados Unidos, desde 2014 uma coligação internacional realiza ofensivas aéreas contra o EI. À aliança pertence um total de 60 nações, entre as quais a Alemanha, Arábia Saudita, França, Reino Unido e Turquia. Nem todas participam dos ataques aéreos, contudo: a Alemanha, por exemplo, só assumiu operações de reconhecimento aéreo, além de ajudar no treinamento de combatentes curdos no Iraque.

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Filipe Nyusi acusa Renamo de falta de liderança

Escrito por Emildo Sambo  em 01 Fevereiro 2016
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O clima de cortar à faca alastra-se pelo país por conta do agravamento da tensão político-militar. A estratégia do Governo, de desacreditação e diabolização do partido Renamo para justificar o seu fracasso nos esforços de busca da paz, pode cair em saco roto, porque ao contrário do que o regime e a sua Polícia veiculam, as vítimas dos ataques supostamente perpetrados pelo maior partido da oposição asseguram que as Forças de Defesa e Segurança (FDS) cometem desmandos e são responsáveis pela fuga de milhares de moçambicanos para o Malawi. Por sua vez, o Presidente da República, Filipe Nyusi, alega que há crise de liderança na “Perdiz”.
Em Addis-Abeba, capital da Etiópia, Filipe Nyusi, voltou a reconhecer que “sem a paz não há desenvolvimento” em Moçambique, mas não soube explicar o que é necessário para o fim da crise política que se arrasta há anos.
Em relação ao diálogo político entre o Governo e a Renamo, suspenso desde Agosto do ano passado por falta de consenso nos temas discutidos, ele disse que o seu Executivo não quer “inventar um diálogo forçado”, pelo que não indicou quando é que as partes voltarão a sentar à mesma mesa para ultrapassar os diferendos que lhes colocam de costas voltadas.
No que tange à pretensão da Renamo de governar as províncias onde reclama vitória nas últimas eleições gerais – Nampula, Niassa, Manica, Sofala, Tete e Zambézia – a partir de Março próximo, o Chefe de Estado mostrou-se contra, a par do que os seus correligionários têm vindo a defender desde que Afonso Dhlakama manifestou tal intenção.
“No dia em que eu disser que a Renamo vai governar as seis províncias alguém vai dizer que isso não é democracia”, disse Nyusi a jornalista em Addis-Abeba e acusou a “Perdiz” de falta de liderança, o que na sua opinião dificulta que se trave conversações conducentes à paz e estabilidade no país.
“O que se passa é que há falta um interlocutor base” na Renamo e “o problema” neste partido é o “de crise de liderança. Não se percebe no partido quem segue a quem. Não há hierarquia”, pese embora se saiba que o líder é Afonso Dhlakama, disse Nyusi.
Enquanto isso, no posto administrativo de Mapadza, distrito de Maringué, em Sofala, homens armados alegadamente pertencentes ao partido Renamo raptaram, na madrugada de sexta-feira (29), o chefe de uma povoação e antigo combatente no regulado de Nhamucoloo, identificado pelo nome de Lencastre Diquissone.
A Polícia naquela parcela do país disse que os guerrilheiros em causa, em número de cinco, depois de arrancar alguns bens e dinheiro, lembraram-se, a meio do trajecto, de que deviam regressar à casa da vítima para buscar os seus filhos, os quais escaparam porque não se encontravam no local. As FDS estão a para investigar o crime, que é o quarto de género em um mês. Os anteriores três sequestros aconteceram nos distritos de Nhamatanda e Gorongosa.
Um agente policial afecto aos serviços florestais no distrito de Mopeia, província da Zambézia, assistido no Hospital Provincial de Quelimane, alegou ter sido baleado por homens armados da Renamo, que o surpreenderam, na madrugada de quinta-feira (28), na companhia de oito colegas, quando trabalhavam no Posto Policial de Zero.
Contudo, Lusa Fátima Niquise, mãe de nove filhos, que a 8 de Janeiro chegou ao centro de refugiados de Kapise, no Malawi (onde há mais de dois mil moçambicanos), contou à Lusa ter visto blindados das Forças Armadas entrarem em Ndande, distrito de Moatize, em Tete, “para perseguir a população e a Renamo. Não há condições para voltar sem haver paz”.
As atrocidades protagonizadas pelas forças do regime, sobre as quais o ministro do Interior, Jaime Monteiro, e Filipe Nyusi mantêm um silêncio sepulcral, não são, afinal, recentes em Ndande. A agricultora de 45 anos disse àquela agência ter escapado por quatro vezes das perseguições das FDS.
Ainda na semana finda, presumíveis homens armados da “Perdiz” atacaram um posto policial e feriram um agente dos serviços florestais no distrito de Mopeia, na Zambézia.
Uma outra cidadã que se identificou por Magrace Joaquim, de 26 anos de idade, pai de cinco filhos, narrou, de acordo com a Lusa, que a sua sogra e duas cunhadas foram capturadas em Ndande pela Unidade de Intervenção Rápida quando se dirigiam à machamba para colher feijão e depois fugir da zona. “Foram torturadas, obrigadas a carregar madeira que os militares roubaram de moradores, e depois mantidas reféns numa escola que a FIR [leia-se UIR] tinha transformado em base".
A agricultora, frágil, novamente grávida e de lábios rasgados devido à fome, após ter percorrido 70 quilómetros a pé para chegar ao centro de refugiados de Kapise, afirmou que não há como voltar à casa enquanto UIR estiver na sua aldeia, pelo que apela ao Governo e à Renamo “para que se entendam e coordenem uma nova paz, porque é difícil voltar para casa sem paz".
Sobre estes cidadãos no Malawi, Nyusi mostrou-se reticentes em relação ao termo “refugiados”, pois segundo explicou a jornalistas, os habitantes de Tete entram naquele país com facilidade e o mesmo acontece com os malawianos.
Entretanto a presença dos refugiados no país viznho foi confirmada pelo Governo local e representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR), que estão a prestar apoio a esses moçambicanos.