quinta-feira, 2 de julho de 2026

As condições de inteligibilidade das nossas opiniões

 Elisio Macamo

1 d 
As condições de inteligibilidade das nossas opiniões
Sempre me intrigou uma reacção relativamente frequente aos meus comentários sobre política. Há quem suponha que, quando critico uma decisão, estou necessariamente a tomar partido por outra. Outros, como se demonstrou ontem, imaginam que procuro aproximar-me de quem governa para merecer um cargo público. Ultimamente até comecei a olhar para essa hipótese com alguma curiosidade antropológica. Gostava imenso de saber a quem devo criticar para chegar ao Banco Central com toda aquela mola ali...
A reacção não deixa de ser curiosa porque revela um entendimento do papel do intelectual público. Espera-se que ele confirme as convicções dum campo político ou ataque as do campo adversário. Se não faz uma coisa nem outra, suspeita-se imediatamente de intenções escondidas. É como se pensar em público fosse sempre uma forma sofisticada de fazer campanha. A verdade é que nunca entendi o meu papel dessa maneira. Também nunca me revi na expectativa, muitas vezes apresentada como ideal, de que o intelectual deva ser neutro. A palavra sempre me provocou algum desconforto, não necessariamente porque aspire à militância, mas porque nunca percebi como alguém poderia escolher os problemas sobre os quais intervém sem ser guiado por valores. Se escrevo sobre justiça, instituições, violência, pobreza, representação política ou desenvolvimento é porque considero que esses temas são importantes para a qualidade da nossa vida colectiva. Essa escolha já exprime valores.
Os valores ajudam-me a escolher os problemas. Não me autorizam a escolher as respostas antes de pensar. O trabalho intelectual começa aí. Não me interessa, em primeiro lugar, discutir directamente se uma opinião está certa ou errada. Antes dessa pergunta existe outra que considero mais importante. Eu quero saber sob que condições esta opinião se torna inteligível. Chamo condições de inteligibilidade ao conjunto de categorias, pressupostos, mecanismos explicativos, critérios de avaliação e valores que tornam uma determinada posição compreensível. Nenhuma opinião aparece do nada. Todas dependem duma certa maneira de organizar a realidade. Antes de decidir se concordo com alguém, procuro compreender o que torna possível aquilo que essa pessoa está a dizer.
Quando alguém afirma que “o FMI não quer o nosso desenvolvimento”, procuro perceber que ideia do FMI e do desenvolvimento torna essa frase inteligível. Quando alguém diz que “o golfe trará investimento”, procuro compreender que mecanismo liga uma modalidade desportiva ao crescimento económico. E quando alguém afirma que “este partido representa a mudança”, pergunto-me que concepção de partido político e de mudança torna essa afirmação plausível. Em todos estes casos, a minha primeira preocupação não é saber se concordo. É compreender a arquitectura conceitual que torna possível a conclusão.
É exactamente isso que tento fazer quando intervenho no espaço público. Há dias, por exemplo, escrevi que a convenção do Anamola revelava a ausência dum projecto político. Algumas pessoas entenderam a observação como uma crítica ao partido. Era, sim, ms esse não era o ponto central. A questão que me interessava era anterior, nomeadamente, o que entendemos, afinal, por um partido político? Basta reunir simpatizantes, eleger dirigentes e mobilizar entusiasmo? Ou um partido pressupõe também uma determinada leitura da sociedade, uma hierarquia de problemas, uma ideia de transformação e mecanismos capazes de ligar objectivos a acções? A minha observação não pretendia convencer ninguém de que o Anamola é bom ou mau. Pretendia apenas explicitar as condições de inteligibilidade da minha própria análise. Quem adoptar outra concepção de partido poderá chegar legitimamente a outra conclusão. O importante é que saiba porquê.
É este tipo de deslocação que procuro fazer. Não parto das conclusões para conclusões diferentes, mas das conclusões para as condições que as tornam possíveis. Por essa razão, não espero que os leitores concordem comigo, tanto mais que a concordância de alguns por vezes me cria calafrios e me obriga a rever o que escrevi. Espero outra coisa, muito mais modesta e, ao mesmo tempo, muito mais ambiciosa que é identificar os pressupostos que sustentam tanto as minhas opiniões como as suas. Se, depois desse exercício, continuarem exactamente da mesma opinião, não considero que o texto tenha fracassado. Uma discordância intelectualmente esclarecida parece-me infinitamente mais interessante do que um consenso construído sobre categorias nunca examinadas.
Gostaria, por isso, que também as lideranças políticas lessem os meus textos nesta perspectiva. Não são avaliações da sua inteligência, da sua legitimidade ou mesmo da sua boa-fé, mas, sim, convites para tornar mais explícita a arquitectura conceitual das decisões que tomam. Explicar não enfraquece a autoridade. Torna-a mais robusta, porque permite que os cidadãos compreendam a lógica das escolhas públicas e discutam essa lógica, ao invés de apenas as suas consequências. Aqui as lideranças precisam de bons assessores que, no meu entendimento, deviam ser pessoas com capacidade para entenderem as condições de inteligibilidade, pois é isso que os habilita a analisarem melhor políticas públicas. Infelizmente, o assessor entre nós, sobretudo o assessor político, é alguém treinado para identificar inimigos a abater.
E gostaria igualmente que o “cidadão comum” resistisse à tentação, tão comum entre nós, de perguntar imediatamente de que lado está quem escreve. Essa é, talvez, uma das perguntas menos interessantes que podemos fazer a um texto. Muito mais interessante é perguntar: que maneira de pensar está aqui a ser proposta? Que pressupostos exige? Que explicações oferece? E, sobretudo, continuo disposto a defender as minhas opiniões depois de compreender melhor as condições que as tornam inteligíveis?
Vou dar um exemplo. Durante as manifestações pós-eleitorais, condenei a violência policial. Na altura, exigi a demissão do ministro do interior e do comandante geral da polícia. Agora, também houve episódios de violência praticados por manifestantes ou por pessoas que actuavam em nome da causa com bloqueios de estradas, destruição de bens, intimidação de cidadãos e situações em que pessoas foram coagidas a entoar o hino nacional. Ao analisar isso, não pergunto necessariamente se estes actos enfraqueciam ou fortaleciam a luta política, mas sim que ideia de liderança política estamos dispostos a aceitar.
Se entendermos que um dirigente responde não apenas pelo que faz pessoalmente, mas também pelas consequências previsíveis da mobilização que promove, então torna-se legítimo esperar que reconheça o sofrimento causado por aqueles que actuaram em seu nome, ainda que não os tenha mandado agir dessa forma. Com isso não estaria a exigir que alguém abandonasse o apoio a Venâncio Mondlane. Estaria apenas a perguntar se esta concepção de responsabilidade política faz sentido. Se fizer, então a ausência dum pedido de desculpas seria um problema político. Se não fizer, importaria explicar porquê. É essa discussão sobre as condições de inteligibilidade da nossa avaliação que me interessa muito mais do que a conclusão a que cada um chega.
É, também, esta a função que atribuo à intelectualidade pública. Ela não consiste em fornecer respostas ao “cidadão comum”, mas a ajudá-lo a responder pela inteligência das respostas que já possui. Não escrevo para convencer os leitores das minhas conclusões, mas mais para lhes mostrar as categorias sem as quais as minhas conclusões não poderiam sequer ser formuladas. Por causa disso, as minhas conclusões são sempre provisórias. As categorias que as tornam possíveis são o verdadeiro objecto da minha reflexão e essas precisam de ser estáveis para servirem de base à reflexão crítica. Duvido que isso me desse um cargo por muito tempo, pois na política, dum modo geral, celebram-se conclusões.
Mas isto é a opinião dum “académico”...
Alcídes André de Amaral
Boa opinião... e necessária também!
Flávia Ferrão Pinto 
Um académico de grande Gabarito. 👏👏👏. Tenho lido as suas intervenções. Well done Friendships Elisio Macamo. Brevemente irei pedir aquele poema. 2a edição do projecto NOSSAS MADRINHAS, programa " Mulheres que Levantam Outras Mulheres" Parabéns pelo trabalho.

Sem comentários: