No século X, entre os grandes rios e savanas da costa oriental de África, existia o Reino de Nambure. Era uma terra fértil, rica em sal, marfim, ferro e cereais. Durante muitos anos, o reino prosperou porque os camponeses cultivavam, os ferreiros produziam ferramentas, os pescadores navegavam longas distâncias e os mercadores atravessavam desertos levando bens para terras distantes.
O velho rei Malunga acreditava numa regra simples: “Quem produz deve colher os frutos do seu esforço.” Por isso, os mercados funcionavam livremente. Em anos de seca, o preço do milho subia, incentivando aldeias distantes a trazerem mais produção para a capital. Em tempos de abundância, os preços caíam naturalmente. O povo reclamava às vezes, mas o reino crescia, os celeiros enchiam-se e os artesãos inovavam.
Quando Malunga morreu, subiu ao trono o seu filho, Rei Nacombe. Jovem e ambicioso, queria ser amado rapidamente pelo povo. Os conselheiros da corte disseram-lhe:
— Majestade, o povo sofre porque paga caro pelo sal, pelo milho e pelo carvão. Se declarar que esses bens devem ser gratuitos ou vendidos a preços muito baixos, todos o aclamarão.
O rei gostou da ideia. Parecia mais fácil conquistar popularidade distribuindo riqueza do que criando condições para produzi-la.
Assim, decretou que o milho teria um preço fixo muito baixo. Também ordenou que parte do peixe e do sal fossem distribuídos gratuitamente na capital. Quem cobrasse acima do preço estabelecido seria castigado.
Nos primeiros meses, a praça do reino encheu-se de celebrações. O povo gritava o nome do rei. Muitos acreditavam que finalmente tinham encontrado um governante “amigo dos pobres”.
Mas os problemas começaram silenciosamente.
Os agricultores perceberam que o preço do milho já não compensava o esforço de cultivar grandes campos. Alguns reduziram a produção. Outros esconderam parte das colheitas para vender secretamente em aldeias distantes onde conseguiam preços melhores. Os pescadores começaram a pescar menos, porque o combustível das embarcações e as redes continuavam caras, mas o peixe tinha agora preço imposto pela coroa.
Os comerciantes estrangeiros deixaram de trazer sal e tecidos ao reino, pois não conseguiam recuperar os custos das caravanas. Lentamente, os mercados foram ficando vazios.
Na capital, as filas aumentavam todos os dias. O povo acordava antes do nascer do sol para tentar conseguir os bens “gratuitos”. Os guardas do palácio passaram a decidir quem recebia primeiro. Os amigos dos chefes, soldados e nobres recebiam sempre antes dos restantes.
Logo surgiu um novo comércio escondido. O mesmo saco de milho que oficialmente custava poucas moedas era vendido secretamente por dez vezes mais. Os funcionários do reino desviavam produtos dos armazéns públicos e enriqueciam rapidamente.
O rei, irritado com a escassez, respondeu criando mais decretos. Proibiu viagens de comerciantes sem autorização. Mandou prender camponeses acusados de “ganância”. Confiscou celeiros privados.
O efeito foi ainda pior.
Muitos agricultores abandonaram as terras e passaram apenas a produzir para subsistência. Os jovens deixaram de aprender ofícios porque perceberam que esforço e mérito já não garantiam recompensa. A produção de ferro caiu. As estradas comerciais ficaram vazias. O reino, antes rico, começou a depender de ajuda de reinos vizinhos.
Mas a maior mudança aconteceu na desigualdade.
Enquanto o povo comum passava fome nas filas, os nobres ligados ao palácio tinham acesso ilimitado aos armazéns reais. Os chefes militares recebiam produtos gratuitamente e revendiam-nos clandestinamente. Os mais próximos do poder tornaram-se ricos precisamente num sistema criado supostamente para ajudar os pobres.
Certa noite, um velho mercador chamado Tembo pediu audiência ao rei. Já tinha viajado por muitos reinos e conhecia os ciclos da prosperidade e da decadência.
Disse-lhe:
— Majestade, quando o preço deixa de mostrar o verdadeiro valor das coisas, o reino perde a capacidade de organizar o trabalho. Quando todos querem consumir mas poucos querem produzir, nasce a escassez. E quando a escassez aparece, o poder decide quem recebe e quem fica sem nada. É aí que a desigualdade cresce.
O rei respondeu:
— Mas eu apenas quis ajudar os pobres.
Tembo inclinou a cabeça e respondeu:
— A pobreza não desaparece quando os bens são declarados gratuitos. A pobreza desaparece quando o reino produz mais, trabalha melhor, transporta com eficiência e recompensa quem cria riqueza. Um reino não enriquece distribuindo escassez. Enriquece aumentando abundância.
Nacombe demorou muitos anos para compreender aquilo. Quando finalmente revogou os decretos e voltou a permitir que os mercados funcionassem, o Reino de Nambure já tinha perdido artesãos, comerciantes e colheitas. Recuperar a prosperidade levou quase uma geração inteira.
E os anciãos passaram a contar esta história às crianças do reino:
“Quando um governante tenta derrotar a realidade por decreto, a realidade vence sempre. E o preço dessa ilusão é pago primeiro pelos pobres.”
Qualquer semelhança com alguma realidade é mesmo coisa das nossas cabeças.
Zacarias Nwangue
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