quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Um Governo “às direitas”

 António Moita

No momento em que escrevo estas linhas ainda não é conhecida a decisão do Presidente da República sobre a indigitação de António Costa como primeiro-ministro.
Estou convencido, tal como a esmagadora maioria dos analistas, que Cavaco Silva irá fazê-lo ainda que a contragosto. Isto, evidentemente, se não estiver a pensar em marcar com cores garridas o seu lugar na história.

Muito se tem dito e escrito nestas últimas semanas sobre a estratégia seguida por António Costa, obrigatoriamente acompanhada pelo Partido Socialista, tendente à formação de um Governo que corresponda às exigências explícitas e implícitas colocadas por Belém.

Não tem sido fácil. Os três “acordos” são apenas breves e tímidas declarações de intenções muito menos do que os esperados e solicitados alinhamentos programáticos sólidos para quatro anos. A cada entrevista do putativo novo ministro das Finanças Centeno sucede-se uma declaração de Catarina Martins ou de Jerónimo Sousa a explicar que não será bem assim. Cada vez que cai uma bandeira do “novo Governo” como foi o caso da TAP os partidos mais à esquerda insurgem-se mas o PS apenas reclama sem grande convicção.

O que já se conhece da formação do Governo PS – ainda que António Costa não tenha sido ainda indigitado – aponta para uma enorme prudência e falta de vontade de correr riscos nas áreas fundamentais como são as das finanças, da economia ou da saúde (para referir apenas as que parecem já ter titular). 

E se a isto acrescentarmos a leitura atenta do Programa de Governo já divulgado – ainda que repito António Costa não tenha sido sequer convidado a apresentar uma equipa – não encontramos medidas de rutura com o passado recente embora, aqui ou ali, os títulos de cada capítulo nos levem a crer o contrário.

Seja pela obrigação que resulta dos compromissos internacionais de Portugal, seja pela impossibilidade que decorre da fragilidade das nossas contas públicas, o PS não tem outro caminho senão o de governar propondo e aplicando medidas que facilmente seriam executadas pelo governo da Coligação. E esta não vai conseguir manter por muito tempo uma lógica de oposição negativa em que se oporá a tudo o que vier do governo de esquerda mesmo que sejam medidas que constassem do seu programa eleitoral. 

Ao invés, o discurso político – que se espera não venha a ter consequências financeiras gravosas – continuará a ser dirigido à esquerda criando nesta a ilusão de que efetivamente governa. 

Claro que esta estratégia não vai durar para sempre. Mas António Costa sabe que se este plano correr bem e caso venha a durar algum tempo, conseguirá readquirir a confiança de muitos eleitores do centro e garantir que a matriz fundamental do PS nestes 40 anos não mudará substancialmente. E tudo isto ao mesmo tempo que mantém os partidos da esquerda amarrados a “acordos” que lhe permitem não mexer no essencial e desgastar uma Coligação que com o passar do tempo e com o esvaziamento do “discurso do caos” começará a abrir brechas e a permitir que se instale um clima de guerrilha interna e de contestação da liderança.

Em suma, António Costa poderá paradoxalmente vir a ser bem sucedido se conseguir apresentar e manter um “governo às direitas”. 

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