sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Papo Furado: Moçambique está em guerra


PAPO FURADO

Está a ser desenvolvida uma tese que defende que Moçambique não está em guerra. Ela diz que actualmente estamos a viver uma situação de instabilidade social, resultante da falta de cultura democrática da Renamo, do seu líder e dos seus apoiantes. De acordo com esta tese, se estivermos em guerra o Estado (Chefe de Estado) irá declarar a situação ao seu povo e a comunidade internacional. PAPO FURADO! Não conheço o alcance desta tese, mas eu não concordo com ela. Eu e outros, talvez, 99,99% de moçambicanos. Soa a truque de avestruz.
Nós nunca confundiríamos uma instabilidade social com guerra. a experiencia nos ensinou a distinguirmos uma coisa da outra. A instabilidade social existe há mais de 20 anos: corrupção, nepotismo, engomadores, acidentes de viação, HIV, malária, sequestros, cheias, secas, EMATUM, intolerância política/social/racial/regional/etnica, promossas falsas, subida do pão/açucar/arroz/dólar, desemprego, etecetera. E isso não é provocado pela Renamo, pelo seu líder e pelos seus apoiantes. E nunca chamamos isso de guerra.
O que está a acontecer agora é guerra, SIM! Mesmo que o Governo/Estado NÃO reconheça, mas isso é uma guerra. E seria guerra em qualquer parte do mundo. A declaração do estado de guerra pelo Governo/Estado é apenas um reconhecimento da situação usando seus critérios. Ou seja, para que o Governo/Estado reconheça é preciso que se esteja em guera primeiro. Isto é, a guerra não começa no dia em que ela é reconhecida... para ser reconhecida é preciso que ela exista antes. Exemplo: Nós não ficamos doentes a partir do momento que o médico nos diz. O que o médico nos diz é apenas a confirmação do nosso estado de saúde. Ou seja, temos que estar doentes primeiro para o médico confirmar, usando os seus critérios e conhecimentos.
A guerra é um facto... é uma realidade. E contra isso não há argumentos. Sem entrar em filosofias desnecessárias diria que uma coisa é o facto (a realidade) e outra, bem diferente, é a sua veracidade.
Dizer que não estamos em guerra é simplesmente um papo furado... e seus propagadores são furadores de papo.


Supostas discussões semânticas
Em Moçambique há guerra, dizem alguns. Não, não há guerra, dizem outros. Há guerra, pois! Como é que você explica os milhares de refugiados no Malawi? Como é que você explica as colunas militares? Não, isso não é guerra. Isso é terrorismo promovido por esses falsos combatentes pela democracia. Falsos combatentes pela democracia? Se não fosse a Renamo você estaria ainda sujeito à arbitrariedade desses comunistas da Frelimo! Você não teria liberdade de circulação, não podia praticar nenhuma religião, estaria aí a fazer trabalho voluntário obrigatório. E depois? Melhor isso do que ser instrumentalizado pelo regime do Apartheid para matar, mutilar e destruir. O quê? Foi o exército desses comunistas da Frelimo que andou a matar e atribuiu isso à Renamo. A Renamo combateu pela democracia. Ah sim, e porque é que tem o mesmo líder há milhares de anos? Porque não faz congresso, não elege os seus órgãos? Que democracia é essa? Há democracia interna na Renamo, há sim senhor! Se a Frelimo não abocanhasse todos os recursos do Estado sobraria algum para viabilizar os outros partidos. Esse é que é o problema, é por isso que exigimos a paridade. Partidos? Em Moçambique só existe um partido, o glorioso. Os outros são grupos de esfomeados que só querem pão. Ai é, e os lambe-botas da Frelimo querem o quê? Esses que furaram os cofres do Estado para montar a EMATUM são o quê? Patriotas? São patriotas sim, eles não venderam a sua alma a interesses externos. Toda esta história de fraude, não-fraude é artimanha para meter a mão nos recursos. Mas você está a dizer o quê? Quem é que explora este país com a ajuda dos estrangeiros? Não é a vossa Frelixo? G-quarentismo só. Você pensa que esses aí em cima vão comer consigo? E você pensa que o Ríder vai comer consigo todo aquele dinheiro que ele recebe do erário público? Público? Esse é nosso dinheiro, nós pagamos impostos. O Estado não é do Nyusi e sua Frelixo! Mas então porque é que vocês destroem o país se pagam impostos e tudo isto é vosso? Quem é que destrói? Nós não! São vocês, vocês é que estão a destruir este país, é por vossa culpa que o povo não tem emprego, habitação nem alimentação. Mas como é que o povo pode ter essas coisas se vos falta patriotismo? Vocês é que não têm patriotismo, nós queremos o bem-estar do povo. Nós também. Vocês também uma ova. Mostrem-nos lá que querem o bem-estar do povo! O que é já que fizeram por este país fora da destruição? Vai passear longe, você, você pensa que só ter título académico é suficiente para ter razão? Ter razão, quem disse isso? Eu? E o que é que títulos académicos têm a ver com isto? Isso é inveja. Inveja? Você é que está com inveja, você não sabe nada, seu burro. O povo quer a paz, só! Então dá ao povo a paz que ele quer, não custa nada. Ah, afinal estamos em guerra? Não foi você que disse que não estamos em guerra? Eu? Banditismo é guerra? Banditismo é roubar o dinheiro do povo. Porque é que uma ponte mil vezes mais longa do que a da Catembe custa quinhentas vezes menos para construir? Fizeram o quê com esse dinheiro? Foram comprar armas para matar o povo? Vão usar essas armas no Sul para matar aqueles que vos apoiam em 98% e não deixam a oposição fazer o seu trabalho? Porque é que está a misturar assuntos? Que culpa tenho eu da falta de organização no vosso partido? Ah, agora já somos partido? Claro que não. É uma maneira de falar. Vai passear longe, você. O que é que eu digo a minha avô quando me perguntar porque não pode circular à vontade pelo país? Como é que não posso dizer que há guerra? Terrorismo, esse homem da parte incerta é caso para o TPI. Guebuza também! Suca, você!
Retiro tudo o que disse: há uma alegada guerra num país incerto chamado Moçambique. Uma alegada guerra supostamente contra a razão.
Os antídotos para o país sair da guerra, segundo Manuel de Araújo
Repensar no AGP e pensar na descentralização
Manuel de Araújo, académico e presidente do município de Quelimane, entende que para se sair do actual cenário de “quase guerra” em que

o país se encontra actualmente mergulhado, urgentemente se deve repensar nas linhas que cozem o Acordo Geral de Paz (AGP), assinado entre o governo e a Renamo, em 1992. Além disso, entende Araújo, o país precisa, igualmente, de pensar seriamente na governação descentralizada,
mais ou menos à luz da proposta legislativa que tinha sido apresentada
pela Renamo, na Assembleia da República, entretanto, liminarmente
reprovada pela bancada da Frelimo.
Para Araújo, a descentralização é um condimento importante na satisfação das actuais necessidades dos moçambicanos, pois, é um método que vai assegurar o que considera “devolver o poder ao povo”.
Manuel Araújo deixou estas notas quando, esta quarta-feira, falava na qualidade de orador, no encontro de reflexão em torno da actual situação política, caracterizada por um cenário de confrontações armadas e fuga de populações para países vizinhos.
Araújo diz que ao se pensar em soluções para se sair da actual crise, é preciso encontrar uma nova forma de convivência política, que se iguala ao sistema que sustentou o Estado nos primeiros 12 anos de paz,
assim como recuperar os fundamentos que fizeram o país alcançar a paz.
“O país precisa de recuperar o pacto político alcançado à luz dos Acordos Gerais de Paz assinados em 1992. Recuperando os compromissos daqueles acordos, poderemos assegurar que a boa governação, a democracia e a estabilidade política, a paz sejam consolidadas” – anotou Araújo, para depois completar: “É preciso manter a reconciliação e a inclusão dos actores políticos na esfera pública”.
Por outro lado, entende Araújo, o projecto das autarquias provinciais
é plenamente útil para o refreamento da actual tensão, no sentido de assegurar que as pessoas se sintam mais representadas ao nível das suas zonas habitacionais.
“O projecto sobre as autarquias provinciais, que também foi defendido
pelo Professor Óscar Monteiro, tem mais vantagens do que desvantagens
para o país. Aquele projecto deve ser visto como uma oportunidade
para a inclusão da elite local na gestão da coisa pública e do Estado” – apelou.
A actual situação de “quase guerra” pode, segundo Manuel de Araújo ser resolvida, caso as entidades com poder de facto, para buscar soluções mostrem interesse nesse sentido. Mas, ressalvou ele, tal desiderato precisa de sinais claros de inclusão para o usufruto do bem comum.

mediaFAX, 25.02.2015
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Comments
Cléo Morgan Mafu Nao é guerra? Se nao é pq muitos dos nossos compatriotas estao a refugiar-se para o país vizinho Malawi? Ja sei, nao refugiados, sao turistas. tsc. Por favor, senhores do governo nao nos passem certificados de burrice.
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Luciano Mapanga É preciso coragem para negar tamanha realidade. Só em Moçambique...
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Rafael Ricardo Nzucule "A declaração do estado de guerra pelo Governo/Estado é apenas um reconhecimento da situação usando seus critérios. Ou seja, para que o Governo/Estado reconheça é preciso que se esteja em guera primeiro. Isto é, a guerra não começa no dia em que ela éreconhecida... para ser reconhecida é preciso que ela exista antes. Exemplo: Nós não ficamos doentes a partir do momento que o médico nos diz. O que o médico nos diz é apenas a confirmação do nosso estado de saúde. Ou seja, temos que estar doentes primeiro para o médico confirmar, usando os seus critérios e conhecimentos." - Estamos em guerra e os que deviam reconhecer isso estão a enganar o povo e o mundo.
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Eduardo Matine Sim,sim,sim,nao pretendemos viver avestruzados!
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Jose Alexandre Faia PAPO FURADO ...
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Jose Alexandre Faia Mas esperar o quê destes decrépitos arrogantes ......
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Percina Das Neves Neves Estamos sim Guerra sem vírgulas
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Elisio Macamo sendo uma das pessoas que defende de facto a tese segundo a qual não há guerra em moçambique gostaria de explicar o meu papo furado. antes de o fazer, porém, gostaria de tornar claro do ponto de vista duma discussão semântica - como o post parece indicar - não há discussão possível. quem quiser chamar isto de guerra tem boas razões para o fazer; quem não quiser chamar isto de guerra também tem boas razões. fica, portanto, salvaguardado o seu direito de chamar a isto de guerra. no que diz respeito ao mais substancial começo por um equívoco central no seu argumento. dá um bom exemplo, nomeadamente da doença e do médico. sim, ninguém fica doente apenas a partir do momento em que o médico declara que está doente. mas, atenção! a declaração do médico pode ser essencial para que o doente seja reconhecido como tal por terceiros relevantes. ficar em casa a dormir, ao invés de ir ao serviço, pode depender de atestado médico. a pessoa pode continuar doente sem atestado médico, mas a palavra do médico tem alguma importância. a discussão sobre se há guerra ou não em moçambique beneficiaria muito da atenção que se devia prestar a este aspecto. mas como muitas outras discussões há graves limitações porque fazemos discussões semânticas - que eu agora chamo de waidurismo político - que não são enformadas por nenhum princípio, não procuram proteger nenhum princípio e concentram-se apenas na plausibilidade aparente de conclusões. agora, em filosofia política uma guerra opõe duas comunidades políticas que disputam o controlo do estado mobilizando forças para esse efeito e declarando a sua intenção. dou esta definição mais geral para acomodar o caso moçambicano que, do ponto de vista semântico, se enquadraria perfeitamente. com efeito, podemos dizer que existe em moçambique uma disputa pelo controlo do estado por duas comunidades políticas, que essas comunidades se mobilizaram e declararam a sua intenção. porque é que isto é problemático? é problemático porque declara a inviabilidade do nosso sistema político, isto é da nossa capacidade de resolvermos conflitos sem recurso à violência e à mudança de regime. torna supérfluo todo o esforço de encontrar uma solução que legitime a natureza política dos posicionamentos dentro do nosso sistema político. no limite, confere ao estado a prerrogativa de mobilizar (incluindo quem está contra o lado governamental), aumentar impostos, encarcerar os membros da oposição, enfim, suspender a democracia e tudo o que ela, apesar de tudo, nos trouxe para proteger o estado das investidas do "inimigo". haverá, de certeza, gente por aí que acha que isto é o que o governo devia ter feito há mais tempo. haverá também quem ache que o governo não "declara" a guerra por vergonha (acho que este deve ser o argumento dos 99,9% de moçambicanos que acham que devíamos admitir que estamos em guerra). mas o posicionamento em relação à crise política (ou à instabilidade política, não social! engomadores, hiv, corrupção, etc. são problemas sociais que podem, ou não produzir instabilidade social e talvez política...) não se esgota aí. há quem se recuse chamar a isto de guerra para, vai achar estranho, dar legitimidade às reivindicações! peço desculpas por me ter alongado. percebo a impaciência com argumentos filosóficos e académicos que dependendo do nosso posicionamento político correm sempre o risco de serem vistos como a defesa duma das partes. mas fazer discussões semânticas pode não ser a melhor maneira de abordar os problemas do país. não seria papo furado, reconheço, mas é papo na mesma.
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Salomão Mambo Então se não estamos em guerra porque reuniu se com o conselho de guerra? Poderia ter chamado o conselho dos direitos humanos. Eles so querem desestabilizar as boas ideia do chefe do estado.
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Mondlane Dzowo A primeira etapa na cura de um doente passa necessariamente por ele próprio reconhecer que está doente.
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Percina Das Neves Neves Estamos em guerra sim.

Não vamos aqui engranchar

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Ser - Huo Na certa, furadores de papo.
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Rafael Ricardo Nzucule Assim, porque não estamos em guerra, podemos todos ir dar um passeio pelas bandas de Caia, Muxungue, etc., para vermos e sentirmos o que esta a acontecer.



As pessoas estão aterrorizadas e o comercio esta moribundo.

Veículos de combate são mobilizados para o teatro de operações, mas pelos vistos, isto não e guerra.

Se na guerra dos 16 anos, sofria-se emboscadas e, para as colmatar, o estado criava colunas militares, agora temos o mesmo cenário, mas não se trata de guerra. Então, as mortes na N1 são MORTES SEMÂNTICAS?

Filipe Zivane Tudo conversa pa adormecer moscas. Tanto se assumiu que tamos em guerra que custa nos um antidoto eficaz para resolver a doenca. Sao bonitas as explicacoes filosoficas e os textos massudos pastosos e longos quando nao estamos em guerra. Tal e a gravidade do problema que a questao da semantica e da discussao do alcance da semantica, se torna menos importante porque a solucao passa por ignorar a semiologia adequada e encontrar solucoes para acabar de facto com o conflito e trazer aos Mocambicanos a normalidade. Seja porque meios forem.
Filipe Zivane Se for pela via da guerra que seja. O que queremos e paz agora nao venha o Elisio Macamo com filosofias pastosas .
Que bela peça de teatro!
Dissemos, neste mesmo espaço, vezes sem conta, que os acontecimentos dos últimos dias, que têm vindo a ceifar vidas humanas e destruir bens, eram motivos mais do que suficientes para o Chefe de Estado, Filipe Jacinto Nyusi, pôr a mão na consciência. Mas parece-nos que o senhor Nyusi, telecomandado por uma horda de esquizofrénicos, está motivado a empurrar este país para o abismo, à semelhança do seu antecessor.
A título de exemplo, a reunião do Conselho Nacional de Defesa e Segurança, convocada e dirigida pelo Presidente da República esta semana, pareceu, à primeira vista, uma acção sensata de se louvar. Até porque se deliberou a criação de condições para um encontro com o líder da Renamo, com vista a pôr termo aos ataques e consolidar definitivamente o ambiente de paz e de estabilidade. É sabido que todos os moçambicanos, sobretudo aqueles que, neste momento, sentem na pele os efeitos dessa guerra não declarada, desejam a paz para voltarem a desenvolver as suas actividades e contribuirem para o crescimento do país.

Porém, ficou claro que as intenções do Governo de turno em reunir com a Renamo não passa de uma peça de teatro mal encenada por profissionais de muito mau gosto para os jornalistas anotarem, reportarem e distrairem os moçambicanos dos reais problemas que enfermam o país. A prova disso é que, na mesma semana, a Comissão Política, por sinal dirigida pelo Chefe de Estado, veio afirmar situações diferentes do que foi deliberado na reunião do Conselho Nacional de Defesa e Segurança, dando a entender que existem dois poderes de decisão dentro do partido.
No seu comunicado, a Comissão Política acusa a Renamo e o seu lider, Afonso Dlhakama, de ameaçarem e matarem os cidadãos, através dos seus homens armados, criando instabilidade e insegurança no seio da nossa sociedade. Após a reunião do Conselho Nacional de Defesa e Segurança, esperava-se uma postura mais séria e íntegra da parte do partido Frelimo, e não uma tentativa de atiçar o conflito. Na verdade, as acusações levantadas pela Comissão Política revelam que não há vontade de se colocar um ponto final a este conflito armando que tem vindo a tirar o sossego dos moçambicanos.
Portanto, infelizmente, o povo moçambicano continuará a ser usado como besta de carga para legitimar os interesses inconfessáveis dos promotores dessa guerra. Tudo indica que o conflito armado que o país atravessa não é preocupação para o Governo de turno, até porque, dentro do partido Frelimo, prevalece ainda o objectivo de satisfazer os interesses pessoais e partidários em detrimento dos legítimos interesse da maioria.


Editorial, A Verdade, 26 Fevereiro 2016

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