quinta-feira, 2 de julho de 2026

Uma Leitura Crítica: Reservas Metodológicas, Factuais e Analíticas a “A Moment for the Test of Wills, or a Show of a Broken Stalemate”, de Roberto Julio Tibana

 Gabriel Serafim Muthisse

Uma Leitura Crítica: Reservas Metodológicas, Factuais e Analíticas a “A Moment for the Test of Wills, or a Show of a Broken Stalemate”, de Roberto Julio Tibana
Não é fácil interpelar o Doutor Tibana, um verdadeiro guru na análise e implementação de políticas macroeconômicas em vários contextos africanos e não só. O texto que publicou constitui uma intervenção vigorosa e intelectualmente estimulante sobre a situação económica e política de Moçambique. A sua principal força reside na capacidade de articular problemas macroeconómicos com questões de economia política, recusando a visão tecnocrática segundo a qual os desafios do país podem ser compreendidos apenas através de indicadores fiscais, monetários ou financeiros.
Todavia, precisamente por pretender explicar fenómenos complexos e estruturalmente importantes, o texto suscita um conjunto de reservas metodológicas, factuais e analíticas que merecem consideração. A primeira reserva diz respeito à fronteira entre análise e julgamento moral. Ao longo do texto, a elite política governante é descrita como “moralmente falida”, movida exclusivamente por interesses pessoais e familiares, praticando uma forma de “gangsterismo institucionalizado” e governando apenas através da força. Estas formulações possuem forte poder retórico, mas levantam dificuldades analíticas. Uma análise de economia política tende a distinguir cuidadosamente entre factos observáveis, inferências causais e avaliações normativas. A corrupção, a captura institucional ou o abuso de poder podem ser documentados e analisados; já afirmações sobre motivações exclusivas ou estados morais colectivos são, por natureza, mais difíceis de demonstrar empiricamente. O risco é que a crítica política, por mais legítima que seja, passe a ocupar o lugar da análise.
Uma segunda reserva relaciona-se com a tendência para explicar os problemas nacionais sobretudo através das características da elite política. A narrativa sugere que os principais bloqueios ao desenvolvimento decorrem da incompetência, da ganância, da má-fé ou da irresponsabilidade dos governantes. Embora estes factores possam ser relevantes, uma análise estrutural procuraria igualmente compreender os incentivos institucionais que moldam os comportamentos. Questões como a fragilidade histórica do Estado, a dependência de recursos naturais, a natureza da competição política, a configuração das coligações de poder ou a dependência da ajuda externa receberam menos atenção do que os atributos morais dos actores. Em consequência, o texto aproxima-se, em alguns momentos, de uma explicação centrada no carácter dos governantes, enquanto que a economia política procura normalmente explicar como determinadas estruturas produzem determinados comportamentos.
Uma terceira reserva refere-se ao argumento em torno do pagamento antecipado de aproximadamente 700 milhões de dólares ao Fundo Monetário Internacional. O autor considera esta decisão um acto de irresponsabilidade financeira e um desperdício de reservas externas num momento particularmente delicado para a economia. Trata-se de uma posição defensável, mas que não é a única possível. Uma interpretação alternativa poderia sustentar que a redução da dívida externa melhora o perfil de risco soberano, reduz obrigações futuras e transmite sinais de disciplina financeira aos mercados e aos credores internacionais. Além disso, o texto assume implicitamente que os recursos poderiam ter sido utilizados de forma mais produtiva caso permanecessem nas reservas, mas não demonstra quais teriam sido os usos alternativos concretos nem os respectivos benefícios líquidos. Assim, aquilo que é apresentado como conclusão inequívoca poderia ser mais rigorosamente formulado como uma hipótese sujeita a debate.
Uma quarta reserva prende-se com a caracterização da relação entre Moçambique e as instituições financeiras internacionais. O texto tende a apresentar o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial como agentes de disciplina e racionalidade, contrastando-os com um governo caracterizado pela evasão de responsabilidades e incumprimento. Embora possam existir alguns fundamentos para esta leitura, ela corre o risco de simplificar uma relação historicamente mais complexa. A literatura internacional sobre programas de ajustamento e assistência financeira documenta numerosos casos em que as próprias instituições internacionais adoptaram previsões excessivamente optimistas, metas pouco realistas ou estratégias inadequadas às condições políticas dos países beneficiários. Uma análise equilibrada deveria reconhecer que os fracassos dos programas raramente resultam exclusivamente do comportamento dos governos nacionais.
Uma quinta reserva diz respeito à caracterização das instituições nacionais de controlo e fiscalização. O texto descreve o Parlamento como um simples instrumento de legitimação das decisões do Executivo, a magistratura judicial como impotente e o Banco de Moçambique como completamente capturado pelos interesses políticos. Embora estas possam ser percepçoes partilhadas por certos segmentos da esfera pública, a sua demonstração, numa análise séria, exigiria evidência mais sistemática. Questões como o grau efectivo de autonomia do banco central, a capacidade fiscalizadora do Parlamento ou a independência do sistema judicial são passíveis de análise empírica através de indicadores, estudos comparativos e evidência documental. Sem esse suporte, as afirmações permanecem essencialmente impressionistas, ainda que possam conter elementos de verdade.
Uma sexta reserva prende-se com a dimensão prospectiva do texto. O autor afirma com elevada convicção que o actual impasse político será inevitavelmente quebrado entre 2028 e 2029, e que esse processo será particularmente turbulento. O problema aqui não reside na hipótese em si, mas no grau de certeza com que é apresentada. A experiência da ciência política mostra que a previsão de rupturas políticas constitui uma das tarefas mais difíceis das ciências sociais. Muitos regimes considerados estáveis colapsaram inesperadamente; outros, considerados insustentáveis, revelaram surpreendente capacidade de sobrevivência. A prudência analítica recomendaria falar em aumento de probabilidades ou em riscos crescentes, e não em certezas.
Existe, contudo, uma crítica mais profunda que atravessa todo o texto. O ensaio descreve detalhadamente as razões pelas quais o actual sistema político deveria enfrentar dificuldades crescentes. Explica a erosão da legitimidade, a deterioração económica, a fragilidade institucional e o desgaste do contrato social. Contudo, dedica menos atenção a uma questão igualmente importante: por que razão o sistema continua a sobreviver?
Esta seria talvez a principal interrogação, do ponto de vida da disciplina de economia política. Se a elite governante é tão desacreditada, tão impopular, tão incompetente e tão dependente da coerção como o texto sugere, então torna-se necessário explicar os mecanismos concretos da sua reprodução. Quem beneficia do sistema? Como são distribuídas rendas e privilégios? Que alianças sustentam a estabilidade política? Qual o papel das forças de segurança? Como operam as redes de patronagem? Que interesses económicos nacionais e internacionais contribuem para a continuidade do status quo?
Em última análise, o texto pode ser particularmente eficaz a enunciar os problemas de legitimidade, mas menos convincente na explicação das razões que lhe permitem persistir. E talvez seja precisamente aí que reside o maior desafio analítico: compreender não apenas os factores de crise, mas também os mecanismos de sobrevivência.
Estas reservas não invalidam o argumento central do ensaio. Pelo contrário, procuram reforçá-lo, distinguindo aquilo que pode ser sustentado por evidência daquilo que depende de inferências mais amplas ou de juízos normativos. Um debate público de qualidade beneficia precisamente desta tensão entre convicção política e rigor analítico. Quanto mais robusta for a análise, maior será a sua capacidade de influenciar não apenas os que já concordam com ela, mas também aqueles que dela discordam.
Autor
Gabriel Serafim Muthisse
O que estou a tentar dizer é que um crítico poderia perguntar, por exemplo, “quais são exactamente os indicadores que demonstram que o regime apenas governa pela força?” Há repressão política? Sim. Mas existe também participação eleitoral, negociação política, instituições formais ainda operacionais e alguma capacidade de provisão estatal. A realidade é provavelmente mais complexa do que uma das formulações que Roberto Tibana nos traz.
No que se refere ao excesso de personalização da culpa, o argumento atribui quase todos os problemas ao comportamento da elite política. Mas uma análise de economia política normalmente procuraria explicar incentivos institucionais, estruturas de poder, dependências históricas, fragilidades do Estado ou limitações da economia. O texto do Doutor Tibana tende para uma explicação baseada em carácter (corrupção, egoísmo, incompetência e má fé. Um crítico poderia argumentar que isso é uma forma de “political moralism”. A pergunta seria “será que as mesmas políticas poderiam emergir mesmo com actores mais honestos devido aos constrangimentos estruturais existentes?”
Estes são algumas das fraquezas metodológicas e analíticas que aponto.
Autor
Gabriel Serafim Muthisse
Para melhor clarificação, a crítica mais sofisticada que eu faria partiria do facto de o texto apresentar uma excelente descrição do colapso da legitimidade política, mas oferecer uma explicação insuficiente para a persistência do sistema. Se a elite é tão incompetente, tão desacreditada, tão corrupta e tão isolada, então a pergunta central passa a ser “PORQUE CONTINUA NO PODER?”
Uma análise de economia política madura procuraria responder “quem beneficia do sistema? Como funcionam as coligações de apoio? Como são distribuídas rendas? Qual o papel das Forças de Defesa e Segurança? Qual o papel das elites económicas? Qual o papel dos parceiros internacionais? Como funcionam os mecanismos de cooptação?
Ou seja, o texto explica muito bem porque o sistema deveria cair, mas explica menos bem porque continua de pé. E, em ciência política, compreender a sobrevivência de um sistema é normalmente mais importante do que demonstrar os seus defeitos.
Essa seria, na minha opinião, a crítica metodológica mais forte que um académico de economia política poderia fazer ao texto.
Muday Madidiane Tchambule
São interessantes as argumentações mas duplamente interessante sãos as conclusões contidas nos últimos parágrafos.
A ciência fica fortalecida quando se as discussões e argumentos e críticas sãos destes nível.
Estão de parabéns, os dois!
Ibraimo Assane
Ainda não li o ensaio do Dr. Roberto JulioTibana mas pelo resumo aqui patente permita-me apresentar o meu apreço, a forma didática pela qual apresentou os pontos, notei de forma precipitada que no fundo o Dr. Tibana se deixou levar nas suas análises pelo seu amor à oposição e me fez levantar a seguinte questão: Nos dias de hoje, um intelectual filiado a um partido político pode emitir uma opinião profunda imparcial?
Emidio Vicente Mavila
Li e reli o texto publicado no mural do Dr. Tibana, um economista que admiro bastante pela profundidade das suas análises e pela forma como, muitas vezes, as sustenta com evidências difíceis de contestar.
Penso que o texto tem o seu valor, dependendo do prisma através do qual o analisamos, seja económico, político, social ou outro. Contudo, parece-me (sublinhe-se) que o seu enfoque se inclina mais para uma leitura político-social do que para uma análise económica estritamente objectiva.
As preocupações levantadas são relevantes. Todavia, é difícil ignorar que o texto é fortemente influenciado pela visão política do Dr Tibana o que acaba por marcar o tom e a orientação da argumentação.
Quiçá essa tenha sido, desde o início, a sua verdadeira intenção.
Buene Boaventura Paulo
Quase a compreender o que o ilustre Roberto Julio Tibana escreveu antes de ler o seu texto; esta análise crítica está boa, mas também deixa alguma penumbra, por exemplo: o que é a sobrevivência do sistema, tendo em conta a nossa realidade? Quais os indicadores de que um sistema morreu?
Raul Junior
Não consigo encontrar o texto original.
Elisio Macamo
excelente! foram as mesmas reservas que tive. o problema do texto é que faz uma pergunta enviesada: roblema já vem pré-definido: porque uma elite corrupta, gangsterizada e moralmente falida não pode fazer as reformas necessárias? só há uma resposta: não quer, não pode. acho isso limitado como análise.
Raul Junior
Li os dois textos e compreendi que se situam numa esfera própria de debate macro-económico. É saudável quando textos colocados na praça pública são objecto de leitura e suscitarem debates quanto ricos quanto este( devia ser um exercício normal). O que não entendi no texto do Doutor Tivane (Tibana) é " se Moçambique não tivesse pago/pagado a letra de 700 milhões de dólares estaria imune aos impactos da crise ou não. A vida seria diferente no tal bolso de moçambicano sem bolso? Sobre as outras coisas do funcionamento do parlamento, dos tribunais, da corrupção parece que já não precisam de pesquisas. Estar nesses órgãos qualquer um pode dizer algo sem investigação. A investigação sequer é importante nas comunidades onde o senso comum é mais forte e é aplaudido
Rassul Jalilo
Amplamente li a sua análise e pode perceber nos pontos que apresenta que de certo modo concordo, porém acho que existe uma resposta nas questões das beneces a exemplo das forças de seguramente hipoteticamente analisa-se que as forças de segurança são cotadas para que legitimem os governos mantendo-os mesmo em situações que poderiam intervir como garante da segurança e estabilidade . Entendo ainda que questões como decisões acertadas devem estar alinhadas aos desafios que o país enfrenta e isso só se faz com um rigor mais metódico na política monetária do país. Um modelo clássico de desenvolvimento entende que o país cresce através da produção e uso de tecnologia e inovação por exemplo em sectores chaves como a agricultura é isto se pressupõe como uma decisão metódica através de incentivo as universidades e centros de pesquisa .
Existem várias análises sobre os dois textos a serem complementados. Mas devo dizer que aprendi muito.

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