Muito antes das caravanas vindas do além-mar dominarem a costa oriental de África, existia, entre os vales férteis do Zambeze e do rio Nhanombe, o Reino de Nhamulambe.
Não era um reino pobre. Das suas terras saíam sal, cobre, ouro, marfim e cereais que percorriam longas rotas comerciais até povos distantes. Os rios alimentavam a agricultura e funcionavam como estradas naturais que ligavam aldeias, mercados e fortalezas. O poder do reino não vinha apenas dos seus guerreiros e azagaias, mas da capacidade de organizar o comércio, arrecadar receitas e controlar as passagens estratégicas do interior.
Foi essa prosperidade que atraiu os homens brancos vindos do além-mar. Primeiro vieram como mercadores. Depois ergueram fortalezas, controlaram os portos e, lentamente, transformaram o reino num território subordinado. O Reino de Nhamulambe deixou de produzir para si próprio e passou a produzir para sustentar os interesses externos. As estradas ligavam minas e portos, mas não aldeias entre si. Os bancos serviam o comércio colonial. A moeda do reino passou a depender do que os estrangeiros aceitavam comprar.
Décadas mais tarde, surgiu a luta de libertação. Camponeses, jovens guerreiros e intelectuais das cidades ergueram-se contra o domínio estrangeiro. Entre os líderes da resistência destacou-se o rei guerreiro Mzilikazi, descendente de guerreiros míticos dos tempos de Mfecane. Era um homem austero, respeitado pelo povo. Com a força das sua ancestralidade, conduziu o reino à independência após longos anos de luta armada.
Mas a independência encontrou um reino destruído, sem técnicos suficientes, sem reservas e profundamente dependente do exterior. Mzilikazi e a sua corte, apertados e com o voluntarismo, próprio da juventude, decidiram então controlar quase toda a economia. Os preços dos alimentos, dos transportes e dos combustíveis passaram a ser definidos politicamente. O objectivo era proteger o povo e demonstrar justiça social. Porém, os preços deixaram de reflectir os custos reais.
Durante algum tempo parecia funcionar. Nas cidades, o combustível era barato. O pão tinha preço fixado. O transporte público era subsidiado. Mas nos bastidores cresciam distorções silenciosas. Os comerciantes deixaram de importar certos produtos porque vendiam com prejuízo. Surgiram escassez, filas, dumba-nengues e corrupção. O reino consumia mais do que produzia, enquanto as reservas externas desapareciam lentamente.
Após a morte de Mzilikazi, num acidente ainda por explicar, subiu ao trono Ngonhani. Diferente do antecessor, Ngonhani acreditava na abertura económica. Declarou que o reino precisava reconciliar-se com os mercadores e com os financiadores internacionais. Privatizou fábricas, armazéns, transportes, bancos e empresas públicas. Muitos activos do reino foram vendidos rapidamente, frequentemente abaixo do seu valor real.
A economia cresceu durante algum tempo. As cidades encheram-se de edifícios modernos, carros importados e campanhas optimistas do Banco Central do reino, que falava constantemente de “estabilidade macroeconómica”, “disciplina monetária” e “fortalecimento da moeda”. Porém, por detrás da aparência de estabilidade, crescia uma fragilidade profunda.
Durante mais de dez anos, o Banco Central manteve políticas que favoreciam uma moeda artificialmente valorizada. Importar tornou-se mais fácil do que produzir localmente. Os comerciantes enriqueceram com produtos vindos do exterior. O reino consumia cada vez mais bens importados: arroz, óleo, cimento, maquinaria e combustíveis. Mas exportava pouco e produzia insuficientes divisas.
O problema foi mascarado enquanto entravam empréstimos externos, ajuda internacional e receitas de grandes recursos naturais. Porém, quando o fluxo de divisas diminuiu, a crise emergiu violentamente. Os bancos comerciais passaram a não ter moeda estrangeira suficiente. Importadores começaram a falhar pagamentos. Navios com combustível esperavam semanas nos portos porque as gasolineiras não conseguiam comprar divisas para pagar fornecedores externos.
O povo, Mahalista e ainda dominado pelo espírito anti-burguês do rei Mzilikazi, acusava as gasolineiras de incompetência e ganância. Contudo, a verdade era mais complexa. As margens de lucro eram extremamente baixas e continuavam esmagadas por impostos elevados, incluindo o IVA. O preço dos combustíveis permanecia parcialmente controlado politicamente, impedindo que os operadores ajustassem preços aos custos reais de importação, transporte e financiamento.
Assim, sempre que o petróleo subia nos mercados internacionais, o reino anunciava aumentos dos preços internos. Mas, mesmo após cada aumento, a escassez permanecia. O povo perguntava-se por que razão o combustível ficava mais caro e, ainda assim, desaparecia dos postos. A resposta estava no desequilíbrio estrutural: o problema não era apenas o preço final, mas a falta de divisas, a baixa rentabilidade do sector e a fragilidade financeira acumulada durante anos.
Muitas gasolineiras operavam praticamente sem reservas financeiras. Tinham de comprar combustível em moeda estrangeira cara, pagar juros elevados aos bancos e depois vender localmente com margens reduzidas. Algumas começaram a atrasar pagamentos. Outras reduziram importações. Os postos voltaram a enfrentar rupturas e filas intermináveis.
Ao mesmo tempo, o reino descobriu outro problema criado pelas privatizações aceleradas. O rei Ngonhani tinha abandonado quase completamente a banca comercial e toda a economia, fascinado com o "get the prices right", vendido a partir de Whashington.
Os antigos bancos públicos desapareceram ou foram vendidos. O crédito passou a concentrar-se num pequeno grupo financeiro dominado por descendentes dos mesmos homens brancos que outrora controlavam o reino colonial. Um quase monopólio silencioso emergiu.
Os bancos preferiam financiar importações rápidas, consumo urbano e negócios de curto prazo com os títulos colocados no mercado pelo príncipe Mafumani que Governava o Banco Central do reino.
A agricultura, a indústria local e os pequenos produtores recebiam pouco crédito. Em tempos de crise, o reino já não possuía instrumentos financeiros próprios para orientar recursos estratégicos, apoiar empresas nacionais ou estabilizar sectores essenciais.
Assim, Nhamulambe entrou numa contradição amarga: o reino retirara-se de sectores críticos em nome da eficiência, mas continuava a intervir politicamente nos preços mais sensíveis. O resultado foi uma economia sem força pública suficiente para responder às crises e sem liberdade plena para que o mercado funcionasse integralmente.
Enquanto isso, a elite ligada ao poder prosperava. Alguns recebiam acesso privilegiado a divisas, contratos públicos e importações. Nas margens dos rios Zambeze e Nhanombe, porém, o povo enfrentava uma realidade diferente. O custo dos transportes subia, em termos reais. Os alimentos tornavam-se mais caros. Jovens abandonavam os campos sem encontrar emprego nas cidades. Professores, soldados e enfermeiros viam os seus salários perder valor.
Quando a crise dos transportes urbanos se agravou, os príncipes do reino anunciaram uma solução apresentada como nova: a compra de autocarros públicos distribuídos pelos municípios. Num comício pomposo, o povo ouviu promessas de transporte barato, organizado e acessível. Contudo, os mais velhos lembravam-se de que aquela medida já tinha sido tentada antes, com resultados semelhantes.
Os autocarros públicos entravam num sector já fragilizado, onde operadores privados sobreviviam com margens extremamente baixas, estradas degradadas, combustível caro e crédito escasso. Em vez de resolver os problemas estruturais do transporte, os príncipes colocavam, novamente, o reino a competir directamente com pequenos empresários privados sem corrigir as causas centrais da crise. Muitos operadores enfraqueciam ainda mais ou abandonavam o sector. A manutenção das frotas públicas deteriorava-se rapidamente, as peças tornavam-se escassas e os autocarros acabavam imobilizados após poucos anos.
No fim, o Reino de Nhamulambe descobriu que aumentar preços, distribuir autocarros ou anunciar estabilidade não bastava para construir prosperidade duradoura. Sem produção interna forte, concorrência equilibrada, instituições sólidas e capacidade financeira soberana, as crises repetiam-se em ciclos. E cada ciclo deixava o reino mais desigual, mais dependente e mais pobre.
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