segunda-feira, 18 de maio de 2026

O perigo do pensamento alegórico

 Elisio Macamo

4 min 

Nos últimos tempos, tenho visto vários textos, comentários e vídeos a celebrarem a China e aquilo que consideram ter sido a humilhação dos Estados Unidos na recente visita de Donald Trump. Confesso alguma dificuldade em partilhar essa leitura. Não é porque me entristeça particularmente ver Trump desconfortável (há situações em que a pedagogia política parece depender da redução do tamanho de certos egos), mas porque me parece que muita da euforia assenta sobre equívocos intelectuais preocupantes.
O primeiro equívoco é conceitual. Confunde-se modelo político com modelo económico. A leitura triunfalista sugere que o sucesso económico da China provaria a superioridade do comunismo sobre o capitalismo, como se estivéssemos perante uma espécie de vingança histórica da ideologia derrotada. Mas a ironia da história, se quisermos insistir nela, parece ser que o que a China demonstra não é a vitória do comunismo, mas a extraordinária capacidade de adaptação do capitalismo. O dinamismo económico chinês não resulta da realização dum ideal comunista de organização da vida económica, mas da incorporação disciplinada de mecanismos capitalistas de produção, acumulação, competição e integração nos mercados globais. Se há aqui uma vitória ideológica, ela não pertence ao comunismo. Pertence ao capitalismo enquanto tecnologia económica. O que a China parece ter conseguido foi combinar a lógica capitalista de criação de riqueza com um sistema político autoritário que controla as condições desse processo. Pessoalmente, não vejo o que seria comunista no sistema político chinês.
O que mais me inquieta, contudo, é um defeito intelectual mais profundo, menos imediatamente visível, mas certamente mais corrosivo. Trata-se daquilo a que chamaria pensamento alegórico. Por pensamento alegórico entendo uma forma de raciocínio em que não analisamos um fenómeno pelo que ele é, mas transformámo-lo num símbolo útil a uma narrativa política pré-existente. Em vez de perguntarmos “o que é isto?”, que seria analítico, perguntamos “o que isto representa para a história que quero contar?”. Parece uma diferença pequena, mas dela depende uma diferença enorme na qualidade do pensamento.
No caso da China, isto torna-se particularmente evidente. A China não é vista como um objecto concreto de análise com a sua história, contradições, formas específicas de controlo político, repressão da dissidência, vigilância tecnológica, desigualdades sociais e arquitectura institucional complexa, mas sim como uma espécie de alegoria. Alegoria da decadência americana. Alegoria da resistência ao Ocidente. Alegoria da soberania nacional. Alegoria da eficácia política. Nesse momento, a China deixa de ser país e transforma-se em personagem.
O problema da alegoria é que ela não pressupõe nenhuma fidelidade empírica. Pressupõe apenas coerência narrativa. Uma alegoria funciona enquanto servir a história que queremos contar. Se a nossa necessidade simbólica for suficientemente forte, os detalhes inconvenientes tornam-se descartáveis. E assim desaparecem os cidadãos concretos. Desaparecem os jornalistas silenciados, os dissidentes presos, as limitações severas à liberdade política, os mecanismos invasivos de vigilância, a ausência de pluralismo político, etc. (incluindo o que vemos no nosso próprio país com empresas chinesas). Tudo isso passa a ser tratado como nota de rodapé, quando não simplesmente ignorado, porque atrapalha a elegância da narrativa maior. Ora, este problema não é apenas intelectual. É também moral, pois o pensamento alegórico transforma seres humanos reais em adereços argumentativos. O sofrimento concreto das pessoas deixa de importar porque o que conta já não é a realidade vivida, mas a função simbólica do regime dentro da imaginação política de quem comenta. Isso não é pensar. Quando muito, é instrumentalizar.
Pode-se dizer que o entusiasmo pela China deve ser entendido no contexto do ressentimento histórico em relação ao Ocidente. Não faltam razões para esse ressentimento. Colonialismo, paternalismo moral, hipocrisia internacional, guerras selectivas, arrogância civilizacional, tudo isso faz parte da história e merece crítica. O problema começa quando esse ressentimento passa de objecto de reflexão crítica para critério de juízo. Nesse momento, já não se avaliam regimes pelo que fazem aos seus povos, mas sim avaliam-se pela sua utilidade simbólica no confronto geopolítico com o Ocidente e que pouco, ou quase nada, tem a ver connosco enquanto não arrumarmos a nossa própria casa.
Esse parece-me o aspecto intelectualmente mais irónico desta postura. Quem pensa estar a afirmar autonomia crítica acaba por revelar dependência intelectual, pois continua a deixar o Ocidente no centro do universo mental. Apenas inverte o sinal. Se Washington critica um regime, esse regime ganha automaticamente aura moral. Se o Ocidente se sente desconfortável, isso passa a ser tratado como prova de autenticidade política. Isto não é independência intelectual, parece-me, mas é heteronomia ressentida.
O que mais me preocupa, contudo, é que esta maneira de pensar não se limita à China. Ela aparece noutras simpatias políticas igualmente reveladoras. Admira-se Bukele pela sua aparente eficácia sem se interrogar seriamente sobre o que significa normalizar a suspensão de garantias fundamentais. Louva(va)-se Orbán como guardião de valores morais sem perguntar que tipo de concepção de cidadania exclui certos cidadãos da comunidade política. Tolera-se a brutalidade de regimes autoritários porque eles parecem desafiar a hegemonia ocidental. Em todos estes casos, o mecanismo é o mesmo. Não se analisa o objecto. Usa-se o objecto.
Ora, quem admira formas autoritárias de exercício do poder noutros contextos enquanto se apresenta como democrata no seu próprio contexto estará apenas a ser incoerente? Ou estará, mais profundamente, a revelar aquilo que considera aceitável quando imagina que o poder estará do seu lado? Ideias têm consequências. O fascínio alegórico pelo autoritarismo externo não é apenas politicamente inocente. Quando normalizamos a suspensão de direitos em nome da eficácia, da ordem ou da soberania, estamos também a alargar o universo do pensável dentro da nossa própria comunidade política. E o curioso é que muitos dos que aplaudem regimes autoritários além fronteiras o fazem enquanto se consideram como parte do poder em Moçambique. Gostava de ver como eles iriam pensar esses regimes autoritários se não estivessem no poder. Haviam de o romantizar como o fazem agora? Duvido.
Infelizmente, a China não é uma metáfora. É um país. Isso devia nos obrigar a pensar no lugar de celebrar supostas vitórias que em nada mudam a nossa condição.
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O Aumento do Preço do Combustível e as Filas que Nunca Terminavam no Reino de Nhamulambe

 Constantino Pedro Marrengula

3 d 

Muito antes das caravanas vindas do além-mar dominarem a costa oriental de África, existia, entre os vales férteis do Zambeze e do rio Nhanombe, o Reino de Nhamulambe.
Não era um reino pobre. Das suas terras saíam sal, cobre, ouro, marfim e cereais que percorriam longas rotas comerciais até povos distantes. Os rios alimentavam a agricultura e funcionavam como estradas naturais que ligavam aldeias, mercados e fortalezas. O poder do reino não vinha apenas dos seus guerreiros e azagaias, mas da capacidade de organizar o comércio, arrecadar receitas e controlar as passagens estratégicas do interior.
Foi essa prosperidade que atraiu os homens brancos vindos do além-mar. Primeiro vieram como mercadores. Depois ergueram fortalezas, controlaram os portos e, lentamente, transformaram o reino num território subordinado. O Reino de Nhamulambe deixou de produzir para si próprio e passou a produzir para sustentar os interesses externos. As estradas ligavam minas e portos, mas não aldeias entre si. Os bancos serviam o comércio colonial. A moeda do reino passou a depender do que os estrangeiros aceitavam comprar.
Décadas mais tarde, surgiu a luta de libertação. Camponeses, jovens guerreiros e intelectuais das cidades ergueram-se contra o domínio estrangeiro. Entre os líderes da resistência destacou-se o rei guerreiro Mzilikazi, descendente de guerreiros míticos dos tempos de Mfecane. Era um homem austero, respeitado pelo povo. Com a força das sua ancestralidade, conduziu o reino à independência após longos anos de luta armada.
Mas a independência encontrou um reino destruído, sem técnicos suficientes, sem reservas e profundamente dependente do exterior. Mzilikazi e a sua corte, apertados e com o voluntarismo, próprio da juventude, decidiram então controlar quase toda a economia. Os preços dos alimentos, dos transportes e dos combustíveis passaram a ser definidos politicamente. O objectivo era proteger o povo e demonstrar justiça social. Porém, os preços deixaram de reflectir os custos reais.
Durante algum tempo parecia funcionar. Nas cidades, o combustível era barato. O pão tinha preço fixado. O transporte público era subsidiado. Mas nos bastidores cresciam distorções silenciosas. Os comerciantes deixaram de importar certos produtos porque vendiam com prejuízo. Surgiram escassez, filas, dumba-nengues e corrupção. O reino consumia mais do que produzia, enquanto as reservas externas desapareciam lentamente.
Após a morte de Mzilikazi, num acidente ainda por explicar, subiu ao trono Ngonhani. Diferente do antecessor, Ngonhani acreditava na abertura económica. Declarou que o reino precisava reconciliar-se com os mercadores e com os financiadores internacionais. Privatizou fábricas, armazéns, transportes, bancos e empresas públicas. Muitos activos do reino foram vendidos rapidamente, frequentemente abaixo do seu valor real.
A economia cresceu durante algum tempo. As cidades encheram-se de edifícios modernos, carros importados e campanhas optimistas do Banco Central do reino, que falava constantemente de “estabilidade macroeconómica”, “disciplina monetária” e “fortalecimento da moeda”. Porém, por detrás da aparência de estabilidade, crescia uma fragilidade profunda.
Durante mais de dez anos, o Banco Central manteve políticas que favoreciam uma moeda artificialmente valorizada. Importar tornou-se mais fácil do que produzir localmente. Os comerciantes enriqueceram com produtos vindos do exterior. O reino consumia cada vez mais bens importados: arroz, óleo, cimento, maquinaria e combustíveis. Mas exportava pouco e produzia insuficientes divisas.
O problema foi mascarado enquanto entravam empréstimos externos, ajuda internacional e receitas de grandes recursos naturais. Porém, quando o fluxo de divisas diminuiu, a crise emergiu violentamente. Os bancos comerciais passaram a não ter moeda estrangeira suficiente. Importadores começaram a falhar pagamentos. Navios com combustível esperavam semanas nos portos porque as gasolineiras não conseguiam comprar divisas para pagar fornecedores externos.
O povo, Mahalista e ainda dominado pelo espírito anti-burguês do rei Mzilikazi, acusava as gasolineiras de incompetência e ganância. Contudo, a verdade era mais complexa. As margens de lucro eram extremamente baixas e continuavam esmagadas por impostos elevados, incluindo o IVA. O preço dos combustíveis permanecia parcialmente controlado politicamente, impedindo que os operadores ajustassem preços aos custos reais de importação, transporte e financiamento.
Assim, sempre que o petróleo subia nos mercados internacionais, o reino anunciava aumentos dos preços internos. Mas, mesmo após cada aumento, a escassez permanecia. O povo perguntava-se por que razão o combustível ficava mais caro e, ainda assim, desaparecia dos postos. A resposta estava no desequilíbrio estrutural: o problema não era apenas o preço final, mas a falta de divisas, a baixa rentabilidade do sector e a fragilidade financeira acumulada durante anos.
Muitas gasolineiras operavam praticamente sem reservas financeiras. Tinham de comprar combustível em moeda estrangeira cara, pagar juros elevados aos bancos e depois vender localmente com margens reduzidas. Algumas começaram a atrasar pagamentos. Outras reduziram importações. Os postos voltaram a enfrentar rupturas e filas intermináveis.
Ao mesmo tempo, o reino descobriu outro problema criado pelas privatizações aceleradas. O rei Ngonhani tinha abandonado quase completamente a banca comercial e toda a economia, fascinado com o "get the prices right", vendido a partir de Whashington.
Os antigos bancos públicos desapareceram ou foram vendidos. O crédito passou a concentrar-se num pequeno grupo financeiro dominado por descendentes dos mesmos homens brancos que outrora controlavam o reino colonial. Um quase monopólio silencioso emergiu.
Os bancos preferiam financiar importações rápidas, consumo urbano e negócios de curto prazo com os títulos colocados no mercado pelo príncipe Mafumani que Governava o Banco Central do reino.
A agricultura, a indústria local e os pequenos produtores recebiam pouco crédito. Em tempos de crise, o reino já não possuía instrumentos financeiros próprios para orientar recursos estratégicos, apoiar empresas nacionais ou estabilizar sectores essenciais.
Assim, Nhamulambe entrou numa contradição amarga: o reino retirara-se de sectores críticos em nome da eficiência, mas continuava a intervir politicamente nos preços mais sensíveis. O resultado foi uma economia sem força pública suficiente para responder às crises e sem liberdade plena para que o mercado funcionasse integralmente.
Enquanto isso, a elite ligada ao poder prosperava. Alguns recebiam acesso privilegiado a divisas, contratos públicos e importações. Nas margens dos rios Zambeze e Nhanombe, porém, o povo enfrentava uma realidade diferente. O custo dos transportes subia, em termos reais. Os alimentos tornavam-se mais caros. Jovens abandonavam os campos sem encontrar emprego nas cidades. Professores, soldados e enfermeiros viam os seus salários perder valor.
Quando a crise dos transportes urbanos se agravou, os príncipes do reino anunciaram uma solução apresentada como nova: a compra de autocarros públicos distribuídos pelos municípios. Num comício pomposo, o povo ouviu promessas de transporte barato, organizado e acessível. Contudo, os mais velhos lembravam-se de que aquela medida já tinha sido tentada antes, com resultados semelhantes.
Os autocarros públicos entravam num sector já fragilizado, onde operadores privados sobreviviam com margens extremamente baixas, estradas degradadas, combustível caro e crédito escasso. Em vez de resolver os problemas estruturais do transporte, os príncipes colocavam, novamente, o reino a competir directamente com pequenos empresários privados sem corrigir as causas centrais da crise. Muitos operadores enfraqueciam ainda mais ou abandonavam o sector. A manutenção das frotas públicas deteriorava-se rapidamente, as peças tornavam-se escassas e os autocarros acabavam imobilizados após poucos anos.
No fim, o Reino de Nhamulambe descobriu que aumentar preços, distribuir autocarros ou anunciar estabilidade não bastava para construir prosperidade duradoura. Sem produção interna forte, concorrência equilibrada, instituições sólidas e capacidade financeira soberana, as crises repetiam-se em ciclos. E cada ciclo deixava o reino mais desigual, mais dependente e mais pobre.
A Pondo de Moçambique
Uma indirecta saudável. Nem é indirecta...
Martins Matsinhe
História interessante....
Meu Moçambique está cair, as empresas estão a fechar portas, agora vamos pagar o preço de viver de esmola
AlDimas Tivane
Gostei do conteúdo
Isaias Ricardo Tomo
Habemus um Escritor...disfarcado de Economista......!! Phambeni!!