O facto de vivermos numa sociedade doente, não significa que tenhamos de estar necessariamente contagiados. Afonso Almeida Brandão, jornalista, biógrafo e crítico de arte luso-moçambicano.
Escrevo a partir do Zóbuè. Imobilizado e à margem da rota do progresso, Zóbuè resiste às intempéries, às vicissitudes e às diatribes dos decisores políticos. As sovas que os zobuenses recebem, por falta de visão política e de estratégia que promovam o bem-estar social das populações, são “anestesiadas” pelas músicas de Mr. Bow. Em todo o meu percurso, de Maputo a Tete, a música que mais se ouvia tocar é de Mr. Bow.
Dança-se e canta-se as músicas de Mr. Bow. No Zóbuè, ao contrário do que era costumeiro, a comunidade local recebeu-me ao som das músicas de Mr. Bow e da Marlene. As bancas de comerciantes, empolgadas de barulhentos megafones improvisados, costumavam tocar músicas (também agradáveis) do vizinho Malawi. Mas, desta vez, para o meu espanto e alegria, o pódio foi ocupado por um músico moçambicano: Mr. Bow. Caiu como se fosse meteorito, acabou com o predomínio dos músicos malawianos.
Sem perceberem uma única palavra em língua changana, os zobuenses deliciam-se das músicas de Mr. Bow. A mais tocada, com trechos em português, tem como título: “Não me arranja problema.” É. Os zobuenses não gostam de problemas. Não gostam que alguém lhes arranje problemas. Perguntei aos zobuenses, exímios dançarinos, a razão daquela “loucura” pelas músicas de Mr. Bow. A resposta, vinda de todos os meus interlocutores, foi que as músicas de Mr. Bow viciam. De facto, as músicas de Mr. Bow contagiam o espírito e adoçam a alma. Mas também, verdade seja dita, estimula apetites que, quando não controladas as emoções, podem provocar divórcio. Afinal, mulheres e homens de todas as idades, o idolatram.
A música deve corrigir a sociedade quando ela se encontra com os valores desvirtuados. Deve, igualmente, anestesiar a dor, a depressão, o stresse, enfim, o mal-estar. A música deve resgatar memórias positivas para fortificar a sociedade. A música deve ser cantada com paixão. A música deve ainda ser cantada e tocada com alma e paixão. É uma arte que exige perícia e bom gosto. A música quando não é tocada com alma, cria eco, faz barulho ensurdecedor, provoca dor de cabeça e causa repulsa. Ninguém sente absolutamente. Penso que não estaria a cometer algum delito se dissesse que Mr. Bow é um exemplo de músico que deve ser exaltado à grandeza da nossa Pátria Amada.
Zicomo (obrigado) e um abraço nhúngue ao Bravo, um professor perfeitamente exemplar ao serviço dos zobuenses.
WAMPHULA FAX – 11.03.2019
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