segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

CHEIAS E OS “SANGUESSUGAS”

Centelha por Viriato Caetano Dias (viriatocaetanodias@gmail.com )
―Não há nada pior PARA a solidariedade que a solidariedade em excesso. Anónimo
A minha crónica da semana passada sobre a decisão da Renamo na criação de regiões autónomas a qual classifiquei de descida ao inferno produziu uma avalanche de críticas, algumas com uma certa animosidade, tornando ainda mais fervoroso o objectivo desta Centelha: promover o espírito de diálogo e nada mais do que o diálogo. Esta Centelha nunca será uma catequese, nem procura dogmatizar ideias, pensamentos e opiniões, porque prisma pelo diálogo aberto e frontal.
Ciente e respeitador absoluto da pluralidade de ideias, jamais combati uma única crítica, desde que a mesma seja imparcial e prime pelo espírito de justiça. O que é mau e bruto não combato, simplesmente afasto. Cristo na sua imensa e eterna glória não conseguiu combater a estupidez, quem sou eu para fazê-lo? Não faço jogos de bruxaria, mas raramente o tempo reprova as minhas hipóteses, ilibando-me de todas as acusações lançadas em praça pública, como agora se prova, quando o partido Frelimo recusa e condena liminarmente a intenção tanto ou quanto obsessiva do líder da perdiz, Afonso Dhlakama, de dividir o país, facto que suscitou pieguice por parte da Renamo que semana finda na voz do seu secretário-geral, Manuel Bissopo, prometeu intensificar o divisionismo entre os moçambicanos. Por causa disso, antevê-se um Dhlakama raivoso.
Aguarda-se, assim, um outro juramento … pois… que não seja pelo pai!
O Centelha de hoje propõe reflectir sobre cheias na região centro do país e a campanha de pedidos de donativos que inundam os órgãos de comunicação social. A sociedade moçambicana está a perder de vista os reais problemas do país que é o combate contra a pobreza, a criminalidade, o desemprego, etc., centrando-se, unicamente, nas vítimas das cheias. Parte significativa dessa sociedade aproveitam-se desta tragédia, cujos danos podiam ter sido evitados, para impor mais dor e sofrimento às vítimas. Gente que vive da desgraça alheia e que recorre ao velho adágio popular “quem não tem cão, caça com gato”.
Assomam-se pedidos de ajuda, difícil é esconder as reais intenções dos seus mentores. Derramam lágrimas de crocodilo e juram uma falsa filantropia para conseguir enganar almas compadecidas. É impressionante observar o rosto da ajuda, mas não das vítimas. Quem são? Quantos são? Alguém procurou saber o antes da tragédia? Ademais, não há prestação de contas, da mesma forma que não há compromissos de responsabilidade.
Alguém já parou para pensar o saldo disponível nas contas dos bancos para as quais foram depositados dinheiro para socorrer às vítimas das cheias? Algum banco da praça ousou divulgar? Nunca ouvi de nenhum interveniente envolvido nas campanha de solidariedade pedir ajuda de psicólogos para consolar às vítimas das enxurradas. De igual modo, não se pede a intervenção dos profissionais de saúde, dos homens da lei e ordem, dos sociólogos, porque este tipo de ajuda não trás benefícios directos e não garante bolsos cheios dos seus mentores. Por outro lado, músicos que deviam ser bálsamos de corações enternecidos, cantando de graça, cobram um balúrdio para actuar, confirmando a velha máxima: “na vida não há almoço grátis.
Pior: uma vez oferecida ajuda a interpostos, verifica-se um festival de vaidade, como se fossem “Messias modernos” e as vítimas locais prováveis “novos Lázaros”. Concordo com uma das minhas bússolas literárias, o saudoso amigo José Hermano Saraiva, quando diz que o futuro é solidariedade. Se o caminho não for por aí, então não há caminho nenhum. Tal como a bondade, a ajuda é gratuita. Foi assim que respondeu o governo malawiano à cantora Madonna: “a bondade deve ser gratuita e anónima. Se não puder ser gratuita e silenciosa, então não é bondade, é outra coisa bem diferente. Está mais perto da chantagem.
Os reais necessitados agradecem a ajuda, o mesmo não acontece aos “sanguessugas”: exuberam-se na vaidade e promovem o protagonismo. Gente que permanece longos meses sem fazer patavina, rogando por chuvas torrenciais, PARA esfolar o povo. Foi o que constatou Helena Taipo, governadora da província de Sofala, quando visitou alguns centros de reassentamento.
Valeu a inteligência da governante para não se deixar enganar por relatórios falsos. É deste tipo de dirigentes que o país precisa e não de vedetas (observadores). Espero que o exemplo da governadora seja repercutido por todos os nossos governantes e que a onda de solidariedade não tenha fins obscuros. Que essas ajudas não criem parasitas e ociosos.
P.S.: Serve esta nota para endereçar ao Presidente Robert Mugabe, herói de todos os africanos, os meus parabéns. Ao meu estilo, Zicomo (obrigado)
WAMPHULA FAX – 23.02.2015
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