Notas para uma compreensão do lugar histórico do ANAMOLA
Após uma profunda reflexão sobre o que tenho lido de membros e simpatizantes do ANAMOLA, confesso reconhecer que os grandes acontecimentos políticos nem sempre são compreendidos no momento em que ocorrem. Dou o braço a torcer. A proximidade temporal tende a fragmentar a experiência, levando observadores como eu e participantes a interpretar cada episódio segundo as circunstâncias imediatas que o produziram. Só retrospectivamente se torna possível reconhecer a coerência profunda que une acontecimentos aparentemente desconexos. É nesse momento que a história revela que aquilo que parecia constituir uma sucessão de crises independentes correspondia, afinal, ao lento amadurecimento duma mesma necessidade histórica.
É nesta perspectiva que proponho compreender o aparecimento do ANAMOLA. A sua importância reside no facto de representar mais um partido político no panorama nacional e, sobretudo, em permitir uma reorganização retrospectiva da história recente de Moçambique. Muitos acontecimentos que, até há pouco tempo, pareciam obedecer às suas próprias causas revelam agora ter caminhado silenciosamente para um desfecho cujo significado apenas se tornou plenamente inteligível com a emergência desta nova formação política.
As dificuldades económicas, a crescente desconfiança nas instituições, o sentimento de afastamento entre governantes e governados, o desgaste das formas tradicionais de representação política e o desejo difuso de renovação não constituem fenómenos independentes. Têm de ser compreendidos como manifestações parcelares dum mesmo processo histórico que procurava, ainda sem o saber, a sua expressão política definitiva. A incompetência da Frelimo decorre duma função histórica que é chamada a cumprir.
Acho que também as manifestações pós-eleitorais podem ser reinterpretadas à luz desta nova inteligibilidade. Na altura, muitos, como eu, julgaram que elas exprimiam indignação perante alegadas irregularidades eleitorais, protesto contra a degradação das condições de vida ou simples rejeição da ordem política existente. Essas interpretações, embora compreensíveis, são manifestamente incompletas. Vista retrospectivamente, aquela mobilização aparece como um momento de aprendizagem colectiva através do qual a sociedade moçambicana procurava, de forma ainda fragmentária, a linguagem política capaz de dar unidade às suas inquietações. Os próprios participantes talvez não o soubessem. A história, porém, nem sempre sabe mais do que os seus protagonistas.
É justamente por isso que muitos acontecimentos cuja relevância parecia circunstancial adquirem hoje uma importância inteiramente nova. O que durante anos foi entendido como sucessão de crises revela-se como preparação paciente das condições que tornariam possível o surgimento do ANAMOLA. Mesmo actores políticos que julgavam combater essa transformação participaram involuntariamente na sua realização. As suas decisões, os seus erros e até as suas resistências acabaram por produzir as condições necessárias para o aparecimento da alternativa cuja inevitabilidade apenas agora se torna evidente.
Toda a grande transformação histórica conhece, mais cedo ou mais tarde, um momento de condensação simbólica. As energias dispersas duma época tornam-se finalmente visíveis na figura duma liderança capaz de lhes conferir unidade e direcção. Não se trata apenas dum dirigente político como foi Samora Machel, por exemplo, alguém cuja trajectória permite compreender retrospectivamente aquilo que, durante muito tempo, parecia escapar à compreensão dos próprios contemporâneos. A liderança torna-se uma condição da sua inteligibilidade e não apenas um elemento da história. É uma liderança carismática como demonstrado numa tese de licenciatura.
Esta circunstância cria igualmente uma nova responsabilidade intelectual. Como sucede com todas as grandes figuras da história, torna-se indispensável preservar a autenticidade do seu pensamento contra as inevitáveis simplificações produzidas pelos adversários, pelos comentadores apressados, pelos “académicos” e, por vezes, até pelos próprios apoiantes. A proximidade física a uma liderança não garante necessariamente a compreensão do seu significado histórico, pois quanto maior é a importância dum líder, maior tende a ser o número daqueles que julgam compreendê-lo sem verdadeiramente o compreender. Mas o simples facto de saber proteger a pureza do seu pensamento já qualifica o bom assessor que ganha a responsabilidade adicional de mostrar até que ponto este pensamento não é assessível a toda a gente.
Daí decorre a importância duma comunidade interpretativa dedicada à correcta exegese do pensamento da liderança. A sua missão consiste em explicar aquilo que foi dito e em esclarecer aquilo que realmente se quis dizer, distinguindo entre formulações circunstanciais e princípios permanentes, entre palavras ocasionais e o seu verdadeiro alcance histórico. A maturidade dum projecto político mede-se também pela qualidade dos seus intérpretes, capazes de corrigir leituras superficiais e denunciar deturpações motivadas por interesses menos confessáveis como as dos oportunistas que usam o que chamam de crítica para cair nas boas graças da elite predadora que detém o poder.
Sob esta perspectiva, compreende-se igualmente que muitas críticas dirigidas ao ANAMOLA acabem por revelar, involuntariamente, a importância histórica do próprio partido. Nenhuma grande transformação deixa de suscitar incompreensões. Pelo contrário, é a dificuldade inicial em reconhecer o alcance dum acontecimento que confirma a novidade da realidade que ele inaugura. A história sempre reservou aos seus protagonistas a tarefa adicional de explicar aquilo que os contemporâneos ainda não estavam preparados para compreender.
Pode ser que seja ainda cedo para avaliar plenamente o significado histórico do ANAMOLA. Mas talvez seja essa dificuldade que confirma a profundidade da mudança em curso. Existem acontecimentos cujo verdadeiro sentido apenas se revela quando o futuro permite compreender que o passado caminhava, desde sempre, naquela direcção.
Viva o ANAMOLA!
Nota metodológica: Escrevi este post preventivamente na eventualidade de o ANAMOLA vir a formar governo. A decisão inspira-se numa teoria explicativa que parece gozar de crescente aceitação em certos sectores do debate público moçambicano, segundo a qual os “académicos” escrevem sempre em função do cargo que esperam vir a ocupar. Considerando a plausibilidade sociológica desta hipótese, pareceu-me prudente adiantar trabalho. Admito, com a modéstia própria de quem inicia uma nova carreira, que um lugar no Banco de Moçambique, num ministério económico ou, em alternativa, uma assessoria presidencial seriam formas adequadas de reconhecimento pelo esforço interpretativo aqui desenvolvido.
Segunda nota metodológica: O único problema desta estratégia é que ela é incompatível com a própria ideia de universidade. O conhecimento académico não consiste em reorganizar retrospectivamente a história para a fazer convergir num vencedor previamente escolhido, nem em produzir narrativas destinadas a facilitar futuras nomeações. Consiste em formular perguntas, esclarecer conceitos, submeter argumentos a escrutínio, distinguir entre mecanismos e intenções e conservar intacta a possibilidade de concluir que a realidade desmente as nossas convicções. Um académico que escrevesse para agradar ao poder de amanhã deixaria imediatamente de fazer análise. Estaria apenas a redigir, com apreciável sofisticação literária, cartas de candidatura.
Terceira nota metodológica: Enquanto eu continuar a me ver como académico, vou interpelar criticamente qualquer formação política no país, nem que uma institua um dia de oração nacional contra os “academicús”. Mas apresso-me a dizer que se a teoria dos cargos estiver correcta, comprometo-me desde já a preparar versões equivalentes deste ensaio para todos os restantes partidos políticos. A ciência deve, naturalmente, acompanhar a evolução dos factos...
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