Um Minuto de Silêncio Pelo Sonho Que Deixámos Ferir
51 anos depois, o que fizemos da Independência?
Pergunto isto sem cerimónia, sem bandeira de lapela, sem a comoção fácil dos discursos oficiais, sem essa voz de palanque que todos os anos veste a pátria com roupa engomada para esconder as nódoas da casa. Pergunto porque dói. Pergunto porque ainda amo este país com uma espécie de teimosia infantil, com a mesma fé que se tem numa mãe cansada, mesmo quando já não se reconhece o rosto dela debaixo do sofrimento.
O que fizemos do sonho?
Criámos um país que foi perdendo a alma. Um país que se foi desumanizando aos poucos, não de uma vez, não num único crime visível, mas por pequenas desistências sucessivas, por pequenos roubos tolerados, por pequenas cobardias acumuladas, por pequenos silêncios que acabaram por formar este grande cemitério moral onde ainda insistimos em cantar o hino.
Nascemos de uma luta pela liberdade. Nascemos de uma ideia imensa, quase impossível: fazer de muitos povos um só país. Makondes, Macuas, Machanganas, Ndaus, Senas, Rongas, Chopes, Bitongas, brancos, negros, indianos, mulatos, cristãos, muçulmanos, crentes, descrentes, gente das ilhas, das machambas, dos bairros, dos portos, das minas, das aldeias queimadas, das escolas debaixo da árvore, dos comícios, dos sacrifícios. Nascemos dessa ousadia de dizer: ninguém será menos humano por ter nascido nesta terra.
Por isso me ofende, me fere quase fisicamente, ouvir de vez em quando a frase cobarde de que no tempo do colono é que era. Não me aborrece apenas. Ofende-me. Porque nenhum pão servido debaixo da humilhação vale a liberdade. Nenhuma estrada, nenhum prédio, nenhuma luz acesa em casa alheia justifica viver de joelhos na própria terra. Nunca seria melhor ser outra coisa que não moçambicano. Nunca. Nem pobre, nem cansado, nem traído, nem revoltado. Moçambicano. Orgulhosamente moçambicano. Com a dor inteira, mas também com a dignidade inteira.
Pergunto-me muitas vezes de onde vem este amor. Talvez venha do tempo em que nasci. Do modo como nos ensinaram a pátria quase como destino. Do modo como, ao ouvir Samora, mesmo criança, se acreditava que o futuro não era uma promessa publicitária, mas uma tarefa colectiva. O país parecia caber dentro de uma voz. A palavra povo ainda não tinha sido transformada em decoração de discurso. Servir ainda não era sinónimo de enriquecer. O Estado ainda não era esta mesa onde os mesmos se sentam para repartir, com faca e garfo de prata, aquilo que pertence a todos.
A Independência ensinou-nos que não éramos quintal de ninguém. Que não tínhamos nascido para pedir licença à História. Que a nossa pobreza não nos retirava grandeza. Que a nossa juventude como nação não nos condenava à menoridade. Tivemos a coragem de estar do lado certo contra o apartheid quando outros calculavam conveniências. Tivemos a coragem de pagar preços altos por princípios altos. Tivemos, pelo menos durante algum tempo, a noção de que um país não se mede apenas pelo que possui, mas pelo que se recusa a vender.
Depois veio esta lenta corrupção da alma nacional.
Não falo apenas do dinheiro roubado, embora ele esteja lá, obsceno, gordo, insolente. Falo da corrupção mais funda: a transformação do Estado em propriedade privada; a transformação do povo em pretexto; a transformação da política em carreira de acumulação; a transformação da dor nacional em oportunidade de negócio; a transformação da pobreza em paisagem; a transformação da indecência em normalidade.
Criámos uma elite de Xiconhocas engravatados, predadores com discurso patriótico, gente que pronuncia a palavra povo enquanto lhe mete a mão no bolso. Gente que se serve do Estado como se o Estado fosse uma machamba familiar. Gente que fala de sacrifício nacional a partir de gabinetes refrigerados, carros de luxo, viagens em comitiva, tratamentos fora, filhos em universidades estrangeiras, casas onde a distância entre a sala e a cozinha é maior do que a distância entre muitas aldeias e a escola mais próxima.
Enquanto isso, o povo continua a morrer de malária. Continua a parir no chão. Continua a caminhar quilómetros para aprender o pouco que o sistema lhe permite aprender. Continua apinhado em chapas que tratam seres humanos como carga. Continua a implorar salário, consulta, justiça, transporte, segurança, documento, respeito. Continua a pedir ao seu próprio país aquilo que o país lhe devia entregar sem humilhação.
O Parlamento foi enchendo de sombras caras. Gente eleita para representar o povo e que muitas vezes parece representar apenas a conservação do seu próprio conforto. O país real aperta o cinto até ao osso; o país oficial engorda. O país real conta moedas para chegar ao fim do mês; o país oficial conta viaturas, ajudas de custo, missões, privilégios, assessores, mordomias, blindagens. O país real chora os filhos; o país oficial inaugura discursos.
Anunciam-se investimentos com foguetes verbais. Fala-se de desenvolvimento, soberania económica, modernização, grandes corredores, grandes projectos, grandes oportunidades. Tudo grande, menos a vida das pessoas. Tudo estratégico, menos a fome. Tudo estruturante, menos a escola que cai, o hospital sem luvas, a estrada que mata, o professor humilhado, o médico exausto, o jovem sem trabalho, a mãe que enterra o filho antes de o ver viver.
Em Cabo Delgado, a guerra continua a abrir buracos no peito da nação. Rostos sem casa, aldeias feridas, mães que fogem com crianças ao colo, homens que desaparecem, rapazes fardados enviados para morrer por um salário pobre, famílias que recebem notícia sem corpo, corpo sem cerimónia, cerimónia sem país. E nós, na capital, passamos ao lado disso como quem passa ao lado de uma vala: com cuidado para não sujar o sapato.
Os nossos mortos já nem sempre conseguem interromper a agenda.
Talvez por isso hoje eu peça um minuto de silêncio.
Não um minuto de silêncio protocolar, desses que se cumprem antes de voltar ao banquete. Um minuto verdadeiro. Pesado. Incómodo. Um minuto que faça doer a garganta. Um minuto pelos soldados tombados em Cabo Delgado, muitos deles miúdos, quase sem biografia pública, quase sem fotografia, quase sem nome pronunciado pela República. Um minuto pelos que deram a vida por Moçambique sem direito a salva, sem direito a discurso, sem direito a campa dos heróis, sem direito sequer à delicadeza nacional de sabermos quem eram.
Um minuto pelos filhos que não voltaram. Pelos pais que ficaram à espera. Pelas mães que talvez ainda escutem passos que nunca chegarão. Pelos irmãos que crescerão com uma ausência sentada à mesa. Pelos combatentes sem monumento. Pelos heróis sem retrato. Pelos que tombaram longe do luxo onde se decide a sua morte.
Nenhum país decente celebra a Independência fingindo que não sabe onde estão enterrados os seus filhos.
Também peço silêncio pelo sonho ferido. Pela promessa de saúde para todos. Pela educação digna. Pela casa decente. Pela justiça acessível. Pelo pão limpo. Pela igualdade entre homens e mulheres. Pela criança que devia brincar e não sobreviver. Pela rapariga violentada por uma sociedade que ainda desculpa monstros. Pela mulher assassinada e reduzida a notícia breve. Pelo camponês invisível. Pelo trabalhador tratado como instrumento. Pelo jovem que já não sabe se ama o país ou se apenas ainda não conseguiu ir embora.
Neste país, até o desespero ganhou intermediários. Surgem profetas de palco, curandeiros da miséria espiritual, vendedores de milagres em prestações, gente que encontrou no abandono do povo uma indústria de salvação. A religião, que podia consolar, muitas vezes passou a explorar. A fé virou negócio. A dor virou mercado. A ignorância virou clientela. E o populismo, esse animal astuto, começou a entrar pelas frestas: ora com Bíblia na mão, ora com insulto na boca, ora com falsa coragem, ora com promessas simples para problemas que exigem pensamento, trabalho e decência.
Moçambique corre o risco de trocar os velhos donos da pátria por novos vendedores de ilusão.
O populismo nasce precisamente onde a esperança foi traída. Nasce quando as pessoas deixam de acreditar nas instituições. Nasce quando a justiça parece ter dono, quando a polícia assusta mais o pobre do que o criminoso poderoso, quando o hospital pede paciência a quem já só tem dor, quando a escola ensina sem formar, quando a televisão distrai, quando a política mente, quando os intelectuais se calam, quando os partidos se comportam como igrejas zangadas e os cidadãos como fiéis cansados.
Também matámos parte da nossa inteligência pública. Formámos gente que sabe repetir, mas nem sempre pensar. Gente treinada para obedecer à frase pronta, ao chefe, ao algoritmo, ao medo, à moda, ao ruído. Fomos deixando morrer a música que vinha da terra, o tambor que nos chamava pelo nome, a palavra que nascia da boca dos mais velhos. Trocámos memória por consumo, pensamento por espectáculo, cultura por batida sem alma, cidadania por torcida, crítica por ódio, patriotismo por propaganda.
E ainda assim, apesar de tudo, recuso entregar Moçambique ao cinismo.
Recuso. Porque este país é maior do que os seus ladrões. Maior do que os seus arrogantes. Maior do que os seus falsos empresários. Maior do que os seus políticos de bolso cheio e coração seco. Maior do que os que confundem o Estado com cofre. Maior do que os que compraram silêncio e chamaram a isso estabilidade. Maior do que os que, em nome da paz, pedem ao povo que aceite a injustiça calado.
A pátria não pertence aos que a saqueiam. Pertence também ao professor que entra na sala sem condições e ainda assim ensina. Ao médico que atende sem material e ainda assim tenta salvar. À mãe que acorda antes do sol. Ao camponês que insiste na terra. Ao jovem que não desiste de estudar. Ao soldado que guarda uma fronteira que talvez nunca tenha conhecido conforto. À mulher que levanta casa, filhos, bairro, vida. Ao cidadão que se recusa a pagar refresco. Ao artista que canta sem vender a alma. Ao jornalista que pergunta. Ao juiz que não se ajoelha. Ao funcionário que serve. Ao povo que, mesmo esmagado, ainda conserva uma reserva misteriosa de bondade.
Moçambique não morreu. Foi ferido. E uma pátria ferida não se abandona aos abutres.
A Luta Continua.
Mas já não pode continuar como frase de cerimónia, pintada em paredes gastas, repetida por bocas que desaprenderam o seu peso. A Luta Continua contra a captura do Estado por elites oligárquicas. Continua contra a fome. Contra a doença. Contra o pé descalço. Contra a criança sem escola. Contra a mulher sem protecção. Contra o racismo. Contra o tribalismo. Contra a arrogância dos que governam como se mandassem numa herdade. Contra a ignorância fabricada. Contra a corrupção que nos roubou dinheiro e, pior ainda, nos roubou vergonha.
A Luta Continua pelo direito a nascer sem condenação. Pelo direito a estudar sem humilhação. Pelo direito a ser tratado num hospital sem pedir favor. Pelo direito a trabalhar sem servidão. Pelo direito a envelhecer sem abandono. Pelo direito a discordar sem medo. Pelo direito a pensar Moçambique com cabeça própria. Pelo direito a sermos todos humanos antes de sermos pobres, ricos, chefes, empregados, do norte, do sul, do centro, da cidade ou da aldeia.
51 anos depois, não celebramos apenas uma data. Somos convocados a responder perante os mortos, perante os vivos e perante os que ainda virão.
Que país lhes entregaremos?
Um país onde meia dúzia come em nome de milhões? Um país onde a bandeira serve de toalha sobre a mesa dos saqueadores? Um país onde o povo é chamado soberano apenas no dia em que vota e esquecido no dia seguinte? Um país onde a palavra independência significa apenas não ter colono estrangeiro, mas aceitar colonos internos de gravata, sirene, escolta e arrogância?
Não.
A Independência não foi feita para substituir o senhor colonial pelo senhor nacional. Não foi feita para que alguns moçambicanos herdassem o chicote e lhe mudassem apenas o idioma. Não foi feita para que a cor da exploração se tornasse local e, por isso, mais tolerável. A Independência foi feita para que ninguém tivesse de pedir licença para ser gente na sua própria terra.
Hoje, antes das marchas, dos discursos, das flores, dos hinos, das fotografias oficiais e das frases gastas, eu tiro um minuto de silêncio.
Pelos que tombaram.
Pelos que foram traídos.
Pelos que ainda acreditam.
Pelo sonho que não morreu, mas sangra.
E depois desse minuto, levanto-me. Porque amar Moçambique não é aplaudir a sua decadência. Amar Moçambique é ter coragem de lhe dizer a verdade. É proteger a sua memória dos que a usam como máscara. É arrancar a pátria das mãos dos que a tratam como negócio. É lembrar que este país nasceu para ser casa, não coutada; comunidade, não saque; destino comum, não propriedade de uma elite.
A Luta Continua.
Não como nostalgia.
Como obrigação moral.
Como dívida aos mortos.
Como promessa aos vivos.
Como recusa absoluta de permitir que a Independência seja transformada numa bandeira bonita hasteada sobre um país injusto.

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