Nos últimos tempos, tenho visto vários textos, comentários e vídeos a celebrarem a China e aquilo que consideram ter sido a humilhação dos Estados Unidos na recente visita de Donald Trump. Confesso alguma dificuldade em partilhar essa leitura. Não é porque me entristeça particularmente ver Trump desconfortável (há situações em que a pedagogia política parece depender da redução do tamanho de certos egos), mas porque me parece que muita da euforia assenta sobre equívocos intelectuais preocupantes.
O primeiro equívoco é conceitual. Confunde-se modelo político com modelo económico. A leitura triunfalista sugere que o sucesso económico da China provaria a superioridade do comunismo sobre o capitalismo, como se estivéssemos perante uma espécie de vingança histórica da ideologia derrotada. Mas a ironia da história, se quisermos insistir nela, parece ser que o que a China demonstra não é a vitória do comunismo, mas a extraordinária capacidade de adaptação do capitalismo. O dinamismo económico chinês não resulta da realização dum ideal comunista de organização da vida económica, mas da incorporação disciplinada de mecanismos capitalistas de produção, acumulação, competição e integração nos mercados globais. Se há aqui uma vitória ideológica, ela não pertence ao comunismo. Pertence ao capitalismo enquanto tecnologia económica. O que a China parece ter conseguido foi combinar a lógica capitalista de criação de riqueza com um sistema político autoritário que controla as condições desse processo. Pessoalmente, não vejo o que seria comunista no sistema político chinês.
O que mais me inquieta, contudo, é um defeito intelectual mais profundo, menos imediatamente visível, mas certamente mais corrosivo. Trata-se daquilo a que chamaria pensamento alegórico. Por pensamento alegórico entendo uma forma de raciocínio em que não analisamos um fenómeno pelo que ele é, mas transformámo-lo num símbolo útil a uma narrativa política pré-existente. Em vez de perguntarmos “o que é isto?”, que seria analítico, perguntamos “o que isto representa para a história que quero contar?”. Parece uma diferença pequena, mas dela depende uma diferença enorme na qualidade do pensamento.
No caso da China, isto torna-se particularmente evidente. A China não é vista como um objecto concreto de análise com a sua história, contradições, formas específicas de controlo político, repressão da dissidência, vigilância tecnológica, desigualdades sociais e arquitectura institucional complexa, mas sim como uma espécie de alegoria. Alegoria da decadência americana. Alegoria da resistência ao Ocidente. Alegoria da soberania nacional. Alegoria da eficácia política. Nesse momento, a China deixa de ser país e transforma-se em personagem.
O problema da alegoria é que ela não pressupõe nenhuma fidelidade empírica. Pressupõe apenas coerência narrativa. Uma alegoria funciona enquanto servir a história que queremos contar. Se a nossa necessidade simbólica for suficientemente forte, os detalhes inconvenientes tornam-se descartáveis. E assim desaparecem os cidadãos concretos. Desaparecem os jornalistas silenciados, os dissidentes presos, as limitações severas à liberdade política, os mecanismos invasivos de vigilância, a ausência de pluralismo político, etc. (incluindo o que vemos no nosso próprio país com empresas chinesas). Tudo isso passa a ser tratado como nota de rodapé, quando não simplesmente ignorado, porque atrapalha a elegância da narrativa maior. Ora, este problema não é apenas intelectual. É também moral, pois o pensamento alegórico transforma seres humanos reais em adereços argumentativos. O sofrimento concreto das pessoas deixa de importar porque o que conta já não é a realidade vivida, mas a função simbólica do regime dentro da imaginação política de quem comenta. Isso não é pensar. Quando muito, é instrumentalizar.
Pode-se dizer que o entusiasmo pela China deve ser entendido no contexto do ressentimento histórico em relação ao Ocidente. Não faltam razões para esse ressentimento. Colonialismo, paternalismo moral, hipocrisia internacional, guerras selectivas, arrogância civilizacional, tudo isso faz parte da história e merece crítica. O problema começa quando esse ressentimento passa de objecto de reflexão crítica para critério de juízo. Nesse momento, já não se avaliam regimes pelo que fazem aos seus povos, mas sim avaliam-se pela sua utilidade simbólica no confronto geopolítico com o Ocidente e que pouco, ou quase nada, tem a ver connosco enquanto não arrumarmos a nossa própria casa.
Esse parece-me o aspecto intelectualmente mais irónico desta postura. Quem pensa estar a afirmar autonomia crítica acaba por revelar dependência intelectual, pois continua a deixar o Ocidente no centro do universo mental. Apenas inverte o sinal. Se Washington critica um regime, esse regime ganha automaticamente aura moral. Se o Ocidente se sente desconfortável, isso passa a ser tratado como prova de autenticidade política. Isto não é independência intelectual, parece-me, mas é heteronomia ressentida.
O que mais me preocupa, contudo, é que esta maneira de pensar não se limita à China. Ela aparece noutras simpatias políticas igualmente reveladoras. Admira-se Bukele pela sua aparente eficácia sem se interrogar seriamente sobre o que significa normalizar a suspensão de garantias fundamentais. Louva(va)-se Orbán como guardião de valores morais sem perguntar que tipo de concepção de cidadania exclui certos cidadãos da comunidade política. Tolera-se a brutalidade de regimes autoritários porque eles parecem desafiar a hegemonia ocidental. Em todos estes casos, o mecanismo é o mesmo. Não se analisa o objecto. Usa-se o objecto.
Ora, quem admira formas autoritárias de exercício do poder noutros contextos enquanto se apresenta como democrata no seu próprio contexto estará apenas a ser incoerente? Ou estará, mais profundamente, a revelar aquilo que considera aceitável quando imagina que o poder estará do seu lado? Ideias têm consequências. O fascínio alegórico pelo autoritarismo externo não é apenas politicamente inocente. Quando normalizamos a suspensão de direitos em nome da eficácia, da ordem ou da soberania, estamos também a alargar o universo do pensável dentro da nossa própria comunidade política. E o curioso é que muitos dos que aplaudem regimes autoritários além fronteiras o fazem enquanto se consideram como parte do poder em Moçambique. Gostava de ver como eles iriam pensar esses regimes autoritários se não estivessem no poder. Haviam de o romantizar como o fazem agora? Duvido.
Infelizmente, a China não é uma metáfora. É um país. Isso devia nos obrigar a pensar no lugar de celebrar supostas vitórias que em nada mudam a nossa condição.
Ver menos
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