Monday, May 18, 2026

O Crescimento e a Queda do Reino de Nambure.

 Constantino Pedro Marrengula

4 d 

No século X, entre os grandes rios e savanas da costa oriental de África, existia o Reino de Nambure. Era uma terra fértil, rica em sal, marfim, ferro e cereais. Durante muitos anos, o reino prosperou porque os camponeses cultivavam, os ferreiros produziam ferramentas, os pescadores navegavam longas distâncias e os mercadores atravessavam desertos levando bens para terras distantes.
O velho rei Malunga acreditava numa regra simples: “Quem produz deve colher os frutos do seu esforço.” Por isso, os mercados funcionavam livremente. Em anos de seca, o preço do milho subia, incentivando aldeias distantes a trazerem mais produção para a capital. Em tempos de abundância, os preços caíam naturalmente. O povo reclamava às vezes, mas o reino crescia, os celeiros enchiam-se e os artesãos inovavam.
Quando Malunga morreu, subiu ao trono o seu filho, Rei Nacombe. Jovem e ambicioso, queria ser amado rapidamente pelo povo. Os conselheiros da corte disseram-lhe:
— Majestade, o povo sofre porque paga caro pelo sal, pelo milho e pelo carvão. Se declarar que esses bens devem ser gratuitos ou vendidos a preços muito baixos, todos o aclamarão.
O rei gostou da ideia. Parecia mais fácil conquistar popularidade distribuindo riqueza do que criando condições para produzi-la.
Assim, decretou que o milho teria um preço fixo muito baixo. Também ordenou que parte do peixe e do sal fossem distribuídos gratuitamente na capital. Quem cobrasse acima do preço estabelecido seria castigado.
Nos primeiros meses, a praça do reino encheu-se de celebrações. O povo gritava o nome do rei. Muitos acreditavam que finalmente tinham encontrado um governante “amigo dos pobres”.
Mas os problemas começaram silenciosamente.
Os agricultores perceberam que o preço do milho já não compensava o esforço de cultivar grandes campos. Alguns reduziram a produção. Outros esconderam parte das colheitas para vender secretamente em aldeias distantes onde conseguiam preços melhores. Os pescadores começaram a pescar menos, porque o combustível das embarcações e as redes continuavam caras, mas o peixe tinha agora preço imposto pela coroa.
Os comerciantes estrangeiros deixaram de trazer sal e tecidos ao reino, pois não conseguiam recuperar os custos das caravanas. Lentamente, os mercados foram ficando vazios.
Na capital, as filas aumentavam todos os dias. O povo acordava antes do nascer do sol para tentar conseguir os bens “gratuitos”. Os guardas do palácio passaram a decidir quem recebia primeiro. Os amigos dos chefes, soldados e nobres recebiam sempre antes dos restantes.
Logo surgiu um novo comércio escondido. O mesmo saco de milho que oficialmente custava poucas moedas era vendido secretamente por dez vezes mais. Os funcionários do reino desviavam produtos dos armazéns públicos e enriqueciam rapidamente.
O rei, irritado com a escassez, respondeu criando mais decretos. Proibiu viagens de comerciantes sem autorização. Mandou prender camponeses acusados de “ganância”. Confiscou celeiros privados.
O efeito foi ainda pior.
Muitos agricultores abandonaram as terras e passaram apenas a produzir para subsistência. Os jovens deixaram de aprender ofícios porque perceberam que esforço e mérito já não garantiam recompensa. A produção de ferro caiu. As estradas comerciais ficaram vazias. O reino, antes rico, começou a depender de ajuda de reinos vizinhos.
Mas a maior mudança aconteceu na desigualdade.
Enquanto o povo comum passava fome nas filas, os nobres ligados ao palácio tinham acesso ilimitado aos armazéns reais. Os chefes militares recebiam produtos gratuitamente e revendiam-nos clandestinamente. Os mais próximos do poder tornaram-se ricos precisamente num sistema criado supostamente para ajudar os pobres.
Certa noite, um velho mercador chamado Tembo pediu audiência ao rei. Já tinha viajado por muitos reinos e conhecia os ciclos da prosperidade e da decadência.
Disse-lhe:
— Majestade, quando o preço deixa de mostrar o verdadeiro valor das coisas, o reino perde a capacidade de organizar o trabalho. Quando todos querem consumir mas poucos querem produzir, nasce a escassez. E quando a escassez aparece, o poder decide quem recebe e quem fica sem nada. É aí que a desigualdade cresce.
O rei respondeu:
— Mas eu apenas quis ajudar os pobres.
Tembo inclinou a cabeça e respondeu:
— A pobreza não desaparece quando os bens são declarados gratuitos. A pobreza desaparece quando o reino produz mais, trabalha melhor, transporta com eficiência e recompensa quem cria riqueza. Um reino não enriquece distribuindo escassez. Enriquece aumentando abundância.
Nacombe demorou muitos anos para compreender aquilo. Quando finalmente revogou os decretos e voltou a permitir que os mercados funcionassem, o Reino de Nambure já tinha perdido artesãos, comerciantes e colheitas. Recuperar a prosperidade levou quase uma geração inteira.
E os anciãos passaram a contar esta história às crianças do reino:
“Quando um governante tenta derrotar a realidade por decreto, a realidade vence sempre. E o preço dessa ilusão é pago primeiro pelos pobres.”
Qualquer semelhança com alguma realidade é mesmo coisa das nossas cabeças.
Zacarias Nwangue
Elisio Macamo
a primeira república foi assim mesmo e, ao que parece, ainda não aprendemos.
Edio Matola
Genial! Simplesmente genial!...
Celia Meneses
O preço da liberdade de decidir… agora,outros decidem por nós e passamos fome da mesma maneira porque se antes nao havia o que comprar porque nao era viavel produzir, hoje não há dinheiro para comprar. Estamos exactamente no mesmo sitio mas sem capacidade de decidir por nós! Estamos na mayonese democratica, cheia de lojas com produtos que ninguem do povo consegue comprar, apenas uma meia duzia consegue. Uma maravilha! 😬
Sonya Mondlane
Hyo hanya hi nkanu ( ...só teimosia mesmo)
Tomas Mario
Eu aposto que vivi nesse reino; testemunhei a sua ascensão e queda. Tive informação quando naquele reino foi comprada muita carne de vaca com reservas de ouro do Reino. E o povo jubilou, até quando ja nem restos para os ratos se podiam ver em celeiro algum...
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Amílcar Chongola
Quem tem ouvidos, ouça!
John Lewis Uazoe
Grande prosa poética, está de parabéns professor, pelo seu contributo para a economia política.
Helder Bacar
a "mão invisível" de Adam Smith. não se vê, mas sente-se.

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