sábado, 14 de janeiro de 2017

Severino Ngoenha: "Marca da governação de Nyusi ainda não foi vista”


O filósofo Severino Ngoenha defendeu que, em dois anos de governação, Filipe Nyusi não conseguiu responder aos principais problemas dos moçambicanos, considerando que a marca do quarto Presidente República de Moçambique ainda não foi vista.
"A marca real da governação de Filipe Nyusi ainda não foi vista: mais isto muda, mais é a mesma coisa", disse o reitor da Universidade Técnica de Moçambique (UDM), em entrevista à Lusa.
Segundo o filósofo moçambicano, a hipótese de Filipe Nyusi, que assumiu a liderança do país a 15 de janeiro de 2015, substituindo Armando Guebuza, não estar a conseguir fazer valer as suas posições dentro do partido parece cada vez mais evidente.
Após um discurso incisivo na tomada de posse, prosseguiu, quando assumiu a implacável luta contra a pobreza e a corrupção, principais problemas do país, a realidade continua a mesma, com a disparidade dos níveis de vida cada vez mais visível.
Para o autor da obra "Das Independências às Liberdades", é difícil saber se a dificuldade de Filipe Nyusi está na falta de poder dentro da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, partido histórico do Governo) ou se o Presidente está a enfrentar dificuldades para materializar as suas ideias.
Mas o facto, constatou, é que as expetativas criadas com o seu discurso não foram acompanhadas de ações concretas para mudar a vida dos moçambicanos.
Apesar de lembrar que a estrutura dentro dos partidos não é um problema do povo, Severino Ngoenha alertou que, quando a hierarquia de uma força política começa a afetar a legitimidade do Presidente, o problema passa a ser de todo o país.
"A partir do momento em que ele é Presidente da República e toma compromisso com a nação, se os seus planos são anulados, quer dizer que a figura dele vem também, de certa maneira, a ser redimensionada e isto é extremamente grave", afirmou Ngoenha.
Para o académico, quatro décadas depois de ter conduzido Moçambique à independência, o que faz da Frelimo uma força unida é o seu passado, na medida em que hoje, internamente, os posicionamentos dentro do partido são visivelmente deferentes.
"A Frelimo hoje legitima-se pelo seu passado e não pela sua doutrina política, que não se sabe ao certo qual é", defendeu o académico, que entende que o recurso ao passado para se legitimar faz com que a história do país não seja um "devir" mas sim um recuo.
"A [Resistência Nacional Moçambicana] Renamo também legitima-se pelo passado e reivindica que foi o movimento que trouxe a democracia", observou Ngoenha, acrescentando que estes posicionamentos das duas principais forças políticas bloquearam o curso normal da história e, presos a memórias históricas e pseudo-estatutos, não se pode olhar para o futuro.
"Nós seremos eternamente gratos à Frelimo e na história de Moçambique vai ficar claro quem libertou o país. A função da Renamo também estará presente. Mas aquilo que conta agora é o futuro que temos de construir e não o passado", afirmou o filósofo.
Num momento em que foi declarada uma trégua de 60 dias pela Renamo após os líderes das duas partes terem conversado por telefone, Severino Ngoenha é da opinião de que é a altura ideal para se ultrapassar definitivamente a crise política em Moçambique.
"Seria o momento de juntarmos as várias correntes de pensamento existentes no nosso país, vindas de todas as partes, para discutirmos uma coisa que fosse justa e, porque justa, também duradoura", concluiu o académico.
Moçambique atravessa uma crise política e militar, marcada por confrontações entre as Forças de Defesa e Segurança e o braço armado do maior partido de oposição.
A Renamo revindica vitória nas eleições gerais de 2014, acusando a Frelimo de ter cometido fraude no escrutínio.
O país foi também atingido por uma profunda crise económica, que se juntou ao escândalo das dívidas escondidas das contas públicas e que abalou a confiança dos parceiros internacionais.
Lusa – 14.01.2017
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