sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Dois anos de Nyusi. Que balanço?


No domingo, 15 de Janeiro, o PR Filipe Nyusi faz dois anos no poder. Seu discurso inaugural foi genial em termos de expectativas. Mas o élan carburante nele impregnado se vai esfumando. Prova é esta falta de entusiasmo geral nas vésperas deste marco temporal. Até nas redes sociais, este 15 de Janeiro promete passar ao lado.
O discurso inaugural foi uma lufada de ar fresco, depois de um consulado controverso de Armando Guebuza. Dois anos depois, que balanço se pode fazer? Sobretudo depois de tanta expectativa criada? Aliás, seu discurso foi aplaudido em todos os quadrantes no contexto de um legítimo benefício da dúvida. Eu manifestei logo minhas reservas. Já partilho o que na altura escrevi, a quente.
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Filipe Nyusi: dúvidas e omissões do discurso inaugural
Todo o mundo gostou do discurso do novo Presidente da República, Filipe Nyusi. Eu também gostei mas...mas o meu papel não se resume em gostar. Para mim, Nyusi foi demasiado ambicioso, de fasquia elevada como é de praxe neste tipo de inaugurações (recordam-se do Yes We Can, do Barack Obama, e tudo o que ele prometeu?). Eu preferia um discurso mais comedido e modesto, com marcas de Estadista, sim, mas com menos pretensão messiânica.
Gostei sobretudo da sua ruptura com a cartilha de Armando Guebuza, nomeadamente aquela coisa enfadonha da “luta contra o deixa andar” e a clerical “autoestima”. Gostei porque ele não atirou dardos fumegantes contra o antecessor como fez Guebuza, se bem que isso decorre da forma como ele chegou ao poder.
Gostei, mas o discurso do novo PR tem muitas coisas pouco claras. E grandes promessas. Grande promessas são traiçoeiras. Prometer combater a corrupção sob tolerância zero (usando outras palavras, como “sem condescendência”) mas sem dizer que medidas de política vai tomar, é pregar num deserto de ideias.
Sobretudo no contexto de Moçambique. Obviamente que um discurso inaugural é uma carta de princípios e não um enunciado de políticas. Por isso, esperemos pela tomada de posse do seu Governo para percebemos como é que ele vai dar conteúdo concreto a esses princípios.
Por exemplo, uma das coisa que foi mais audível (e que é recorrente em Moçambique) é a ideia que ele vincou da necessidade de robustecimento das elites empresariais para participarem na exploração dos recursos naturais. Concordo!. Contudo, não ficou claro como é que isso será feito no quadro das suas reiteradas promessas de inclusão, sobretudo quando essa inclusão é política. Por outras palavras, como é que ele vai despartidarizar os negócios do Estado (mais importante que despartidarizar a função pública) para que, como ele frisou, “os moçambicanos sejam os donos e a razão de ser da economia”, uma coisa desejável mas, quanto a mim, inalcançável a breve trecho.
Registei com agrado a promessa de transparência na gestão da indústria extractiva e a ideia da incorporação do conteúdo local, ficando para ver como é que isso vai ser concretizado. Nyusi mencionou agricultura, infraestruturas, a Saúde e tudo o que é habitual ser mencionado, mas não deu um cheirinho sobre a política económica (Ok...há um programa de Governo, mas eu esperava que ele partilhasse algumas nuances sobra a gestão macroeconómica).
Gostei do discurso, mas, lendo o texto, fica-se com a ideia de que teremos um Governo mais intervencionista, que vai resolver todos problemas e onde o sector privado e o investimento estrangeiro têm pouco espaço. Por isso, um silêncio quase que absoluto em relação ao ambiente de negócios.
Mas o silêncio mais ensurdecedor foi sobre a principal riqueza dos moçambicano: a terra. Num contexto em que a maioria dos moçambicanos vive da terra, sua principal riqueza, friso, era fundamental que o Presidente reafirmasse na inauguração que ele vai proteger os moçambicanos contra a actual vaga de expropriação e que, onde tiver que haver reassentamento em face de exploração mineral ou de implantação de infraestruturas, isso será feito com justiça. Gostei do discurso, mas o meu papel não se resume em gostar. Nele, há bons princípios que precisam de conteúdo concreto para que sintamos que estamos de facto a dar passos em frente com maior solidez. Isso não ficou ainda demonstrado.
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10 comentários
Comentários
Elisângela Come Realmente para quem leu, viu ou ouviu o discurso do PR naquele 15 de Janeiro, deve estar a questionar-se porque razão, ele nao cumpriu com nada que prometeu e pior retrocedeu ainda mais. Espero que os 03 anos que lhe faltam, ele tente fazer alguma coisa para reverter este cenario.... embora eu acho improvavel disso acontecer.
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Álvaro Xerinda Realmente somos os patrões de Nyusi. Estamos a pagar as contas
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Gulamo Mussa Balanço negativo, não passa de um joystick, esta sendo telecomandado...Impeachment para ele
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Mussá Roots O problema foi exactamente aquele discurso, tão romântico...
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Mauro Manhica Marcelo Mosse. O balanço possível da governação de Nyusi devia ser acompanhado de um balanço do povo que temos sido. Julgo que é essa reflexão que o momento actual de Moçambique exige. O Presidente emana do povo (não me refiro apenas ao acto eleitoral) e, portanto, ele é uma amostra do que são os moçambicanos. Gostemos ou não, o retrato que fizermos dele será uma espécie de reflexo de cada um de nós.
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Álvaro Xerinda Boa reflexão. Entendo com isso que somos um povo pouco ou não exigente
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Gulumba D. Mutemba Tudo o que vem da frelimo não merece nenhum benefício da dúvida.
Interessante que o povo vota nos partidos, mas quando é julgar são pessoas as vítimas.
O único que mereceu a minha cega confiança foi Chissano,os demais não conseguiram atrapalhar me,po
rque já sabia que o problema não são as pessoas,mas sim,a máquina partidária montada desde a luta de libertação nacional,que veio a piorar quando Machel foi assassinado.
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Filipe Nhalungo De facto entre o desejavel e o concreto vai uma longa distancia PR Nyussi, nao foi comedido no seu discurso inagural e, pode ter custos politicos..
Inacio Fernando O nosso pais esta firme. Nao tenham duvidas. Muitas coisas boas estao a acontecer todos os dias. Vejam os noticiarios. Ficar ai reclamar que tudo ta mal nao ajuda em nada
Helio Thyago Krpan Dois anos difíceis de ajuizar dada a conjuntura politica, económica e social que o Pr. encontrou o país. 
Herdou um fardo pesado e mais do que discursos para cativar os eleitores, Nyusi precisa de acções concretas e resultados visíveis.
A meios com uma
 crise mundial que não deixou a nossa economia de fora, e que se faz sentir de forma assaz no nosso país, muito devido a dívida oculta que exigiu medidas austéricas muito pesadas.Nyusi vê-se refém de resgates muito hipotéticos. 
Estes dois anos são caracterizados por um esforço notável do seu pelouro em redimensionar as bases da nossa economia, mas igualmente por um distanciamento e até desfasamento entre o discurso inaugural e algumas acções práticas. O combate ao despesismo não se fez sentir (pelo menos com as lentes que analiso estes dois anos), a criação de mais de emprego e a melhoria da condição de vida do povo não passaram de mera útopia
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Adriano Senete Meter Obama nisto !!!Nao percebi: Aprovacao 56%, Reducao da taxa De desemprego para niveis abaixo de a nove 9 anos!!!
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