| "Não há guerra em Moçambique, eu quero tranquilizar aos moçambicanos" Afonso Dhlakama |
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| Escrito por Hélder Xavier em 03 Julho 2013 (Actualizado em 04 Julho 2013) |
Na vila municipal de Gorongosa, na província de Sofala, a agitação é a mesma de sempre, apesar de há mais de quatro meses na zona ao redor do distrito notar-se a entrada de militares da Forças Armadas de Moçambique (FADM) e agentes da Força de Intervenção Rápida (FIR), uma unidade paramilitar da Polícia da República de Moçambique (PRM), todos os dias. Diga-se de passagem, a população continua a levar a habitual vida tranquila.
Porém, à entrada do posto administrativo de Vunduzi, a 30 quilómetros da vila sede de Gorongosa, o cenário é outro. Uma cancela improvisada da Polícia de Trânsito e da FIR no único acesso à localidade chama a atenção de quem por lá passa. Todos os veículos que se fazem àquele local são revistados pela Polícia moçambicana. Ao longo da via é possível ver militares da FADM de arma em punho, dando a impressão de que se caminha para uma região de guerra. O motivo é o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, que se encontra “aquartelado” em Sathunjira desde Outubro do ano passado. "Eu não sou prisioneiro, porque é que sou cercado?", questionou Dhlakama numa conferência de imprensa havida na quarta-feira, 03 de Julho, e acrescentou que “começo a acreditar nas informações de que me querem fazer aquilo que fizeram ao Savimbi, digo que não é a solução. Talvez em Angola tenha sido uma solução”.
Descontraído e no habitual jeito “informal” que o caracteriza, o líder da Renamo afirmou que só irá a Maputo para o encontro com o Presidente da República, Armando Guebuza, se forem criadas condições para a sua segurança pessoal e sejam retiradas as forças militares ao redor de Sathunjira. Sublinhou que está disposto a ir, mas não pode fazê-lo porque a zona onde se encontra é cercada pelo exército moçambicano.
“Não é porque a Frelimo pode atacar, mas os meus homens, sabendo que não estou, podem ser os primeiros a fazê-lo”, disse tendo ainda afirmando que "qualquer ataque à Sathunjira é generalizar a terceira guerra em Moçambique. […] É diferente um ataque aqui outro ali. Eu não quero que isso aconteça porque jurei que jamais iria dirigir a guerra. Estou aberto a ir a Maputo com a condição de se retirar essas forças de modo a evitar-se que, na minha ausência, façam o ataque ou os meus homens iniciem a investida". Porém, num outro ponto, o líder da Renamo questionou a razão de o encontro não poder ser realizado em Gorongosa. E afirmou também que o chefe de Estado, Armando Guebuza, "não é um líder sério", porque só reage quando a situação está crítica.
“O problema é a Lei Eleitoral”
A revisão da Lei Eleitoral continua a ser a exigência do partido Renamo. Na passada quarta-feira, Dhlakama voltou a tocar no assunto, tendo comentado que essa é a razão do impasse com o Governo moçambicano. Se as negociações entre as delegações do Executivo de Armando Guebuza e da Renamo que já vão na sua 9ª ronda avançarem, a sua força política vai participar nas eleições autárquicas que se avizinham. Segundo o líder do maior partido da oposição, a actual lei destina-se a acabar com a democracia em Moçambique e criar um conflito interminável.
A Renamo reivindica a paridade de membros na composição dos órgãos eleitorais do país. “Eles enchem as urnas de votos sozinhos no Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE)”, acusou Afonso Dhlakama para depois questionar: “Porque é que eles têm medo de se juntar aos outros?”
Sobre a delegação do Governo no diálogo, Dhlakama afirmou que "eu mandei o meu grupo seriamente, só o Pacheco é que não é sério". O líder da Renamo disse que o seu partido não luta para ganhar as eleições, mas sim para que a democracia se torne efectiva em Moçambique.
“Nós conhecemos dois Presidentes, não falo muito sobre Samora Machel porque o seu tempo era da revolução, de ódio, de perseguição aos colonos. Muitos dizem que era comunista mas, na verdade, ele não sabia o que era comunismo, lia o que os outros escreviam e repetia 'A luta continua'. E o outro (Joaquim Chissano) tentou melhorar, não digo que foi o melhor porque também roubou votos. Agora este (Guebuza) não. Se ele conseguisse, já teria mudado a Constituição da República para concorrer 40 vezes, essa é a intenção dele”, disse.
Dhlakama salientou que, se o mandato de Armando Guebuza terminar enquanto não tiverem sido resolvidos os problemas relacionados com as reivindicações apresentadas pelo seu partido e não houver eleições, a Renamo será obrigada a fazer uma campanha para a formação de um Governo de transição.
A despartidarização da PRM foi também um dos assuntos levantados pelo líder da Renamo. Afonso Dhlakama disse que os seus homens só integrarão a Polícia moçambicana se esta deixar de pertencer ao partido Frelimo. “Se isso acontecer, eu já posso dormir com a minha família sem medo de ninguém. Agora não é possível levar um homem que garante a minha segurança e colocar na Polícia da Frelimo, amanhã ele pode vir assassinar-me. Eu não sou burro”, afirmou.
De acordo com Dhlakama, a Renamo não é um partido armado, ao contrário da força política no poder que obriga todos os agentes da PRM a serem seus membros. “Os nossos homens foram corridos das FADM e os poucos são forçados a filiar-se à Frelimo. A FADM, que era orgulho nacional, já não é uma instituição do Estado, passou a ser um exército da Frelimo. Agora, qual é o partido armado?”, questionou.
Num outro pronunciamento, respondendo às questões colocadas pelos jornalistas sobre a possível participação da Renamo nas próximas eleições autárquicas, Afonso Dhlakama garantiu que o seu partido vai participar caso a Lei Eleitoral seja revista. “É preciso que se perceba que nós não estamos a boicotar as eleições, pelo contrário, estamos a negar a forma como o processo é conduzido, é um procedimento que vai matar a democracia”.
Ataques na EN1
Malagueta foi detido um dia depois de, numa conferência de imprensa, ter lido o comunicado do seu partido no qual anunciava a paralisação da circulação de pessoas e bens na EN1. “Ele leu uma declaração que não foi contra a Constituição, nem para dividir o país. Não vejo nenhum erro. Podia ter dito coisas mais horríveis do que aquilo porque há razões para isso”, disse o líder da Renamo e acrescentou que a nota lida pelo brigadeiro teve a sua autorização e o objectivo da mesma era alertar aos transeuntes de modo a tomarem cuidado ao circular naquele via que liga a região norte ao sul do país.
Dhlakama disse ainda que, enquanto os filhos dos dirigentes acumulam riquezas e estudam fora do país, a Frelimo manda “crianças”, de 18 anos de idade, para morrer nos confrontos com a Renamo. “Quero garantir a paz em Moçambique para todos, sentimos por aquelas crianças das FADM, de 18 anos idade, a carregar ferros e tudo para morrer de graça. Por isso, vocês jornalistas devem estar no lado certo, não se preocupem com o dinheiro (...) a paz e a democracia não são para a família Guebuza ou para a família Dhlakama são para nós todos", afirmou o líder da Renamo.
Os problemas que se verificam nos últimos dias, segundo Afonso Dhlakama, não são novos, eles surgem do não cumprimento do Acordo Geral de Paz. “Se a Frelimo tivesse cumprido, certamente, o problema seria outro. É que hoje querem que a Renamo aceite a incompetência da Frelimo e assuma que está a perder as eleições porque não tem capacidade, enquanto o mecanismo para a democracia não existe”, comentou.
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