Anne
Pingeot conforta a filha Mazarine, durante o funeral de François
Mitterrand, amante e pai, respetivamente, a 11 de janeiro de 1996
É a sensação editorial do ano em França: a publicação pela Gallimard de
mais de 1200 cartas de amor do ex-Presidente à sua amante secreta, ao
longo de três décadas. Cheias de arrebatamento, ternura, devoção e,
dizem os críticos, talento literário, revela-se, no centenário do seu
nascimento, um lado oculto de François Mitterrand. No peito de um
monstro político também bate um coração
Ele
chamava-lhe “Nanoon aimée”, “Anne chérie”, “Nannour”, “Animour”, “meu
pato com laranja amarga”… Ela chamava-lhe “Cecchino (petit François)”,
“meu criador de alegria”, ou “minhas anchovas com molho de maçã”. Todas
as cartas de amor são ridículas. Estas, do mítico e ambivalente
estadista francês – Presidente (entre 1981 e 1995) e 12 vezes ministro –
François Mitterrand, para a sua amante Anne Pingeot, conservadora do
Museu D’Orsay, especialista em escultura da segunda metade do século
XIX, não fogem à regra. Ridículas, sim, mas, encantam-se os críticos
literários franceses, de uma elegância e sensibilidade raras num
político – sobretudo se o ponto de comparação for Hollande ou Sarkozy.
Diz Jérôme Garcin do semanário L'Obs (ex-Le Nouvel Observateur):
“Mitterrand foi o nosso último Presidente a venerar a língua francesa, a
saber usar o passado do conjuntivo, a conhecer as subtilezas das
metáforas e a poder escrever vibrantes poemas de amor”.
Mais do
que a revelação de segredos de alcova, relações extraconjugais ou
satisfação de um vouyeurismo público ávido por escândalos íntimos,
mulheres traídas e amantes secretas de políticos galanteadores, os dois
volumes lançados à beira das comemorações do centenário do nascimento de
Mitterrand (26 de outubro de 1916) – Diário para Ana 1964-1970 (496
páginas) e Cartas a Ana (entre 1962 a 1995; 1280 páginas), cedidas pela
destinatária, que aguardou respeitosamente o falecimento, em 2011, de
Danielle, a oficial mulher do político –, são já considerados “um dos
mais importantes epistolários do século passado”, relevantes inclusive
para a história da política francesa recente. De Gaulle deixou as suas
memórias, Pompidou a sua antologia, Mitterrand, o Presidente que amava
gramática, os seus livros políticos e estas cartas de amor.
Uma das raras imagens do casal, François Mitterrand e Anne Pingeot, em passeio, na Acrópole ateniense
DR
Autobiografia de um casal
Pela
sua longevidade (mais de 30 anos de cartas trocadas), pela sua
clandestinidade, pela intensidade e qualidade de escrita que expressam,
as cartas confirmam um estilo lírico, por vezes adolescente, quase
comovente, de Mitterrand, e um interesse pela cultura e literatura que
partilhava com a estudante e futura curadora. Não só revelam a
cumplicidade que existia entre os dois – nomeadamente no que toca a
confissões políticas – mas também o testemunho epistolar surpreendente
de que o monstro político, a raposa matreira, ambiciosa e calculista,
sedutor em série, amara, com todas as suas contradições e incoerências,
Anne Pingeot, loucamente, até ao último suspiro – Mitterrand morreu de
cancro na próstata, em 1996. Ela nunca assumiu o papel de primeira dama,
mas foi, diz-se, o amor primeiro. Nas palavras da filha de ambos,
Mazarine Mitterrand, 41 anos, escritora: “A minha mãe é a heroína de um
filme que nunca ninguém verá”. Até agora.
Oriunda de famílias
católicas e conservadoras, Anne manteve-se sempre na sombra do
estadista. A “femme-fille-fleur-beau soleil” como ele lhe chama nas
cartas, mantém-se, hoje, aos 73 anos, em silêncio. Aceitou entregar e
organizar as cartas e as folhas do diário – meticulosamente guardadas
estes anos todos em caixas de sapatos – à editora, mas não quis fazer
nada para a sua promoção. Em curtas declarações à BBC, apenas proferiu
que “admirar a pessoa que se ama é uma imensa felicidade. Nunca se
entediar e partilhar todos os pontos de interesse torna-se numa
renovação permanente...” E falou de “32 anos de intensa felicidade”, mas
também, deixou escapar, “de tristeza”. Não conheceu nenhum outro homem,
nem antes nem depois de Mitterrand, tiveram uma filha em 1974, que
acabou por ser descoberta pela comunicação social. Quebrou-se o tabu,
mas o Presidente escolheu a política, fez um pacto com a sua mulher
Danielle, nunca se divorciou e vivia entre dois lares. Anne aceitou, não
se sabe de que forma, as suas cartas não foram reveladas, e citou
Mitterrand que costumava dizer que “não havia amor eterno que não fosse
contrariado”. No funeral compareceram duas viúvas: logo atrás de
Danielle, Anne cobria a cara com um véu – como num filme francês,
naquele a que, porventura, Mazarine se referia. A mãe, enfim, num papel
principal.
Vítima ou heroína de tragédia, certo é que Anne,
nascida em 1943 em Clermont-Ferrand, chegou bem longe na sua
especialidade em escultura, no Museu d' Orsay ou na sua passagem pelo
Louvre, e nas obras especializadas que produziu. Diz-se que a sua
sensibilidade artística também pode ter influenciado as opções de
Mitterrand e a política cultural de Paris. Aliás, o encontro dos dois
amantes começa com um livro sobre filosofia, uma obra sobre Sócrates,
que o futuro Presidente de França promete emprestar-lhe. É este o tema
da primeira carta que trocaram. Ela tinha 19 anos, e ele 47, com dois
filhos adolescentes, Jean Christophe e Gilbert, quase da idade de Anne.
Algumas cartas depois, presume-se que já seriam amantes. Conheceram-se
por intermédio do pai de Anne, um industrial abastado que jogava golfe
com Mitterrand, na praia estival de Hossegor. Ele já tinha muito passado
para trás (mulher, filhos, vários ministérios…), ela só tinha futuro
pela frente.
Sem pose oficial - A foto não está datada, apenas se sabe que François Mitterrand foi captado pela própria câmara de Anne
Esquerda
Sentimental
Nas
cartas e no diário (em que Mitterrand faz uma espécie de poemas
gráficos, com colagens, desenhos e alusões à arte de que ambos
gostavam), o Presidente dedicava-se a longas descrições de paisagens por
onde passava, relatava com detalhe debates no Parlamento, os livros que
lia, as partidas de golfe… Claro que a pretendia seduzir e conquistar,
mas muitos sugerem que ele, ao escrever-lhe, escrevia-se a si próprio,
admitindo, ainda que inconscientemente, uma publicação póstuma. E ia
compondo, assim, a sua própria posteridade, acrescentando-lhe um lado
mais sentimental, romântico – mais humano, em suma. “Luz, calor e
alegria não vêm de outro sol senão daquele que nos habita”, lê-se numa
das cartas.
Em 1969 escrevia-lhe “Encontrei-te e soube de
seguida, adivinhei, que iria para uma longa viagem”. Mais adiante: “Lá
onde estarei eu sei que tu estarás sempre. Não haverá mais noite
absoluta para mim. A solidão será menos solitária”. As cartas são mais
abundantes até 1974, altura em que lhes nasceu Mazarine, a filha que a
França, a meia boca, chamava ‘a filha secreta’”. Aí Mitterrand e esta
sua segunda família conseguiram manter um simulacro de vida doméstica.
Nos anos 60 declarava um amor arrebatado por Anne: “É um paradoxo
incrível: existo no mesmo momento em que me dissolvo em ti”. No final da
vida, com 80 anos, já com cancro, o homem que mantém o recorde de
longevidade na Presidência da República Francesa mantinha inalterados os
seus sentimentos: “A minha felicidade está em pensar em ti e amar-te.
Sempre me tens dado mais. Foste a sorte na minha vida. Como poderia o
amor não crescer?”.
Aceitar o inaceitável?
Danielle,
mãe dos filhos, companheira oficial desde 1944, não deve ter sofrido
menos com a humilhação pública, inquilina do Eliseu, desalojada do
coração do Presidente. Mitterrand casou-se com esta veterana da
Resistência em 1944 e nunca terá encarado a hipótese de se divorciar,
colocou a política e o seu estatuto de Presidente à frente dos assuntos
do coração. Ou terá sido o seu espírito sempre calculista, e até
oportunista, que levou o líder dos socialistas a conciliar uma
primeira-dama pública e uma amante privada? Na verdade, Danielle, a sua
“consciência de esquerda”, e que se juntou à Resistência contra os
ocupantes nazis com apenas 17 anos, tinha este capital de passado
político impoluto. O mesmo não se poderá dizer do magnético, brilhante,
sedutor mas politicamente habilidoso François.
As cartas de amor e
o diário não são a primeira bomba editorial de Mitterrand. Já em 1994, o
livro de um investigador Uma Juventude Francesa abala a França, com
provas inquestionáveis do que a respeitável figura da Internacional
Socialista não se podia orgulhar e muito se esforçou por ocultar: o seu
passado de colaboracionista com o governo de Vichy (estado satélite da
Berlim nazi), chegando mesmo a receber uma condecoração atribuída pelo
marechal Pétain, o chefe de Estado de Vichy, durante a Segunda Guerra
Mundial. Depressa se percebeu que a sua vida teve pontos turvos, e não
terá andado longe da extrema-direita. Deixando todo um percurso na
sombra, apresentava o seu currículo político como se ele se tivesse
iniciado na Resistência. Os historiadores comentam inclusive que se tais
factos viessem a público mais cedo, e ele não estivesse em final de
mandato, Mitterrand poderia ter sido forçado a demitir-se. Outras
facetas desta personalidade múltipla e complexa levaram-no a admitir o
arrependimento. As mesmas mãos manchadas de sangue, ao ter recusado, em
1956, o indulto a 45 independentistas argelinos, condenados à morte,
compunham poemas e belas colagens para a sua “Annamour”.
(Artigo publicado na VISÃO 1234, de 27 de outubro)
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