Tuesday, November 17, 2015

Como resistir ao unilateralismo



ANÁLISE

1.A Europa acaba de receber um brutal murro num dos seus pontos mais vulneráveis. A França está no coração da integração europeia. A França continua à procura do seu lugar na Europa que emergiu da reunificação alemã e europeia.
 Ainda está a tentar retomar a respiração. Não tem muito tempo para encaixar o ultraje e começar a pensar globalmente a teia complexa de desafios vitais que enfrenta no longo prazo. A dimensão dos acontecimentos de Paris não é dada apenas pelo terror vivido na cidade-luz. Antes do 13 de Novembro, as forças de segurança francesas tinham conseguido impedir cinco atentados. No Reino Unido ou na Alemanha a média dos atentados evitados é sensivelmente a mesma. Sabe-se hoje que os terroristas prepararam a operação na Bélgica e na Alemanha. E já se sabia desde os atentados de Londres em 2005 que a maioria dos terroristas eram cidadãos europeus, da segunda ou terceira geração de imigrantes muçulmanos. Também se sabia que as acções dos “lobos solitários” rapidamente se poderiam transformar numa rede melhor organizada e mais directamente dependente do autoproclamado Estado Islâmico. Em Setembro, o editor de Segurança do Financial Times escrevia um artigo a antecipar esta mudança. O Daesh “está a dar forma a uma política para expandir a sua influência, conquistar novos territórios, desestabilizar os seus vizinhos e exportar terror para os seus inimigos mais distantes”. Paris comprova esta nova estratégia e exige muito mais do que gigantescas manifestações nas ruas da capital francesa ou o gesto solidário que cobriu os mais emblemáticos monumentos europeus e norte-americanos com as cores da bandeira francesa ou a redescoberta da Marselhesa, que David Cameron prometeu cantar no encontro amigável de futebol entre o Reino Unido e a França, perto de Londres, que se realizou ontem, também com a presença de Angela Merkel
2.Para lá das emoções que ainda estamos a viver, houve em Paris uma mudança de página. Ficar tudo na mesma deixou de ser opção. A resposta não pode ser apenas francesa, terá de ser europeia. Exige, de uma vez por todas, aos europeus que definam uma estratégia comum para sobreviver no mundo que os rodeia. Da economia à segurança. Cada gesto e cada decisão política de Hollande terão de ser pensados nesta perspectiva ou significarão muito pouco. Cada gesto ou cada decisão dos seus principais parceiros tem de ter este objectivo em vista. As feridas abertas pela crise do euro ainda não sararam. O desafio que enfrenta é mil vezes mais exigente. Terá de perceber, como diz Joscka Fischer, que ou se salva em conjunto ou ninguém, pequeno ou grande, se salvará.  No site do European Coucil on Foreign Relations, Mark Leonard lembrava que a Europa deixou de conseguir exportar a democracia para passar a importar o caos. Há dois anos teve de enfrentar a crise ucraniana.
3.O brutal murro no estômago aconteceu no exacto momento em que a Europa enfrentava uma outra consequência dramática da instabilidade e da violência instalada nas suas fronteiras. A vaga de refugiados que lhe entrou pela porta dentro fugindo da mesma barbárie que agora atingiu o coração da França era, em si mesma, um desafio aos valores europeus, tocando no mais fundo da sua identidade política. Como sabemos a resposta não foi animadora. Angela Merkel viu-se alvo de um forte ataque interno (e de variadíssimas críticas externas), apenas porque disse que não ia fechar as portas aos refugiados porque não era essa a Europa que desejava. O regresso “temporário” das fronteiras já era um sinal preocupante. Os atentados de Paris vieram dar um novo contexto a esta crise, oferecem de bandeja aos partidos xenófobos e antieuropeus matéria para reforçar a sua ideologia do medo e do nacionalismo. Também neste capítulo a França é um elo fraco, perante a Frente Nacional de Marine Le Pen, que será o pesadelo das próximas eleições presidenciais. O pior é o efeito corrosivo do medo nas democracias europeias. E o medo é o pior inimigo da razão. Saber o que fazer não será fácil. Saber o que não fazer remete-nos para as consequências do 11 de Setembro.

4. As primeiras palavras do Presidente francês foram o eco de outras que já muita gente tinha esquecido: aquelas que George W. Bush pronunciou depois dos atentados de Nova Iorque e de Washington quando decretou a guerra à guerra da Al-Qaeda. O que aconteceu depois foi uma alteração radical e unilateral da política externa americana com consequências profundamente negativas para o sistema internacional, que hoje já quase toda a gente reconhece. Fraca e de mal consigo própria, a França continua a ser um dos raros países europeus capazes de projectar o seu poder militar. Hollande já o tinha comprovado no Mali, na República Centro-Africana, quando liderou a guerra na Líbia com os ingleses ou na sua disponibilidade imediata de apoiar Obama na retaliação contra o regime sírio, quando Assad ultrapassou a linha vermelha do recurso às armas químicas. A sua declaração de guerra não é apenas retórica, destinada a tranquilizar os franceses. A decisão de accionar o artigo do Tratado de Lisboa que define a chamada “cláusula de solidariedade” em caso de ataque a um dos membros da União, vai no mesmo sentido. A resposta foi unânime e veio em primeiro lugar de Berlim. Percebe-se a urgência de Paris. Mas nada disto chega para enfrentar os desafios estratégicos que a Europa tem pela frente.
                          

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