Durante a operação a população gritava palavras de ordens: “vergonha”
em repúdio à invasão policial à casa de Dhlakama e “queremos
Dhlakama” em apoio e solidariedade ao líder da oposição.
Um grupo de quase 300 pessoas começou a agrupar-se do lado
do antigo condomínio da empresa Vale, que separa por estrada a casa de
Afonso Dhlakama, com ameaças de ataque a Polícia, que por sua vez disparou
três tiros e gás lacrimogénio contra o aglomerado, tendo atingido
igualmente o grupo de jornalistas que estava daquele lado.
Contudo, continuaram rumores de que um grupo de pessoas, com paus
e machados, vinham dos bairros da Munhava e Manga, para enfrentar a
Polícia, e forçar a dissolução do cerco da Polícia.
Os membros das forças especiais começaram a retirar-se do local quase as
16h10 minutos, com raides barulhentos e buzinas, sugerindo que tinham
ganho a “batalha”, ao mesmo tempo que centenas de pessoas aproximaram-se
a casa de Dhlakama com cânticos solidários.
Afonso Dhlakama saiu do interior da sua casa, pela primeira vez desde
que tinha entrado no dia anterior, e fez uma saudação de agradecimento,
ao mesmo tempo que apelou à população a não retaliar a atitude da polícia.
No sábado pela manhã, quando o SAVANA voltou a casa do líder, encontrou
um guarda que esteve preso e reconstituiu o martírio que viveram no
blindado até as celas da Polícia.
“Houve violência, muitos foram batidos com coronhas de armas por se recusarem
a falar. Perguntavam se havia motoristas entre os presos, e quanto
salário recebiam. Fizeram um inquérito completo sobre o tempo de ingresso
na Renamo, a categoria militar, além da participação em combates.
Insistiam sempre se o brigadeiro Nyongo está aqui? Estes gajos mataram-
-nos muitos, quem vos ensina disparar assim”, contou o guarda.
Polícia descarrila novamente
No seu habitual briefing semanal esta terça-feira, a Polícia admitiu que
não tinha autorização judicial para invadir a casa do líder da Renamo
na sexta-feira na Beira, e justificou a acção como de proteção a eventual
“aproveitamento maléfico” que pudesse atentar contra a segurança de
Afonso Dhlakama.
“Nós respeitamos os termos legais, mas, neste caso, foi uma acção para
recolha de armas que estavam ilegalmente em mãos alheias e a criar situações
de insegurança”, disse Inácio Dina, porta-voz do comando geral
da PRM.
De forma hipócrita, o porta-voz da PRM disse que a acção da polícia
tinha a intenção de garantir a própria segurança de Dhlakama, evitando
“um aproveitamento maléfico” que pudesse atentar contra o próprio líder
da Renamo.
“O que aconteceu foi apenas uma recolha de instrumentos que poderiam
ser perigosos para o próprio Dhlakama. As armas de fogo devem ser detidas
pelas forças de segurança”, salientou Inácio Dina, evocando a lei mo-
çambicana, mesmo que, no entanto, admita que não houve um mandado
judicial.
“Agora [Afonso Dhlakama] está em condições bem seguras”, declarou o
porta-voz da PRM, sublinhando que “a polícia sempre esteve atenta à sua
protecção”.
Rebatendo a versão da Renamo, segundo a qual a operação tinha como objectivo
a recuperação de três armas de fogo esquecidas pelas forças policiais
num suposto ataque à caravana de Dhlakama, Inácio Dina sublinhou que a
intenção era desarmar um “grupo armado” que, contra o que anteriormente
foi acordado, começava a colocar em causa a ordem pública, não se limitando
à protecção do seu líder.
“Nós estamos a falar de várias armas que estavam a ser detidas ilegalmente
por indivíduos e serviam para hostilizar as populações, criando uma
instabilidade”, afirmou Dina, enaltecendo a importância da “colaboração
pacífica” do líder da Renamo.
Questionado sobre a exigência da Renamo de criação de uma equipa conjunta
para a protecção de Dhlakama, o porta-voz da PRM disse que a decisão
virá das lideranças políticas, considerando que esta não é a primeira
vez que se discute a integração na polícia e no exército dos militares do
maior partido de oposição em Moçambique.
“Nós estamos à espera de uma decisão”, declarou Dina, salientando que,
dentro do quadro legal moçambicano, a polícia está pronta para cumprir,
mantendo a ordem e segurança pública.
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