Monday, October 19, 2015

“Pode um vencedor de um prémio da paz apelar à guerra?” Pode


No último dia, a Feira do Livro de Frankfurt recebeu refugiados e ouviu o escritor Navid Kermani, Prémio da Paz, pedir mais determinação face à guerra na Síria.
O escritor alemão de origem iraniana Navid Kermani numa das sessões da feira ALEXANDER HERMANN/FEIRA DO LIVRO DE FRANKFURT
De um lado os miúdos que chegam às centenas, fantasiados e maquilhados como os seus heróis favoritos de manga, para participarem na final do Campeonato Nacional Alemão de Cosplay, a decorrer no Centro de Congressos da Feira do Livro de Frankfurt, onde rapidamente montam uma venda de fatos, perucas, jogos, livros e filmes de BD japonesa. Do outro os editores de vários países do mundo, que já preparam a partida e empacotam atarefados os livros que trouxeram para expor nos seus stands. Apresentado este cenário, é fácil perceber por que razão o último dia daquele que é o mais importante evento mundial da indústria editorial prima pela balbúrdia.
Embora alguns pavilhões, como o dos Estados Unidos, cujos editores e agentes literários concentram os seus negócios principalmente nos primeiros dias da feira, estejam já muito vazios, nos dos alemães não se consegue circular sem andar aos encontrões, cenário agravado pelo facto de a feira, nos últimos dias, estar aberta ao público (nos primeiros é só para profissionais do mercado do livro).
Neste último domingo, o centro de congressos recebeu também refugiados, que tiveram a oportunidade de participar em visitas guiadas nas suas línguas de origem. Isto porque os organizadores da feira, a LitCam – Campanha pela Literacia e a Associação dos Editores e Livreiros alemães lançaram há mais de um mês, no dia 8 de Setembro, uma iniciativa especial a que chamaram “os livros dão as boas-vindas”, destinada a participar nos esforços de acolhimento de todos os que têm chegado à Alemanha com pedidos de asilo, na sua maioria oriundos da Síria.
Por todo o país, são já cerca de seis mil as livrarias que estão a angariar donativos junto dos seus clientes para que possam ser comprados romances e outros livros, principalmente escolares, didácticos e de apoio ao ensino da língua alemã, que serão depois distribuídos por Cantos de Leitura e de Aprendizagem criados perto dos centros de apoio aos refugiados.
Estas iniciativas foram apoiadas pelo escritor e ensaísta Navid Kermani, especialista em Estudos Islâmicos, que este domingo de manhã recebeu na Igreja de São Paulo, em Frankfurt, o Prémio da Paz dos Editores e Livreiros Alemães pela sua contribuição para o diálogo entre religiões. O autor que é alemão, de ascendência iraniana, está publicado em inglês - God is Beautiful: The Aesthetic Experience of the Quran e The Terror of God: Attar, Job and the Metaphysical Revolt. O prémio, no valor de 25 mil euros, já foi atribuído a Liao Yiwu, Orhan Pamuk, Susan Sontag, Jürgen Habermas, Amos Oz ou Václav Havel.
No seu discurso de agradecimento, perante mil convidados, Navid Kermani pediu mais firmeza à Europa face à guerra na Síria: “Pode um vencedor de um prémio da paz apelar à guerra? Não estou a pedir a guerra. Estou só a dizer que está a acontecer uma guerra e que também nós, como vizinhos, temos de responder por ela, possivelmente através de meios militares, sim, mas acima de tudo com muito mais determinação do que aquela que tem sido mostrada até aqui, tanto pelos diplomatas como pela sociedade civil.”
O escritor, que é muçulmano, defendeu ainda que só quando as sociedades deixarem de aceitar esta “loucura” é que os governos vão agir. “Seja o que for que façamos neste momento, vamos com certeza cometer erros. Mas o nosso maior erro será não fazer nada ou fazer muito pouco contra o assassinato em massa que está a ser levado a cabo pelo estado islâmico e o regime de Assad à porta da Europa.”
Kermani defendeu ainda que o islão está numa “guerra contra si próprio” e lembrou que, apenas a três horas de avião de Frankfurt, estão a ser “exterminadas ou expulsas etnias inteiras”, destruindo-se ao mesmo tempo algum do mais importante património cultural da humanidade. 
“Qualquer muçulmano que não o coloque em dúvida e que não o questione criticamente, não ama o islão”, defendeu no seu discurso.
O PÚBLICO viajou a convite da Embaixada da Alemanha

No comments:

Post a Comment

MTQ