Walter Tondela, advogado, afirma que o “rapper” não voltará a comer enquanto estiver detido.
Por Rede Angola com Agência Lusa.
Clínica Girassol[ Francisco Bernardo/JAImagens ]
Ao 26.º dia de greve de fome e a ser transportado de cadeira de rodas desde o dia 13, Luaty Beirão continua irredutível na sua decisão de não se alimentar até que lhe seja concedida a liberdade, que alega ser-lhe legítima por ter já sido ultrapassado o prazo de prisão preventiva. O seu estado de saúde cada vez mais fragilizado levou à sua transferência ontem à tarde para a Clínica Girassol, em Luanda.
De acordo com uma publicação na página oficial dorapper, a deslocação para aquela unidade médica aconteceu depois de Luaty ter tido uma “dormência no rosto por duas horas” no fim do dia de quarta-feira. Walter Tondela, advogado, afirmou ao Rede Angola que a medida foi sugerida às autoridades por uma médica familiar de Luaty que tem acompanhado o caso de perto.
Nas redes sociais, está a circular uma carta alegadamente assinada pelo activista, onde indica que continua em plena posse de todas as suas faculdades mentais e que declara que prescinde de qualquer assistência médica caso entre em estado de coma. Tondela não confirma a autenticidade do documento, mas confirma a lucidez e irredutibilidade da sua posição. “O seu estado, a cada dia que passa, vai-se agravando. Ele não vai voltar a comer, diz que só quer liberdade.”
A situação dos presos políticos em Angola continua a ter destaque na imprensa e opinião pública internacionais. Numa referência indirecta ao caso dos jovens acusados de golpe de Estado, o texto do discurso do Estado da Nação de José Eduardo dos Santos, lido por Manuel Vicente devido à indisposição do Presidente da República, pede que o recurso da violência fique “enterrado no passado”, e que não haja “atalhos políticos” para a tentativa de conquista do poder.
O texto também insinua a presença de entidades estrangeiras por trás do caso, afirmando que este tipo de agentes não-africanos tem incitado o caos em todo o continente, mas que Angola jamais vai ceder.
Ontem, a Amnistia Internacional no Brasil comentou que “as detenções e as acusações formuladas pelo Estado angolano contra os 15 activistas constituem um exemplo chocante do quão longe as autoridades do país estão dispostas a ir para suprimir a dissidência pacífica”. A organização pede aos cidadãos brasileiros que escrevam emails ao embaixador de Angola no Brasil a pedir que se “libertem imediata e incondicionalmente os prisioneiros de consciência e que assegurem que, enquanto se aguarda a sua libertação incondicional, não sejam sujeitos a tortura ou outros maus tratos”.
Posição do governo português
O governo português reiterou hoje que “tem acompanhado a situação de Luaty Beirão de perto e desde a primeira hora, particularmente tendo em conta os seus contornos humanitários”, indicou o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE).
Em comunicado enviado à Lusa, o MNE sublinhou que “este acompanhamento tem sido feito de forma mais próxima através da embaixada de Portugal em Luanda, a nível bilateral e em coordenação com a delegação da União Europeia [UE] na capital angolana e com as demais embaixadas dos Estados-membros da UE”.
A polémica em torno da situação de Luaty Beirão, cujo estado de saúde se deteriora a cada dia que passa, prende-se com o facto de este ter também nacionalidade portuguesa, o que levantou questões sobre o que estariam as autoridades portuguesas a fazer por ele, às quais o Ministério dos Negócios Estrangeiros afirma ter respondido em “declarações e informações já prestadas a vários órgãos de comunicação social”, incluindo ao Rede Angola (ver aqui).
Na nota hoje enviada à Lusa, o MNE reforça que, “mesmo antes de esta situação ter assumido contornos mediáticos, já as autoridades portuguesas – designadamente o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros [Rui Machete] – estavam em contacto com as autoridades angolanas e com familiares dos detidos, a pedido destes”.
“Ainda ontem [quarta-feira], os embaixadores da UE em Luanda puderam manifestar preocupação pela condição de Luaty Beirão ao ministro da Justiça de Angola, numa reunião especialmente dedicada a este assunto e na qual participou o embaixador de Portugal”.
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