A irmã do ativista durante uma vigília realizada na passada semana em Lisboa
| PAULO SPRANGER-GLOBAL IMAGENS
Ativista permanece "lúcido" e família revelou que quer ser julgado como angolano
O ativista angolano Luaty Beirão, acusado de preparar um golpe de Estado, vai continuar em greve de fome, exigindo aguardar julgamento em liberdade, frustrada a tentativa de o demover do protesto, garantiu ontem o seu advogado.
"Coloquei-lhe a questão, as vantagens e as desvantagens, mas ele disse que perante o que recebeu, não vê porque tem de mudar a posição. Ficou desiludido", disse à Lusa o advogado Luís Nascimento, ao fim de uma hora de reunião com Luaty Beirão na clínica privada de Luanda onde o rapper e ativista está internado, sob detenção, entrando hoje, quarta-feira, no 31.º dia da sua greve de fome.
Os advogados pretendiam demover Luaty Beirão deste protesto, tendo em conta a notificação, na segunda-feira, do início do julgamento da acusação da preparação de um golpe de Estado e de um atentado contra o presidente angolano (juntamente com mais 16 arguidos), previsto para 16 a 20 de novembro, no Tribunal Provincial de Luanda.
Luís Nascimento disse à Lusa que Luaty Beirão está "lúcido, estável e informado de toda a situação atual", quando ainda correm recursos sobre o alegado excesso de prisão preventiva (além dos 90 dias previstos) de 15 dos 17 arguidos, detidos desde junho.
"Ele não sabe por quanto mais tempo poderá manter-se lúcido, mas diz que o protesto é para continuar. Mas também mantém alguma esperança de que, antes do julgamento, o Tribunal Supremo ou o Tribunal Constitucional tomem alguma decisão no sentido do que a defesa pretende. A questão é a boa vontade desses órgãos", apontou ainda o advogado.
Luís Nascimento, que juntamente com o colega Walter Tondela defende 13 dos arguidos, admite que o previsível agravamento do estado de saúde do jovem até ao início do julgamento condicionará a defesa em preparação. "Mas a intenção dele não vai no sentido de desistir", reconheceu.
O julgamento do caso arranca a 16 de novembro, no Tribunal Provincial de Luanda, prolongando-se por cinco sessões já agendadas.
Além de Luaty Beirão, de 33 anos, que assina com os heterónimos musicais "Brigadeiro Mata Frakuzx" ou, mais recentemente, "Ikonoklasta", também Albano Bingobingo, outro dos 15 ativistas em prisão preventiva neste processo, iniciou a 9 de outubro, pelos mesmos motivos, uma greve de fome, mas, segundo denúncia da família, sem receber os necessários tratamentos médicos.
Os suspeitos têm idades entre os 19 e os 33 anos e são professores, engenheiros, estudantes e um militar, entre outras ocupações.
Em causa está uma operação policial desencadeada a 20 de junho de 2015, quando 13 jovens ativistas angolanos foram detidos em Luanda, em flagrante delito, durante a sexta reunião semanal de um curso de formação de ativistas, para promover posteriormente a destituição do atual regime, diz a acusação.
Outros dois jovens foram detidos dias depois e permanecem também em prisão preventiva.
"Julgado como angolano"
Luaty Beirão pretende ser julgado apenas como angolano, indicou ontem a família. "Ele é angolano. Também é português, mas é angolano. Nasceu e vive em Angola e está a ser acusado como angolano", afirmou em Luanda Mónica Almeida, a esposa do ativista.
A família assume que Luaty "dispensa" Portugal "dessa responsabilidade" - apoio consular ou na defesa -, numa altura em que são conhecidas diligências do governo e da diplomacia portuguesa neste processo, nomeadamente para um encontro em privado com o ativista. "[Luaty Beirão] abdica poder ser tratado de forma diferenciada, por convicção e respeito aos seus restantes companheiros presos. Espera poder continuar a contar com toda a crescente solidariedade da sociedade civil portuguesa e europeia relativamente a este, que é um caso de liberdade de expressão e direitos humanos que envolve um grupo de pessoas", lê-se num comunicado divulgado pela família.
Para hoje, em Lisboa, está prevista nova vigília de solidariedade no Rossio, às 18.30, por iniciativa da Amnistia Internacional. Numa outra ação de solidariedade, o artista plástico André de Castro está a criar uma série de serigrafias com os rostos dos detidos, que pretende apresentar em próximas exposições no Brasil e em Nova Iorque.
Jornalista da Lusa
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