
Audiência de Cavaco Silva com o PS em Belém
| MANUEL DE ALMEIDA / LUSA
Líder socialista revelou que está em condições de governar com "suporte maioritário". Porta-voz bloquista confirmou acordo
Jerónimo de Sousa vai hoje a Belém repetir o que ontem António Costa e Catarina Martins disseram a Cavaco Silva - que há uma solução de governo com apoio maioritário à esquerda. E que nem é preciso esperar mais: o Presidente da República pode indigitar já o secretário--geral do PS para formar governo.
À saída da audiência, Passos Coelho (o PSD foi o primeiro partido a ser recebido) garantia que é ao seu partido que cabe "naturalmente constituir governo", mas uma hora depois a sua declaração era atropelada pelo anúncio de Costa de que há uma solução "maioritária" à esquerda.
"Estão criadas as condições para que o PS possa formar um governo com suporte maioritário, que assegure estabilidade para o conjunto da legislatura", atirou o líder do PS. Uma afirmação que seria corroborada, passada outra hora, pela porta-voz bloquista Catarina Martins, ao dizer que "estão criadas as condições para uma alternativa estável na Assembleia da República".
Essa alternativa escreve-se à esquerda, com o PS a contar - ainda que o documento final esteja por fechar - com o apoio parlamentar do BE e do PCP (ver págs. 4 e 5). E quer António Costa quer Catarina Martins acham que o Presidente da República pode indigitar o secretário-geral do PS para formar governo sem passar pela casa da direita.
Costa remeteu para Cavaco Silva qualquer decisão final. "O Presidente da República é a quem cabe fazer o juízo de qual o melhor caminho a seguir. O que transmitimos é que julgamos que estão criadas condições para o PS formar governo que disponha de apoio maioritário na Assembleia da República", repetiu.
Para o líder socialista, não há razão para perder tempo. "O país não ganha nada em prolongar no tempo uma situação de incerteza", apontou. E reforçou: "Não podemos adiar" uma solução porque "é urgente um governo que possa assegurar estabilidade", insistiu Costa, recuperando uma formulação cara ao Presidente da República, a da solução estável de governo.
O líder socialista manteve o pé no acelerador da pressão ao Presidente, ao referir que o ideal seria evitar "soluções que antecipadamente sabemos que não têm a viabilidade de terem apoio parlamentar maioritário", como será o de indigitar Passos Coelho quando se sabe que a coligação PSD e CDS chumbará na primeira oportunidade no Parlamento. "Pelo contrário", completou Costa, "devemos ganhar tempo, contribuir para que o país encontre um rumo com a maior urgência possível".
António Costa sublinhou ainda que esta solução com "apoio maioritário" representará a "vontade de mudança" determinada nas eleições de 4 de outubro.
Já Catarina Martins alinharia em sentido idêntico, em jeito de recado a Cavaco Silva, afirmando que "indigitar Pedro Passos Coelho para formar governo será apenas uma perda de tempo".
Sorridente, a porta-voz bloquista explicou o que disse na audiência a Cavaco Silva: "O Bloco de Esquerda reafirmou que apresentará moção de rejeição [a um eventual executivo PSD-CDS] porque considera que esse governo não corresponde à vontade maioritária destas eleições."
Catarina Martins acrescentou outro dado: "Simultaneamente, estamos empenhados na viabilização de um outro governo. No que diz respeito ao BE, estão criadas as condições para um governo que não tenha Passos Coelho nem Paulo Portas, um governo que vire a página da direita e que permita proteger emprego, salários e pensões."
Já no final da tarde, à saída da audiência do CDS, Paulo Portas tentou a matemática quando a questão já era política. O líder centrista disse que os portugueses "sabem ler factos simples". Nas últimas eleições "houve dois candidatos a primeiro-ministro: a coligação, com Pedro Passos Coelho, ficou em primeiro lugar. O PS ficou atrás". Por isso mesmo, sublinhou, "neste momento, o primeiro passo é indigitar" Passos Coelho "com um mandato para governar. Foi essa a escolha dos portugueses e deve-se estar à altura da escolha do povo português".
Questionado sobre se Cavaco devia chamar Costa no lugar de Passos, o ainda vice--primeiro-ministro rematou: "É absolutamente extraordinário ver um líder político à procura da sua sobrevivência, que considera o voto dos portugueses um detalhe e o Parlamento uma formalidade."
De Belém, nem sinal do que poderá fazer o Presidente da República. A direita espera que se cumpra a formalidade de ver Passos e Portas formarem governo. Para cair na Assembleia da República. Logo aí se saberá se Cavaco prefere chamar o segundo partido mais votado (o PS) ou deixar o atual governo PSD-CDS em gestão, arrastando uma decisão para o próximo Chefe do Estado.
Com João Pedro Henriques, Octávio Lousada Oliveira, Paula Sá e Valentina Marcelino
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