Friday, October 23, 2015

Dhlakama armadilhado: Da parte incerta ao desarmamento

 Por André Catueira*
Oito horas depois de ocupar a sua casa nas Palmeiras, Dhlakama acordou cercado, às 06h00 de sexta-feira, 09, e mais tarde “invadido” por forças de elite da polícia, que precisaram de 10 horas (até cerca das 16h30) - entre empurrões, pontapés, muitos nervos e alguma negociação - para desarmar a sua guarda. Mostrando a sua fibra, Dhlakama evitou claramente um banho sangue na cidade que é conhecida pela sua hostilidade à Frelimo e às entidades governamentais a soldo do mesmo partido. Na operação da sexta-feira apareceram do lado da polícia homens armados à civil, um denominador comum com os dois ataques anteriores à comitiva de Dhlakama em Chibata (a 12 Setembro, 16km a oeste de Chimoio, na EN6) e Zimpinga (25 Setembro, 41 km a leste de Chimoio na EN6, entre Gondola e a Missão de Amatongas). Um percurso moroso A operação de resgate de Dhlakama esteve para acontecer quarta-feira, mas, em Maputo, os mediadores não obtiveram na segunda-feira as autorizações e os bilhetes para partirem para o centro do país. Acordou-se depois que deveria haver também um representante governamental, para o caso, o brigadeiro Mucave, do Ministério do Interior (MINT). Os mediadores acabaram por sair para a Beira no voo da noite de quarta-feira. Às 08h47 minutos, a comitiva da Beira, com os mediadores no diálogo entre o Governo e a Renamo (e onde vinha também a jurista Alice Mabota e o jornalista Fernando Lima), junta-se à equipa de jornalistas, que vinha de Chimoio, no cruzamento de Inchope e segue em direcção à vila da Gorongosa, onde se chegou depois de uma hora de viagem. Estava afastada a hipótese de a “parte incerta” ser no distrito de Gondola, onde o líder da Renamo foi visto pela última vez. Da Beira veio uma “delegação de peso” da Renamo: o SG Manuel Bissopo, Ivone Soares, José Manteigas, António Muchanga e Fernando Mazanga, para além de vários militares em traje civil. Numa pausa na Gorongosa, Lourenço do Rosário, que chefiava a equipa de observadores, faz uma declaração curiosa: “efectivamente que já estamos num roteiro novo, que já se está a pôr em prática aquilo que é a agenda: discutirse a sério a desmilitarização da Renamo, e depois toda a agenda de inclusão e boa governação no país”, insistindo que era prioridade “desarmar a Renamo”. Na mesma ocasião, D. Dinis Sengulane, no seu tradicional apelo à paz, defendia que com o reaparecimento de Afonso Dhlakama, era “uma oportunidade de todos trabalharmos por esta causa (paz), sem receio e nenhuma dúvida de que não há outro ser humano que quererá eliminar outro”. Cerca das 10h30, as viaturas perfiladas em caravana na vila – contabilizámos 26 carros alguns com matrículas do Estado - e sem se saber ainda o destino concreto, rumamos pela EN1 na direcção norte da Gorongosa, avistando-se à nossa direita a encosta da serra que acomoda a base de Satunjira, para onde a maioria pensava que fôssemos. Desta vez a oeste Pelas 11h00, 12 quilómetros depois, no cruzamento da EN1 com Malinde, desviamos à esquerda para uma picada de areia creme e muita rocha e começámos a descer em direcção à localidade de Sacudze, onde em tempos funcionou um temível centro de reeducação, de onde em 1976 se evadiu André Matsangaíssa, o primeiro líder da Renamo. No cruzamento para Sacudze, virámos ainda mais para sudoeste, em direcção a Cudzo, numa picada para madeireiros tipo “sobe e desce”, bordejada pela floresta de miombo e com inúmeras concessões florestais explorando a massa e a pagapanga. As comunicações por telefone eram péssimas. Nem a chamada “telefonia do mato” ajudava. Claramente não havia coordenadas de GPS para o local onde estava o líder. O chefe da polícia, tentando ser simpático, dizia que no dia anterior “tinha pedido o mapa à Renamo” para facilitar o trajecto. Volvidas 4:15 minutos, depois de evitarmos o rio Vunduzi, perdida a direcção por duas vezes e depois de se aceitar a “escolta” de motoqueiros com enormes bandeiras da Renamo nas motos, já numa picada do régulo Mucucua, a sul de Cudzo, guiados também por pequenos galhos de árvores indicando o troço correcto, avistámos o primeiro cordão de segurança de Afonso Dhlakama, que vedou a passagem do carro da escolta da polícia para o perímetro onde estava o líder da Renamo, mas deixa passar o resto da caravana. Finalmente Às 15h15, Afonso Dhlakama reaparece numa mata fechada, na berma da estrada, visivelmente pálido e cansado, óculos escuros, ao lado de duas cadeiras plásticas verdes sobrepostas, onde se supõe tenha estado sentado à espera da chegada da comitiva. No local não havia nenhum sinal de acampamento. Os homens da sua guarda ao redor, com as trouxas que sobraram do ataque do dia 25 de Setembro, algumas esteiras enroladas, além de panelas e copos, sugerindo terem sido requisitadas durante a sua estadia na mata. Dhlakama saúda primeiro os mediadores, depois o oficial sénior do MINT que esteve em frente das operações do seu reaparecimento, e de seguida aos jornalistas, pelos seus respectivos nomes um a um. Ao todo eram 19 jornalistas (incluindo cameramen e fotógrafos) de órgãos públicos e privados nacionais e estrangeiros. Faz uma saudação mais calorosa para o repórter da TVM que, nas suas palavras, foi pressionado inúmeras vezes para reportar negativamente sobre a Renamo. “Meu amigo ainda vais perder o emprego”, disse em tom jocoso. O ritual do reaparecimento de Dhlakama é dirigido pelo professor Lourenço do Rosário, mas é logo interrompido por uma oração do bispo Sengulane, perante a impaciência de muitos, pois o pôr do sol está próximo e ninguém quer ser apanhado à noite no meio da floresta. Depois, a imprensa quer uma declaração de Afonso Dhlakama, mas os jornalistas são avisados que as perguntas seriam reservadas para uma conferência de imprensa à sua chegada na Beira. Já morri Numa breve declaração, dois minutos, Dhlakama, que tinha escapado ileso em duas emboscadas, surpreende os jornalistas e afirma: “Não tenho medo de morrer. Já morri, para mim já morri”. Prosseguindo, Dhlakama disse que tinha galgado montanhas e matas para chegar a Mucucua, e justificou a razão de ter reaparecido na Gorongosa, distante de Zimpinga (Gondola), onde havia sofrido uma sangrenta. “Como sabem o que aconteceu foi em Manica, tínhamos de percorrer quilómetros e quilómetros nas montanhas para chegar aqui. Queríamos que a operação pudesse ocorrer em Manica, mas vimos que havia obstáculos, havia muito reforço (de militares) nas estradas e tudo, decidi fazer um corta-mato para chegar até aqui. Portanto, ainda não é o momento de dizer o que é que aconteceu, mas dizer o meu muito obrigado, porque encontraram-me vivo, vivo porque Deus existe”, declarou Dhlakama, mandando recados para o povo “contar comigo como sempre, não iremos desistir por temer a morte”. Dhlakama, que estava em alerta pela movimentação em Manica de altos quadros do Ministério da Defesa Nacional, garantiu que ia continuar a trabalhar e prometeu não se vingar, por não “ter em Moçambique figuras de quem me posso vingar”. Mais relaxado e depois de tirar os óculos (precaução devido a uma operação às cataratas), Dhlakama repete várias vezes: “temos tudo aqui, intelectuais, clérigos, jornalistas, muitos, todos moçambicanos, não há americano, isto é unidade nacional … o que falta para nos entendermos?”. Do Rosário quer saber se a missão dos mediadores “termina aqui ou na Beira …”. Dhlakama interrompe-o. “Vamos falar amanhã na Beira. Falamos e depois vamos a Maputo, para assinar o que tiver de ser assinado”. Dhlakama deixa o local de resgate perto das 16horas, para um percurso de 41km na picada e depois de vários discos de embraiagem queimados devido aos declives muito acentuados. Às 18h40 faz uma pausa na vila da Gorongosa, desce do carro e através de um megafone, saúda a população que tinha invadido a estrada para ver o seu segundo reaparecimento. Tranquiliza-os: “não há guerra”. O chefe da polícia “aprova” a moderação do líder. A população exaltava-o com cânticos, clamando em coro “macorocoto”, o que em chiduma, uma das línguas na Gorongosa, significa “bênção”, não muito distanciado do coro do seu reaparecimento em Satunjira, a 4 de Setembro de 2014, que dizia “teremos saudades tuas”. Às 22:15, Dhlakama chegava a sua casa no bairro das Palmeiras, despediu-se dos mediadores, que deviam manter uma reunião de uma hora naquela noite a que se seguiria a conferência de imprensa com jornalistas. Porém, os dois encontros passam para o dia seguinte. Em Manica, enquanto se executava a operação de reaparecimento de Afonso Dhlakama, e mais tarde a invasão da sua casa nas Palmeiras, estavam o ministro da Defesa Nacional, Atanásio Ntumuke, o Chefe de Estado Maior General, Graça Chongo, o General Mussa e os comandantes dos três ramos das Forças Armadas. A delegação regressou a Maputo, a partir de Chimoio, no domingo, 11. Cerco e invasão Sexta-feira, enquanto os jornalistas da “operação resgate” e os colegas baseados na Beira se preparavam para a confer- ência de imprensa, somos alertados às 07h37 sobre o cerco à casa de Afonso Dhlakama. Dezanove minutos depois cheguei, com outros jornalistas, ao quarteirão da casa, e todos os acessos estavam bloqueados com homens da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), e mais a fundo do Grupo Operativo Especial (GOE), fortemente armados, com blindados e dezenas de viaturas HZ com metralhadoras montadas. A vizinhança de Afonso Dhlakama foi toda convidada a abandonar as casas, atitude que indiciava um assalto que resultaria em confrontos. Mulheres, homens e crianças corriam para sair do perímetro de acção. Tentámos transpor o cordão de segurança e, com as armas apontadas ao peito, fomos avisados – sem palavras, apenas os homens acenavam com arma apontadas a nós - para recuar. Contornámos uma rua e outra que dava acesso directo ao portão de Dhlakama e posicionámo-nos. O número de jornalistas engrossou e a “brutalidade” da Polícia também se elevou. Três homens chamam nervosos o editor do “Canal de Moçambique” que tentava fazer fotos com o computador. O jornalista atravessou a rua, foi ao seu encontro e exibiu o crachá, mas foi avisado para ficar distante. Às 9h02 (horas controladas pelas fotos digitais feitas durante a operação), uma ordem é dada para accionar as armas para disparo, as armas são carregadas, os jornalistas são mais uma vez avisados para sair do perímetro e afastar as viaturas para longe. Um grupo da GOE aproxima-se do portão de acesso ao quintal de Dhlakama – mantinha-se ainda no interior com a sua guarda e staff – e com recurso a pontapés derrubam o portão e invadem o quintal e entram depois para interior da casa. No rés do chão recolhem roupas e documentos. Nenhum guarda da Renamo estava fardado, pois estavam a lavar os uniformes sujos do percurso na floresta no dia anterior. E como era habitual ter dois guardas armados no portão, fora do quintal, ninguém estava naquela posição quando chegámos. Alguns guardas são presos a tentar transpor o muro da casa de Dhlakama para fora, pela parte traseira. Quase todos são agarrados. Uns são espancados por coronhadas das armas policial e depois conduzidos, correndo, para um blindado que estava a escassos 15 metros da entrada da residência. Fazia um calor intenso na Beira. O blindado, com os guardas da Renamo dentro, foi colocado debaixo de sol ardente. Um homem algemado saiu do quintal agarrado por dois Polícias e igualmente é conduzido para o blindado, sugerindo-se ser o mercenário estrangeiro que a guarda da Renamo capturou no ataque do dia 25 de Setembro em Zimpinga, e que devia ser apresentado na confer- ência de imprensa como prova do atentado contra Dhlakama. Elementos da Renamo contaram aos jornalistas que no confronto de 25 de Setembro, “havia vários zimbabweanos à civil que estavam na emboscada com a polícia”. Alguns fardos, com uniformes da guarda da Renamo, são retirados do interior e colocados numa viatura de patrulha da Polícia. Alguns minutos depois a viatura deixa o local com vários pertences retirados do interior da casa. Dentro do edifício Dhlakama pergunta por telefone ao brigadeiro Mucave o que se estava a passar, recebendo como resposta que este iria pedir esclarecimentos a Maputo. Depois pede a comparência dos mediadores que se preparavam para regressar a Maputo. No entanto, a polícia, por intermédio de um militar da Renamo, informa que vinha para levar as armas da polícia capturadas durante os combates de 25 de Setembro. Dhlakama, num primeiro momento pensa numa vantagem política. “Afinal, não fomos atacados por bandidos, foi a polícia que nos emboscou”. O líder da Renamo pede o número de armas e o seu tipo: uma AKM, um RPG7 e uma metralhadora pesada com filete de balas. Dhlakama acede e manda entregar as armas. Só depois é que vem o pedido para a entrega de todas as armas. Chegada de observadores Até quase às 10 horas, enquanto decorria o espectáculo policial, que tinha paralisado literalmente a vida naquele quarteirão, nenhum mediador se fez ao local, para além da Alice Mobota, presidente da Liga dos Direitos Humanos (LDH), que também foi coagida e ameaçada pela Polícia junto dos jornalistas. Às 11h14, Alice Mabota e o resto dos mediadores entram na casa de Afonso Dhlakama. Rosário fez vários telefonemas a Maputo ao mais alto nível para saber o que se estava a passar. O Chefe de Estado estava incomunicado, ocupado com a visita do presidente da Tanzania. Ao que o SAVANA apurou, num primeiro momento não foi possível falar com José Pacheco, o ministro da Agricultura, nem com o ministro do Interior. Conseguiu-se dar conta da situação a Benvinda Levy, agora no Gabinete da Presidência. Mas o sentimento é que não havia clareza nas mensagens que vinham de Maputo. Parecia que a polícia agia de motu próprio. Dentro da casa nota-se a ausência de vários quadros da Renamo que no dia anterior estavam com ele nas matas. Fora da casa o clima de tensão abranda. Alguns agentes já sentados de cansados, outros reuniam-se em grupo de três conversando, outros ainda deitados encostados às acácias, os jornalistas conseguem ir uns metros mais para o interior e ficam mais perto do portão de Afonso Dhlakama, sendo possível controlar qualquer movimento. Nesta altura passa por perto o polícia mais anti-jornalistas e deixa uma frase curiosa: “esse gajo quis envergonhar o chefe”, sugerindo que a recusa de Afonso Dhlakama, terá banalizado a postura do Presidente da República, e enraivado a ala militar do Governo. Algumas horas antes, um outro agente também fez escapar uma declaração curiosa: “você nunca caçou uma gazela no mato para depois vir matar na cidade”, fazendo entender que o plano já havia sido engendrado, e que qualquer resposta armada da Renamo, acabaria com o bombardeamento da casa. Num primeiro momento, Dhlakama “explode” em frente aos mediadores. “Vamos deixar explodir isto tudo e vamos ver o que vai acontecer”, disse fora de si. Mas, minutos depois acalma-se e com opiniões adversas de vários dos seus colaboradores, concorda em entregar as armas dos seus guardas. A equipa dos mediadores sai toda do interior da casa, movimenta-se em chamadas telefónicas. Nesta altura, 11h40 chega o arcebispo da Beira, Claúdio Zunna, e minutos depois o edil de Quelimane, Manuel de Araújo, que se encontrava a participar no VIII Sessão do Fórum de consulta sobre terras. Dhlakama pede a presença da governadora de Sofala, Helena Taipo, para presenciar o acto de entrega das armas da guarda da Renamo. Às 13h01 chega ao local Helena Taipo depois de autorizada por José Pacheco, falando em nome do PR. Afonso Dhlakama esteve desaparecido nas matas 13 dias - das 13h24 do dia 25 de Setembro em Zimpinga, Gondola – até ao seu reaparecimento às 15h15 do dia 8 de Outubro em Mucucua, no sudoeste do distrito da Gorongosa, não muito longe do rio Púnguè, tendo rumado de imediato para sua casa na Beira, escoltado por inevitáveis aplausos populares, pela guarda sobrevivente (ao massacre de Zimpinga) e por duas viaturas da UIR (Unidade de Intervenção Rápida), mas acabou por pagar um preço elevado pelo seu regresso à vida pública. Reconstrução do SAVANA dos locais onde foram feitos os ataques na EN6 contra Afonso Dhlakama. Igualmente os dois locais onde o líder da Renamo foi resgatado em 2015 e 2014 e os percursos feitos até aos locais de encontro com Dhlakama. Duas horas mais tarde, a imprensa era solicitada a entrar na casa de Dhlakama, mas nem todos conseguiram o acesso, por ter sido limitado o número pela polícia. Entraram os jornalistas da STV, SAVANA, Canal de Moçambique, O País e os correspondentes da Lusa, RTP e da DW. A TVM, que tinha ficado de fora, conseguiu uma entrevista já no fim das declarações de Afonso Dhlakama. A Rádio Moçambique (RM), as televisões Miramar e TIM, os jornais Diário de Moçambique e Notícias, e outros órgãos locais tiveram o material (aúdio e fotos) por cortesia dos colegas. Desarmamento Às 15:08 horas, Afonso Dhlakama, que se mantinha no interior da casa desde a sua chegada às 22horas do dia anterior, faz a declaração de entrega aos mediadores das armas da sua guarda pessoal. “Confirmamos a entrega de 16 armas Ak-47, uma pistola Tokarev, muni- ções, um punhal e três carregadores”, disse, à imprensa, Manuel de Araújo, o influente autarca do MDM, a terceira maior força política, ao ler o termo de entrega do armamento da guarda do presidente da Renamo. Segundo Araújo, o material foi entregue pessoalmente por Afonso Dhlakama aos mediadores do processo de diálogo entre Governo e Renamo e estes, por sua vez, deixaram-no à responsabilidade dos representantes da polícia, num acto testemunhado pela governadora Helena Taipo. Enquanto decorria o desarmamento da Renamo na Beira, segundo apurou o SAVANA, as Forças de Defesa e Segurança colocavam-se em posição combativa na base de Macoca (Sussundenga, onde a Renamo celebrou o destacamento feminino em Julho) e Satunjira, onde Dhlakama havia reaparecido pela primeira vez, onde se supõe viriam os reforços do partido. Declarações de Dhlakama “Queria rebentar com tudo, mas evitei um banho de sangue” Afonso Dhlakama fez uma declaração de cedência e exigências, argumentando que mandou entregar armas da sua guarda para evitar um banho de sangue junto da sua casa na Beira. Dispensou a oferta de protecção policial e exigiu libertação imediata dos seus homens detidos, sublinhando que com a entrega das armas iniciava a integração da sua guarda na Polícia. Afonso Dhlakama confirmou a entrega de 16 armas aos mediadores do processo de diálogo entre Governo e Renamo, que por sua vez o deixaram à responsabilidade da polícia, mas admitiu que esteve perto de dar ordem de retaliação. Ao reconstituir o incidente, Afonso Dhlakama contou: “a guarda me avisou que senhor presidente estamos cercados pela polícia. Vejo pela janela carros, blindados e militares armados a  apontar a  minha casa. Então mandei perguntar os comandantes da Intervenção Rápida o que eles querem? Eles não esconderam, um deles diz que vai dizer ao mais velho que estamos atrás das nossas armas que perdemos no dia 25 aquando do  ataque, que são três apenas”, Ao mandar questionar a UIR o tipo de armas, a sua guarda foi respondida tratar-se de uma LMGG, uma bazuca e uma AK47. “Confirmo que no dia 25 capturámos armas em Amatongas [Gondola]. Afinal foi o Ministério [do Interior] que nos atacou. Ainda bem, pensava que tinham sido bandidos. Fiquei mesmo satisfeito”, ironizou Dhlakama, acrescentando que ligou ao oficial da polícia que conduziu a operação do seu reaparecimento, e depois aos mediadores. “Eu disse que não, eu não quero banho de sangue e nem quero problemas e nem quero fazer que a gente reaja, por causa de três armas”, precisou, salientando que nesta altura os acessos à casa estavam bloqueados e as pessoas a serem empurradas. “Então, empurrões, não empurrões, a FIR a arrombar as portas, então um dos meus militares à civil, com AK47, salta para fora e queria disparar. Eu gritei não faça isso, não faça isso, não me arranje problemas, a guerra acabou há muito tempo e eles agarraram aquele rapaz por fora e arrancaram uma das armas. Para dizer que devolvemos as armas que capturámos no dia 25 aquando do ataque e uma nossa arma AK47, totalizando quatro armas”, disse Dhlakama, adiantando que enquanto se preparava para convidar jornalistas para contar este episódio, eis que chega uma nova exigência.   “Depois quando falam com os mediadores, estes da polícia lá em baixo dizem que tinham outro problema, que tinham instruções de virem buscar armas que estão aqui e que  a partir de hoje o presidente da Renamo já não podia ser guarnecido pela sua guarda pessoal, mas sim pela polícia do Ministério do Interior. Nós (a Polícia) é que vamos fazer isso” explicou. Prosseguiu, “logo subiram nervos e queria dar ordens para rebentar e acabar com tudo isso. Depois, como cristão, levantei-me e comecei a rir, eles me viram, queria dar ordens mesmo para ocuparem tudo isto. Porque temos capacidade para tal, depois comecei a ver, sou velho e tenho filhos e netos porque é que vou estragar o meu País, a obra que eu criei”. Virando para os mediadores, Afonso Dhlakama questionou que “afinal vieram me buscar no mato para depois virem me cercar aqui, que brincadeira de mau gosto é esta?”. Mais tarde se arrefeceu, e disse aos mediadores, “são nervos”, admitindo depois que o grupo se desdobrou imenso, com chamadas aqui e acolá, tendo se chegado a conclusão. “Pronto, eu não quero entregar à Frelimo as minhas armas, porque a polícia é da Frelimo e a Frelimo é um partido como o meu. Eu não posso entregar as armas a uma polícia que nos mata”, aclarou Dhlakama, tendo nesta altura decidido entregar as armas aos mediadores, que por sua vez e juridicamente  seriam os responsáveis de as fazer chegar ao Governo para guardar. “Discutimos e tudo, eu disse chamem a minha irmã governadora para testemunhar o acto de entrega como dirigente que representa o Estado, o Governo”, disse Dhlakama sublinhando que “não foi à força, porque à força eu não havia de aceitar, é uma negociação, porque desde manhã  os filhos, netos tudo estão com fome e querem comer e eles querem dormir”. “Portando, decidi, simbolicamente, entregar as armas que estavam nas mãos daquele grupo que veio comigo ontem, são estas 16, inclusive uma pistola” indicou Dhlakama, assegurando que “não há guerra, não há confusão”, adiantando ser sua boa vontade. “Porque não me custava nada dizer que eu não quero entregar as armas e estaríamos aqui a contar mortos, porque iriam disparar e nós também   e estaríamos a contabilizar 40, 50  mortos por uma coisa de nada.  Desnecessária, portanto eu disse que estão aqui as armas, mas eu quero coisas concretas”, declarou tendo dispensado na ocasião a protecção da Polícia, que disse solicitaria apenas para comícios. “Na minha casa não quero polícia, porque aconteceu no passado em Nampula, onde a polícia cercava e ficava a 50 metros da porta, e jornalistas quando quisessem chegar eram revistados, não posso fazer isso. Mais de 23 anos depois do acordo não posso ser guarnecido na minha casa como prisioneiro, não preciso”, insistindo ser um cidadão livre. Avisou, contudo “eu não quero considerar polícia de inimigo da Renamo”, sustentando que “porque não tenho inimigo”, deplorando a invasão da sua casa na Beira. “Ninguém disparou, mas garanto que invadiram a minha casa, eu estive aqui em minha casa, no quarto, subiram os da Intervenção Rápida, carregaram fardamento e muita outra coisa ali e carregaram os meus guardas. Portanto não quero fazer aproveitamento polí- tico, chamar população e destruir a Beira, com paus e machados, nem os desmobilizados queriam ir pegar armas para acabar com tudo isso, queremos demonstrar que somos lutadores  e queremos demonstrar que estamos a manter a paz e a democracia e não tememos nada”. “Mesmo que levassem 1000 armas, não seria solução para a democracia em Moçambique. É preciso que (Filipe) Nyusi e (Afonso) Dhlakama se sentem e elaborem coisas concretas. Se calhar podem pensar que estou nervoso, não estou nada”, convidando o comandante da Polícia e o mediador-chefe a fazerem vasculha da casa após a entrega das armas, acto que não chegou a acontecer. “Estas armas estão na Renamo desde 1992, com base no Acordo Geral de Paz. Se a Frelimo tivesse aceitado reintegrar os nossos homens para a polícia não estaríamos nesta situação”, salientou, considerando o incidente como “o começo da reintegração, estamos a insistir que pela semana haja unidades da Renamo e a polícia a serem treinados com vista a servirem de escoltas”. Vincou, contudo: “as armas não foram arrancadas, não, não, estamos a entregar para evitar o pior  e também quero que a polícia saia da minha casa, saia e se eu precisar de polícia ou alfa vou solicitar. Que se retirem da minha casa para eu poder dormir bem, desde manhã ainda não comi e nem matabichei. Não mereço este tipo de tratamento. Quero aceitar que a democracia é o preço que eu Dhlakama escolhi para libertar o meu povo, a história dirá” concluiu Dhlakama. Indignação Alice Mabota, que foi a primeira a chegar ao cerco da casa de Afonso Dhlakama, considerou de “inaceitá- vel” a invasão da Polícia, insistindo que já lhe “cheirava qualquer coisa não boa”. “Mesmo para vir até aqui eu disse eu tenho receio de ir buscar o filho de dono para vir fazer sofrer. Qualquer coisa parecia que estava adivinhar”, disse Alice Mabota, vendo movimento de armas pesadas sendo direcionadas a casa de Afonso Dhlakama, logo no princípio da manhã, adiantando que “ser assaltado desta maneira, o que custa às autoridades terem uma negociação como deve ser? Provocam a guerra, o que se pretende com isso, quando uma pessoa diz que quer paz, que mecanismos o chefe de estado usa para impor, fazer com que o país ande?”. “É de lamentar e chocante” os contornos de agressividade com que ocorreu o incidente de sexta-feira, disse Dinis Sengulane, em nome dos mediadores das negociações entre Governo e Renamo, mas manifestando também a sua confiança numa aproximação após a entrega das armas aos mediadores, que, por sua vez, as encaminharam para a polícia. Sengulane manifestou-se surpreendido com a acção da polícia, que considerou que não fazia parte do processo de “acompanhamento do regresso a vida normal do líder da Renamo”, sustentando que o seu resgate foi um trabalho bem-sucedido. No entanto, os mediadores do diálogo entre o Governo moçambicano e a Renamo expressaram sua convicção de um encontro em breve entre o Presidente da República e o líder da oposição para ultrapassar a violência política no país. Já a governadora classificou igualmente de “chocante” a actuação “brutal” da Polícia, considerando que o desarmamento da guarda do líder da Renamo traduz-se “numa mensagem de esperança” aos pedidos da população. “Acreditamos nós que esta é uma mensagem de resposta àquilo que foi o pedido de toda a população de Moçambique de que as armas deviam ser retiradas dos homens que estavam armados, neste caso, este sinal, que começa na residência do líder da Renamo, é um sinal de esperança”, afirmou Taipo, à saída da residência do líder da Renamo. Os mediadores, e em especial o bispo Sengulane foram apupados e vaiados pela população que se concentrou junto à casa do lí- der da Renamo. O SAVANA apurou que na negociação que antecedeu o resgate de Dhlakama de Mucucua foi aventada a possibilidade de participarem na operação embaixadores acreditados em Maputo. Houve pressões para que tal não acontecesse, mas as nossas fontes insistem que o cenário seria diferente se governos externos estivessem representados na operação de resgate. Entretanto, Daviz Simango, o “mayor” da Beira, considerou de “inadmissível” a invasão da casa do líder da Renamo, num Estado de direito, comparando o cerco a casa de Afonso Dhlakama a “prisão domiciliária”, e acrescentou ser um perigo desarmar homens à força em plana cidade. “Isto é uma prisão domiciliária e não é admissível num estado de direito, não há nenhum mandado, que eu saiba, do tribunal ou da procuradoria, não encontramos isso, não há evidências desses mandados”, afirmou Daviz Simango, líder do MDM. “Desarmar os homens da Renamo à força não é solução, continuamos a dizer que esse tipo de situações não pode ser tratado à força, a solução tem de ser através do diálogo”, declarou Simango. *Com Fernando Lima e Francisco Carmona

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