O Presidente Nyusi irrompe de sua suite num daqueles hoteis de Manhattan que dão de caras com o Central Park, em pleno pulmão nova-iorquino, e pretende dirigir-se para uma sala onde tera finalmente a conversa com os jornalistas que o acompanham, a maioria deles escolhidos a dedo para aquela viagem. Era vespera de sua comuicação ordinária naquela sua inauguracão na ONU. Lá fora, a cidade dos encantos respira o sumo pontíifice. Limusinas perfilam-se num vaivem constante, despejando e carregando políticos das mais variadas estirpes. Mais para a cima, perto da Columbus Circle, ha um Branford Marsails em cartaz permanente. Nyusi esta com disposição quanto baste. O protocolo aponta-lhe um caminho por entre corredores alcatifados, paredes forradas de veludado e tectos envidraçados. E depois uma porta resplandecente de traços palacianos e maçanetas luzidias. A sala eh esta senhor Presidente, aponta-lhe um dos assessores, escancarando esse acesso.
No fundo do corredor, dois garçons desfazem-se de um room service. A sala eh esta senhor Presidente, repetem-lhe. Atras de Nyusi, repórteres se acotovelam com suas câmaras. Mas quando, finalmente, essa porta eh aberta, dentro dela o cenário estonteia. Ao invés de poltronas e tripes, Nyusi da de caras com a suite de um dignitario oriundo das arábias!!! Não houve risada comum. Houve um silencio em tons escarlates, umas tezes franzidas e, nalguns, o sacudir da gaffe. O Presidente de Moçambique tinha sido induzido em erro. Em sua jornada inaugural na ONU, Nyusi se irritou mais do que uma vez.
Que o diga um altiíssimo representante da nossa diplomacia em NYC (e o ministro Baloi mostrava a evidencia empírica da desconexão de sua cadeia de comando). A pior foi quando o PR quis aferir sobre o numero de empresarios que havia embarcado. Os dados se contradiziam. A embaixada com os seus. A CTA com os seus. O CPI com os seus. Nyusi engolindo em seco. Mas as gaffes se repetem quase sempre. O PR esta rodeado de muita mediocridade. De profissionais do improviso. O serviço de apoio ao PR ja foi melhor. Para voltar a se-lo alguem tera de exigi-lo, de impor sua autoridade e abandonar a facilidade com que debita sorrisos para todo o lado. Não basta ter poder; eh preciso ter autoridade.
2.Harakiri ou kamikaze?
Se Filipe Nyusi navega numa maré de inconsequências, nessa sua pretensão pacificadora, Afonso Dhakama é camaleónico e contraditório. O Comandante em Chefe acena com dialogo mas sua elite castrense invade o DHL no seu derradeiro refúgio no Chiveve. Ao mesmo tempo que Nyusi discursava na ONU, suas tropas tentavam a savimbinizacao em Moçambique. As três armas recuperadas na casa de DHL na Beira derrubaram a mascara. Mas o teatro macabro da política destes dias mostrou mais uma cena tragicómica> o Muchanga a exigir protecção estatal para DHL. Como disse? Sim, protecção dessas para altas individualidades. Bizarro. A mesma Renamo que rejeita a legitimidade do Governo e se transmuda ela própria em Governo do Centro e do Norte, esta a exigir que o Governo de Maputo proteja o seu líder. Parece o cúmulo do contra-senso. Sobretudo quando nos últimos meses a mesma Renamo tem exibido, com retórica, uma tal musculatura palaciana. Alias, sua propaganda não se cansa de acenar o espantalho do Pais ingovernável, caso o Governo da Frelimo não ceda as pretensões do líder. Numas vezes eh o povo que se vai vingar, noutras são os comilões que sairão da toca. Espremendo a sujeira geral, ressalta me a imagem de um DHL cada vez mais impotente, cansado e, mais dia menos dia, encurralado e, pior,…perdendo credito nalgumas franjas da opinião publica urbana cansada de viver refém de uma estratégia de permanente vitimizacao.
E do outro lado, um Presidente da Republica sem controlo pleno das forcas armadas, completamente amarrado a intransigência de Chipande. No impasse que se reproduz a cada dia que passa, a economia vai se afogando. Os investidores estão retraídos, outros reduzem custos e o turismo vai sentir outro grande abanão neste verão. Nyusi inaugura um empreendimento turístico mas sua inacção no plano da estabilidade politica vai justamente contra o turismo. O sol de Junho não brilha e nossos sonhos murcham. O Pátria Amada esta numa encruzilhada. Uma vez, meu antigo editor, Carlos Cardoso, titulou um editorial assim mesmo: harakiri ou kamikaze! Será que vivemos essa condição suicida?
Marcelo Mosse
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