sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Paris brûle-t-il?


FRANÇA

Paris brûle-t-il?

Vertigem define bem a campanha presidencial francesa, a que assisti por estes dias em Paris, confrontando-me com os seus inimagináveis episódios. Mesmo sendo a política mais imprevisível das artes.
1. Vertigem define bem a campanha presidencial francesa, a que pude assistir por estes dias em Paris, confrontando-me incredulamente com os seus inimagináveis episódios. Sim, mesmo tendo em conta que estamos a falar de política , a mais imprevisível das artes.
Vale a pena recapitular: a primeira surpresa veio do próprio Presidente da República com o anúncio, feito há meses, de que não se recandidataria. Temendo perder as primárias do seu partido (vexame indisfarçável), mil vezes mais que a própria eleição, Hollande recusava a prova e não bisaria a corrida ao Eliseu. Ponto final no facto inédito. Os socialistas entre a orfandade e a exultação do estorvo arredado, dividiram-se ainda mais, a corrida acelerou. A renúncia de Hollande não fez porém senão oficializar uma divisão que corroía já espíritos, vontades, barões e estruturas. Tão forte e persistente que hoje é uma (irreversível?) fractura e não já um mero desacordo entre correntes partidárias. Exit PSF como sempre o conhecemos.
A seguir, nova ribombante surpresa, agora nas primárias da direita: como um coelho que irrompe sem se perceber como de uma cartola, François Fillon (já lá vou), enxotou os seus rivais, derrotando um (Juppé, suposto favorito) e humilhando o outro (Sarkozy, que acreditava num regresso). Subestimado por todos e aparentemente confinado a um modesto terceiro lugar , Fillon originou um rasto de espanto mesmo nas suas hostes: como é que aquele homem circunspecto e baço em quem não “se” reparava obtivera mais de 70% dos votos vencendo estrondosamente um “preferido” e um enérgico sempre em pé?
Episódio três: na corrida presidencial socialista ficou definitivamente claro que todo o seu grande sector”governamental” , fora banido e excluído. Os votantes socialistas viraram as costas a Manuel Valls, ex-Primeiro-Ministro de Hollande, reformista e social democrata e preferiram-lhe o jovem radical Benoit Hamon, também ex ministro que após demitir-se do Executivo, se vestiu de detrator feroz da governação. A surpresa foi porém dupla: não só Valls viria a perder a corrida como tudo “apontava” para que fosse Arnaud de Montebourg a ganhar no pelotão radical do PSF. Afinal (ah os “afinal” em política….) foi Hamon e não Montebourg quem vestiu a camisola socialista. É certo que a tarefa de Valls — distanciar-se do infelicíssimo mandato de Hollande do qual fora chefe de governo — era ciclópica e igualmente certo que o quinquénio do actual Presidente nem se explica nem se recomenda. Mas – não nos iludamos — o que está de novo em causa diante dos nossos atónitos olhos é o fim dos modelos ideológicos com que sempre lidámos. E a agonia das escolhas governamentais dentro das fronteiras políticas que sempre conhecemos. Sancionadas uma vez mais como agora ocorreu no PS francês, com a (irreversível?) rejeição do modelo social-democrata, do liberalismo económico, da Europa, do euro, para resumir depressa algumas das coisas essenciais onde têm assentado os regimes, as políticas e as governações europeias nas últimas décadas.
2. Enquanto isto mas alheio a isto, há (mas é melhor começar a dizer que há “sobretudo”) um jovem que há alguns meses resolveu candidatar-se à chefia do Estado. Chama-se Emmanuel Macron, dizem-no um sobre-dotado (será?). Estudou Economia e Finanças em universidades anglo-saxónicas, veio da Banca, do Eliseu onde foi conselheiro de Hollande e do Governo por onde passou, titulando a pasta da Economia e assinando a Lei Macron que visava liberalizar o Trabalho e ficou a meio. Depois optou por largar a governação e instalou-se por conta própria no sonho presidencial. Diz “não ser de esquerda, nem de direita” e por isso cultiva a ambiguidade (sempre um mau sinal) como um jardineiro inglês as suas rosas. Corre depressa, dispensando partidos, estruturas partidárias, nomes sonantes. Fala com o povo “directamente”. Aparentemente tem tudo a seu favor: a ambição, o brilho intelectual, a inteligência, a sedução, a frescura. Com uma energia imparável conta com três mil pessoas a trabalhar na sua campanha, em grupos apartidários supostamente bem oleados. Para muitos significará “a” mudança, outro temerão a inexperiência e a falta de maturidade política para passar os faustosos portões do Palácio do Eliseu. Seja como for, um dia o “brilhante” Macron terá de se definir e dizer ao que vem.E aí, politicamente fiará (muito) mais fino.
3. E Le Pen, Marine? Lá está, qual loba, à boca das urnas e bem colocada para engolir muitos votos. Está há muito tempo na fila de espera é certo, mas o ponto é que em vez de estar naquela espécie de arrecadação onde a cada eleição se juntam alguns inócuos candidatos de várias origens, a terrível e temível Marine está ao gosto de um cada vez maior eleitorado. Os tempos estão para gente como ela.
4. Estava-se face a este tableau de chasse singular (Hollande desistente; um PSF exclusivamente representado pela sua extrema-esquerda; uma Direita nas inesperadas mãos de François Fillon, a Frente Nacional quase nos píncaros, um voraz Macron a espreitar por cima de tudo isto) quando a quinta surpresa fez uma “fracassante” entrada em cena: a acusação sobre a mulher de François Fillon de auferir avultadas remunerações por empregos ditos “fictícios”. No caso — ainda não integralmente apurado – trata-se de uma assessoria parlamentar ao marido e da colaboração numa revista cujo proprietário, amigo de casal Fillon teria, nessa “qualidade”, remunerado Penelope Fillon por colaborações redactoriais alegadamente esparsas ou quase inexistentes. Isto que é mau e em breve será devastador, foi porém de imediato precedido de um violentíssimo massacre mediático que logo tornou o ar político irrespirável. Nunca houve tempo — nem critério — para que alguém (nos) contasse bem a história porque a presunção de inocência num ápice se transformou na certeza de culpa. A media certificava a “culpa”: na praça pública e substituindo-se a juízes e tribunais. Suspeito aliás que o modelo tenha vindo para ficar, mas nunca vejo ninguém especialmente incomodado com a série de massacres mediáticos a que já assistimos, hoje ou no passado, cá dentro ou lá fora. Com uma inabilidade na qual na véspera ninguém apostaria, Fillon defendeu-se mal, contra-atacou pior, o desnorteio instalou-se, o massacre tinha por onde se alimentar.
Se há muito quem sublinhe a espantosa conveniência política da denúncia e a oportunidade temporal da “descoberta” sobre a honra soi disant perdida de Penelope, o ponto não será tanto a ilegalidade (ou não) destas acusações, mas os estragos na maior vantagem eleitoral do candidato da direita, quase unanimemente visto até há pouco como o vencedor antecipado desta eleição: justamente a sua imagem pública. Cuja arquitectura, desenhando-o como um cidadão sério, homemn probo, político rigoroso, católico, bom chefe de (numerosa) família, abriu agora fissuras que parecem irreparáveis. Vi e ouvi François Fillon por estes dias reafirmar a sua candidatura, evocar uma “muito profissional campanha de calúnias” — e quem duvidará que se está perante uma “encomenda? — mas o facto é que a mistura de ingredientes desta surpreendente história é demasiado explosiva. E deixa no ar um cheiro a pólvora. Logo a seguir já havia planos B em marcha, ratos a saírem do navio, nomes para substitutos (“era o que faltava que Fillon nos fizesse perder uma eleição ganha á partida”), veleidades e intriga. Apesar dos fiéis teimosos e da (pretensa?) serenidade do candidato, ou muito me engano ou daqui a pouco o nome de Fillon pronunciar-se-á no passado.
5. E agora? Agora, enquanto parte da direita anda com uma lanterna à procura de “alguém”(Juppé reafirma recusar ser “um plano B”, mas em política nunca se sabe e também nunca se sabe o que vai dentro da cabeça de Sarkozy), parte da esquerda moderada do PS já se “inscreveu “ em Macron. Emmanuel soma e segue, como grande beneficiário das infelicidades da direita e do péssimo estado de saúde no PS. Ignora-se que fará ou dirá François Hollande, mas se nada disser de claro ou firme a favor do candidato oficial do seu próprio partido, estará obviamente a preferir Macron a Benoit Hamon. O certo é que a avenida (“un grand boulevard”, como aqui se escreve) que subitamente se escancarou diante de Emmanuel Macron parece isso mesmo: a estrada da felicidade, grande e aberta. Mas nem a (sua) ambiguidade pode durar sempre, nem se consegue gerir toda a vida essa coisa de “não ser nem de esquerda, nem de direita”. Será porém — oh ironia — quando Macron se definir e abrir politicamente a boca a sério que as intenções de voto começarão a minguar. À esquerda e à direita, claro está, porque justamente não se agrada às duas ao mesmo tempo.
E finalmente também julgo que Marine Le Pen ganhará com este deplorável estado de coisas. Ou haverá algo mais gravemente deplorável do que o PS a agonizar; a direita sem chão nem bússola; um candidato cujo brilho provém essencialmente da sua oportuna ambiguidade; e os populismos a crescer inquietantemente? Adubados por utopias (ouça-se Benoit Hamon), sem alicerces, certezas sem provas dadas, promessas impossíveis, discursos inconsequentes (volte-se a ouvir Hamon), numa maré tão acintosamente populista quanto arrogante. Por vezes, quase violenta.
E não tão longe assim — basta só parar para pensar um pouco nalgumas semelhanças – de alguns mandamentos da Frente Nacional. Assunto a voltar um dia destes, porque há que obrigatoriamente voltar a ele.

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