sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Os inimigos dos nossos inimigos


DONALD TRUMP

Os inimigos dos nossos inimigos

220
84
Ou Trump ou o radicalismo, eis os termos a que os partidários de um e outro gostariam de reduzir a política. A pressão sobre a direita para que se submeta a esse tratado de Tordesilhas vai ser enorme.
Anteontem, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, umas centenas de esquerdistas recorreram à violência para impedir alguns conservadores de ouvirem Milo Yiannoupolos: lutaram com a polícia, agrediram a audiência, destruíram uma livraria. A conferência foi cancelada. Trump reagiu nas redes sociais, à sua maneira: se Berkeley consente semelhantes exercícios brutais de censura pela esquerda, deveria ser financiada pelo governo?
É este o dilema dos conservadores que, na América, representam a família da direita democrática e liberal. Trump parece prometer a mais enérgica reacção contra tudo aquilo de que muitos se queixam há anos, desde a tutela moralista das esquerdas até à convicção radical de que a lei só se aplica aos “burgueses”. Talvez mesmo a demagogia de Trump ou a sua má educação possam passar por virtudes, se vistas como indiferença pelo “politicamente correcto”. Eis, finalmente, alguém que não tem medo, que diz as coisas como elas são. Não deviam os conservadores juntar-se incondicionalmente atrás de Trump, mesmo lamentando certas atitudes ou discordando de algumas políticas?
Acontece que Trump não é um conservador. O proteccionismo e o isolacionismo que exibiu até agora contradizem os princípios fundamentais que constituíram o conservadorismo do nosso tempo, e inspiraram Reagan e Thatcher: o governo limitado, os mercados livres, a liberdade americana como parte da liberdade do mundo (um mundo que não pode ser metade livre e metade escravo, como dizia o cartaz da II Guerra Mundial). Nem no estilo está Trump em sintonia com os conservadores, que, mesmo quando mais agressivos, nunca negaram o debate regrado.
Abdicar de qualquer autonomia crítica perante Trump seria, para os conservadores, não apenas ceder de vez a direcção do Partido Republicano ao populismo nacionalista, mas também pôr em causa a filosofia conservadora. É o conservadorismo um mero “anti-esquerdismo”, para quem os inimigos dos nossos inimigos são sempre nossos amigos? Ou, pelo contrário, consiste o conservadorismo na guarda de certos valores, que os conservadores, se necessário, devem defender contra Trump, tal como defenderam contra Obama?
Mas os conservadores não estão apenas sob a pressão de Trump. Estão também sob pressão das orquestras do anti-trumpismo, dirigidas pelos maestros das esquerdas radicais ou radicalizadas. O radicalismo, como se viu na Inglaterra com Corbyn, em França com Hammon, ou nos EUA com Sanders e sobretudo depois da derrota de Clinton, avassalou as esquerdas: uns converteram-se, outros apanharam boleia, esperando usar os radicais para manterem ou recuperarem o poder. Agora, radicais e radicalizados aparecem aos gritos: juntem-se a nós, ou então juntem-se a Trump (comparado a Hitler, segundo o costume). “Ou reacção ou revolução”, como diziam os gonçalvistas em Portugal durante o PREC. Uma vez que a antiga esquerda democrática e liberal já capitulou, é a direita o alvo principal desta manobra de tribalização política.
Para Trump, tal dicotomia serve muito bem. Não foi por acaso que Trump promoveu tanto Sanders. Ou Trump ou o radicalismo, eis os termos a que os partidários de um e outro gostariam de reduzir a vida pública. Seria a forma de partilharem entre si o mundo político descoberto e por descobrir. A coacção sobre a direita democrática e liberal para que, tal como a esquerda, se submeta a esse tratado de Tordesilhas vai ser enorme. Multiplicar-se-ão os processos de intenção. A todos os que à direita resistirem a este maniqueísmo de pré-guerra civil, os trumpistas chamarão cripto-esquerdistas, e os anti-trumpistas chamarão cripto-fascistas. A desonestidade intelectual, como já se vai vendo, não terá limites. Nunca no nosso tempo a defesa da liberdade e da verdade foi tão difícil, mas também nunca foi tão importante.

l
Bravo!! excelente artigo! A direita em Portugal já criou tantas defesas contra a esquerda, durante tantos anos, que não se sabe defender da direita mal orientada (não sei mesmo qeu ideologia lhe chamar) como é a de Trump. Aliás até a embraça com alívio, filtrando involuntariamente atitudes e decisões completamente absurdas de Trump.

Temos que defender os valores conservador-liberais, só assim teremos paz, economia e verdadeira liberdade (sem establishments desfarçados de liberalismo. O liberalismo, na verdade, nunca existiu por ser uma absoluta farsa maçónica.) 
Zé Ninguém
1 h
O que é a direita mal orientada? Isso é como a orientação sexual? Quem é que define o que é bem ou mal? Usualmente usa-se a definição de extrema-direita, agora direita mal orientada... é aquela que não se diminui perante os valores de esquerda? É um conceito um pouco inquinado...
como o comentário é meu, imagino que opinão "mal" é minha, ou não?
Mas se és assim tão pé-de-salsa, clarifico....Trumpismo!

Sexual??????
Zé Ninguém
1 h
O Trumpismo não existe... ainda... (bem). Ninguém votou no Trumpismo, votaram no Trump porque disse o que queriam ouvir. O Trumpismo vão ser outros a definir agora que é poder.
Gonçalo Brásio
2 h
Nós, os europeus - e sobretudo a geração “milénio” - temos sido bombardeados desde tenra idade com o politicamente correcto, com o revisionismo histórico e com o relativismo moral.O que está a acontecer através da desregrada importação em massa de migrantes económicos - com normas de convivência em sociedade diametralmente opostas às nossas – é, na minha opinião, a continuação do suicídio cultural e económico que foi despoletado com as "Primaveras Árabes", patrocinadas pelos líderes ocidentais, e que de primavera não trouxeram absolutamente nada. Falo especificamente da Líbia, da Tunísia, do Egipto e da Síria. De forma alargada poderíamos ainda considerar o Sudão, o Iémen e o Iraque.Dá-me a sensação que muitos desistiram do pensamento crítico. Vivemos numa realidade subjectiva, transmitida por uma comunicação social amestrada, e que repetidamente esconde os factos que possam provocar uma linha de pensamento alternativa. Vou ser directo. Somos paralisados por uma esquerda dogmática, que se distancia a si própria do senso comum e dos instintos primários de auto preservação. Uma esquerda que simultaneamente aponta todos os defeitos reais ou imaginários aos que cá vivem, e ignora todos os defeitos bem visíveis dos que aí aparecem. Quem ousar viver na realidade objectiva é apelidado de insensível, xenófobo e racista. Uma olhada nas caixas de comentários por essa Internet fora, faz-me acreditar que a Lei de Godwin é tão válida como a lei da gravidade de Newton. Sejamos sérios, o mundo árabe está em guerra desde a morte do profeta, assim mesmo, com letra pequena. Ele é xiitas, sunitas, alauítas, yazidis, turcos, curdos, palestinos, druzos, afegãos, seculares, anti-seculares, milhentas tribos locais, e jihadistas de toda a espécie. Um sem fim de de conflitos históricos, miséria económica e subdesenvolvimento social crónico, que dava para escrever uma enciclopédia de 20 volumes, impressa em papel de bíblia. É preciso meter duas coisas na cabeça. 1. Os conflitos no médio-oriente não vão cessar tão cedo (as levas migratórias idem aspas) 2. A intervenção directa será sempre contraproducente, como já se viu por duas vezes no Iraque (administrações Bush), ou com a omnipresente guerra dos drones do cool Obama. Por tudo isto, nós (os europeus) temos mesma opção que os EUA tiveram em Novembro do ano passado. Nacionalismo ou Globalismo? Nós, os europeus, teremos de escolher. Liberdade ou Tirania? Em quem devemos confiar? Nas elites globalistas que nos levam pelo caminho do caos social e económico, até à eventual imposição de um Governo mundial? Ou confiamos naqueles que estão comprometidos com o discurso livre de censuras, comprometidos com a soberania nacional e com as vastas liberdades individuais, garantidas há muitas décadas pelas nossas Constituições?
Pela sua foto, parece-me claramente muito jovem (pelo menos para os meus padrões...!). Se o seu EXTRAORDINÁRIO E LÚCIDO comentário já mereceria o meu aplauso, pelo acima ainda mais. EXCELENTE, e que assim continue.
Concordo com tudo, excepto com a escolha Nacionalismo ou globalismo (amestrado). Não acha possível trabalharmos numa globalização verdadeiramente livre, sem maçonarias?

Eu acho que será eventualmente possível. O caracter político transforma-se consoante o eleitorado. Um eleitorado mais aleanado da política nacional vota populismo, um eleitorado mais atento permite a ascensão de uma classe política mais honesta, media idem aspas, educação idem aspas...temos que ser críticos honestos e não falsos críticos de taberna.
É portanto necessário, para isso acontecer, um eleitorado responsável. Não o que temos agora, que só vê política a um mês das eleições, seguem o socialismo como serpentes encantadas. Votam por si e não pelo seu país, em quem lhes dá mais regalias.
Isso estimula o falso liberalismo (ditadura maçónica).
Gonçalo Brásio
1 h
Sou muito céptico em relação a uma globalização verdadeiramente livre. Repare, como pode existir uma globalização verdadeiramente livre se as diferentes partes que a compõem não o são, nem dão mostras de o querer ser?  É tempo de perceber que somos diferentes, assumi-lo sem pruridos, e acabar com as tentativas forçadas de homogeneização cultural e social. Pelo nosso próprio bem, e acredito, pelo bem dos "outros".

Uma vez mais, parabéns, desta vez por este "sequela".
Zé Ninguém
3 h
Brilhante artigo do Rui Ramos.
De facto nunca se assistiu a tamanho radicalismo por parte da esquerda moderada, pois da radical sempre se viu... com a permanente conivência dos seus vizinhos ditos moderados. Parece que estão cada vez mais propensos a juntar-se à festa...

Acredito que a motivação do deprimente espectáculo na Berkeley foi o convite a um orador do KKK... é natural que seja necessário um motim. As mensagens do KKK são altamente contagiantes e motivadoras no Séc. XXI... duh!!! Deve ser o orador intelectualmente mais temido!! Ui ui! Mas afinal não era o temido KKK, era apenas um orador Gay de direita acusado de anti-feminismo que gosta de argumentar com umas supostas estatísticas da Maria Cachucha! Mas qual é o medo? Se fosse qualquer ditador de esquerda até têm um orgasmo! E é a esta gente que eu devo reconhecer superioridade intelectual ou moral?! Podem esperar sentados...

P.S.- Mas o Milo Yiannopoulos não podia debater com outros de direita que não são adeptos dos "factos alternativos?"! Se os de esquerda estão medo...
Agos Sil
4 h
Sr. Rui Ramos, permita-me primeiro que tudo felicitá-lo por (mais um) extraordinário artigo.
Todavia, dê-me a liberdade de discordar profundamente da parte em que alude a uma suposta "antiga esquerda democrática e liberal". 
É uma discordância que tenho com praticamente toda a gente, visto que para mim a esquerda - TODA ela - nunca foi, não é e nunca será, intrinsecamente democrática e liberal. A sua génese, a sua raiz ou como agora se tornou hábito dizer, o seu ADN, é ABSOLUTAMENTE totalitária.
O insecto está lá, umas vezes mais escondido lá no fundo, ou mais disfarçado, mas acaba SEMPRE por vir ao de cima, pois é impossível esconde-lo. É só uma questão de tempo, oportunidade e conjugação de factores...
Josephvs AlvesAgos Sil
4 m
vc é phoda :)
José Montargil
4 h
Tenho uma ideia onde é Berkley e qual a "onda" geral desta universidade. Já em 1974 era assim. 
Podem considerar-me patêgo ou provinciano mas esse género de reacção dos esquerdistas para impedir o conferencista é para o lado que durmo melhor. Habituei-me a isso e a muito pior em 1974/75 na Fac de Direito de LX.
Eu vejo as medidas de Trump uma a uma. É-me indiferente se é o Trump ou o Zé da Esquina. Lá por concordar com esta ou aquela decisão isso não faz de mim um admirador desse energúmeno, meio alarve e inculto. Mas também não faz de mim apoiante da malta infecta da Clinton e apaniguados. Os democratas deixaram há muito que deixaram de representar os pobres e humildes. Hoje em dia querem é a classe média a votar neles mais as cidades e os ricos. Dizem que são a favor por ex. da emigração, mas sabemos que assim não é. Apenas fogo de vista!

As medidas que considero boas digo sem vergonha pois não embarco neste histerismo europeu contra o Trump. A mim ninguém me condiciona. Não serão estes jornalistas das televisões que são uns papagaios sem nada na cabeça que se repetem à exaustão ou os políticos que para mim "só pensam na sua carreira politica, ineficazes, pouco escrupulosos, pródigos nos gastos com verbas publicas, indiferentes ao bem público,versáteis e arrivistas e sem uma visão a longo termo para o país" de François Kersaudy, dossier Churchill,Historia.
Jose Miguel PereiraJosé Montargil
4 h
Ironicamente, nesses anos 60/70, em Berkeley os muito radicais de esquerda Students for a Democratic Society lançaram o movimento "Free Speech"...
José MontargilJose Miguel Pereira
3 h
Mas nessa altura ou porque estava habituado ao Estado Novo ou porque não era viajado fiquei  fascinado com Berkley. Então comparando com a Fac de Direito de LIsboa era inacreditável. A Fac de Direito funcionava como um quartel com aqueles contínuos sinistros e nós a atinar na fatiota e as bestas dos profes tipo Martinez duma arrogância que bradava aos céus. Era de fugir. Berkley nessa altura era um oásis com malta fixe e super descontraída completamente aberta ao que desse e viesse. É isso a grande mestria dos americanos pelos menos nas universidades , malta com mente aberta e muito interessante. Só para  dizer quando cheguei o profe que me recebeu era chinês, eu europeu, mais um coreano e uma francesa monstra mas muito simpática.
Jose Miguel PereiraJosé Montargil
3 h
Estudei nos USA nos anos 80, mas só em 2007 visitei Berkeley. Continua uma das melhores Universidades do mundo, e continua a ter uma franja de estudantes radicais, hoje do politicamente correcto, ansiosos por se sentirem vítimas de uma micro-aggression para poderem reagir de forma mais ou menos anti-democrática e disparatada. 

Mas não me importava nada de lá fazer uma sabática...
José MontargilJose Miguel Pereira
39 m
Eu também adorava andar por lá. As bibliotecas são do caraças.
Eu Mesmo
4 h
Uma analise lúcida aos fatores que levaram Trump ao poder, a extrema esquerda e por arrasto alguma esquerda moderada, moldaram a sociedade nas ultimas décadas exatamente aos seus critérios bloqueando quaisquer diferenças de opinião como "heresia" na forma do já conhecido mantra Intolerante-Homofóbico-Racista-Misogeno, não concorda com a minha opinião? então é literalmente Hitler. Este conceito banalizou-se na comunicação social de massas, nas universidades e como corolário na própria legislação, um enorme safe space  onde os críticos não só poderiam ser insultados de todos os nomes como processados judicialmente.
Nós por cá na forma pachorrenta do costume vamos pelo mesmo caminho, basta ver o destaque que foi dado nos nossos media a propósito desse incidente em Berkley, fossem os arruaceiros Trumpistas ou coisa do género, e teríamos vários destaques de primeira pagina e todos os Komentadores a prever a segunda vinda de Hitler, já na proxima terça feira ás 16:45.
Mesmo para quem não gosta de Trump é fácil compreender porque foi eleito, o que só por si é deprimente.
josé maria
4 h
Acontece que Trump não é um conservador.

É só mais outra asneira de Rui Ramos, mas ela não cola com a realidade.


Jose Miguel Pereirajosé maria
4 h
Se não fosse o BSS excomungá-lo, sugeria-lhe que lesse o livrinho do João Pereira Coutinho sobre conservadorismo, ficava com uma ideia mais arrumada.
E eu sugeria que você lesse a notícia, do próprio Observador, que eu citei, antes de se meter a debitar a sua risível patacoada. Se tiver dúvidas sobre o conservadorismo liberal, sou eu quem lhe sugere que analise o pensamento político da Margareth Tatcher.
Jose Miguel Pereirajosé maria
4 h
E qual é a relação da dita notícia com o conservadorismo?

Fico contente por se ter rido com a minha patacoada, era essa a intenção.

Já ouviu falar do John Gray? Também lhe pode dar uma boa ideia sobre a natureza das diferenças entre liberalismo económico, neo e clássico, e conservadorismo.
Luís Casanovajosé maria
4 h
Já agora, que fontes sugere para "análise do pensamento político da Margareth Tatcher"; além do Observador, é claro?
Luís CasanovaJose Miguel Pereira
4 h
Caro JMP, não perca tempo com o jm, que ele, a propósito de um artigo de VPV sobre o Mário Soares na décade de 70, foi desencantar um obscuro blog do Galopim de Carvalho sobre a fome no Alentejo na década de 30.
Jose Miguel PereiraLuís Casanova
4 h
Eu vi, LC. A propósito disso até lhe comentei que no séc XIV, com a peste negra tinha sido também muito mau. 
Qual é a relação da notícia com o conservadorismo ? Você acha que a Tatcher não é reconhecida como conservadora ? E  simultâneamente como neoliberal ? Ou pensa que conservadores não podem defender políticas neoliberais ? 

Qual é a relação da dita notícia com o conservadorismo liberal ?

Está assim tão difícil de entender ? Trump, ao defender a desregulação do sistema financeiro, está a ser o quê ? Proteccionista ou conservador liberal ?
josé mariaLuís Casanova
3 h
Na década de 30, a fome no Alentejo também foi culpa do Mário Soares ou dos comunistas, o regime de Salazar não teve nada a ver com isso.
Agos Siljosé maria
3 h
"Na década de 30, a fome no Alentejo também foi culpa do Mário Soares ou dos comunistas, o regime de Salazar não teve nada a ver com isso."
Finalmente disseste alguma coisa como deve ser!
Luís Casanovajosé maria
3 h
Bem ... eu podia, mais uma vez, pedir-lhe as fontes, mas fico-me pela wikipedia.

De qualquer forma, todos ficámos esclarecidos.

Até sempre.

Gildo Baleiras Nascimento
4 h
Nem todos os conservadores são liberais. É certo que o liberalismo é dominante na Partido Republicano mas repito nem toda a Direita é liberal.
Uma coisa é certa as ideias da extrema esquerda poluíram a Esquerda (social-democrata/socialismo) porque desde Tony Blair a Esquerda aceitou o capitalismo e assim sendo, aceitou fazer política apenas com os temas fracturantes introduzidos pelos trotskistas. Pela primeira vez, existe alguém que combate a ditadura do politicamente correcto, que enfrenta esses agitadores.
Joaquim Moreira
4 h
Rui Ramos, estou absolutamente de acordo com a ideia de que "a desonestidade intelectual, como já se vai vendo, não terá limites”. Daí que me inscreva no grande combate que muito bem define na conclusão: “Nunca no nosso tempo a defesa da liberdade e da verdade foi tão difícil, mas também nunca foi tão importante”.

Há 18 anos, a investigadora norte-americana Ruth W. Grant defendia a hipocrisia por achar que o perigo vinha dos fundamentalistas dos princípios e de uma certa ideia de integridade. Hoje preocupa-se sobretudo com o cinismo e o desrespeito pela verdade. A ponto de achar que, a política democrática só é possível com confiança, escrutínio e sentido da realidade comum.

Aquilo a que, sem falsa modéstia, tenho apelidado de Política do Século XXI, a política que vem sendo defendida e aplicada por Pedro Passos Coelho.
Guilherme Berthe
5 h
Alberto Gonçalves no Observador! Aqui está uma excelente notícia! Mais um para dizer as verdades que tantos adoram negar.
Agos Sil
5 h
Sr. Rui Ramos, permita-me primeiro que tudo felicitá-lo por (mais um) extraordinário artigo.
Todavia, dê-me a liberdade de discordar profundamente da parte em que alude a uma suposta "antiga esquerda democrática e liberal".
É uma discordância que tenho com praticamente toda a gente, visto que para mim a esquerda - TODA ela - nunca foi, não é e nunca será, intrinsecamente democrática e liberal. A sua génese, a sua raiz ou como agora se tornou hábito dizer, o seu ADN, é ABSOLUTAMENTE totalitária. 
O insecto está lá, umas vezes mais escondido lá no fundo, ou mais disfarçado, mas acaba SEMPRE por vir ao de cima, pois é impossível esconde-lo.
É só uma questão de tempo, oportunidade e conjugação de factores...
Fernando Goncalves
5 h
Percebo muito bem o que escreve Rui Ramos e partilho as suas preocupações. E não me revejo no estilo provocatório de Trump. 
Acontece que a direita que não se revê em Trump (como eu) teve todo o tempo, poder e oportunidade de combater a cultura de esquerda, de encarar os problemas muitíssimo reais da emigração descontrolada com prejuízo dos valores europeus, do terrorismo islâmico e do desemprego e degradação social dos não beneficiários da globalização. E não o fez. Pelo contrário, foi muito parte de tudo isso.
Agora é tarde e ninguém a levaria a sério. Resta esperar que a direita populista tenha algum sucesso onde a direita tradicional capitulou.
Em resumo, e ao contrário do que escreve Rui Ramos, não creio haver hoje alternativa à direita e esquerda mais radicais. Goste-se mais ou menos, são essa as opções. E, em Portugal, muita direita opta por de juntar à esquerda como se vê, infelizmente, no Observador em todos os artigos que cobrem os EUA.
Concordo totalmente consigo e partilho do seu ponto de vista sobre a direita - realçando que existem muitas direitas...
A questão que se põe, e já há muitos, muitos anos, é: pôde alguma vez a direita de facto "combater a cultura de esquerda..." sem ser imediatamente (como ainda o é) acusada de todos os epítetos possíveis e imaginários que encerram logo qualquer discussão séria e racional logo à partida (objectivo real da esquerda, claro)? Nomeadamente; "racista, machista, sexista, xenófobo, islamofóbico, homofóbico, etc, etc? 
E tudo isso com o "alto patrocínio" da CS, das academias, das gentes da "cultura", etc, que dominam de facto e desproporcionalmente os meios de comunicação? É este "combate" justo?
Miguel Évora
6 h
Bom artigo. A "moderna" esquerda jacobinista encontrou finalmente um adversário à altura.
O interessante é que ainda não perceberam como combatê-lo eficazmente, por isso vai pelo método tradicional - à pancada. E ficam doidos com o uso que Trump dá ao Twitter e com a tese de que usou métodos psicométricos de análise das redes sociais para ganhar as eleições.
Tinham a Primavera Árabe como cartão de visita (uma conquista das redes sociais) e não suportam serem ultrapassados por um construtor civil parolo e endinheirado. 
genial!
João Lopes
6 h
Rui Ramos tem razão: «Nunca no nosso tempo a defesa da liberdade e da verdade foi tão difícil, mas também nunca foi tão importante».
Antonio Marques Mendes
6 h
Excelente. Parabéns!

Apenas um pequeno reparo. A comparação com Hitler não é descabida pois foi o radicalismo dos comunistas e da extrema direita que permitiu a consolidação do poder em Hitler. Vidé: http://marques-mendes.blogspot.com/2016/09/do-republicans-risk-becoming-neo-nazi.html
victor guerra
6 h
Trump é  um animador e dado a rupturas,coisa que os da "esquerda faz de conta" não gostam,no mais alto nível do Estado.Os Estados Unidos vão entrar noutra fase politica e isso é por si só aliciante.Trump não é um populista da América Latina,mas da sociedade ,talvez mais avançada do mundo.What else?
Jose Miguel Pereiravictor guerra
4 h
Acho que uma boa parte da tensão que se vive nos USA resulta de Trump ser um populista da América Latina numa das sociedades mais desenvolvidas do mundo.
Vitor Reis
6 h
DONALD MARINE TRUMP DE LA PEN
Devo confessar desde já que por um lado fiquei estupefacto com a eleição do novo presidente americano, mas por outro não. Contraditório em termos de entendimento? Talvez, mas passo a explicar. 

Admirado, porque as sondagens davam uma clara maioria e consequente vitória a Hillary Clinton. Mas já se sabe que isso das sondagens e os prognósticos que os “institutos de avaliação do comportamento político” têm feito em diversos países andam pelas ruas da amargura. Não admirado, porque a conversa e as mensagens da candidata democrata eram afinal uma autêntica converseta. O atual presidente ganhou porque para uma determinada camada da população as promessas ocas, desfasadas da realidade e inconsequentes ainda lhes dão algum alento. Referir aos eleitores que “vamos tornar a América grande outra vez”, mais do que um “slogan” é transmitir que existe um político que fala ao coração dos deserdados, dos desempregados, dos excluídos da sociedade, daqueles que não são ou foram capazes de se adaptar a novas realidades. Não passa de um chavão, mas para aqueles que não se reveem nos modelos tradicionais de fazer política a frase soa perfeita e é entendida como um paliativo para as suas dificuldades. 

Durante a fase preparatória da campanha eleitoral nos Estados Unidos li um artigo em que alguém escrevia mais ou menos isto: “é preciso cuidado com o homem [Donald Trump] que está a conseguir eliminar todos os adversários. Vão todos caindo e alguns afastados sem apelo. Não era expectável, mas está a trucidá-los. Cuidado, é um perigo”. Isto é, avisos foram sendo feitos e até partindo do princípio que o autor não morreria de amores pelo “yellow hair man”, o que é certo é que as suas preocupações revelaram-se acertadas. 

Donald Trump encarnou o papel do político “out of system”, que diz na campanha eleitoral que vai cumprir o que diz. É óbvio que os americanos (ou uma parte deles) deverão estar agradecidos pelos 8 anos de Barack Obama pelas várias mudanças estruturais que foram sendo feitas, de que se destaca talvez o “Obama Care” (a possibilidade de os americanos terem um serviço nacional de saúde e não terem de pagar autênticas exorbitâncias quando estão doentes). Na questão do desemprego registou-se contudo um aspeto quiçá contraditório. Segundo os números houve realmente uma diminuição da taxa, mas para muitos especialistas à custa de uma grande redução dos salários, até numa franja da população com melhores habilitações académicas. Lembro-me, a propósito, de uma cadeia de televisão ter entrevistado um engenheiro do Ohio que trabalhou numa fábrica, onde tinha um bom nível salarial. Aconteceu que foi despedido, com o argumento de uma organização interna, esteve uns meses desempregado e depois foi contratado para a mesma fábrica (onde antes tinha trabalhado), sendo-lhe então proposto um ordenado de metade do que ganhava anteriormente. Este engenheiro assumiu que tinha votado Trump. Haverá uma explicação mais ou menos sociológica para isso? 

Mesmo não sendo americano, sempre tive por Barack Obama uma admiração profunda. E talvez nós os europeus possamos cometer o supremo erro de divagar pela realidade americana sem a conhecer eficazmente. É verdade que nestas eleições o Partido Democrata teve menos votos do que o Partido Republicano na população negra? Tendo sido Barack Obama o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, conseguiu ele parar ou estancar os problemas raciais ou reduzir substancialmente as atitudes violentas entre brancos e negros? Estas são questões momentosas (outras haverá seguramente) a que se junta a imagem de uma candidata democrata que encarnava a perpetuação de um nome na política americana. Por outras palavras, os líderes não se fazem, nascem e a geração Clinton já tinha passado de moda. Os democratas americanos tiveram desde as primárias um problema grave para resolver: ou apoiavam um candidato demasiado esquerdista para os padrões americanos ou davam essa possibilidade a um nome que mesmo sem carisma poderia ser apresentada como a primeira mulher a chegar à presidência. A escolha não poderia ser outra, mas havia o risco de um fracasso. Aconteceu. E aconteceu um outro pormenor curioso: não obstante os ataques soezes de Trump contra as mulheres, segundo outras estatísticas, o republicano ganhou no eleitorado feminino. Entende-se essa incongruência? Também neste aspeto peculiar acho que nem os mais reputados sociólogos tenham a resposta. 

Donald Trump é mesmo um perigo. Um perigo para a economia mundial, para o equilíbrio político mundial (e não só pela sua aparente amizade por esse personagem sinistro que dá pelo nome de Vladimir Putin), um perigo para os seus cidadãos e para as relações entre estados. Faz-me confusão quando de cada vez que assina um decreto existe um autêntico “show-off” desse momento, como se o seu trabalho de gabinete não devesse ser reservado e discreto. Claro que a mensagem é muito clara: transmitir o que escrevi atrás – eu cumpro o que disse na campanha e o povo americano pode ter confiança em mim -. Mas ele é perigoso ainda por um outro prisma: quer isolar os Estados Unidos, como se todos aqueles que agora não deixa lá entrar fossem perigosos terroristas. Entrar nos “States” sempre foi uma tarefa complicada e sabe-se bem que muitos cidadãos mesmo antes destas novas leis restritivas eram impedidos de o fazer. E neste aspeto entra a componente mais demagógica do seu comportamento: os Estados Unidos nasceram pelos muitos emigrantes que lá chegaram e trabalharam arduamente na construção da grande nação que é hoje (ele aliás é descendente de irlandeses e a sua atual mulher nasceu na Eslovénia). 

Não consigo adivinhar se o senhor presidente vai infletir as suas políticas e moderar os seus comportamentos e atitudes. A avaliar pela amostra, não o fará. Acusam-no de ser sinistro e de cumprir o que prometeu. O problema não será assim de cumprir o que prometeu, mas sim o que foi prometendo que faria. Irão aparecer entretanto os analistas que tentarão explicar o caminho seguido. Mas pior do que a chegada ao poder de Donald Trump é se a extrema-direitista francesa, de seu nome Marine le Pen, chegar à Presidência da República. Para os padrões europeus, para a organização social de que todos gostamos, uma presidente dessa área política num país como a França levará à desintegração rápida de todos os ideais que pretendemos construir e que foram tão bem pensados por Jacques Delors. 

Marine le Pen encarna a política baixa, em que recorre permanentemente ao populismo maximizado, como se a França pudesse viver arredada dos seus parceiros europeus. Quando ela diz que vai repor novamente os controlos fronteiriços, que acabará com o terrorismo em França, que uma das primeiras medidas – se for presidente – é realizar um referendo para aquilatar da continuidade ou não de o seu país continuar no Euro e que vai criar um imposto especial para as empresas que contratem estrangeiros, está a revelar que não tem nenhum sentido de Estado. Mas é um discurso que convence uma enorme parte da população para quem os atuais protagonistas políticos são todos iguais, quer sejam do centro-esquerda, do centro-direita ou da esquerda propriamente dita, mais ou menos radical. A candidata da Frente Nacional nem precisa de se esforçar, porque os seus verdadeiros opositores políticos vão caindo de maduros em face dos escândalos que protagonizaram. Sendo certo que não há fumo sem fogo, o escândalo que rebentou com as supostas subvenções da mulher de François Fillon já o aniquilaram politicamente. Se o até agora candidato mais bem colocado para suceder a François Hollande tiver que desistir (será o mais certo), não sei se o derrotado nas primárias do centro-direita (Nicolas Sarkozy) poderá ocupar o seu lugar. Mas caso seja possível, soará sempre a um remendo, por mais bem cerzido que seja. E aí Marine le Pen aparecerá sempre como um garante de estabilidade que não entra em esquemas de corrupção. Os dividendos políticos poderão significar depois a eleição para o mais alto cargo da República Francesa. 

Não nos enganemos, se a madame le Pen for eleita, quer seja na 1ª ou na 2ª volta, isso significará a morte rápida da UE e de todo o projeto europeu que tanto tem ajudado países como Portugal. Com todos os problemas que existem, esta união ainda é um grupo de discussão aberta de ideias, sempre com o objetivo de políticas uniformes, não obstante a diferenciação cultural dos seus povos. Se não estivéssemos integrados na União Europeia há muito que já tínhamos entrado em insolvência económica. Os burocratas de Bruxelas têm sido os nossos anjos da guarda. 

Donald Trump e Marine le Pen são perigosos e nefastos para a política e, consequentemente, para os seus países. Eles encarnam não a política, mas a politiquice no que este conceito tem de mais abjeto. Os cidadãos só servem para lhes dar votos. Representam um dos extremos da atuação política, o outro é a esquerda radical e a extrema-esquerda. Qualquer dos conceitos não conseguem modernizar as sociedades, já que estão arreigados a dogmas, pensamentos e doutrinas como se fossem os paladinos da verdade absoluta. São todos extremistas nas ideias, na forma como pretendem organizar socialmente os seus países, na maneira como desenvolvem e defendem os seus conceitos populistas. São aquilo que se pode chamar de personagens “bipolíticos”, já que tão depressa dizem atuar na defesa dos seus cidadãos como logo a seguir são capazes de arrastar os seus países para confrontos desnecessários com outros estados e organizações. E são perigosos, muito perigosos, porque a sua inteligência (que a têm) não é posta ao serviço dos seus compatriotas. 

O populismo é hoje uma forma moderna de juntar fascismo com comunismo. O populismo cerceia-nos a liberdade económica e de integração em mercados emergentes, o fascismo e o comunismo, a liberdade política. Além do mais, os seus defensores adoram perpetuar-se no poder e não revelam qualquer preocupação com as consequências futuras das suas decisões. São eles e só eles e os seus impulsos. 

Apoiar políticas defendidas por Donald Trump e Marine le Pen representa um claro retrocesso civilizacional, porque eles exploram até à exaustão o descontentamento – normal – de sociedades que não foram capazes (por culpa de outros dirigentes, alguns incompetentes) de compreender tantas ameaças, de que o terrorismo talvez seja a mais evidente. Com eles e as suas ideias também não serão, mas o discurso redondo e vazio desses populistas soa como se de um momento para o outro os seus países com as suas lideranças fossem capazes de reduzir ou mesmo eliminar esses perigos. 

Os Estados Unidos já estão a viver tempos complicados. E haverá mais com uma administração tão retrógrada quanto esta. A Europa poderá seguir o mesmo caminho se a França der um passo em falso. Esperemos pois que não tenhamos um presidente transnacional com o nome de Donald Marine Trump de la Pen.
Jose Miguel PereiraVitor Reis
6 h
DONALD MARINE TRUMP DE LA PEN Y PODEMOS.
Antonio AlvesVitor Reis
6 h
Lembra-se do "Yes! We can" do Obama que admira? A julgar pela presidência que deixou foi exactamente o contraio do dito slogan! Por isso acusar imediatamente Trump de todos os ismos deveria estar associado a um exercício de moderação.
Jose Miguel PereiraVitor Reis
4 h
Gostei da sua reflexão. Há dois artigos muito recentes sobre Trump que lhe poderão interessar: "America, the failed state", de Francis Fukuyama, na "Prospect", e "The Jacksonian Revolt", de Walter Russell Mead, na "Foreign Affairs".
Luís CasanovaJose Miguel Pereira
3 h
Li o Jacksonian Revolt e achei-o muito fraquinho, nomeadamente, porque não menciona a Doutrina Monroe e por acho q a política dos EUA nunca foi isolacionista desde essa altura.
Vou procurar ler o outro.

Lorde Montresor
6 h
Algumas  notas:
1) O termo liberal, na Europa, representa essencialmente o liberalismo económico e está tipicamente ligado à tal direita neo-liberal que "tantas saudades" deixou por onde passou; já nos USA, o liberalismo é uma corrente de pensamento que defende a forte intervenção do estado na educação, saúde e segurança social, bem como a defesa da agenda progressista (imigrantes, aborto, direitos das minorias, LGBTQ+* (não há letras suficientes para evitar a discriminação; agora já há uma nova corrente - os não binários), etc.).

2) A direita tradicional não é liberal, nem no plano económico nem no plano social; a direita dos "neo-liberais" não deixou saudades à maioria das pessoas de direita tradicional, pois sempre privilegiou as elites globais em detrimento do seu povo honesto e trabalhador.

3) Existe uma corrente que sendo de direita no plano económico, é liberal no plano das liberdades individuais (aborto, eutanásia, opções sexuais, etc.) e duvida muito das boas-intenções dos governos (quanto menor governo, melhor). São chamados libertários e por exemplo nos USA foram representados por Ron Paul.

4) Trump não encaixa em nenhuma destas correntes. Por um lado, é da direita tradicional na medida em que defende fronteiras fortes, forças armadas musculadas; mas também pode ser libertário, na medida em que historicamente tinha posições liberais nos temas das liberdades individuais. No entanto, na dicotomia democratas / conservadores, Trump está muito mais próximo dos últimos. Acima de tudo, Trump é um "macho-alfa" e um negociador hábil que, sem dúvida, vais marcar o panorama mundial nos próximos 4 anos. Cedo ainda para balanços, mas pelo menos este não segue a cartilha globalista dos últimos 25 anos que deixou 75% das populações de fora do progresso.
Miguel Gentil GomesLorde Montresor
4 h
Permita-me discordar um pouco destas suas notas.

Um Liberal na Europa (mas sobretudo na Oceania) continua a significar essencialmente um adepto da liberdade (económica, mas não só), tal como o termo era usado no início.
Nos EUA é que o termo liberal (aqui uso a minúscula propositadamente...) foi "pirateado" pela esquerda há quase um século.
Aí, um verdadeiro Liberal em termos económicos será muitas vezes referido como "Conservative". Aquele que também o for num âmbito mais alargado poderá ser chamado de "Libertarian". A maior divisão entre "Conservatives" e "Libertarians" será, talvez, o peso do estado na defesa: os conservadores tendem a defender um exército forte e interventivo enquanto os libertários são mais avessos ao uso de força. 

A maior parte dos Republicanos são "Conservative". Alguns, como a família Paul, ou Gary Johnson poderão mesmo ser apelidados de "Libertarian".

A esquerda/centro-esquerda é que raptou o termo, passando-se a referir por "liberal".

Já é suficiente mau que o termo tenha sido indevidamente apropriado na América. Protejamo-lo na Europa!

Já em 1929, Ludwig von Mises afirmava:
"In the United States 'liberal' means today a set of ideas and political postulates that in every regard are the opposite of all that liberalism meant to the preceding generations. The American self-styled liberal aims at government omnipotence, is a resolute foe of free enterprise, and advocates all-round planning by the authorities, i.e., socialism."

No início do influentíssimo "The Road to Serfdom" (1944), Hayek esclarecia:
"I use throughout the term 'liberal' in the original, nineteenth-century sense in which it is still current in Britain. In current American usage it often means very nearly the opposite of this."

Em 1950, outro economista, Joseph Schumpeter anuía, na obra History of Economic Analysis, numa frase que ficou célebre:
"The term (liberalism) has acquired a different - in fact almost opposite meaning since about 1900 and especially since about 1930. As a supreme, if unintended compliment, the enemies of the system of private enterprise have thought it wise to appropriate its label."

Mais recentemente, em 1975, a que continua a ser maior referência moderna dos Republicanos, ousava afirmar numa entrevista à Reason:"
If you analyze it I believe the very heart and soul of conservatism is libertarianism".
O seu nome? 
Ronald Wilson Reagan.

Em conclusão:

A esquerda americana é tendencialemente liberal nos costumes mas estatista, i.e., iliberal na economia (embora menos que a esquerda europeia)

A direita americana tradicional é libertária na economia (muito mais que na Europa), embora conservadora nos costumes (muito mais que na Europa).

Em termos económicos, os Libertários tanto americanos como europeus favorem um estado mínimo, mas divergem nos costumes.Em certos temas, como o aborto ou a eutanásia, os "Libertarians" americanos, tendem a ser mais conservadores que os Europeus.
Ron Paul, por exemplo, e ao contrário do que indica, é inequivocamente "pro-life".

Na Europa, sobretudo no sul, tradicionalmente muito mais estatista, praticamente não há Direita Liberal.
"Atlas Shrugged", uma espécie de Bíblia Libertária, de Ayn Rand, é um livro extremamente influente nos EUA mas quase desconhecido na Europa. Nem existe tradução portuguesa.

Não se deixem enganar pelos jornalistas do Observador que usam quase sempre "liberal" quando deveriam usar "esquedista". 

Quanto ao Trump, estará próximo dos Republicanos nos costumes, mas infelizmente, ameaça concretizar a ameaça de ser extremamente interventivo na economia.Aliás, durante a campanha, Trump revelou simpatizar na generalidade com Reagan, excepto nas questões de comércio. E Bernie Sanders, o mais esquerdista dos candidatos democratas foi rápido a aplaudir a revogação do TPP, por exemplo...
Lorde MontresorMiguel Gentil Gomes
1 h
Obrigado pela resposta e pelo enquadramento histórico. O meu objectivo foi apenas (e resumidamente) alertar para a diferença entre um liberal nos USA e Europa. 

Relativamente ao Partido Libertário, mantenho o que disse: por definição, os libertários entendem que o governo não deve tomar posição nas escolhas individuais (aborto, drogas, orientação sexual, prostituição, etc.). Naturalmente (e por definição), cada indivíduo é livre de  ter a sua opinião e prática, desde que não imponha a sua opção aos outros. Repare que não referi que Ron Paul é a pro life ou a favor do aborto; simplesmente referi que é liberal, no sentido de não querer impor a sua visão à sociedade.
João Paulo
6 h
Isto agora só pode ganhar eleições quem promete uma coisa em campanha e faz outra quando exerce o mandato. Alguém, que afinal até está a cumprir o que prometeu, e que foi sufragado por metade dos eleitores americanos, há que combater como se fosse um ditador que usurpou o poder com um golpe de Estado. Da minha parte confio nas instituições americanas (Senado, Congresso, Poder Judicial) para não deixar Tramp violar os princípios da constituição americana.
Jose Miguel PereiraJoão Paulo
6 h
"Tramp", diz muito bem.
Jose Miguel Pereira
6 h
E, por falar em desonestidade intelectual, o cliché dos extremos-que-se-tocam volta a verificar-se. A desfaçatez e a extensão em que Kellyanne Conway, a "senior adviser" de Trump, distorce a realidade é completamente leninista.
Joaquim Carlos Rocha Santos
6 h
Mas o fenómeno mais interessante é a presente fusão entre Radicais de Esquerda e Islamistas defensores da lei Sharia. Vejam Gavin McInnes. É hilariante.

Nisto é onde esta esquerda perde toda a credibilidade... 
Agos SilArte Rebelo
4 h
É verdade, é nisto! Não é em tudo o resto, não, é só nisto!
Vasco Abreu
6 h
Enfim, se entendi bem, Rui Ramos defende que a direita deve regressar ao armário e deixar a esquerda moderada e radical tomar conta do parque! Pois bem, eu não quero pertencer nem a essa esquerda, nem a essa direita envergonhada, mas também não pertenço à direita radical. Eu sou de uma direita orgulhosa de o ser e, por isso mesmo, capaz de entender e respeitar os valores de esquerda, com a exigência correspondente de que essa esquerda respeite os valores da direita. Eu sou de uma direita que respeita Soares, Guterres, Sampaio, mas exige da esquerda o respeito correspondente por Sá-Carneiro, Cavaco, Durão e Passos... Eu sou de uma direita que olha no rosto da esquerda e que se deixa olhar nos olhos por essa esquerda... O que eu não sou é de uma direita que se intimida perante a arrogância da esquerda e o que eu não sou é de uma esquerda que se julga dona disto tudo!

PS.: O racismo mais perigoso que hoje existe no mundo ocidental não tem relação com raça ou religião. Quanto a mim, o racismo que nos ameaça é de natureza ideológica: a esquerda ataca tudo o que cheire a direita: ele foi Merkel, ele é Temer, ele é Cavaco, Durão, Passos, Fillon, Cameron... Porém, à esquerda só existem deuses: ele é Fidel, Chavez, Maduro, Obama, Hollande, Renzi... Esse racismo ideológico de que falo só tem paralelo no racismo contra negros e judeus nesse passado de má memória!

PS.: Se depois de tão desrespeitada, a direita sente ser necessário o murro de Trump na mesa, que venha ele, que se oiça e que seja consequente, sem, contudo, que a mesa se parta, porventura!
Jose Miguel Pereira
6 h
"A todos os que à direita resistirem a este maniqueísmo de pré-guerra civil, os trumpistas chamarão cripto-esquerdistas, e os anti-trumpistas chamarão cripto-fascistas. A desonestidade intelectual, como já se vai vendo, não terá limites."

Parece-me que o Rui Ramos anda a dar umas espreitadelas aqui à zona dos comentários do Observador...
Sofia Padrão
7 h
Já incomoda mais as infinitas análises a Trump, que o próprio Trump. Faz lembrar quando Passos Coelho venceu as eleições em 2011 e 24 horas depois já pediam a sua demissão, e depois foram 4 anos de contestação desonesta! Com este governo de esquerda, é só paz e prosperidade. Se Trump fosse do Partido Democrata "todos" lhe achavam muita piada, querem apostar?
Luís CasanovaSofia Padrão
3 h
Então com os media tradicionais a falirem e o enxame de produtores de conteúdos q polulam pela NET... Vá-se habituando. Eu já apanhei noticias documentadamente falsas q passaram na Time.
No To Brainwashing
8 h
"O radicalismo, como se viu na Inglaterra com Corbyn, em França com Hammon, ou nos EUA com Sanders"

que triste RR...

sabe... as PESSOAS... têm como referência essas mesmo que descreveu!
Luís CasanovaNo To Brainwashing
7 h
Interessante a sua classificação... as PESSOAS... Então, os portugueses q nem sequer sabem quem é o Sanders, são o quê?

Eu apoio o Sanders, acho Corbyn um anacrónico e se Hammon for como o Hollande, prefiro nem o conhecer. Como é q eu me encaixou na sua taxonomia?

No To BrainwashingLuís Casanova
6 h
"Então, os portugueses q nem sequer sabem quem é o Sanders"

que raio de questão... é uma referência para quem os conhece!!!!!!!!!!!!!!!!
Luís CasanovaNo To Brainwashing
6 h
Quem não o conhece, não o pode ter como referência, logo classifica-se como NÃO PESSOA?

E qual é a resposta à segunda questão?
Jose Miguel PereiraNo To Brainwashing
6 h
Desculpe se mal pergunto, mas quem o mandatou para falar em nome das PESSOAS?


No To BrainwashingJose Miguel Pereira
5 h
foi aquela coisa que não deve usar... CÉREBRO!

ou tinha que lhe pedir autorização?
No To BrainwashingLuís Casanova
5 h
porque é que continuar a tentar inverter a minha lógica...

ponho-lhe a questão...

quem tem como referência o blair e diz mal corbyn... é pessoa com letra pequena!
Luís CasanovaNo To Brainwashing
5 h
Enganou-se nas duas vezes.

A lógica inverte-se. Como você declarou que A=>B é equivalente a dizer que !B=>!A. Ou seja, quem não têm como referência Corbyn, Hammon e Corby não é PESSOA, com letras grandes.

Eu nunca apoiei o Blair. Dizer que Corbyn (ambos escrevem-se com a primeira letra maiúscula) é anacrónico, é apenas factual. Pela simples razão que defende ideias que foram defendidas pelos Trabalhistas na década de 40-50 do século passado. Anacrónio e bom ou mau são classificações independentes entre si.
Romeu FranciscoNo To Brainwashing
5 h
irónico.... vindo de um acéfalo.
Pedro Simoes
8 h
Curioso como a esquerda que tem sido arrasada nas urnas em todo o lado pela sua radicalização vem agora exigir que os moderados de direita!!! se juntem a ela...
Arte RebeloPedro Simoes
6 h
O problema desta esquerda é que os moderados de direita juntam-se mil vezes mais a trump (que eu odeio) que aos radicais de esquerda (que são a causa da maior miséria e fome do povo). O problema desta esquerda é que tanto nos EUA e na Europa está a afundar e os exemplos dela na governação são por mais evidentes da miséria que deixam. Antes uma falta de liberdade por ser governados por insanos como trump do que falta de pão na mesa por ser governados pela esquerda. Eu sei que esta comparação é muito redutora, mas que no comum cidadão mais ou menos informado é no que acredita. Por isso que Le Pen não pára de crescer e na Alemanha o AfD pode causar enormes estragos. 
Carlos Quartel
8 h
Goste-se ou não de Trump, ele foi eleito segundo as leis do seu país.Pode tentar-se analisar o como e o porquê da sua eleição, não se pode duvidar da sua legitimidade.Podemos mesmo falar da lealdade de Trump, está a cumprir o seu programa, não enganou ninguém, os votos foram conquistados em nome deste projecto e destas acções. 

Os inimigos da democracia, do voto, do pluralismo estão nos universitário que partiram tudo, na sua raiva para impedir alguém de dizer o que pensa e nos milhares que não aceitam o resultado de uma eleição.
Isto é básico, isto é a verdade e encerra o assunto.

Analisar das razões que levaram as pessoas a votar num brutamontes ignorante, com um discurso primário é outro assunto.
Guilherme Berthe
8 h
Bom artigo. Concordo em absoluto.
José António Rodrigues Carmo
8 h
Entendo o seu ponto de vista, e racionalmente sim, seria conveniente que cada um se mantivesse afastado da arena da luta e fizesse os seus comentários da bancada. Acontece que por vezes,   não há bancada e estamos todos na arena. E aí, o 1º imperativo é juntarmo-nos ao nosso lado para vencer o desafio de sobreviver. Só depois podemos marcar a nossa distância. Nas guerras culturais que estão a aquecer, por vezes não temos a chance de escolher um terceiro lado, a luta é mesmo maniqueísta e colocarmos-nos de fora, como a neutral Suiça, é assegurar que a parte de que menos gostamos e mais nos ameaça, vença. Sim, por vezes os inimigos dos nossos inimigos são nossos amigos, pelo menos enquanto a coisa estiver tremida. Reler Maquiavel, ou Sun Tsu, ajuda a perceber a equação
Completamente de acordo. 
chegaparali chegaparali
10 h
 "A desonestidade intelectual, como já se vai vendo, não terá limites."  Nem mais. Rui Ramos a confessar-se. 
Trump é o nojo da sociedade. E se os moderados o comem por conveniência ou medo entregam a oposição aos extremistas, perdem todo a legitimidade para se queixar se a oposição responde no termos dos "tomadores" do poder.
Gostava de saber a sua opinião sobre o seguinte tema. Acha q o feriado nacional do 25 de Dezembro deveria deixar de se designar por Natal? Já agora, concordaria com a simples abolição de todos os feriados religiosos?
Ruben Dos SantosLuís Casanova
7 h
Pessoalmente não concordo. Embora não seja cristão (sou ateu) respeito a tradição e os costumes do MEU povo e da MINHA cultura. Acho que seria extremamente ofensivo até para mim estar a alterar a designação das coisas só por causa do politicamente correto e para estar a agradar a uma minoria que nem sequer acha que isto é um problema...
Luís CasanovaRuben Dos Santos
6 h
Pois...ainda bem nós achamos q isso não é problema em Portugal. E esperemos q nunca venha a ser, acrescento. Só q nos EUA já é uma realidade.

Ruben Dos SantosLuís Casanova
6 h
Aqui já tivemos a ideia de mudar o nome cartão de cidadão para cartão de cidadania por ser gender neutral.
Felizmente em portugal ainda temos gente sensata...
luis barreiro
10 h
Com quase 60 anos (nunca imaginei) até leio colunistas de órgão de informação atacarem colegas por num parágrafo defenderem alguém, neste caso estou a referenciar o Trump. Quem não escreve a dizer mal do Trump não é filho de bom pai, e merece ser preso, e os votos em Trump não deviam de ser contabilizados.
João Amaro
10 h
"Ou Trump ou o radicalismo, eis os termos a que os partidários de um e outro gostariam de reduzir a política."

A política está reduzida entre o Globalismo vs. Nacionalismo

Os Globalistas Multiculturais dizem que a solução para o envelhecimento do Ocidente é importar milhões e milhões de terceiro mundo, alterando a composição étnica, religiosa e cultural da Europa para todo o sempre, isto não é segredo nenhum é agenda politica da UNO (e não só) já há imenso tempo

Os Nacionalistas (aqueles que tiveram o atrevimento de votar no Trump e no Brexit) defendem que as migrações devem ser controladas e deve haver muitos mais incentivos à natalidade para os nativos Europeus. 

Quem for Nacionalista agora é prontamente chamado de populista, racista, xenófobo, nazi, Hitler e fascista pela trupe do politicamente correcto.

Vou colocar vídeos em baixo para não ser censurado neste comentário.
João AmaroJoão Amaro
10 h
Propostas com o intuito de aumentar a natalidade dos Europeus são prontamente chumbadas por serem "Racistas" e "Nazis" pelos políticos actuais.

https://www.youtube.com/watch?v=-O8EQFbqu-8
João AmaroJoão Amaro
5 h
Bolas tive os links censurados

Basta ir ao google e colocar "ONU replacement migration", até há página da wiki

Sem comentários:

Windows Live Messenger + Facebook