sábado, 11 de fevereiro de 2017

“Como matar em três segundos?”: os detalhes do massacre da família brasileira na Espanha


“Olha só, agora é a sua vez”, disse Patrick Nogueira ao seu tio após acabar com a vida da mulher dele e de dois primos

Patrick Nogueira, quando foi depor na Polícia Civil, em 20 de outubro. EFE / ATLAS
Desde que tinha 12 anos, o paraibano Patrick Nogueira, hoje com 20, convivia com a sensação de que algo de grave iria truncar sua vida de repente. E esse dia chegou em 17 de agosto do ano passado, quando pegou um ônibus para a localidade espanhola de Pioz com a intenção de matar a facadas seu tio, a mulher dele e dois primos. Não houve lugar para improviso nessa chacina. Ele chegou a pesquisar na Internet qual seria o método mais rápido para eliminar os quatro parentes. “Como matar alguém em três segundos?”, digitou num site de buscas, segundo fontes da investigação. O EL PAÍS reconstrói, com dados inéditos, o selvagem crime quádruplo que abalou a Espanha e o Brasil em meados de 2016.
Eram 14h de 17 de agosto, hora local. Patrick cruza a porta do chalé 594 do condomínio La Arboleda de Pioz, onde vivem seu tio Marcos Campos Nogueira e a esposa dele, Janaína Santos. O casal tem dois filhos de dois e quatro anos. Todos são de origem brasileira.
Janaína esta sozinha com as crianças. Patrick come com eles as duas pizzas que leva e oferece ajuda à mulher para lavar os pratos. É o pretexto para esfaqueá-la na cozinha. Mais tarde, acaba com a vida dos priminhos – também a punhaladas. “Estava claro que eu queria matá-los desde antes de chegar à casa. Não passei medo”, contou o assassino posteriormente aos investigadores.
Patrick limpa o chalé com água sanitária para que seu tio, que só chegaria do trabalho às 22h, não suspeitasse de nada. Inicialmente, planeja enterrar a tia e os dois primos com uma pá que havia comprado por 60 euros (200 reais). Depois, diante da dificuldade de cavar no concreto, opta por esquartejar os corpos e guardá-los em quatro sacos de lixo grandes.
Termina de esfregar o chão. Já são 19h. Ainda faltam quatro horas para o tio chegue do trabalho. Dedica o tempo livre a mandar selfies e mensagens de WhatsApp ao seu único amigo, Marvin Henriques Correia, de 18 anos, que está no Brasil. “Quando deu 18h45 eu ainda estava enxaguando o chão. Estou feliz”, gaba-se.
Os psiquiatras descrevem Nogueira como um psicopata típico. Um sujeito que não está louco e distingue entre o bem e o mal com uma frieza que lembra o caso de Javier Rosado, autor de um horripilante crime cometido em 1994 na Espanha, que ele próprio narrou com detalhes em três páginas de um caderno. “É notável o quanto um idiota demora a morrer”, disse Rosado em seu diário, desprezando a vítima, que ele chamava de “a presa”.
O paraibano Patrick manifesta ao amigo Correia a sua insatisfação por não ter conseguido resolver a chacina de uma só vez. O problema é o tio, que ainda está no trabalho. “Chega aqui às 22h. Estou com fome. E esse viado não chega. Está tudo seco. E ter que sujar outra vez… Voltar a partir o corpo pela metade outra vez… Colocar os órgãos numa sacola… Depois limpar….”, conta ao amigo por WhatsApp. “Espero não falhar matando esse merda”, acrescentou em outra mensagem, que incorporava o link de um texto sobre “quanto tempo um corpo leva para se decompor” Seu amigo, no Brasil, acompanha com expectativa.
Marcos Nogueira e Janaína Santos Américo
Marcos Campos, o tio, chega em casa às 22h15 e encontra o sobrinho, desafiador. “Olha só... Agora é a sua vez”, lhe diz, conforme apurou este jornal. Depois o esfaqueia no corredor. “Pelo menos meu tio é mais leve que a mulher dele. Mulher gorda da porra. Achei que era um homem, kkk”, conta ao amigo.

“Se me prendessem aqui eu não me importaria”

“Voltar a partir o corpo pela metade outra vez… Colocar os órgãos numa sacola… Depois limpar….”, queixou-se o assassino ao seu único amigo
O jovem pernoita no chalé, descansando, mas acordado. Descarta a ideia de fugir às 4h da madrugada pelo matagal. Teme ser descoberto pelo segurança do condomínio. Tem consciência do que fez. E se mostra preocupado em ir parar numa prisão brasileira. Volta a pegar o celular. “Aí me estuprariam 30 vezes. E depois apagariam uma vela no meu cu. Kkk. Se me prendessem aqui eu não me importaria… Ficaria vendo TV até os 80 anos”, diz a Correia, a quem – conforme contou às autoridades brasileiras – estava unido havia três anos por laços de amor, “mas não de homossexualidade”.
Quando amanhece, Nogueira pega um ônibus com direção à localidade de Alcalá de Henares, nos arredores de Madri, onde divide apartamento com uma jovem brasileira e dois espanhóis. Chega levando um saco com chaves, um celular, luvas, fita adesiva, toalhas e tecidos manchados de sangue. Dias depois se desfaz dos utensílios numa lixeira. Joga-os em dias alternados, para não despertar suspeitas.
Morar num apartamento compartilhado não era a sua primeira opção. Mas foi a consequência do ultimato dado pelo tio Marcos, que ameaçou denunciá-lo por estar irregularmente na Espanha se não fosse embora da casa da família. Alguns meses antes, o assassino e as vítimas haviam morado juntos em Torrejón de Ardoz, também perto de Madri. Os pais do rapaz, residentes no Brasil, queriam que seu filho deixasse para trás uma vida turbulenta em João Pessoa para ser acolhido pelos parentes na Espanha.
Mas a convivência com os tios acabou sendo vulcânica. Conforme declarou o pai de Janaína, Wilton Diniz, em depoimento à polícia paraibana, “sabíamos que Patrick tinha esfaqueado um professor em 2013 e que tinha comportamentos estranhos, como andar nu pela casa”. Esse dado se soma à chave oferecida aos investigadores espanhóis pelo chefe de Marcos na churrascaria onde ele trabalhava, em Alcalá de Henares. Na opinião dele, seu funcionário “estava desequilibrado e pensava de forma obsessiva que sua esposa estava lhe traindo com seu sobrinho Patrick”.
“Não foi um impulso. Premeditei alguns dias antes”, confessou o criminoso aos investigadores.

Fuga para o Brasil

Os cadáveres só foram encontrados um mês depois. E, dois dias depois da descoberta, Nogueira se mandou num voo para o Brasil. O chalé dos seus familiares se transformou num monumental set de televisão. E todos os olhares apontavam para ele, um rapaz de boné, de 20 anos, que jogava futebol em Torrejón de Ardoz e passava as tardes grudado no game Call of Duty.
A única pessoa na Espanha de quem Patrick se despediu foi Borja, o homem que havia lhe alugado um quarto. “Estou no Brasil. Meu tio foi assassinado… A imprensa diz que fui eu… Desculpe não ter te avisado...”, escreveu ele num WhatsApp, já de volta a João Pessoa.
Durante seu périplo brasileiro, o rapaz voltou a se encontrar com Correia, a beber e a fumar. Seu amigo contou posteriormente à polícia paraibana que respondeu às mensagens do assassino por “curiosidade” e porque não queria “que Patrick fosse preso”. Correia chegou a ser detido, mas foi posto em liberdade sem ser indiciado.
Um mês depois de viajar ao Brasil, o assassino de Pioz voltou voluntariamente à Espanha e se entregou às autoridades. Seguiu as indicações de sua irmã, a advogada Hanna Nogueira Gouveia.
Desde então, encontra-se isolado na prisão provisória, na qualidade de réu confesso do quádruplo homicídio doloso. Assessorado pelo escritório Garzón Advogados, ele tentará usar a confissão como atenuante para ser condenado a 30 anos de prisão, em vez de pegar a pena de prisão perpétua com direito a uma revisão a cada 25 anos.
Nogueira nunca negou ter cometido a chacina. “Não foi um impulso. Premeditei alguns dias antes.”

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