quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A chave da morte do irmão do ditador norte-coreano estará na China?


O homicídio de Kim Jong-nam, meio-irmão do líder norte-coreano, Kim Jong-un, deixa mais perguntas do que respostas. Pequim via-o como solução de recurso para o país, se o regime caísse.
Fotografia de Agosto de 1981, onde Kim Jong-nam aparece sentado à frente, ao lado do pai, Kim Jong-il
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Fotografia de Agosto de 1981, onde Kim Jong-nam aparece sentado à frente, ao lado do pai, Kim Jong-il EPA/YONHAP
Separar o facto da ficção em assuntos relacionados com o país mais fechado do planeta é uma tarefa árdua. Junte-se ao secretismo norte-coreano um crime com contornos pouco explícitos e o resultado é uma nuvem carregada de teorias e conspirações.
Os factos contam-se em dois parágrafos. Um homem — cuja identidade não foi sequer confirmada pelas autoridades malaias, mas tratar-se-á de Kim Jim-Jong-nan, meio-irmão do líder norte-coreano, Kim Jong-un — morreu na segunda-feira enquanto estava a ser transportado para um hospital de Kuala Lumpur. A vítima estava no aeroporto da capital da Malásia onde se preparava para apanhar um voo para Macau.
Ontem, a polícia deteve uma mulher de 28 anos que tinha documentos de identificação vietnamitas e é suspeita de estar envolvida na morte de Kim Jong-nam. Foram reveladas imagens captadas por câmaras de vigilância no aeroporto que a mostram ali ma altura em que o homem terá sido envenenado.
E terminam aqui as informações confirmadas.
A Coreia do Sul não tem dúvidas e diz tratar-se de um homicídio encomendado por Kim Jong-un. Seul diz que Kim foi morto por duas agentes ao serviço do regime de Pyongyang, que terão utilizado um spray venenoso ou uma “caneta” com uma substância letal. Fontes do Governo da Malásia disseram à Reuters que o regime norte-coreano se opôs à realização da autópsia e exigiu a entrega do corpo.
Por responder fica a questão das motivações. O director dos serviços de informação sul-coreanos, Lee Byung-ho, disse que o homicídio de Kim obedeceu a uma “ordem duradoura”, mas não deu muitas pistas sobre a razão para que o ditador norte-coreano tenha decidido eliminar o irmão. “Reflecte a propensão de Kim Jong-un para a paranóia, em vez de um acto calculado de remover uma ameaça ao seu domínio.”
Não seria a primeira vez que Kim Jong-un mandou matar um familiar. Em 2013, o seu tio e antigo “número dois” do regime, Jang Song-thaek, foi executado por traição. Alguns dizem que Jang era próximo de Jong-nam.

O indesejado

Importa olhar para a biografia de Kim Jong-nam, o filho mais velho do ex-líder norte-coreano, Kim Jong-il, o segundo da dinastia Kim, que herdou o poder do pai, Kim Il-sung, que fundou o país, em 1948. Jong-nam nasceu em 1971, fruto da relação extraconjugal de Kim Jong-il com a actriz Sung Hae-rim. Kim tentou tornar Sung na sua mulher legítima, mas o seu pai proibiu-o, condenando o neto a uma infância de reclusão num empreendimento de luxo onde foi criado pelos avós maternos. A mãe foi expulsa para a União Soviética nos anos 1970 e o pai fazia-lhe curtas visitas, durante as quais lhe oferecia prendas no valor de centenas de dólares.
Como é costume com os filhos da elite norte-coreana, Kim Jong-nam foi enviado estudar na Europa, onde frequentou colégios na Suíça e na Rússia. Havia por esta altura fortes sinais de que Kim Jong-il, que assumiu a liderança após a morte do pai, em 1994, encarava o filho mais velho como seu potencial sucessor.
Um episódio infeliz parece tê-lo feito cair em desgraça. Em 2001, foi detido no aeroporto de Tóquio quando tentava entrar no Japão com um passaporte falso da República Dominicana — algumas notícias da época dizem que também levava um passaporte português, provavelmente emitido em Macau — com o objectivo de levar o filho ao jardim zoológico. Assim ficou aberto o caminho para a ascensão de Kim Jong-un ao poder, o que veio a acontecer em 2011.
Nesta altura, Kim Jong-nam já vivia fora da Coreia do Norte, dividindo o tempo entre as casas em Macau e Pequim. Ficou com um papel secundário no negócio de família, a gestão das contas financeiras no estrangeiro. Segundo o analista Michael Madden, também terá estado envolvido em esquemas de lavagem de dinheiro a mando do regime de Pyongyang, o que o terá levado a frequentar casinos por toda a Ásia.
Neste sentido, uma das teorias avançadas para explicar a sua morte é a possibilidade de se ter tratado de um homicídio encomendado por organizações criminosas ou de um ajuste de contas.

Um sucessor potencial

Nos últimos anos, Kim Jong-nam começou a critcar o sistema político do seu país. Chegou a manifestar-se contra a “sucessão dinástica”, de acordo com um jornalista japonês que o entrevistou. Em 2012, um agente norte-coreano capturado na Coreia do Sul confessou ter estado envolvido num plano para raptar Kim Jong-nam.
A chave para a razão da morte do meio-irmão do líder norte-coreano pode estar na China. Segundo os serviços secretos de Seul, Kim Jong-nam e a sua família são protegidos pelas autoridades chinesas — algo que não é confirmado por Pequim.
Um dos maiores receios existenciais da liderança chinesa é a possibilidade de um colapso do regime norte-coreano dar origem a uma guerra civil às suas portas e à instauração de um governo vizinho próximo dos EUA. Desse ponto de vista, Pequim estaria a considerar Jong-nam como um “sucessor potencial da dinastia, caso algo acontecesse a Jong-un”, diz o professor da Universidade Nacional da Austrália Leonid Petrov.
As relações entre Pyongyang e o seu único aliado com algum relevo internacional atravessam um momento delicado, com a China a manifestar publicamente desconforto com os sucessivos ensaios nucleares e balísticos norte-coreanos.
Por outro lado, a Associated Press cita uma notícia recente do jornal sul-coreano Kyunghyang Shinmun sobre o possível papel que Kim terá tido como mediador entre o Governo de Seul e alguns dirigentes norte-coreanos como a razão para que Kim Jong-un tenha ordenado a sua execução.
Num artigo na BBC, Michael Madden diz que “não é do interesse geopolítico de Jong-un ver o seu meio-irmão morto”. E deixa uma sugestão: “Os observadores de Pyongyang devem dar alguma margem de manobra às autoridades malaias para conduzirem uma investigação adequada (.). Tendo em conta o que sabemos, ele até pode ter morrido de ataque de coração.”

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