sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Moçambique regista inflação mais alta dos últimos 25 anos

Moçambique regista inflação mais alta dos últimos 25 anos

Os preços aumentam todos os meses

A última vez que o país viveu um dos níveis de inflação (subida do nível geral de preços) mais elevados da história, foi durante a guerra dos 16 anos que terminou em 1992, há precisamente 25 anos, quando a média anual calculada entre 1990 e 1992 chegou aos 39%, segundo dados do Banco Mundial. Dali a esta parte, muitos foram os eventos que marcaram o percurso de Moçambique, mas nenhum deles viria a colocar o custo de vida (de ponto de vista de inflação) àquele nível, nem as cheias de 2000, até hoje tidas como uma das catástrofes naturais que mais devastou o país nos últimos tempos.
Porém, no ano passado, uma combinação de problemas que o país atravessou acabou por aproximar os recordes da década de 1990: não tendo sido em 40% como naquele tempo, os preços subiram, em média, cerca de 20% – a taxa de crescimento da inflação imediatamente a seguir ao de há 25 anos – tendo atingido os 25.27% em termos acumulados (do início até ao fim de 2016), apontam os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) tornados públicos esta semana.
São números que testemunham a deterioração do poder de compra das famílias e justificam as dificuldades que as empresas tiveram (e ainda têm) de enfrentar, ao se depararem com elevados custos de produção e queda da procura.
Importa recordar as razões que mais influenciaram este comportamento de preços 2016: houve queda da produção interna de alimentos, morte de milhares de cabeças de gado, na sequência da seca que assolou o Sul do país. No sector agrícola, por exemplo, 867,121 hectares de culturas diversas, correspondentes a cerca de 18% da área total semeada com culturas da 1ª época, ficaram perdidas, afectando 461,690 produtores com maior incidência para os das províncias de Sofala (117,129), Manica (115,572), Tete (106,928), Gaza (49,285), Inhambane (27,653) e Maputoprovíncia (26,740).
No sector da pecuária, destaca-se a perda de cerca de 6,767 bovinos e 112 caprinos devido à seca, sendo as províncias de Maputo e Gaza as mais afectadas. A combinação destes fenómenos sujeitou milhares de pessoas à fome, tendo aumentado a necessidade de importação de alimentos.
Paralelamente, houve prolongamento do fortalecimento do dólar norte-americano, que tinha começado em meados de 2014 devido ao crescimento da economia dos Estados Unidos da América e o fim do programa de estímulo à economia por parte do Federal Reserve – o Banco Central norte-americano. Ao mesmo tempo, eventos internos depreciaram a moeda nacional que saiu dos habituais 30, para um pico de cerca de 80 meticais por unidade da moeda norte-americana. Resultado é que as compras no exterior (num país altamente dependente de importações) ficaram mais caras e pesaram na inflação interna.
Mais: a tensão político militar no Centro do país encareceu o custo de transacções ao limitar a circulação de pessoas e bens.
Assim, um país que já vinha habituado a taxas de inflação abaixo de dois dígitos (10% ou menos) viu o custo de vida experimentar novo tecto no ano passado. Para este ano, a expectativa é de que os preços comecem a desacelerar, embora prevaleçam riscos assumidos pelo Banco Central, entre os quais a ocorrência de calamidades naturais, que têm sido cíclicas no nosso país.

PREÇOS AUMENTARAM DURANTE TODO O ANO
Ao longo do ano, o país caracterizou-se por uma tendência de aumento de preços em todos os meses, excepto Maio em que se verificou uma ligeira queda (0,22%), influenciada pela queda de preços de alguns produtos frescos, com destaque para o Tomate.
Os meses de Novembro e Dezembro foram os mais severos com aumentos de preços na ordem de 2,89% e 3,47%, respectivamente, explicados em grande medida pelo agravamento dos preços do consumo de electricidade, do tomate, do coco, do amendoim e do arroz.
Tomando como referência a inflação acumulada, as cidades de Beira, Maputo e Nampula registaram, em 2016, aumentos de preços na ordem de 29,13%, 24,62% e 24,33%, respectivamente.
No que se refere à inflação média 12 meses registada no País, a Cidade da Beira situou-se acima da média, com 22,45 % e as Cidades de Nampula e Maputo abaixo da média, com 19,46 % e 19,27%, respectivamente.

DEZEMBRO, MÊS DE PICO
Dados recolhidos nas Cidades de Maputo, Beira e Nampula, em Dezembro do ano passado, indicam que o país registou um agravamento mensal do nível geral de preços na ordem de 3,47%.
Os preços da divisão de alimentação e bebidas não alcoólicas aumentaram em 5,84%. Esta divisão contribuiu para o total da inflação mensal, com 2,95 pontos
Percentuais (pp) positivos.
O aumento dos preços do tomate (47,7%), do coco (22,6%), do amendoim (10,2%), da farinha de milho (3,6%), do peixe fresco refrigerado ou congelado (4,9%), de capulanas (10,5%) e do feijão manteiga (5,5%) foi responsável por 2,42pp positivos do total da inflação mensal registada.

META É DESCER INFLAÇÃO PARA 15,5% ESTE ANO
Governo e Banco Central estão optimistas na contínua melhoria dos indicadores de estabilidade económica, incluindo a inflação. Mas pela prevalência de riscos, espera-se que a mesma se mantenha no nível dos dois dígitos, portanto ainda muito acima do nível dos últimos anos. Ou seja, o custo de vida deve ser menor do que no ano passado.
Também o Instituto Nacional de Estatística apresentou uma leitura optimista das perspectivas futuras. Numa publicação de Outubro – o Índice de Confiança e de Clima Económico (ICCE) – do ano passado, avançou que o indicador de perspectiva dos preços continuou a baixar pelo quarto mês consecutivo, tendo o seu saldo atingido o nível mais baixo dos últimos seis meses. Justificou que a previsão baixa de preços futuros está associada à opinião inflacionista vaticinada pelos agentes económicos dos sectores de alojamento e restauração, da produção industrial e construção, que foi mais expressiva do que as restantes actividades inquiridas naquele mês, que consideraram que os preços vão subir.

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