quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Cessar-fogo em Moçambique, um caminho para a Paz?


Denomina-se cessar-fogo, ou trégua, a paralisação temporária dos ataques durante um conflito armado. Os lados envolvidos nas operações de guerra concordam em suspender os ataques durante um período limitado de tempo em determinado território, sendo que o cessar-fogo ocorre de forma não formalizada, e costuma ser o passo anterior à assinatura de um armistício ou tratado de paz.
A diferença entre o armistício e o cessar-fogo é que o primeiro constitui um acordo formal no qual as partes envolvidas no conflito concordam em parar de lutar. Um dos exemplos de cessar-fogo ocorridos na história da humanidade é a “Trégua de Natal”, na noite de 24 de Dezembro de 1914.
Para Madhav Joshi e J. Michael Quinn (cientistas políticos e pesquisadores sobre acordos de paz), as abordagens teóricas dominantes para as negociações de guerra civil no campo da ciência política têm procurado explicar tanto a escassez quanto as altas taxas de fracasso de acordos negociados em conflitos civis.
Este padrão histórico, no entanto, mudou fundamentalmente nas últimas duas décadas, uma vez que as mudanças nas normas e leis internacionais, bem como o aumento da prevalência e da competência dos profissionais da construção da paz, exigem agora que os actores de conflito tenham um maior compromisso em negociações e na execução de acordos .
Enquanto os actores das guerras entre Estados buscam evitar a responsabilidade, os actores de uma guerra civil parecem abraçar as oportunidades que essas novas dinâmicas criam para alcançar reformas de ampla base em diversas áreas da política e do governo.
Pesquisas em ciência política mostram que o cessar-fogo muda mais do que apenas condições no terreno: eles alteram a forma como os participantes de uma guerra pesam os benefícios de lutar em vez de dialogar. O cessar-fogo pode criar algo como um ciclo virtuoso, que pode ser benéfico para a paz. Este ciclo nem sempre é tão visível ou politicamente urgente como a questão de quem está a lançar ataques diariamente, mas ao longo do tempo, pode deslocar o cálculo dos participantes de forma a construir condições para a paz.
Pagne Fortna, professora da Universidade de Columbia e pesquisadora em negociações de paz, diz que acordos "fragmentários", embora modestos e raramente bem sucedidos, podem eventualmente alinhar os incentivos de grupos cujas demandas no momento são irreconciliáveis. Mas há um outro lado, às vezes, o cessar-fogo pode criar um ciclo vicioso em vez de um virtuoso. A desconfiança pode se aprofundar, as partes podem se afastar e os incentivos podem mudar para tornar a paz ainda menos atractiva.
Em 2015, Madhav Joshi e J. Michael Quinn, publicaram um estudo examinando 196 cessar-fogos e acordos de paz de 1975 a 2011. Eles descobriram algo surpreendente: um dos melhores elementos do sucesso de um acordo de paz é simplesmente se as partes tinham acordos prévios, mesmo se aqueles cessar-fogo anteriores falharam. Nem mesmo, a duração de uma guerra ou sua intensidade pode prever de forma confiável o resultado de um acordo de paz. Nem a pobreza nem a diversidade étnica dos combatentes. "As falhas preparam o caminho para melhores acordos no caminho!" - Quinn.
Com o tempo, os participantes vêem o cessar-fogo como menos arriscado, pois, se todos os lados saírem a sentir que quebraram o mesmo, eles podem surgir mais dispostos a fazer um outro acordo. Por exemplo, na Jugoslávia, onde houve 91 tréguas mediadas ou cessar-fogos de 1989 a 2000. Desses, 35 por cento durou menos de uma semana e 13 por cento durou exactamente uma semana. Embora cada um pareça ser um fracasso catastrófico, culminaram nos Acordos de Dayton de 1995, que terminaram a guerra da Bósnia, que era um subconjunto do conflito maior, bem como acordos posteriores.
Em Moçambique vamos no segundo cessar-fogo no espaço de uma semana, é algo que se deve encorajar, sob o ponto de vista que possa criar mais confiança entre os actores envolvidos, mas a sua duração não deve tornar-se rotina, sob o risco de se viver uma paz intermitente. Deve quanto a mim, ser a oportunidade para que de uma vez por todas se chegue a paz definitiva e sustentável.
Para concluir, gostava apenas de ressalvar as palavras do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, na sua mensagem inaugural (01.01.17):
‘’(...) Como ajudar os milhões de seres humanos vítimas de conflitos e que sofrem enormemente em guerras que parecem não ter fim?...Nestas guerras não há vencedores; todos perdem. Gastam-se biliões de dólares na destruição de sociedades e economias, alimentando ciclos de desconfiança e medo que podem perpetuar-se por gerações. Vastas regiões do planeta estão inteiramente desestabilizadas e um novo fenómeno de terrorismo global ameaça a todos...Façamos da Paz a nossa prioridade. Façamos de 2017 um ano em que todos – cidadãos, governos, dirigentes – procurem superar as suas diferenças.
Seja através da solidariedade e da compaixão nas nossas vidas quotidianas, seja através do diálogo e do respeito, independentemente das divergências políticas. Seja por via de um cessar-fogo num campo de batalha ou mediante entendimentos conseguidos à mesa de negociações para obter soluções políticas. A procura do bem supremo da Paz deve ser o nosso objectivo e o nosso princípio orientador.
A dignidade e a esperança, o progresso e a prosperidade – enfim tudo o que valorizamos como família humana – depende da Paz. Mas a Paz depende de nós.''
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Referências:
1.The New York Times - The Surprising Science of Cease-Fires: Even Failures Can Help Peace (03.01.2017)
2.Is the Sum Greater than the Parts? The Terms of Civil War Peace Agreements and the Commitment Problem Revisited - Research Report – January 2015, Madhav Joshi e J. Michael Quinn (03.01.2017)
3.Nações Unidas - António Guterres faz apelo à paz (02.01.2017)

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Hossi Sonjamba
Hossi Sonjamba Que seja mesmo o estabelecer da tranquilidade efectiva
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Ivan Maússe
Ivan Maússe Bem analisado, Dércio Tsandzana.
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Ivan Maússe
Ivan Maússe Mais logo reajo com mais precisão.
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Pedro Manguene
Pedro Manguene A fraternidade deve reinar em nossa sociedade. Estou em crer que Moçambique caminha para um silêncio perene das armas. Já mostrou-se vontante, já mostrou-se capacidade. Agora temos é que cultivar esse espírito e pó-lo à prática quotidiana, não só no seio dos actores/protagonistas directamente envolvidos nos conflitos político-militares (e económicos), mas em cada um de nós, cidadãos, e toda a nação! Nem de forma "quente", nem "friamente" essa guerra deve continuar a manchar os anais da nossa História!!!
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Zacarias Monjane Júnior
Zacarias Monjane Júnior Interessante abordagem. Conceitos bem definidos e dados históricos importantes sobre a importância da trégua ou cessar-fogo para o alcance de uma paz definitiva. Mas devo dizer que esperava uma análise um pouco mais profunda sobre essas tréguas em Moçambique, visto que viemos de um Acordo Geral de Paz que falhou e de um Acordo de Cessação de Hostilidades que também falhou.
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Zacarias Monjane Júnior
Zacarias Monjane Júnior De facto esperava uma reflexão um pouco mais frofunda sobre essas tréguas para o caso particular de Moçabique. Entratanto, os conceitos e exemplos estão muito bem colocados. Parabéns Dércio Tsandzana
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Ibraimo Assamo
Ibraimo Assamo O modus operandi de como os intervenientes posicionam-se perante a esse conflito político-militar, prova-me que sim, podemos ter uma paz duradoira. Para que isto seja tangível é importante que manifestem os mesmos sentimentos que demonstraram na quadra festiva para com o seu povo. Eu assim como muitos concidadãos, acreditamos que essa trégua vai se alastrar por mais tempo, quiçá para toda eternidade. Bem haja meu ilustre Dercio Dércio Tsandzana, por nos trazer essas ilucidantes colocações em forma de conceituacão. Paz à todos.
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Ernesto Jose Sande
Ernesto Jose Sande Houvi dizer k amanha vao se encontrar o Presidente Nyusi e Lider da renamo
19 saat

Resultados sem stress
Um dos piores inimigos de Moz tem sido a forma como lidamos com resultados, ou melhor com processos decisórios. Se o resultado é bom, o processo decisório foi bom. Se o resultado é mau, o processo decisório foi mau. E pior: o bom resultado dá razão à causa e o mau resultado retira razão à causa. Tem sido uma constante na nossa história. Ganhámos a independência em 1975: foi porque lutámos melhor que os portugueses e também porque a nossa causa era justa. Não fomos vencidos durante a guerra de desestabilização: foi porque a nossa causa era justa e porque lutámos melhor que os comunistas. Já agora um pouco de polémica: as dívidas ocultas deram berro; claro, porque a decisão foi má e movida pelas piores intenções possíveis.
Não é só na política. É em tudo o que é vida. Em Gaza com aquela tradição de ir trabalhar na RSA há alguns mineiros que sobressaiem, ficam ricos de forma impressionante e a gente explica isso com recurso ao mesmo esquema: fizeram tudo bem. E aqueles que não ficam ricos (advinharam bem) fizeram tudo mal. Mesmo nestes anos de “boom” económico que tivemos no país houve alguns que ficaram fabulosamente afluentes. Dizemos que fizeram tudo bem (porque são bons mesmo). Eles próprios dizem isso e olham para os menos afortunados com aquele ar arrogante de quem sabe que faz bem as coisas.
É a forma moderna de feitiçaria com a única diferença de que agora não é necessariamente mal visto aquele que se sai bem. É celebrado. É um pouco aquela ideia de que o mundo é justo: recompensa os bons e pune os maus. Tarde ou cedo. Feitiçaria é uma forma bastante potente de lidar com a perplexidade. Mas tem o seu senão: transforma aleatoriedade em quadro estrutural e correlação em causalidade. As consequências são dramáticas. O país vira um castelo de cartas prestes a ruir com qualquer sopro. E essa é a outra constante. Durante muito tempo celebramos Jesus Cristo como o Salvador e a história funcionou porque os resultados eram confortantes. Hoje, graças ao feminismo, já estamos a olhar para o processo e começamos a descobrir que, se calhar e afinal, Maria foi estuprada. Re-escrever a Bíblia? Re-escrever a nossa História?
O bom, nestes dias, é que o país ganhou mais dois meses de paz. Vivam as nossas lideranças clarividentes dum e doutro lado da constitucionalidade!
Nouveau single de Viviane Chidid (Novembre 2016)
youtube.com
Valdano Tchaka O país e o povo perderam estrutura e são robotizados,o povo jubila e regozija o alargamento da trégua para 2 meses,resultado da plataforma encontrada pelas lideranças das forças beligerantes com mãos banhadas de sangue e ilegítimas ...efectivamente e deplorável e condenável assistir como assumimos de forma manifesta que a soberania não reside no povo ,que direito a vida e alienável e negociável,e que os altos valores nacionais(paz,segurança,estabilidade) são maleáveis e manipuláveis.
Mussá Roots
Mussá Roots Hammm, creio que percebí:

Tipo, aquela paz podre, de 22 anos, que ninguém question(ava)ou, apenas vivas ao presidente Chissano e Dlhakama obreiros da paz, e logo depois que a bomba a longo termo explodiu, já se questiona Chissano.


"Só queremos paz, nstém"...

Essa da #Maria, profe, eish!
Lyndo A. Mondlane
Lyndo A. Mondlane professor..o ideial seria paz honesta, mas esta claro que o governo nao tem capacidade de impor, o estado é de faz de contas, passamos anos em festas permanentes e esquecemos de constituir um estado forte, com as leis de um estado forte, mas tambem com orgaos de defesa e segurança serios e credivies, e como o nosso é nunca terminar as coisas (porque somos assim?, nao sei) as consequencias estao aqui, qualquer com má uva, mau genio e com alguns descontentes minimamente treinados, pode impor a 23 milhoes de cidadaos as suas vontades.. e assim nos vai... pelo que se impoe o pragmatismo, dar tudo e mais alguma coisa ao choramingao...., se amanha o Rider pedir uns quantos harakiris nas nossas lideranças.. havera harakiris tarde ou cedo...
Ilidio Da Silva
Ilidio Da Silva Pode ser que nao tenha nada a ver com ela, mas este post Prof me fez recordar a historia do velho, do rapaz e do burro. É um dos seus post mais curto que tive o previlegio de ler mas com muito pano para reflexao. Votos de um bom ano e oxala facas tudo bem para ter sucesso na nossa perspectiva
Alcídes André de Amaral
Alcídes André de Amaral Como se a Paz fosse também algo para mendicidade... Aliás, até parece que somos mendigos, mendigando uma Paz dada ou tirada pelas nossas lideranças... Até parece que somos mendigos civis!

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