terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Medidas do Banco de Moçambique sufocam bancos comerciais


Momade Assife Abdul Satar adicionou 6 fotos novas.

Mais uma vez eu, Nini Satar, trago a minha humilde contribuição sobre o estágio actual da banca em Moçambique.

Sobre esta matéria é pertinente frisar que vários analistas já teceram os seus pontos de vista, mas como eu não gosto de escrever algo sem antes investigar a fundo, preferi não me pronunciar antes que era para não ser inoportuno.

Antes de começar a minha abordagem, quero elucidar que no sistema financeiro moçambicano o valor que opera na banca, na globalidade, são 300.000.000.000, 00 MZN (trezentos biliões de meticais). Isto corresponde a 4.000.000.000, 00 USD (quatro biliões de dólares), o que para pessoas como Bill Gates, Amâncio Ortega e Warren Bufet constitui uma quantia irrisória, pois estes nomes que acabo de citar têm as suas fortunas avaliadas em mais de 60.000.000.000, 00 USD (sessenta biliões de dólares) cada um, pelo que, querendo, qualquer um destes magnatas pode influenciar a economia moçambicana.

Mas vou deixar de falar deles até porque não são objecto da minha análise, sendo que o mais me importa é elucidar os meus compatriotas sobre o estágio actual da banca em Moçambique.

A crise em Moçambique é um facto real, o custo de vida em Moçambique subiu de forma estonteante, muitas empresas fecharam, muitos pais de família ficaram desempregados, o Banco de Moçambique reviu as taxas de juro directorias, o que implicou que os bancos comerciais também revissem as taxas de juros para os clientes, aumentou a proporção de reservas obrigatórias para os bancos comerciais, o Moza Banco foi intervencionado, o Nosso Banco foi encerrado, e alguns bancos estavam em riscos de seguirem o mesmo caminho. Por desinformações as pessoas têm vindo a retirar dinheiro das contas bancárias dos bancos com menor musculatura financeira, porque têm um fundado receio de perderem o seu dinheiro a semelhança do que aconteceu no Nosso Banco.

Por tanto, vive-se uma anarquia em Moçambique. E o Banco de Moçambique que devia esclarecer e tranquilizar aos demais não o faz, ou se o faz, fá-lo de forma defeituosa.

Vou começar pelo início do problema.

A que se deve essa crise?

Essa crise tem a sua génese na má gestão da coisa pública. Houve dívidas contraídas no Estado sem seguir os trâmites normais, dívidas estas com garantias soberanas do Estado moçambicano. Não digo que o Estado não possa ser o garante de dívidas, mas para isto acontecer, deve haver uma aprovação da Assembleia da República que representa o povo e devia haver um visto do Tribunal Administrativo, tudo isto não aconteceu porque algumas pessoas queriam encher os seus bolsos em detrimento do povo Moçambicano.

2. Postura adoptada pelos bancos comerciais face ao início da crise

É importante frisar que Moçambique é um país que importa mais do que exporta. Logo, muitos dos produtos comercializados no país são provenientes da diáspora.

Quando começou a crise, as moedas estrangeiras que mais circulam no país, nomeadamente o rand, dólar e euro dispararam abruptamente, sendo que a tendência dos bancos foi de correr atrás de exportadores e de ONG’s e organizações internacionais para poderem captar recursos em moeda estrangeira e garantir que os seus clientes continuassem a importar os seus produtos. Por um tempo até conseguiram auto- sustentar-se desta forma.

3. Medidas tomadas pelo BM

Revisão das taxas directorias por três vezes num ano – esta medida visava fazer face a depreciação do metical face as moedas estrangeiras. Como consequência os bancos comerciais foram forçados a aumentar as suas taxas de juro para os seus clientes, havendo aqui um efeito dominó que prejudica as empresas e as pessoas singulares, na medida em que já não existe em Moçambique actualmente um banco com a sua Best íLending Rate abaixo dos 29% (vinte e nove por cento). Ou seja, a base para se financiar em Moçambique começa nos 29 por cento e pode ser acrescido de um spread positivo que varia de 1 (um) a 10 % (dez) por cento, logo a taxa de juro anual de um financiamento pode chegar aos 39% (trinta e nove por cento), ou seja, se uma sociedade ou pessoa singular tinha um depósito a prazo remunerado por um banco, sendo que esta remuneração do depósito a prazo servia para pagar as suas letras mensais avaliando o custo benefício destas operações, hoje em dia é materialmente impossível verificar-se isto.

Por Ex. a Empresa ‘A’ tinha um depósito a prazo de 50.000.000, 00 MZN (cinquenta milhões de meticais), remunerado a uma taxa de 20% (vinte por cento) anual que corresponde a 10.000.000, 00 MZN (dez milhões de meticais) por ano, mas ao mesmo tempo tinha um crédito no valor de 20.000.000, 00 MZN a uma taxa anual de 18% (dezoito por cento ao ano) que em princípio pagava com o valor da remuneração dos juros, e tinha o benefício do spread negativo de 2% (dois por cento), isto já não acontece hoje porque as taxas remuneratórias dos financiamento não subiram acima dos 25 por cento, mas as taxas de juros estão acima dos 30%, logo, há aqui uma desvantagem prejudicial aos clientes dos bancos comerciais;

Aumento da proporção das reservas obrigatórias a serem depositadas pelos bancos comerciais

Quanto a este aspecto, importa antes elucidar que reservas obrigatórias e rácio de solvabilidade são coisas diferentes, e é comum ver pessoas eruditas e até canais televisivos a tratarem destes dois institutos como se fossem o mesmo, não se pode aqui misturar alho e bugalho. Por isso mesmo só intervim agora que era para não cometer os mesmos erros. Quando falamos de reservas obrigatórias quer se referir aos depósitos obrigatórios mínimos que os bancos comerciais devem proceder junto do banco central, sendo que esta tem como base uma percentagem dos depósitos globais que os bancos comerciais captam dos seus clientes. Em Moçambique, por exemplo, lê-se no jornal “O País” que “ O Banco de Moçambique acaba de alterar o regime das reservas obrigatórias, fixando as incidências para metical e moeda estrangeira. A constituição das reservas em moeda estrangeira dos bancos comerciais será feita em dólares, tendo a taxa sido fixada em 15%. A medida vai permitir que o banco central tenha maior liquidez em moeda estrangeira.

Os bancos comerciais são obrigados a depositar uma percentagem do valor dos depósitos dos seus clientes junto do Banco de Moçambique, uma operação que é denominada Reservas Obrigatórias e a taxa é de 10,5% dos depósitos.

Face a uma pressão inflacionária e cambial, o Banco de Moçambique decidiu, ontem, dividir as águas, que consiste em ter reservas obrigatórias para os depósitos em meticais e reservas obrigatórias para moeda estrangeira.

O comunicado do Banco de Moçambique explica que as reservas obrigatórias em moeda estrangeira serão constituídas em dólares e que os bancos comerciais são obrigados a depositar 15% do valor dos depósitos dos seus clientes em moeda estrangeira junto do Banco de Moçambique. O coeficiente de reserva obrigatória em meticais mantêm-se nos 10,5%.

Adicionalmente, o Comité de Política Monetária do Banco de Moçambique decidiu aumentar as taxas de juro da Facilidade Permanente de Cedência de liquidez em dois pontos percentuais para 12,75% e da Facilidade Permanente de Depósitos em 1,5 pontos percentuais para 5,75%. Trata-se de medidas que visam travar a inflação e a depreciação da moeda nacional, que continua acima dos 50 meticais por unidade de dólar”.

Esta medida pós fora de circulação do mercado financeiro mais de 5 (cinco) biliões de meticais, porque os bancos foram forçados a proceder estes depósitos para não terminarem como o Moza ou o Nosso Banco. Por exemplo, para o Millenium Bim e BCI que detêm 30% (trinta por cento da quota de mercado), cada um deles teve de retirar cerca de 1.3 (um ponto três) biliões de meticais, o que é muito.

Com essa medida o metical escasseia ainda mais, logo há muita moeda estrangeira no sector financeiro, mas não há metical para comprar – isto faz com que a moeda estrangeira deprecie e baixe. Uma medida de mestre para o BM, mas estranguladora para os bancos e para as casas de câmbio, porque os bancos e as casas de câmbio já haviam comprado muita moeda estrangeira e agora não conseguem vender porque não há metical. Logo, para os bancos agora a corrida é para arranjar importadores e já não exportadores, conforme me referi anteriormente, o cenário mudou, se antes se procurava a moeda estrangeira, agora se procura o metical para fazer face a compra da moeda estrangeira.

Apenas para elucidar, rácio de solvabilidade é um rácio financeiro que indica a proporção relativa dos activos da empresa financiados por capitais próprios versus financiados por capitais alheios. Sendo tudo o resto igual, quanto mais elevado este rácio, maior a estabilidade financeira da empresa. Quanto mais baixo, maior a vulnerabilidade.

O rácio de solvabilidade para os bancos comerciais ainda mantém-se nos 8.5% (oito vírgula cinco por cento). Ou seja, os bancos não podem ter o rácio abaixo dos 8.5%, isto quer dizer se um banco tem o rácio abaixo desta proporção percentual, logo este banco não está financeiramente bem, assim sendo o BM pode forçar a aumentar o capital social, aliás no âmbito de concessão de licença comercial para o exercício de actividade bancária repara-se muito aos investidores para saber se caso o BM exija que se aumente o capital social poderá ou não fazer. Em suma não se repara só para o capital inicial, mas repara-se também para a musculatura financeira do investidor para suprir questões futuras.

Fica aqui uma nota importante e elucidativa: Rácio de solvabilidade e reserva obrigatória são coisas diferentes e cada um tem seu papel, mas ambos visam proteger o cliente depositário no banco, porque um banco que não consegue fazer face as reservas obrigatórias e o rácio de solvabilidade, este não deve subsistir enquanto banco porque põe em risco dinheiro dos clientes.

4. Da consequência do aumento da proporção das reservas obrigatórias e da necessidade de manutenção do rácio de solvabilidade

Para fazerem face as reservas obrigatórias e manter o rácio, alguns bancos, principalmente os maiores, devem espremer-se bastante aceitando depósitos a prazo a uma taxa de 25%, o que leva ao banco a remunerar aos beneficiários em valor exorbitante e consequentemente leva os bancos comerciais a praticarem taxas de juro muito acima dos 25% no âmbito da concessão do crédito, logo, quem sofre são os clientes dos bancos.

A outra medida que os bancos têm feito para cumprir com estas imposições regulamentares é tomar o valor junto de outros bancos a taxas muito elevadas e por curto espaço de tempo, e parece que não, mas é muito recorrente os maiores bancos comercias tomarem dos menores, devido ao facto dos bancos comerciais terem menores carteiras de clientes e de volumes de negócios, não precisam de fazer reservas muito elevadas. Por exemplo, enquanto um BCI teve de depositar 1.3 biliões para fazer face as reservas obrigatórias, um banco comercial menor apenas depositou 40 milhões de meticais e tem muito dinheiro para ceder sendo que não teve que efectuar muito esforço.

Em suma, os bancos estão muito sufocados e se o BM agravar mais essas taxas percentuais os que não conseguirem fazer face ao acréscimo poderão seguir mesmo caminho do Moza ou do Nosso Banco.

5. Da necessidade do BM elucidar ao povo e aos demais sobre o estágio actual do sector Bancário em Moçambique

A administradora do Banco de Moçambique, Joana Matsombe, acompanhada pelos administradores Waldemar de Sousa e Alberto Bila, concedeu na tarde do dia 18 de Novembro, uma conferência de imprensa sobre a revogação da autorização para o exercício da actividade do Nosso Banco.

Falando a jornalistas, a administradora disse que não há razão para pânico porque o sistema bancário encontra-se estável, sólido e goza de uma boa saúde. Durante a sua intervenção, a administradora foi mais incisiva e esclareceu que o sistema bancário está suficientemente capitalizado e tem liquidez para satisfazer as necessidades do mercado, ou seja, dos seus clientes.

Ora, há dias atrás estive a conversar com um amigo que é gestor de clientes num banco comercial e ele disse que várias pessoas estão a retirar os seus dinheiros aos poucos. E disse mais: alguns clientes até iam ao banco para levantar todo o dinheiro porque ouviam que o banco poderia fechar, mas após a conversa com os respectivos gestores ficaram esclarecidos.

Há um papel que não podem ser os bancos comerciais a desempenharem, mas deve ser o BM enquanto órgão regulador a e em representação do Estado que é o de assegurar ao povo em geral sobre a posição salutar do mercado. Senão vejamos, imagine por ex. se um gestor do UBA ou do BTM vai tranquilizar ao seu cliente sobre a sua boa saúde financeira, o cliente pode não acreditar alegadamente porque os gestores do Nosso Banco o fizeram até a data do seu encerramento. Mas se o próprio órgão regulador tranquilizar ao povo em geral, isto já cria conforto nos clientes.

Quando falo de tranquilizar, não me quero referir a uma simples conferência de imprensa, ou a publicação do site do BM, quero sim me referir a uma informação que até as pessoas detentoras de conta por ex. do BCI em Morrumbala entendam a mensagem, e isto só se pode fazer mediante uma difusão reiterada, usando-se todos os meios de comunicação existentes


Por hoje e tudo.

Nini Satar.

+2



GostoMostrar mais reaçõesComentarPartilhar
Comentários principais
159159
17 partilhas
19 comentários
Comentários

Escreve um comentário...



Jr Chauque Isto sim embora minha cabeça seja tão dura mas é uma aula muito importante com explicação ao meu nível e de muitos que gostam de coisas claras bem explicadas e realmente o BM usa palavras para só os inteligentes saberem e esquecem que existem muitos como eu iletrados mas cliente que não entendemos nada daquela linguagem,e economia tem uma linguagem inglesa muito difícil de saber é muito difícil. Os meus parabénsMomade Assife Abdul Satar por querer que TODOS saibamos com uma linguagem fácil.
Gosto · Responder · 4 · 4 h


Lerry Good Agredecido pela licao macro_economica, coisa que nossos governantes nao conseguem fazer pra elucidar o Povo. Oh! Oh ! Era de se esperar o Povo morreu com Samora, agora e' Republica de Mocambique ja era Republica Popular...Saudades do tempo em que primeiro era o Povo, depois os governantes!
Gosto · Responder · 2 · 6 h · Editado
1 resposta


Muchuquetane Guenjere Mas que grande licao, voce devia ser professor na Faculdade de Economia da UEM. Mas tudo isso, quero dizer obrigado, por esclarecer um pacato cidadao como eu em termos e ilustracoes bem simples e consiga compreender. Abracos Ilustre.
Gosto · Responder · 5 h


Clemente Nhacula Acho que Nini devia retornar a Moçambique, país de que tanto se orgulha set seu e reunisse instituições e figuras que acha não estar dando conta de recado nos âmbitos de economia e finanças mas, antes, aconselho-o a não confundir leitura de números no caso vertente entre " MILHÃO e BILIÃO "
Gosto · Responder · 1 · 7 h


Arone Joao Isso é aquilo que se chama conhecimento Inato, Nini ficaste a representar o nosso Saudoso presidente Samora Machel. Obrigado pela sua explicação.
Gosto · Responder · 3 h


Sergio Julio Langa Meu carro conforme li e percebi quer crer que c esaa explicação ate aquele que e d "murrumbala" pode perceber... Assim livra o equívoco que existe n seio d pode..
A sua explicação foi simples e fácil de perceber como esta maquina financeira funciona. Espero que os outros possam ter tempo o ler e perceber uma vez que pouca gente tem hábito d leitura.
Gosto · Responder · 1 · 5 h


Álvaro Xerinda
Gosto · Responder · 7 h


Aly Issa este é o puto das quantias. os tubarões agora estão arrependidos de ñ ter aniquilado o puto.
Gosto · Responder · 43 min


Zitha Zitha Pare parar cm a derapagem do metical alguem tinha k chorar,nao seria possivel resolver isso 100 criar dor ,o triste é k quem passa mal mesmo é o pobre k nem sabem quem fez isso
Gosto · Responder · 3 h


Celso Macarala isso é que significa não

Sem comentários:

Windows Live Messenger + Facebook