segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Porque somos imunes a algumas gripes? Tudo depende do ano em que nascemos

Estudo Científico


Um estudo recente conclui que tem tudo a ver com o ano em que nascemos e com a primeira estirpe que nos afetou. Os resultados da investigação vão ajudar a perceber quem são os grupos de risco.
JOSE SENA GOULAO/LUSA
As gripes não afetam toda a gente da mesma maneira. Há quem seja imune a determinadas estirpes e quem seja especialmente afetado por outras. Segundo um estudo publicado esta semana na revista Science, tem tudo a ver com o ano em que cada um nasce — particularmente com a primeira estirpe a que é sujeito.
Os cientistas pegaram num exemplo concreto (e negro) da história para partirem para a investigação: a gripe espanhola de 1918, que matou sobretudo pessoas entre os 20 e os 40 anos. A resposta, descobriram os investigadores, estava relacionada com a infância. As pessoas que tinham nascido depois de 1889 nunca se tinham deparado com uma estirpe semelhante, escreve a The Atlantic.
A equipa, liderada pelo biólogo Michael Worobey, descobriu o mesmo padrão nas duas estirpes mais recentes da gripe aviária: o H5N1 e o H7N9. Tratam-se de duas estirpes que passaram dos animais para os seres humanos pela primeira vez, pelo que, em teoria, seria impossível alguém ser imune a elas. No entanto, através da análise do número de pessoas afetadas ou mortas por estas duas estirpes entre 1997 e 2015, a equipa descobriu um padrão: a estirpe H7N9 afetou sobretudo pessoas nascidas antes de 1968, enquanto a estirpe H5N1 afetou maioritariamente pessoas nascidas depois desse ano.
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Os dois gráficos mostram a incidência das duas estirpes consoante os anos de nascimento. Nota-se que a incidência da estirpe H7N9 é sobretudo nas pessoas nascidas antes de 196, e que a da estirpe H5N1 é maioritariamente nas pessoas nascidas após esse ano. (Imagem: Science)
“Os dados são mesmo impressionantes, as tendências são muito fortes”, analisa o biólogo Matthew Miller, em declarações à The Atlantic. Já Michael Worobey, responsável pelo estudo, garante que se trata de uma “rutura relativamente ao pensamento anterior, em que um vírus novo emerge num estado branco, sem imunidade para a população”.
O que importa perceber é o que aconteceu, então, em 1968. Segundo os investigadores, neste ano mudou o tipo dominante de vírus — antes desse ano, o tipo dominante era o H1N1; depois, passou a ser o H3N2. Por isso, a primeira gripe a afetar quem nasceu antes de 1968 foi a do primeiro grupo, enquanto a que afetou pela primeira vez quem nasceu depois daquele ano era a do segundo grupo. Como o H7N9 faz parte do mesmo grupo do H3N2, e o H5N1 do mesmo grupo do H1N1, então quem foi afetado por cada uma das estirpes foi sobretudo quem nunca tinha sido atingido por uma do mesmo grupo.
Analisando o tipo dominante de vírus em cada ano, será possível avaliar quais são os grupos de risco para cada estirpe: bastará, em teoria, olhar para os grupos de pessoas que já foram afetados por uma estirpe semelhante, que, provavelmente serão imunes. Quem nunca tiver sido afetado por um vírus do mesmo grupo vai ter maior probabilidade de ficar doente. “Mesmo no melhor cenário possível, haverá sempre limites à disponibilidade das vacinas se houver uma pandemia. Isto irá ajudar a perceber, de forma lógica, quem são os grupos de maior risco”, conclui o biólogo Matthew Miller.

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