quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Os mal entendidos das ciências sociais



Elisio Macamo


As ciências sociais são um pouco como o proverbial filho de sapateiro: anda descalço. Estudar ciências sociais não faz de ninguém mais competente na vida do quotidiano. Se fizesse, o mundo inteiro estaria aos pés de cientistas sociais. O contrário é que vale: cientistas sociais são espezinhados pelos outros... bom, a situação não é assim tão dramática, meu exagero. Uma razão que explica porque cientistas sociais nunca serão os mais competentes na vida prende-se ao facto de a vida social ser basicamente imprevisível apesar de toda a rotina que a caracteriza. Na verdade, passamos mais tempo a concertar mal-entendidos do que a viver. É isso, até, que nos dá esta sensação de que muita coisa na nossa vida é rotina. Não é rotina. A rotina pode até ser uma ilusão óptica.

Algo tão simples como a interpretação dum sorriso que alguém nos dirige pode constituir um grande desafio se tivermos em conta que a nossa reacção ao sorriso será sempre a nossa reacção à interpretação que fizemos do sorriso, não ao sorriso em si. O sorriso em si é refém de muita coisa que escapa à interpretação tanto mais que muitas vezes a interpretação reflecte aquilo que nós gostaríamos que o mundo fosse, não aquilo que o mundo é ou pode ser.

Vem tudo isto a propósito de Tete (outra vez), desta feita da recusa das autoridades comunitárias de aceitarem donativos dum partido político da oposição. Há um certo sentido em que estaríamos aqui perante uma situação típica de mal-entendidos a vários níveis. Há o mal-entendido básico das autoridades comunitárias que consistiu provavelmente em pensar que fosse arriscado aceitar donativo da oposição (que no imaginário político moçambicano pode significar “inimigo”). Se o partido no poder não gostar há sempre o perigo de sofrer represálias. Ou o segundo maior partido pode também não gostar, e está armado. Isto é, as autoridades comunitárias podem ter interpretado o donativo com base na sua propria visão do mundo, não necessariamente com base no donativo em si ou do gesto. Todos nós fazemos isso, infelizmente. Na verdade, o “poder da Frelimo” sobre o qual dissertei há vários anos tem a sua base neste problema: há muita gente que julga agir no “interesse” da Frelimo ou dos que estão lá em cima. Os mais espertos vivem até disso.

Há o mal-entendido do próprio MDM que consistiu em pensar que o seu gesto de boa vontade e solidariedade seria interpretado como gesto de boa vontade e solidariedade. Mais uma vez, o erro aqui é de pensar que a forma como nós vemos o mundo, e o interpretamos, é a forma como os outros também o veem e interpretam. Muito arriscado. Não há nada de errado no pensamento do MDM. Há, talvez, pouca consciência do país em que vive. Nenhum gesto é inocente, infelizmente, sobretudo quando pode ter conotações políticas. Aqui também nada de novo. É a Pérola do Índico a mostrar as suas cores. Quantas vezes fiquei frustrado tentando entrevistar alguém para um trabalho de pesquisa e não consegui porque as pessoas não sabem se não se vão lixar com alguém, quantas vezes? E as desculpas são as mesmas: É preciso autorização de alguém que só pode ser abordado após percorrer o que parece uma corrida de obstáculos burocráticos.

Há também o mal-entendido humanitário, digamos. Uma população habituada a viver da caridade alheia aprende a ser astuta e a saber comercializar a sua indigência. Entre hostilizar um partido político que não está no poder central e um partido que comanda o Estado pode ser mais prudente hostilizar o primeiro. Nada contra o MDM em si, apenas prudência. É a lógica de acção de muitos de nós. Em cada partido político, ONG ou seja qual for a instituição pública onde o tráfico de influências desempenha um papel importante na determinação das oportunidades de vida, há um grupo considerável de gente que está lá por oportunismo apenas. A Frelimo tem mais oportunistas porque é o partido que está no poder. Mas mesmo os outros partidos estão cheios deles, gente que investe no futuro. Nas ONGs idem. Aqui comercializa-se a indignação. Isso faz com que em determinadas circunstâncias os méritos das questões sejam sacrificados no altar da fogueira de vaidades que o oportunismo pode ser. Os debates ficam polarizados e agressivos porque os oportunistas querem mostrar a quem de direito que são defensores duma certa causa. Se formos honestos vamos nos reconhecer na atitude da autoridade comunitária lá nos confins de Tete.

Depois há ainda o mal-entendido da análise pública que sofre daquele defeito da procura de padrões sobre o qual falava no “post” sobre as coincidências. A recusa de donativos por parte da autoridade tem de fazer parte dum esquema plausível. No nosso país esse esquema faz parte daquilo que cremos serem os desígnios do partido no poder. Pode não ser, mas faz sentido, logo, é verdade. Curiosamente, é também desta maneira que tornamos essa dominação por esse partido real e abrangente. Quando se pinta o diabo na parede, como os alemães dizem quando querem falar de quem imagina o pior, ele aparece mesmo.

O que quero dizer com estes reparos é que mal-entendidos são constitutivos da vida social. Não tornam a vida social impossível. Viabilizam-na. Fazem isso tornando as pessoas conscientes dos equívocos na base das suas próprias interpretações. Tenho em mim que essa é a licção que devíamos extrair da recusa da autoridade comunitária em aceitar o donativo. Não se revelou necessariamente retrógrada, nem servil em relação ao poder do dia. Ela agiu como muitos de nós age no nosso país. Foi muito competente. O desafio para os que entre nós se consideram cientistas sociais é perceber melhor as circunstâncias que tornam viável este tipo de leitura da situação assim como o que leva gente sensata a preferir agir de acordo com essa leitura. Só que isso é difícil, talvez muito mais difícil do que simplesmente condenar. E, claro, condenar devemos, sem dúvida, mas ficar por aí pode não ser prudente.

Em algumas coisas só Deus é que nos pode ajudar como canta o grande e saudoso Ali Farka Touré...



Ali Farka Toure & Toumani Diabate - Sabu Yerkoy
'Sabu Yerkoy' is the second single to be released from the forthcoming album 'Ali and Toumani' by the GRAMMY winning Malian greats Ali Farka Touré and Touman...
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