domingo, 27 de novembro de 2016

Não choro por ditadores


1. Fidel Castro foi um ditador. Um ditador que, como todos os ditadores, torturou, assassinou e fez tudo para se perpetuar no poder. Não respeitou a liberdade de expressão, de opinião, de organização, proibiu os partidos e fez do seu país uma enorme prisão de onde só saía quem ele queria.
Sei bem que não faltarão discursos sobre o facto de ele ter ajudado a derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista, de o embargo americano o ter condicionado e mais um sem-número de miseráveis desculpas para justificar o injustificável: a instituição duma terrível ditadura. Já ouvi conversas parecidas em relação a outros ditadores. Conheço-as de ginjeira. Quem não ouviu gente relativizar a nossa com a história dos cofres cheios, da segurança, da paz, duma prosperidade remediada? Quem não se lembra da defesa de outras ditaduras sul-americanas baseada na troca da liberdade por desenvolvimento económico? Mas há pior, li e ouvi, estarrecido, comparações entre a ditadura cubana com regimes em que homens e mulheres democraticamente eleitos, que abandonaram o poder quando o povo assim o quis e que nunca puseram em causa direitos fundamentais. Gente inebriada pelo lado folclórico e uma mitologia mentirosa de defesa dos fracos e oprimidos que se esquece da miséria, da opressão e da ofensa permanente aos valores democráticos que o ditador e os seus capangas, de facto, instalaram. Num tempo em que estamos a viver uma nova ameaça a tudo o que nos custou tanto a conquistar, assistir a pessoas que, na mesma semana, se mostram amedrontadas com populistas miseráveis como o Trump, o Farage ou a Le Pen e defendem um torcionário como o Fidel diz tudo sobre a consistência dos seus valores ou, pior ainda, faz duvidar se verdadeiramente defendem os mesmos que qualquer democrata.
Um ditador é um ditador. Não há ditaduras de esquerda ou de direita, há apenas ditaduras.
Seria normal que quem é de direita se sentisse mais indignado com ditadores que se dizem de direita, como seria mais do que lógico que alguém de esquerda se sentisse insultado por alguém que tiraniza um povo e se afirma de esquerda. No fundo, quem se aproveita do que pensamos ser justo. Parece que não é assim. Pelo que ontem assisti, vejo que há gente disposta a glorificar um ditador, um assassino, um torcionário apenas porque se dizia de esquerda e fazia afirmações grandiloquentes sobre o povo e o imperialismo americano.
A morte de alguém nunca me alegra, mas no dia da morte de Fidel Castro prefiro recordar as vítimas dele. O povo tiranizado, os presos e mortos por delito de opinião, os que estiveram presos no seu país contra sua vontade, os que morreram a tentar fugir, os torturados, os humilhados, os que morreram a lutar pela liberdade.
Eu sou pela democracia, pela liberdade, pela igualdade, pela solidariedade, serei sempre contra os ditadores qualquer que seja a máscara que tragam.
Não me peçam que chore por um ditador, choro sim pelas suas vítimas. Que a terra lhe seja pesada.
2. Marcelo Rebelo de Sousa antecipou o Natal e deu um presente a António Costa. Não só elogiou a solução governativa como, traçando um quadro completamente diferente do que a oposição tem feito, deu a enésima facada a Passos Coelho, que deve utilizar o retrato, na sede do partido, do ex-comentador e ex-líder do PSD como alvo para setas.
Não será novidade para ninguém que os acordos que suportaram a solução governativa estão, na essência, cumpridos. Faltando o mínimo denominador comum, é normal que apareçam as antigas divergências políticas e ideológicas profundas entre PS, PCP e BE. É agora que iremos ver se, de facto, esta espécie de institucionalização do BE e do PCP é para manter, se esta social-democratização desses partidos permanece. No fundo, Marcelo, sabendo dos riscos futuros para a coligação, está a pedir uma nova plataforma de entendimento. Uma que abra outros horizontes. A estabilidade e a paz social, sendo objetivos políticos por si mesmos, não podem ser os únicos dum governo de um país que precisa desesperadamente de crescimento económico e investimento. Mais, apesar do clima político ser favorável ao governo e assim distrair as atenções para os pouco mais do que medíocres resultados económicos, basta que a economia abane para que este estado de graça acabe. Sem novos acordos tudo será mais volátil e o Presidente, sabendo-o, está a pedir mais compromisso.
Por outro lado, não há quem já não perceba que esta solução governativa salvou o nosso sistema político-partidário (o mérito da governação propriamente dita é outra coisa). Trouxe para dentro do sistema mais de um milhão de votos e evitou-se - não se sabe por quanto tempo - populismos à esquerda; salvou o PS e mantiveram-se assim dois partidos moderados no centro da política nacional - neste aspeto somos a inveja de muitos por essa Europa fora. Mas sem a atuação do Presidente da República não só a estabilidade da coligação estaria em causa como o clima de paz social não seria aquilo que é. Apesar de o Presidente não gostar do centrão - e bem -, a verdade é que hoje vivemos numa espécie de bloco central: um Presidente de centro-direita aliado dum governo de centro-esquerda.

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