sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Com tanta sondagem, quem é que tem razão?

CASA BRANCA 2016


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Nos últimos dias há sondagens para todos os gostos: numas vence Trump, noutras continua Hillary na frente. Em que ficamos? Bem... é complicado. Mas aqui vão algumas explicações.
Getty Images
“Hillary Clinton vai ganhar. Não, espera, afinal é o Donald Trump que está na frente. Não é nada, é a Hillary. Não, viste a última sondagem? Vi, dizia que era o Trump”. Esta podia bem ser uma conversa real, já que há sondagens para todos os gostos. Mas estamos a menos de uma semana das eleições presidenciais nos EUA. Afinal, quem leva vantagem? Para já, Hillary Clinton. Mas é mais pequena e está longe de ser uma corrida ganha.
Todos os dias é conhecida uma (ou mais) nova sondagem, mas os resultados têm sido tão consistentes como a meteorologia no sudeste asiático em tempo de monções. As últimas três sondagens conhecidas davam resultados para todos os gostos: uma dá vantagem a Donald Trump, outra a Hillary Clinton, e até há uma que dá empate.
Mas é preciso olhar mais a fundo para os números e alargar o espetro, até porque a máquina que acompanha as eleições norte-americanas é equivalente ao interesse que o voto norte-americano desperta no resto do mundo. Ou seja, várias sondagens, atualizadas de forma frequente e realizadas de forma diferente. Vamos lá então tentar explicar isto.

Quem é que está na frente?

Para já, Hillary Clinton continua a ser a favorita em quase todas as consultas. De dez sondagens reunidas pelo New York Times, oito dão vitória a Hillary, uma dá empate e apenas uma dá vantagem a Donald Trump.
No FiveThirtyEight, um site de análise de sondagens liderado pelo analista Nate Silver, as últimas dez sondagens a nível nacional mencionadas dão vantagem a Hillary Clinton. Isto, segundo a análise do FiveThirtyEight, faz com que a probabilidade de a candidata democrata vencer estas eleições seja superior a 66%, contra 33% de Donald Trump.

Está ganho então…

Longe disso. Devido à forma como está desenhado o sistema eleitoral norte-americano, o candidato mais votado não é necessariamente o candidato eleito. Em cada Estado é eleito um determinado número de delegados. Cada um destes delegados conta como um voto do colégio eleitoral, e são estes votos que elegem o presidente.
Isto quer dizer que, para ser eleito, um candidato tem de conseguir vencer numa combinação de Estados que lhe permita atingir um mínimo de 270 votos eleitorais, uma maioria simples entre os 538 em disputa.
Nestas contas, Hillary Clinton, ainda que à frente nas sondagens, está numa posição mais precária. Por exemplo, apesar de ter uma percentagem do voto popular semelhante à que tinha Barack Obama quando este conseguiu ibter mais de 330 votos do colégio eleitoral, Hillary Clinton tem uma combinação menos favorável, que lhe dá cerca de 290 votos (e pode estar a caminho dos 270), o que a coloca numa situação mais complicada.
Bobble head figurines of Republican presidential nominee Donald Trump and Democratic presidential nominee Hillary Clinton greet Republican party supporters registering to watch a presidential debate watch party hosted by the Colorado Republican Party at Choppers Sports Grill in Denver, Colorado, on, October 9, 2016. / AFP / Jason Connolly (Photo credit should read JASON CONNOLLY/AFP/Getty Images)

Então, mas quem vai decidir a eleição?

Há um número de Estados que tem um sentido de voto historicamente mais rígido, como é o caso a Califórnia para os democratas e o Texas para os republicanos. No meio, há um conjunto de Estados cujo sentido de voto em eleições presidenciais é mais móvel. São os chamados Swing States.
Nesta lista estão tradicionalmente os Estados do Colorado, Florida, Iowa, Michigan, Nevada, New Hampshire, Carolina do Norte, Ohio, Pensilvânia, Virgínia e Wisconsin. Para já, nas contas do Politico, que agrega as cinco sondagens mais recentes sobre cada um destes Estados, Hillary Clinton lidera no Michigan, New Hampshire e no Wisconsin de forma estável, mas está a perder vantagem nos Estados do Colorado, Nevada, Pensilvânia e Virginia.
Com exceção da Florida, um Estado em que Trump lidera, mas no qual Hillary Clinton parece estar a crescer, o resto traz maus prenúncios para a campanha dos democratas. Trump lidera ainda os Swing States do Iowa e Ohio.
Estes Estados, com sentido de voto menos certo, normalmente decidem as eleições e a prova disso é quanto valem na contabilidade final: 140 votos do colégio eleitoral. Só a Florida (Trump) vale 29 votos e a Pensilvânia (Clinton) outros 20. Uma viragem no sentido de voto expectável até esta altura pode mudar a eleição.
HUDSON, NH - FEBRUARY 08: Democratic presidential candidate former Secretary of State Hillary Clinton speaks during a "Get Out The Vote" event at Alvime High School on February 8, 2016 in Hudson, New Hampshire. With one day to go before the New Hampshire primaries, Hillary Clinton continues to campaign throughout the state. (Photo by Justin Sullivan/Getty Images)
Hillary Clinton no New Hampshire.

O que está a fazer mexer os números da reta final?

Hillary Clinton teve um mês de outubro relativamente bom para as suas fileiras, isto porque se sucederam escândalos do lado da campanha de Donald Trump, para além dos debates entre os dois candidatos que vincaram ainda mais as características de cada um e que a democrata ganhou (todas as sondagens assim o disseram).
Donald Trump foi alvo de sucessivas acusações de agressão sexual, foram conhecidas gravações do magnata a falar da forma como trata as mulheres, que agravou ainda mais o caso, e a sua resposta não foi melhor: convidou oito mulheres que acusam o antigo presidente Bill Clinton de agressão sexual para assistirem ao penúltimo debate entre as duas partes.
A esperança da campanha de Donald Trump de que o seu candidato pudesse ser mais consensual na fase final da campanha — e assim apelar a alguns dos desalinhados do lado democrata que não se reveem na candidata, e a eleitores mais ao centro, mais moderados — acabou por ir por água abaixo, quando vários republicanos retiraram o apoio à sua candidatura (alguns voltaram atrás). Donald Trump aproveitou para se libertar das algemas partidárias, como o próprio disse, e endureceu o discurso, já antes repleto de afirmações racistas, sexistas e xenófobas, muitas delas anti-Islão.
Mas Hillary Clinton não se ficou a rir e o seu próprio escândalo voltou a abalar as contas quando, numa decisão inédita e cuja legalidade tem sido posta em causa, o diretor do FBI decidiu informar o Congresso norte-americano que a investigação sobre o uso de um servidor pessoal de email por Hillary Clinton, enquanto era secretária de Estado, seria reaberta.
O FBI encontrou um novo lote de emails durante as investigações a Anthony Weiner, ex-congressista caído em desgraça devido a uma série de escândalos sexuais (que podem envolver troca de mensagens de cariz sexual com uma menor) e marido de uma das mais próximas colaboradoras de Hillary Clinton.
Problema? Na altura em que essa carta foi enviada, o FBI ainda não conhecia o conteúdo dos emails, desconhecendo se merecem de facto mudar a decisão de não acusar Hillary Clinton tomada no verão, o que faz com que os resultados desta nova investigação não sejam conhecidos até às eleições. Mais, o diretor do FBI violou um acordo entre os principais poderes nos EUA, que estabelece que estes não devem interferir nas eleições, deixando qualquer ato deste género para depois da votação.
Com a suspeita a pairar sobre a sua cabeça como uma nuvem negra num dia chuvoso, Hillary já está a sofrer os efeitos do caso dos emails na pele e, nas contas do FiveThirtyEight, a vantagem de mais de 150 votos do colégio eleitoral que detinha sobre Donald Trump por altura do terceiro debate, a 19 de outubro, está a desaparecer a um ritmo vertiginoso, estando agora à volta de 50 votos.
A tendência é de descida e, mais preocupante, segundo Nate Silver, é que há Estados onde Hillary Clinton tinha uma vantagem estável e pareciam ganhos, mas nos quais está agora a perder vantagem, ao ponto de os colocar em dúvida. É o caso do New Hampshire, onde Clinton ainda lidera, mas com uma vantagem menor e com a corrida a ser mais próxima do que se antecipava.
MANCHESTER, NH - FEBRUARY 09: Supporters cheer for Donald Trump during a New Hampshire Primary Night Gathering In Manchester on February 9, 2016 in Manchester, New Hampshire. Trump was projected the Republican winner shortly after the polls closed. (Photo by Joe Raedle/Getty Images)
A campanha de Donald Trump no New Hampshire durante as primárias.

O que afeta as sondagens?

Para as contas finais é preciso ter em conta outros fatores. Primeiro, as sondagens têm natureza diferentes. Para além das habituais sondagens, há também tracking polls, ou seja, sondagens de opinião sobre o mesmo lote de pessoas para analisar variações no seu sentido de voto.
Há ainda sondagens a nível estadual e sondagens a nível nacional. E, no meio deste embrulho todo, há dois fatores muito importantes que afetam a capacidade das sondagens de prever o resultado final: mais de 35 milhões de pessoas já votaram.
Há vários Estados que permitem o voto antecipado – com ou sem justificação –, outros que onde se vota por correio. Na maioria dos Estados é possível votar antes de terça-feira. Acresce que muitos eleitores já têm o seu sentido de voto definido. Estes dois grupos já não podem mudar o seu sentido de voto, independentemente do próximo escândalo ou da ação de campanha que um ou outro candidato faça.
Já nos Estados do Alabama, Connecticut, Delaware, Michigan, New Hampshire, Pensilvânia e Rhode Island não há voto antecipado e alguns destes podem ainda fazer mexer com a eleição.
Ao contrário do que uma ou outra sondagem dada a conhecer nos últimos dias possa indicar, quem vai na frente da corrida é Hillary Clinton, mas a vantagem é curta e a margem de erro quase nenhuma para a senadora por Nova Iorque que quer ocupar o lugar de Barack Obama.
Uma pequena nota: em 2012, as sondagens davam uma grande proximidade entre Barack Obama e Mitt Romney no dia das eleições, mas o resultado final foi uma vantagem maior para Barack Obama do que qualquer uma destas previsões apontava.

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