quinta-feira, 17 de novembro de 2016

As diferenciações das ciências sociais


Por vezes as ciências sociais perdem “cientificidade” aos olhos de algumas pessoas por fazerem afirmações que não revelam um grande compromisso com a necessidade de fazer distinções no interior dos fenómenos que estudam. O termo que se usa, então, costuma ser o da “generalização” que no quotidiano significa justamente isso: tomar o individual pelo todo. Na prática da análise em ciências sociais as coisas são algo diferentes. “Diferenciação” e “generalização” são termos distintos que pouco, ou quase nada têm a ver com o significado que têm no quotidiano.
Generalização tem até algo de positivo. Consiste em demonstrar que algum fenómeno é parte dum outro em razão das suas características, mas que esse outro fenómeno é maior por possuir mais características que não se encontram no outro. É como dizer, só para exemplificar, que um cão é um animal, mas nem todos os animais são cães. Quando as ciências sociais estão no seu melhor, elas generalizam neste sentido. Com a diferenciação as coisas são um pouco diferentes. Esse é um exercício indutivo que consiste em partir de observações individuais para uma conclusão. Se depois de ver o novo ídolo de Milton Machel a chumbar sumariamente dois bancos eu concluir que ele é implacável e não está para brincadeiras – termo cujos direitos de autor estão na posse do líder da oposição – estarei a fazer uma diferenciação. Os americanos introduziram o termo “abdução” para dar conta disto, mas creio que cabe ainda no que tradicionalmente chamamos de indução.
Vem tudo isto a propósito dum caso curioso que ocorreu recentemente na Alemanha. O ministro para a cooperação descuidou-se numa alocução pública para os membros do seu próprio partido e disse coisas que ofenderam o sentido moral de muita gente. Ele perguntou à sua audiência quanto é que uma “mulher africana” levava à casa quando recebe 100 dólares? Ele próprio respondeu que ela levava 90. Depois, entre risos, perguntou quanto é que um “homem africano” levava à casa depois de receber 100 dólares. Voltou a responder, ainda rindo, que ele levava 30 dólares porque o resto gastava na bebida, em drogas e, claro, em mulheres. Estou a ver algumas pessoas a concordarem... Ainda no meio da risada concluíu: o “homem africano” não aposta na educação dos seus filhos, não investe na família”. O canal público de televisão que mostrou isto enquadrou o pequeno vídeo sarcasticamente com os seguintes dizeres “o ministro da cooperação explica o mundo...”.
Como era de esperar, a coisa criou grande celeúma no país, sobretudo com acusações de que o ministro teria sido racista, algo que eu considero exagerado. Ele não foi racista, seja o que for que isso signifique neste caso. Do ponto de vista ético, ele foi insensível, insultou a sua própria religião que o convida sempre a respeitar o próximo e a nunca medir as pessoas pelos palmos. É evidente também que ele nunca teria falado assim sobre americanos do norte ou sobre chineses, russos e outros que são mais merecedores de respeito por parte das “culturas” que se consideram mais “avançadas”. O que chamou ainda mais a minha atenção foram dois pormenores e, com isso, vou voltar às questões metodológicas que me interessam. Ele pediu desculpas, mas, eis o primeiro pormenor, não aos “africanos” que muita gente considera que ele “insultou”, mas sim no geral porque, aí vai o segundo pormenor, ele não “diferenciou” suficientemente. Pessoalmente, acho que ele devia ter pedido desculpas aos tais “africanos” porque no final de contas é o ministro da cooperação e vai ter que lidar com eles no seu trabalho. Não sei como é que ele vai conseguir olhá-los nos olhos depois de ter sido assim tão rude. Mas esse é seu problema. A questão da diferenciação é que é grave, pois tenho em mim que ele, na verdade, diferenciou!
A observação segundo a qual as mulheres em África – ok, seja, “a mulher africana” – têm maior compromisso com os seus lares, com o futuro dos seus filhos, que elas inspiram maior confiança, etc. virou, na verdade, um truísmo. Tanto é assim que concluir que os homens – “o homem africano” – são uns vadios é perfeitamente coerente. O acto de indução aqui é consequente. É verdade que há um pequeno problema. A indução não nos permite sermos categóricos, pois a conclusão que ela nos permite tirar é sempre uma conclusão tentativa que vai precisar de mais observações e dum exercício analítico mais apurado para se consolidar. Mas rigorosamente falando o problema do ministro não foi, decididamente, não ter “diferenciado”. Foi ter diferenciado bem com base na lógica encantatória da indústria do desenvolvimento. E não ter generalizado!
Esta lógica funciona da seguinte maneira: algum engraçadinho qualquer sugere uma explicação genial para os problemas africanos, tipo “o continente não se desenvolve por causa da corrupção” ou, no caso vertente, “o continente estaria em melhores mãos se estas fossem femininas”. Qualquer dessas explicações tem um fundo de verdade, isso não está em questão. E mais: para quem olha com olhos de ver, como se diz na gíria indignada e militante, é mais do que evidente que as coisas são assim mesmo. Toca daí a produzir estudo atrás de estudo que “prova” (não testa como devia ser o caso em ciências sociais) que as explicações não só têm cunho de verdade, como também contêm a chave para a solução dos problemas africanos.
De repetição em repetição vai se consolidando na mente das pessoas uma explicação que cada vez se afirma como uma religião e, como todas as religiões, convoca a fé e não a razão. O debate sobre o assunto deixa de ser debate para ser a protecção de (ou ataque a) crenças. Depois a coisa vira um artefício institucional. Criam-se instituições para se debruçarem sobre o assunto, inventam-se programas, fazem-se mais estudos, instituem-se prémios, surgem profissões, partilham-se ditados e máximas (de Mandela ou Graça Machel), lançam-se campanhas num frenesim quase imbecil que torna cada vez mais difícil ouvir a voz daqueles que prefeririam levar o processo de diferenciação ao seu fim para poderem generalizar com segurança. Quando esses (faço parte dessa malta) insistem em serem ouvidos têm que se haver com acusações de serem insensíveis ao sofrimento do povo, que estão a tentar enrolar os incautos com a sua capacidade retórica, não sabem nada porque não vivem essa realidade, etc.
É por isso que gosto das ciências sociais, sobretudo daquelas que sabem resistir à tirania da maioria. O reconhecimento do papel da mulher, em qualquer sociedade, é fundamental para a criação duma sociedade justa. Essa é uma constatação política legítima (e com a qual eu concordo), mas não é necessariamente científica. Em África a mulher desempenha um papel especial, nem sempre por ser mulher – embora sofra principalmente por ser mulher – mas porque vive em sociedades que se encontram no cruzamento de processos estruturais globais e recomposições sociais internas que baralham as cartas (para o bem e para o mal). Há quase tantas bandidas quantos bandidos existem e o desafio para as ciências sociais reside em continuar a reflexão onde o riso travou o ministro alemão da cooperação.
Depois de concluir tentativamente que o “homem africano” revela menos compromisso com o futuro dos seus filhos é preciso procurar saber se isso diz respeito a todos eles, em que circunstâncias uns e outros agem assim e cozido, em que circunstâncias essa “explicação” não faria mais sentido, etc. É a partir daí que se pode generalizar dizendo, por exemplo, que existe um “homem africano” que bebe, consome droga e se interessa apenas por mulher, que esse homem pertence a uma categoria bem distinta que é diferente do grupo “Homem Africano” que integra várias outras categorias. Aí sim, estaremos a falar ciências sociais, algo que tanta falta faz em meios onde continua a ser mais cômodo fazer recurso a vocabulário que pensa por nós.
Termino com a voz da incrível Dobet Gnahoré a cantar contra a violência doméstica como forma de pedir desculpas aos que vivem na angústia de ler um texto que se esforça por apresentar um argumento, não concordam com ele, mas também não conseguem contrapor e ficam muito frustrados porque no fundo sabem que têm razão, só não conseguem articular isso... não sei como os ajudar. Não posso discutir comigo próprio. 
'Zina' from Dobet Gnahoré's album 'Na Drê' - Contrejour CJ031 She's weak, she's fragile You keep her in a cage Take advantage of her softness She's the targe...
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