terça-feira, 15 de novembro de 2016

As cabalas têm dias contados



Julião João Cumbane
com Julião João Cumbane.



Tenho noção de que alguns supostos militantes da Frelimo, meu partido de eleição, andam a questionar a quem me dá espaço para partilhar o meu pensamento com outros moçambicanos, a razão de dar-me esse espaço. Dizem esses "militantes" que eu ando a atacar os nossos líderes. Granda mentira!

Eu não podia esperar uma opinião mais mesquinha sobre o pensamento que decido partilhar com os meus compatriotas (moçambicanos). O que é provável é que esses "militantes" ignoram que mentir é pecado mortal. Com efeito, politicamente a Frelimo está a morrer por causa das mentiras que alguns desses "militantes" vêem insistindo em impingir aos moçambicanos.

A propósito, é preciso dizer que os verdadeiros inimigos internos da Frelimo e de Moçambique são aqueles malandros que advogam que os erros não são para serem apontados em público. Tenho comigo que esconder erros é errar exponencialmente, para além de ser insulto à inteligência de outrem. Erros não são para serem escondidos, mas sim para serem denunciados e corrigidos. E o seu reconhecimento e aceitação como tal erros por quem os cometeu torna mais efectiva a sua correcção. Erros escondidos viram tumor maligno ou cancro: matam lenta e dolorosamente. Quem duvida disto, detenha-se só um pouco para apreciar a forma como a Hillary Clinton e o partido Democrata acabam de perder as recentes eleições gerais nos Estados Unidos da América.

A propósito das recentes eleições norte-americanas, devo confessar que tive uma acesa discussão com alguns dos meus amigos versados em política internacional, quando eu lhes disse, desde o princípio, que Donald Trump tinha o discurso com o perfil adequado para ganhar estas eleições. Esses meus amigos, por sinal funcionários seniores do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação (de Moçambique) fizeram troça não só da minha opinião como também de mim próprio. Disseram eles que eu tinha que deixar de me armar em político, que mal entendo, e me ocupar da Física. Em retrospectiva, lembrei a eles que me tinham dito a mesma coisa quando, em 2008, eu lhes disse que Barack Obama e ia ganhar as eleições gerais daquele ano nos Estados Unidos da América. Recordo-me que nessa altura eles disseram que os norte-americanos ainda não estavam preparados para ter um presidente qual Barack Obama: um homem com sangue da mãe África negra. Ocorreu, entretanto, que Barack Obama ganhou não só aquelas eleições, mas também as seguintes, em 2012. E hoje, Donald Trump e o partido Republicano ganharam as eleições gerais norte-americanas, novamente validando os meus argumentos.

E quais são esses argumentos?

Primeiro, a vontade do eleitorado de ver mudança que faça diferença. Quando Barack Obama foi eleito pela primeira vez, o seu discurso de campanha cativou a atenção do eleitorado porque prometia uma mudança real ressonante com a vontade da maioria do eleitorado norte-americano naquele momento. Naquela altura, era necessário terminar com a guerra no Iraque e associar os Estados Unidos da América com o movimento internacional a favor da economia verdade, alimentada por energia gerada a partir de fontes renováveis, em vez dos convencionais combustíveis fósseis, cuja liderança os Estados Unidos estavam a perder a favor da União Europeia. Isto a nível da política internacional. A nível da política doméstica, os norte-americanos precisavam da sair da recessão em que a guerra do Iraque, sobretudo, metera a sua economia. Em suma, o eleitorado norte-americano precisava de um presidente que se identificasse com a necessidade de colocar os Estados Unidos da América na liderança das causas que não estava a liderar, ou estava a perder liderança. O discurso do Barack Obama naquela altura estava alinhado com essa pretensão.

Segundo, hoje a economia norte-americana está recuperada do choque que sofreu durante, sobretudo, nos quatro últimos anos do mandato do George W. Bush. Barack Obama pode gabar-se de ter operado essa mudança positiva. Mas pecou por não conter o expansionismo que sempre caracterizou a política dos democratas americanos, e que torna os Estados Unidos da América um alvo preferencial do terrorismo internacional. O povo norte-americano está farto da política de confrontação com a Rússia que Barack Obama abraçou e a Hillary Clinton ia continuar. Bernie Sanders tinha o discurso de mudança positiva que os norte-americanos queriam ver acontecer, mas a liderança do partido democrata quis impingir-lhes a Hillary Clinton. O povo negou e preferiu ir pelo Donald Trump. Simples!

Aqui em casa (em Moçambique), a popularidade da Frelimo está em queda livre porque a certo momento da história de Moçambique independente apareceu uma classe de dirigentes políticos que se julgavam os mais espertos e inteligentes que os demais moçambicanos. Isso ocorreu de forma mais aberta depois da morte de Samora Machel. Tudo aquilo que Samora Machel combatia sem tréguas (pelo menos no seu próprio discurso), essa classe de dirigentes passou a permitir. Sem qualquer critério justo, privatizaram quase tudo, e eles passaram a ser os proprietários. Hoje eles que são o senhorio do Estado; o Estado paga renda a eles.

São esses dirigentes, que permitiram a corrida desenfreada para enriquecimento sem princípios, que colocaram a Frelimo em queda livre. E aqui não posso não apontar Joaquim Chissano como quem permitiu isso, porque também tinha vantagens a colher. Passivamente, ele permitiu a corrosão dos princípios e valores defendidos por Samora Machel. A corrupção passou a ser "oficial" durante os 18 anos que Joaquim Chissano esteve no poder. É por isso que eu não vejo razão para celebrar Joaquim Chissano como obreiro da paz. Paz real ou efectiva Moçambique NUNCA teve desde que é país independente. Estava-se no auge da Guerra Fria quando Moçambique ficou independente. O sistema de governo então escolhido pelos nossos libertadores, por conselho de "intelectuais" como Marcelino dos Santos, Sérgio Vieira, Jorge Rebelo e José Óscar Monteiro, entre outros, foi tal que mergulhou Moçambique numa confrontação directa com o Ocidente. Qual é, então, essa paz que Joaquim Chissano construiu em Moçambique, para ser celebrado como "obreiro da paz"?

Aceito celebrar Joaquim Chissano por ter continuado a cultivar o terreno que Samora Machel começara a preparar para lançar a semente da paz efectiva para Moçambique. Ele terminou de lavrar esse terreno e lançou a semente da paz, e esta germinou, mas a planta não foi bem cuidada. Acarinhar Afonso Dhlakama com uma guarda pessoal privada e armada, fora dos prazos fixados no Acordo Geral de Paz (AGP), foi uma decisão MUITO ERRADA, tomada por Joaquim Chissano, e hoje está a servir para acelerar a queda livre da Frelimo.

Só Joaquim Chissano pode explicar aos moçambicanos por que deixou inconclusiva a implementação do AGP. Enquanto isso não acontece, eu vou especulando que Joaquim Chissano queria usar o Afonso Dhlakama para se manter no poder e inviabilizar o fortalecimento da república em Moçambique. Não encontro melhor explicação para o facto de ele (Joaquim Chissano) e Afonso Dhlakama terem deixado inacabado o processo de implementação do AGP. Estou até a pensar que Joaquim Chissano permitiu a corrupção para formar uma classe que iria defender a sua permanência no poder vitaliciamente. É essa classe que hoje vê Joaquim Chissano como "obreiro" de uma paz que Moçambique NUNCA teve, e insistem em impingir esta falácia a todos os moçambicanos. E os jornalistas moçambicanos ajudam essa classe na empreitada de impingir aos moçambicanos a falácia de que Joaquim Chissano é obreiro da paz. Qual paz qual carapuça!

Ocorreu que os camaradas perceberam que Joaquim Chissano os estava a querer fintar. É aqui que Armando Guebuza entra em cena. Ao contrário do que se pretende fazer crer, a transição da liderança da Frelimo de Joaquim Chissano para Armando Guebuza não foi nada pacífica do ponto de vista ideológico. Isso pode ser explicado pelo discurso de campanha para a conquista do primeiro mandato presidencial de Armando Guebuza. Falava-se de «acabar com o espírito do deixa-andar», em referência ao facto de que a liderança de Joaquim Chissano tinha deixado a corrupção galgar terreno em todas as instituições da República de Moçambique. Tal discurso moralizou o povo, que começou a confiar na mão já conhecida como dura de Armando Guebuza para recolocar a sociedade nos carris da ética. Infelizmente, Armando Guebuza não conseguiu implementar a sua estratégia de combate contra a corrupção. Aliás, ele se encantou com a corrupção, quando percebeu o que lhe podia proporcionar em pouco tempo. Afinal, o legado de Joaquim Chissano—a corrupção—era mais apetitoso do a vontade de combatê-lo. E assim que, paulatinamente, o combate contra o "espírito do deixa-andar" foi substituído pela instalação do "espírito de deixa-falarem".

Porém, objectivamente, em termos comparativos, em 10 anos Armando Guebuza fez MUITO e MELHOR pela Frelimo e pelo Estado moçambicano do que Joaquim Chissano fez em 18 anos. Ou seja, definitivamente para além de ter lançado a semente para a paz—que até germinou, mas a planta foi mal cuidada—não existe outro motivo inequívoco para celebrar Joaquim Chissano como obreiro da paz. Tal exercício é forçado por aqueles que até hoje estão a contribuir para a aceleração da queda da Frelimo. A liderança de Armando Guebuza equipou a Frelimo com um pára-quedas. Com efeito, logo que assumiu a liderança da Frelimo e do Estado moçambicano, Armando Guebuza iniciou e conduziu, com sucesso, o processo de revitalização das bases da Frelimo. A Frelimo voltou a ser aquela organização vibrante que era poucos anos antes da morte trágica de Samora Machel, seu líder carismático.

A revitalização da Frelimo sob liderança de Armando Guebuza assegurou a este um segundo mandato mais tranquilo. Só que Armando Guebuza, depois de um primeiro mandato bem conseguido, no segundo mandato cometeu o erro crasso de fazer-se rodear por antigos "C-class students". Anteriormente já expliquei o conceito de "C-class students": são indivíduos que no seu tempo de escola eram alunos de classificação máxima "suficiente", em todas as provas; suas notas nunca passavam disso, e para as obterem, tinham que copiar ou cabular. Portanto, no seu segundo mandato, Armando Guebuza rodeou-se de pessoas com grande défice de honestidade intelectual e integridade moral; pessoas para quem os fins justificam os meios. Havia algumas excepções, claro, mas grosso modo, no seu segundo mandato, Armando Guebuza fez-se rodear de pessoas de ideias pequenas e poucas, mas altamente arrogantes e pedantes. São essas pessoas que fecharam o pára-quedas da Frelimo, que entrou novamente em queda livre; são essas pessoas que nos levaram (a nós todos, moçambicanos) para onde estamos hoje. Tal foi o erro crasso de Armando Guebuza, e a minha intuição me diz que ele cometeu este erro de forma deliberada: não queria ser confrontado pelos seus colaboradores, para assim ele poder viabilizar os projectos que tinha em carteira, entre os quais liderar pessoalmente a negociação dos contratos de exploração dos recursos naturais que Moçambique possui.

Erradamente—assim eu penso—, alguns camaradas acharam que Armando Guebuza queria também perpetuar-se no poder, qual tentara Joaquim Chissano. Foi então—eu avento—que começaram a preparar Filipe Nyusi para a sucessão. A esperança desses camaradas era de que, qual não fora sonho de Filipe Nyusi um dia vir a ser Presidente da República de Moçambique, ele seria mais receptivo à sugestão e, por via disso, os camaradas que lhe escolheram poderiam influenciar a governação, quer em defesa de interesses de grupo, quer para voltar a abrir o pára-quedas da Frelimo. Enganaram-se. Filipe Nyusi é suficientemente instruído para saber que não deve obediência às pessoas que propuseram para ser Presidente de Moçambique e da Frelimo; ele sabe que deve tão-somente obediência à Constituição da República e aos Estatutos da Frelimo, não às pessoas. Só que este entendimento do Filipe Nyusi—que até é correcto—está a fazer com que ele cometa o mesmo erro cometido por Armando Guebuza: fazer-se rodear por antigos "C-class students", pessoas com um grande défice de vergonha; pessoas habituadas a viver de esquemas; pessoas instruídas na escola de Joaquim Chissano, que aceitou, sem explicação convincente, a eliminação da disciplina de Educação Política do currículo escolar.

Agora está a ocorrer que, na tentativa de fazer entender que não governa na base de recados, Filipe Nyusi está a confundir opiniões válidas, dadas gratuitamente para lhe ajudar a governar bem, com recados. É por isso—assim eu penso—que Filipe Nyusi está a fechar-se em si mesmo, não quer ouvir a mais ninguém, execra a crítica, rejeita até opiniões úteis, e vai contradizendo o seu discurso inaugural—aquele discurso bonito que ele proferiu no dia 15 de Janeiro de 2015—com cada decisão que toma. Esta forma de estar no poder que Filipe Nyusi está a adoptar pode acelerar ainda mais a queda da Frelimo. Mas há ainda espaço para ele rever tudo isso e evitar a queda da Frelimo. Basta ele saber contar com uma geração sem nome de moçambicanos: refiro-me àquela geração de moçambicanos que estudou ou ensinou educação política; eles são homens e mulheres de Moçambique que execram a vida de cabrito comer onde estiver amarrado, que a escola de Joaquim Chissano ensinou aos moçambicanos.

Quando exponho publicamente este pensamento, não estou a atacar os nossos líderes, qual pretendem fazer crer os que estão habituados a viver de esquemas fraudulentos, que começam a considerar-me uma ameaça contra o seu o seu modo de vida. Não entendem que estou a ir em seu socorro, porque estão tão obcecados de viver à base da fraude. Nunca acreditaram na máxima de que a mentira tem perna curta. Porque eu exponho o que penso sobre onde as nossas lideranças levaram a Frelimo e a Moçambique, por culpa própria e induzida por esses sequazes da fraude, eles começam a querer cortar-me as pernas. Estou a ser acusado de indisciplina, por dizer o que penso e sei com clareza. Neste mural, esses sectários da vida fraudulenta raramente registam comentários. Preferem contactar-me no "in box", a protestar contra, ou a apoiar, certos conteúdos que partilho neste mural. Não tenho nada contra isso, desde que não vise coarctar a minha liberdade de pensamento e de expressão.

Haverá alguma saída para reabrir o pára-quedas da Frelimo?

Há, sim! É seguinte:

1. Restaurar a credibilidade de Moçambique no mundo. (A auditoria das dívidas da EMATUM, Proindicus e MAM é um bom passo nesta direcção.)

2. Aprimorar a cultura de comunicação do Executivo com a sociedade, como um mecanismo de prestação de contas aos cidadãos. (O silêncio do Governo ante denúncias, ainda que infundadas, é percebido pelo eleitorado como significando cumplicidade.)

3. Restaurar a autoridade do Estado através da credibilização do sistema de administração da justiça. (A Procuradoria-geral da República tem que investigar todas as denúncias, e prestar esclarecimentos ao público sobre o constatar nas suas investigações, nos termos da lei.)

4. Moralizar as forças de defesa e segurança, modernizando-as em termos de formação e equipamentos. (Já não fica bem a polícia de protecção andar armada com AKMs nas cidades.)

5. Solicitar a revisão urgente da Constituição da República de Moçambique, para fixar balizas claras sobre a estrutura do aparelho do Estado e o perfil de quem pode servir na função pública e nos partidos políticos. (Actualmente há indícios de que a Assembleia da República—onde a Bancada Parlamentar maioritária é da Frelimo—não está a fiscalizar devidamente a acção legislativa do Governo.)

6. Solicitar uma revisão dos Estatutos da Frelimo para se conformarem melhor com a Constituição da República de Moçambique. (A disposição que advoga que os militantes da Frelimo só se devem pronunciar sobre a vida do partido nos órgãos, é uma afronta à liberdade de expressão, consagrada na Constituição da República de Moçambique como um direito fundamental dos cidadãos moçambicanos.)

7. Intervencionar TODOS os bancos criados com capitais de origem duvidosa e, por via, disso, desbaratar o esquema dos veteranos de luta de libertação nacional de impingir líderes ao povo moçambicano. (Os líderes não se impingem, eles revelam-se, ao povo.) Isto o Rogério Zandamela já começou a fazer (vede a lista de bancos na zona vermelha, na imagem que aqui vai junta) e eu acho MUITO correcto.


Mais eu não disse.
---
PS: Naquele "Banco Mais" parece que a mamã Graça—que eu já estou confuso se lidera a família Machel ou Mandela ou ambas—tem acções (?!)

Sem comentários:

Windows Live Messenger + Facebook