sábado, 5 de novembro de 2016

Agora sobre a crise...

Julião João Cumbane com Julião João Cumbane.

Agora sobre a crise económico-financeira que Moçambique está a atravessar, quero dizer todos nós (moçambicanos) somos culpados. Os nossos "parceiros de cooperação também".

Nós (moçambicanos) somos culpados pela crise que atravessamos, porque na nossa maioria teimamos em continuar analfabetos políticos: não participamos activamente nos processos eleitorais. Preferimos ser simples receptáculos de mensagens eleitoralistas e nunca questionamos a sua essência. Com efeito, quem já questionou o que significa:

1. "Futuro melhor"?
2. "Inclusão"?
3. "Moçambique para todos"?
4. "Autarquia provincial"?...

Estes e outros chavões políticos ouvimos recorrentemente, mas não questionamos os seus autores sobre o seu significado; assumimos—erradamente—que sabemos ou entendemos o seu significado. E não questionamos porque temos medo ser tidos como analfabetos. Só que não questionarmos é que é analfabetismo; e dos piores, porque afecta as nossas vidas, colectiva e individualmente.

Os nossos líderes são, então, eleitos por uma minoria de nós (moçambicanos), e assim acabam governando sem legitimidade. E nós aceitamos que assim seja. Tenho comigo que o nosso analfabetismo político é que legitima arbitrariedades na governação do nosso país e na actuação dos partidos políticos da oposição.

Os nossos "parceiros de cooperação" são também culpados pela crise que estamos a atravessar, porque eles aproveitam-se das nossas insuficiências para nos dividir e manipular, para tirar proveito. Consubstancia tal aproveitamento desonesto das nossas insuficiências pelos nossos "parceiros de cooperação", por exemplo, o posicionamento paternalista da representação da União Europeia (UE) em Maputo, a favor da Renamo. Eu nunca a UE a condenar abertamente o terrorismo armado que a Renamo move contra o Estado moçambicano.

Enquanto nós, divididos, brigamos entre nós, os nossos "parceiros de cooperação" esfregam as mãos para tomar melhor partido das oportunidades de negócio que o nosso conflito gera para eles. Por exemplo, na presente situação de crise económico-financeira, a posição de Moçambique na mesa de negociação de projectos de exploração comercial dos recursos naturais deste país está fragilizada. Os investidores vão sair a ganhar mais que o país (Moçambique), pois este vê-se obrigado a FACILITAR TUDO para ver se consegue encaixar algum dinheiro para a compra de alimentos medicamentos, e para o serviço da dívida.

Por causa das nossas políticas sistematicamente erradas nos sectores da agricultura, pecuária, pescas, obras públicas, transportes, comércio e indústria, não temos outra saída que aceitar a chantagem que os nossos "parceiros de cooperação" vêem praticando connosco. Esta crise que estamos a atravessar, é resultados de factores conjugados, incluindo o facto de a nossa economia ser extremamente dependente de crédito externo, por nossa própria culpa.

Os choques externos teriam menos impacto negativo sobre a nossa vida, se ao menos produzíssemos o suficiente para o nosso próprio consumo. Mas, infelizmente, não é caso. Consumimos mais do que outros produzem e exportamos pouco. Para piorar esta situação, as nossas políticas monetária e fiscal penalizam as famílias de baixa renda, enquanto os nossos dirigentes não se envergonham por esbanjar as nossas míseras receitas fiscais.

E as nossas receitas fiscais são míseras porque também não temos a cultura de pagar impostos; fugimos ao fisco. Aliás, é interessante que os dirigentes, que ganham melhores ordenados que o cidadão comum, têm como uma das suas regalias a isenção de imposto de importação de viatura, por exemplo. Entre essas regalias constam também vários subsídios muito esquisitos, quais subsídios de "integração" e de "reintegração", que se pagam quando alguém é nomeado governante e quando cessa essa função. Estas regalias esquisitas dos nossos dirigentes são lesivas ao erário público e desencorajam o cidadão comum de pagar impostos.

A correcção deste erros todos que agravam o impacto de choques externos na nossa vida requer o empenho de todos nós, moçambicanos. Não haverá correcção destes erros, se a maioria dos cidadãos preferir viver politicamente analfabeta. É preciso que os cidadãos, individualmente ou organizados em associações cívicas, saibam exigir contas aos gestores públicos. Afinal o Estado moçambicano foi criado pelos moçambicanos para os servir. Não procede que os gestores deste Estado abusem do poder que o povo os delega, sem que este povo, de forma organizada e responsável, exija a tomada de medidas punitivas contra quem abusa o poder soberano do povo moçambicano.

Enfim, a nossa letargia política; o absentismo nos processos eleitorais; a promoção da mediocridade através da auto-exclusão; a falta de critérios para repudiar injustiças; o amor ao princípio de que «os fins justifica os meios»; o pedantismo dos nossos intelectuais; a falta de humildade dos nossos dirigentes; a nossa paixão pela anarquia; a nossa indisposição para respeitar as nossas próprias leis; a nossa avidez por consumir o que não produzimos; a nossa fraca auto-estima; o nosso amor pelo poder sem que tenhamos habilidades para o exercer responsavelmente; a nossa disposição em procurar culpados fora de nós; ... todos estas atitudes negativas, que nos caracterizam como um povo, são a causa fundamental que agrava o impacto dos choques externos sobre a nossa economia e sobre a nossa vida política. Fica assim claro que, para ultrapassarmos a corrente e futuras crises, precisamos de mudar de atitudes, trocando as más por boas.


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