segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Um palácio para um (aspirante a) sultão


Erdogan inaugurou-o dois dias depois de tomar posse como Presidente. Justificou-o como “uma exibição do prestígio do país”, mas não se livrou das comparações a Ceausescu.
O Presidente Recep Erdogan no complexo feito para exibir “o prestígio do país” ADEM ALTAN/AFP
— Oh, não é possível!
— Mas isto não acaba? Aquelas obras, são o quê? Daquele lado, é uma mesquita?
— Bem, isto nem o Saddam.
— Qual Saddam, isto nem o Putin. Isto nem o Ceausescu!
— O Putin, o Putin vai-se divertir tanto. Quando é que ele chega?
Aqui é AK Saray, o Palácio Presidencial do Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. E é esta segunda-feira que o Presidente russo, Vladimir Putin, chega ao país. As frases acima são (apenas) algumas das trocadas por um grupo de jornalistas portugueses, espanhóis, italianos e gregos durante a visita, há dias, ao complexo – a uma pequena parte, claro, estamos a falar de 750.000 metros quadrados de área.
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O palácio (AK Saray quer dizer palácio branco em turco) fica na chamada Floresta Atatürk (Kemal Mustafa Atatürk, o “pai dos turcos”, fundador da Turquia moderna), à saída do centro da capital, Ancara. O mínimo que se pode dizer sobre esta obra, inaugurada entre polémicas (sobre os custos ou as supostas “casas-de-banho com sanitas em ouro”, uma denúncia da oposição desmentida por Erdogan…) em Agosto de 2014, é que é muito impressionante.
Esmagador, gigante, otomano, não é fácil de apreender na totalidade. A aproximação faz-se por entre estradas parcialmente cortadas (algumas só desde o golpe falhado de 15 de Julho, quando o palácio foi um dos alvos dos militares revoltosos) e muita, muita segurança (grande parte nem se vê bem, adivinha-se, como os postos de vigia mais ao longe, entre a floresta). Quando se chega, é preciso deixar a viatura em que se chegou, entregar documentos de identificação e esperar, por um guia e por novo veículo, um mini-autocarro. Depois, é passar de novo os portões e percorrer algumas estradas antes de se voltar a entrar.
O que o público, ou este público, pode ver incluiu o centro de visitantes, o lounge do edifício principal – onde são recebidos os convidados oficiais –, os corredores dos assessores (e algumas duas suas salas), parte dos jardins e o imenso Jardim de Inverno, o salão que permite ficar a metros da escadaria por onde Erdogan sobe com os convidados de Estado, depois da passadeira vermelha da praxe. As escadas são em forma de crescente e conduzem ao gabinete do Presidente, no primeiro andar.
Entramos no Jardim de Inverno e não é possível resistir. Há quem mexa na loiça, quem espreite menus, quem tente fotografar os nomes dos que vão ficar em cada uma das dezenas e dezenas de mesas redondas. “Por favor, não mexam em nada”, insiste o guia. As mesas estão postas para o almoço. O festim. Enfim, as mesas estão postas e ainda há quem verifique se está tudo bem e acabe de colocar os lápis e blocos de oferta para os convidados.
“Quem vem almoçar? Quantas pessoas são?”, pergunta-se ao guia. “Não sei [risos]. Façam as contas, a sala está cheia.” Não é preciso fazer contas, o livro que nos será oferecido no fim não deve estar enganado: cabem 2000 pessoas sentadas nestes 1257 metros quadrados. À saída do Jardim de Inverno, depois de passarmos pela grande mesa onde Erdogan se senta de costas para os vidros que dão para o jardim exterior (porque este, o de Inverno, também tem árvores) ainda avistamos a sala onde os empregados descansam, algumas jovens sentadas no chão a fazer tempo, homens a ajeitar os casacos, uma espécie de fraques brancos.

30 vezes a Casa Branca

Entre os jornalistas do grupo com que o PÚBLICO fez a visita há veteranos especialista em Balcãs, Ásia Central, Médio Oriente… Nunca ninguém viu nada assim e é normal. Este palácio, que Erdogan habita desde que foi eleito Presidente (antes era primeiro-ministro), dois dias antes… da inauguração do complexo, é 30 vezes maior do que a Casa Branca e terá quatro vezes o tamanho de Versalhes.
“O projecto é uma adaptação do palácio que [Nicolae] Ceausescu construiu para si em Bucareste, sem conseguir viver lá nem um dia. É uma adaptação em termos de projecto e de mentalidade”, afirmou em Novembro de 2014 Izzet Cetin, membro do Partido Republicano do Povo (CHP, maior partido da oposição ao AKP, de Erdogan), citado pelo diário turco Hurriyet. “O suposto sultão construiu isto num país onde três milhões de pessoas estão no desemprego”, acusou na altura o líder do CHP, Kemal Kilicdaroglu, denunciando ainda o corte de “centenas de árvores” na construção.
As árvores têm alguma importância aqui. E não só porque a maior ameaça a Erdogan, a vaga de protestos de 2013, começou precisamente com a tentativa de impedir o derrube do Parque Gezi, de Istambul, junto à Praça Taksim – muita repressão depois, o Gezi ainda existe. Na visita, apontam-nos as três “árvores monumentais” que representam a diversidade da floresta da Anatólia e estão ali para sublinhar a importância de a proteger (são espécies em risco). Fica difícil não recordar que o motivo para a quase duplicação dos custos iniciais foi a importação de milhares de árvores de Itália (segundo explicou a Câmara de Arquitectura de Ancara) para aqui serem replantadas.

2000 empregados

Para além do palácio propriamente dito, onde trabalham (excepto seguranças) “cerca de 2000 pessoas”, há a mesquita; o Centro de Congresso, inaugurado uma semana depois do golpe fracassado com vítimas e familiares dos mortos (morreram 241 pessoas, 2000 ficaram feridas), e está a ser construída “a maior biblioteca da Turquia” que será, garantem-nos, pública. Claro que o público aqui tem limites e regras, não é chegar e entrar.
Erdogan, acusado pelos críticos de querer ser o novo sultão do Médio Oriente, justificou esta sua extravagância como “uma exibição do prestígio do país”. O interior e o exterior, lê-se no livro da presidência dedicado ao complexo, “foram desenhados de acordo com os princípios de governação do primeiro Presidente da Turquia eleito [até Erdogan o chefe de Estado era escolhido no Parlamento] e de acordo com os objectivos da Turquia 2023 [centenário da República], assim como da sua imagem global”. Bem-vindo, Presidente Putin.
(Afinal, Putin ficará só em Istambul e não dormirá numa das mil divisões disponíveis no Complexo Presidencial, ou Casa da Nação, como também é conhecido.)
O PÚBLICO viajou a convite do Gabinete Geral de Imprensa e Informação da Turquia

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