domingo, 16 de outubro de 2016

Revivendo Samora


Em Foco

Há homens que pela sua dimensão nunca morrem. Ficam no imaginário colectivo de um povo, de uma nação, de uma sociedade, de um país, de um planeta, no caso vertente terra. Samora é, decididamente, um desses homens. Trinta anos depois do seu desaparecimento físico está mais do que nunca presente no imaginário colectivo dos moçambicanos.
Cantam-se-lhes as vitórias, recordam-se as derrapagens (afinal humano), revive-se a sua odisseia, exalta-se-lhe a verticalidade, a frontalidade, o arrojo, a visão, a sensatez, a solidariedade.
Revisite-se o século XX. Período riquíssimo no que respeita a história universal. Século marcado por grandes homens que, cada um a seu tempo e no seu lugar, contribuíram para a mudança de paradigmas no concerto das nações. E como que a fazer jus a essa convicção, as peugadas do Marechal Samora Machel entrecruzam-se com os rastos de personalidades como Joe Slovo, Oliver Thambo, Yasser Arafat, Kenneth Kaunda, Julius Nyerere, Fidel Castro, Mário Soares, Thomas Sankhara, Ronald Reagan.
Exímio comunicador de massas, Samora sabia falar para o coração das pessoas, apoiado numa voz segura e vertical até ao ponto parágrafo. O dedo em riste virou marca registada. A ginga e o cantarolar de canções revolucionárias no meio dos seus discursos praticamente viraram símbolos de boa disposição e coragem. Mesmo os que não o viram ao vivo, sabem que o Marechal quase que flutuava em palco. Os seus pés adivinhavam caminhos. A sua voz penetrava no âmago das multidões. Havia qualquer coisa mágica naquela figura de tal sorte que hoje, trinta anos depois, há gente apaixonada pelos seus discursos. Há artistas que se inspiram nas suas mensagens (algumas quase proféticas) para as suas produções.
A sua visita aos Estados Unidos da América e o aperto de mão a um hesitante Ronald Reagan, a assinatura do Acordo de N´komati com Pieter Botha (África do Sul), entre outras proezas, marcaram de forma indelével a história mundial do século XX.
Dos fracos não reza a história. Diz-se. Samora pertence a outro grupo. O dos fortes. Tão forte que os moçambicanos se recusam a deixá-lo perder-se nas brumas do tempo. Há como que um buscar de forças e inspiração na imagem e nos discursos samorianos para o debelar das tristezas e dificuldades do dia-a-dia. É como se toda uma Nação buscasse algum consolo na figura de Machel… é corrente ouvir a expressão “no tempo de Samora…”.
O rio de lágrimas que inundou o país após o anúncio do seu desaparecimento físico constituem testemunho bastante do carisma Samora alardeava.
Samora Moisés Machel nasceu a 29 de Setembro de 1993 na aldeia de Chilembene, província de Gaza, e morreu a 19 de Outubro de 1986 em Mbuzini, África do Sul. Próxima quarta-feira celebra-se 30 anos sem (com) Samora.

Em Foco


MEMÓRIAS: Samora era um líder sem medo de “sombras”- Afirma Óscar Monteiro

“Samora Machel era um líder bastante seguro de si próprio. Sem medo de ser ladeado pelos melhores e por isso auscultava e não ignorava a capacidade dos outros”, disse Óscar Monteiro, membro sénior do partido Frelimo, durante uma palestra alusiva às celebrações do 30° aniversário da tragédia de Mbuzine.
Óscar Monteiro que falava
para um público
composto maioritariamente
por funcionários
do Ministério
da Administração Estatal e
Função Pública (MAE) e estudantes,
na passada quinta-feira,
em Maputo, sublinhou, por
outro lado que Samora era um
homem irreverente.
“Eu não quero ninguém
que me faça sombra”, este é
um ditado que Samora não
usava. Não tinha medo de
tais “sombras”. Sabia plenamente
que quando o sol
é forte a sombra pode ser
boa e se vem uma rabanada
de vento é bom ter árvores
grandes à nossa volta, avançou.
A palestra estava enquadrada
no movimento de manifestações culturais, promoção
e debates que enaltecem e
imortalizam a vida e ensinamentos
de Samora Machel,
lançado pelo Governo à escala
nacional.
Óscar Monteiro ao longo
da dissertação não escondeu
a satisfação de ter convivido
com aquele que foi um dos
principais precursores da libertação
nacional face ao jugo
colonial.
Segundo ele, o primeiro
Presidente de Moçambique Independente
quando chegou à
Frente de Libertação destacou-
-se com facilidade pois sempre
compreendeu que o essencial
era o homem.
Uma vez explicou-me o
que era a FRELIMO. Fez um
desenho no qual pôs funcionários,
estudantes, marginais,
pessoas vingativas que
tinham sido ofendidas pelo
colono e disse: a FRELIMO
é tudo isso. É disto que nós
temos de fazer uma organização.
Para mim esta foi
uma reflexão muito profunda,
lembrou.
Num outro momento, disse
que Machel queria uma sociedade
na qual não houvesse
grandes diferenças entre as
pessoas. Uma sociedade em
que todos tivessem oportunidades
através do acesso à
educação. Além disso, segundo
Óscar Monteiro, era de uma
profunda compreensão da sociedade.
Era um bom analista social.
Para além de ter sido
estudioso, unificador, internacionalista,
visionário,
estadista, diplomata, entre
outros. Estas características
fizeram de Samora um
homem único. Que conseguia ter a simpatia de
muitos. É verdade que para
quem vê as fotos dele, fardado,
tem a tendência de imaginá-
lo apenas como militar
que foi, frisou.
O palestrante aconselhou
aos presentes na sala a seguir
um dos pontos que faziam de
Machel especial para que cada
possa melhorar vários aspectos
da sua vida.
Destacou ainda que Samora
Machel levou a peito a herança
de Eduardo Mondlane, esta
que defendia que a luta não era
contra os brancos. Naquela
altura esse pensamento era
um grande avanço, porque
quando se dizia que a luta
não era contra o branco queria
se dizer mais uma coisa
importante que significava
que a luta era contra o sistema
de exploração, portanto
pouco interessava a cor
das pessoas, pretendia-se
apenas criar uma sociedade
justa. Este era o outro lado
dele.
Na ocasião, frisou, aquela
definição do inimigo foi uma
novidade nos anais dos movimentos
de libertação, porque
até lá o que unia as pessoas
que lutavam contra o colonialismo
era “fora daqui os colonos”
para a gente se sentar
nas cadeiras deixadas e continuar
a fazer a mesma coisa.
Por seu turno Mário Machungo,
igualmente presente
na palestra, destacou que
Samora era um homem que
aceitava críticas. Podia se zangar,
mas sabia reconhecer as
outras ideias, uma qualidade
considerada rara em muitos
chefes. Questionou, o por que
é que aquelas pessoas que antes
se esgrimiam hoje já não o fazem?
“Era Ministro do Comércio.
Certa vez recebi de determinado
comerciante um
cabaz. Era um cesto que
continha queijos, leite, óleo,
entre tantas outras coisas
boas. Antes de usar encontrei
Samora e disse o que
havia recebido, tendo-o perguntado
com quais camaradas
devia partilhar. Ele simplesmente
disse: Mário…
Devolva! O que essa pessoa
lhe ofereceu te tornará sua
refém. Quando ela errar
não mais terás moral nem
força para a punir. Devolvi
tudo. Aquilo foi marcante
para mim”, lembrou Machungo.
Acrescentou que “o comportamento
de Samora era
ímpar. São poucos que conjugavam
tantas virtudes por
isso olhávamos para ele e
víamos um homem íntegro.
Incorruptível. Na verdade
essas devem ser as qualidades
de um chefe de Estado.
Por isso ele era para mim e
todos os quadros uma referência.”
Texto de Maria de Lurdes Cossa

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