domingo, 23 de outubro de 2016

Profissão: comentarista!

Profissão: comentarista!

Quando assisti ao comentário televisivo a respeito da nomeação da ministra dos Recursos Minerais e Energia, Letícia Klemens, comummente de reprovação, sob uma hipotética falta de competência, tive que apelar a dois meus direitos naturais: de ficar enjoado e ao esforço de evitar, mesmo assim, outro tipo de desarranjos que me levassem a publicamente demonstrar esse meu mal-estar.
Fiquei enjoado porque os argumentos apresentados pelos comentaristas tinham como base o facto de ela “não ser da área” e “ desconhecida”. Pura e simplesmente! É isso que em dada altura levou-me a gritar em voz alta, através de um livro “Buracos Macuas”- Contributo para uma Unidade Nacional Efectiva.
O ser “da área” significaria qualquer coisa como que ela fosse para o ministério dos Recursos Minerais e Energia cavar as minas, monitorizar directamente a saída do gás e respectiva liquefacçao ou a implantação dos postes de energia elétcrica ao encontro das regiões ainda carentes, ou ainda, operar as pás escavadoras na construção das barragens hidroelétricas em perspectiva.
É como, afinal, estivéssemos errados ao pensar que se procurava quem gerisse um sector tão nevrálgico quanto os recursos minerais e energia nos tempos que correm. Pensávamos que tinha sido isso (gestão) que norteara a nomeação para o sector, de Pedro Couto, que de facto é economista e que vai fazer o mesmo na Hidroeléctrica de Cahora-Bassa.
Mesmo não a conhecendo como os outros cidadãos, enjoa-me porque faz lembrar os tempos em que uma boa biografia, para ser elegível, devia passar por Nachingwea/Kongwa, em que um bom currículo devia ser acompanhado por apelidos sonantes de certos moçambicanos.
Trouxe-me à memória ainda os tempos em que o CV duma pessoa elegível para tais cargos devia passar pelas escolas Noroeste (I ou II) a seguir Josina Machel ou Francisco Manyanga e depois Universidade Eduardo Mondlane. Ou ainda devia ter sido vista muitas vezes nos corredores das chamadas reuniões de quadros.
O resto era paisagem, ou, como diria um poeta, era resto que o resto deixou!
Na verdade, é incomodativo ver que ainda há quem comenta sobre o país que não conhece e sobre matérias que devia, obrigatoriamente, não dominar, mas sim, entender! O primário, em opinião sincera, é que este país é grande e nós somos muitos. Há moçambicanos em todos os cantos do mundo, com os mesmos direitos que nós aqui. Os caminhos a trilhar já não são os mesmos, porque o desenvolvimento que outros não querem assumir, já não são tao sinuosos quanto eram, trouxeram estradas adventícias que não nos obrigam necessariamente a passar pelos carreiros acima enumerados para se ser um moçambicano elegível.
Precisamos de avaliar e autoavaliarmo-nos em função do trabalho que fazemos no nosso dia-a-dia, nunca em função da nossa clara e intencional subjectividade. Para isso precisamos de deixar que as pessoas trabalhem e avaliemos o seu trabalho.
Porém, para que isso seja assim, há um perigo a ultrapassar: os comentaristas devem ser pessoas com créditos fora de suspeitas. Não têm que ser aqueles que fazem disso a sua profissão inicial. Não se pode ser comentarista sobre matérias das quais fugimos na via real enquanto profissão.
Dir-me-ão que também estou a comentar. É verdade, mas não é minha profissão e comento sobre o Moçambique real, aquele que não quer ser descriminado!
Pedro Nacuo
nacuo49nacuo@gmail.com

O HUMANISMO DE UM “KILLER”, VISTO POR UM SEU FÃ


Oh! ai de mim agora! porque a minha alma desmaia diante dos assassinos.” Jeremias 4:31
Todo(a) o(a) moçambicano(a) consciente sabe que o mês de Outubro, a partir de 1986, passou a fazer parte dos cinco mais importantes do ano, tal como o são Fevereiro, Abril, Junho e Setembro. Toda(o) moçambicano(a) lúcida(o) sabe da importância dos dias 3 de Fevereiro 1969; 25 de Junho de 1962; 25 de Junho de 1975; 25 de Setembro de 1964 e 7 de Setembro de 1974. Também todo(a)s nós sabemos o porquê do mês de Outubro a partir de 1986 passou a figurar nos mais importantes para nós, moçambicanos. Com efeito, foi a partir de 19 de Outubro de 1986 que o país perdeu o seu fundador, o ícone da nossa revolução, incontornável nacionalista africano, comprometido com a libertação do seu país do jugo colonial e um pan-africanista, tal como o foram  os destacados: Jomo Kenyatta (Quénia), Peter Abrahams (África do Sul), Hailé Sellasié (Etiópia), Namdi Azikiwe (Nigéria), Julius Nyerere (Tanzânia), Kenneth Kaunda (Zâmbia) e Kwame Nkrumah (Gana), cuja ideologia acreditava na união dos povos de todos os países do continente africano na luta contra o preconceito racial. Foi a partir dessa ideologia que se criou a Organização da Unidade Africana, “OUA”, hoje União Africana, “UA”, que tem como objectivos promover a solidariedade africana, a soberania dos Estados africanos e a integração económica que vai além da cooperação política e cultural no continente.Era somente desse Grande Homem que eu me propunha a falar durante todo o mês de Outubro, pois, mesmo depois da sua morte, os seus feitos e oseu carisma prevalecem e perduram no quotidiano dos moçambicanos, bem como na relação emocional entre ele e o povo. Infelizmente, no domingo passado, num dos programas duma televisão privada, um desagradável episódio desviou a minha atenção. Tratava-se de auto-retrato de um fanático admirador do chamado “Pai da Democracia” que depois de falar do seu orgulho de ter nascido de um pai curandeiro polígamo assumido, “dono” de treze esposas e um batalhão de filhos, os quais os educou numa disciplina “espartana”, que, como se sabe, na Grécia antiga,as crianças, dos sete aos treze anos, aprendiam técnicas para a suplantação da dor e do medo eosadolescentes “efebos” já participavam dos intensos e exigentes treinamentos, após se terem submetido a testes cruéis que lhes avaliavam a coragem e a resistência à dor.O pai do dito cujo, segundo ele, obrigava-os a desfilar todas as manhãs para prestarem-lhe uma vénia matinal, disciplina essa que o fez destacar-se e ser confiado pelo “líder”, ao ponto de ter sido seu “porta-voz”, durante duas décadas, o  que, por seu turno, passou a nutrir uma admiração divina pelo “pai da democracia” a quem garante ser “Homem dum humanismo extraordinário”.Tais declarações caíram-me como uma anedota sem graça, pois como todos sabemos anedota  é uma história curta de final geralmente surpreendente e engraçado com o objectivo de causar risos ou gargalhadas no ouvinte ou leitor(a). Ao contrário, as declarações foram tão ridículas que me causaram dó pelo dito cujo, sobretudo quando a título de exemplo do humanismo do “líder”, contou o seguinte episódio: um dia circulando ele com o “líder” numa caravana lá para as bandas da localidade de Palmeira numa das “missões” de massacrar populações indefesas, ao saber que um dos seus carros atropelou um cão, mandou parar a escolta e exigiu que o canino atropelado tivesse um enterro condigno! Grande gesto de Humanismo! Sempre aprendi que o Humanismo no sentido amplo tinha a ver com a generosidade e compaixão para com as pessoas, sejam elas próximas ou desconhecidas ou sejavalorizar o ser humano e a condição humana acima de tudo. Nunca pensei que a vida de um cão valesse mais do que a de milhares de pessos mortas estupidamente! Que fanatismo! Que sangue frio! Que crueldade!
Kandiyane Wa Matuva Kandiya
nyangatane@gmail.com

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