segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Os esquadrões da morte


Quando terminávamos o fim-de-semana passado, fomos colhidos pela notícia do assassinato de Jeremias Pondeca, membro do Conselho de Estado pela Renamo e chefe da delegação da Renamo na subcomissão criada nas negociações com vista à reforma legislativa para o fim do conflito.
Infelizmente estamos a institucionalizar uma patologia macabra, em que notícias de assassinatos de cidadãos a tiro já quase não nos causam um sentimento de perturbação. Passámos a conviver “nas calmas” com a barbárie.
E como estas mortes todas, que nos são servidas a frio diariamente, têm um cunho político, pois são diligentemente dirigidas a membros da oposição, mais concretamente aos da Renamo e a indivíduos catalogados como incómodos para o regime, a preocupação agora já não é a institucionalização da barbárie em si, mas é, sim, tentar adivinhar quem é o próximo?
Quanto a nós, sobre os esquadrões da morte está tudo dito. São o prolongamento do partido no poder, que actuam a partir do momento em que se esgota a capacidade de argumento do regime.
É uma espécie do prolongamento do G40. Se o G40 é a frente falante, os esquadrões da morte são a frente assassina. Mas todos têm o mesmo e único comando, e reservamo-nos o direito de supor que haja membros polivalentes, que actuam simultaneamente na frente falante e na frente assassina.
A forma como esses assassinatos são dirigidos não deixa margem para dúvidas de que estamos perante um trabalho do Estado (ou de “gangs” que dirigem o Estado) e com algum protocolo observado, que desagua nas habituais declarações da Polícia, que fecham a ordem de serviço afirmando que estão a trabalhar para identificar os autores.
Será redundante dizer que todos estes assassinatos têm cunho político e são a parte mórbida de uma estratégia de limpeza política com objectivos de enfraquecer o adversário. É o crime ao serviço da política.
A cronologia deste Estado de “gangsters” é bem visível. José Manuel, membro do Conselho de Defesa e Segurança indicado pela Renamo, foi assassinado nas mesmas circunstâncias. Antes foi Gilles Cistac. Primeiro foi insultado, e quando perceberam que os argumentos do constitucionalista moçambicano que deu cunho legal à exigência principal da Renamo eram irrebatíveis por via do insulto, decidiram assassiná-lo ali no seu café preferido, na Av. Eduardo Mondlane. Seguiu-se Manuel Bissopo, que só escapou porque foi confundido com os seus seguranças. O próprio Afonso Dhlakama escapou por duas vezes. Mas já haviam sido mortos Aly Jane, cujo corpo foi encontrado no Rio Nhanombe, e Américo Royal Boca, ambos assessores de Afonso Dhlakama. Um dos últimos foi Armindo Nkutche, delegado distrital da Renamo em Moatize e membro da Assembleia Provincial.
Jaime Macuane, conhecido analista político, e Carlos Jeque também foram vítimas do mesmo sindicato criminoso. Estes dois últimos foram poupados porque a ordem era só para deixar coxo.
Desta vez, foi Jeremias Pondeca, que estava a negociar a paz. A lista é bem longa, mas estes são os casos mais frescos e que nos vêm à memória, sem muito esforço.
É importante notar que Filipe Nyusi nunca se pronunciou sobre todos estes crimes e vive fingindo intenções genuínas de paz.
Não conhecemos nenhum país no mundo onde o seu presidente consente assassinatos selectivos, na almofada do silêncio cúmplice.
Se Nyusi é Presidente da República e comandante-em-chefe das Forças Armadas e se há um grupo de moçambicanos que está a ser literalmente limpado, deixando as suas famílias e organizações destruídas a todos os níveis, e se Nyusi continua calado sobre isso, das duas, uma: ou Nyusi comanda pessoalmente esse sindicato de assassinos, ou sofre de alguma perturbação de ordem psíquica de actuação, suficiente para assumir como sendo normal que os opositores políticos sejam mortos como animais em plena luz do dia e com requintes macabros.
Ou então estamos perante as duas situações concorrendo em paralelo sobre o mesmo indivíduo.
Mas tudo isto só vem comprovar a tese que defendemos aqui neste mesmo espaço há sete dias. Escrevemos que, pelo andar das coisas, o que motiva a Frelimo a aprofundar com afinco o programa da destruição é essa passividade colectiva deste povo, que vai aclamando os destruidores. Se a organização que está no poder perdeu a orientação e adoptou o roubo e a matança como seu programa, é porque descobriu que, com este povo, ainda é possível fazer pior e continuar no poder.
Se é possível levar a cabo com sucesso um programa de matança de cidadãos, não são os criminosos que estão no poder que são excessivamente brutais. É o povo que é excessivamente cúmplice na transformação da nossa sociedade numa coutada de caça e canibalização do outro. Estamos a ensinar aos mais novos que a única alternativa para a diferença é a eliminação do outro. É o legado que estamos a transmitir, porque estes mais novos só ouvem notícias dos assassinatos a tiro e nunca ouvem notícias da captura dos responsáveis, tal como nunca viram nem ouviram qualquer detentor da autoridade do Estado a ser implacável com os assassinatos em série. Não existem referências de que o Estado é implacável contra a canibalização. O que temos para apresentar é um Estado como instrumento de protecção e fomento de actos criminosos. Insistimos que, enquanto o povo não se mobilizar para bloquear estes assassinos, não estaremos apenas a abster-nos de defender a normalidade, muito mais do que isso, estaremos, nada mais e nada menos, a concordar com eles. É esta apatia colectiva que inspira os que estão no poder para prosseguirem com o programa de estrangulamento. O mais recente foi Jeremias Pondeca, e não haverá responsabilização. E, por falar em responsabilização, é mais provável acontecer que venha a haver mais uma outra vítima do que acontecer que os culpados nos sejam apresentados. A seguir, quem será? É preciso dizer “Basta!”. (Canalmoz/ Canal de Moçambique)
CANALMOZ – 17.10.2016

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