quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O desaparecimento de Mário Nogueira

OPINIÃO

O desaparecimento de Mário Nogueira

Isto demonstra que o sindicalismo português é pura encenação.
Paulo Baldaia escreveu há dois dias um artigo onde perguntava pelo abduzido Mário Nogueira, que mais parece ter tirado sabática neste início de ano lectivo, deixando-nos órfãos do seu bigode e da sua ira. Cito o director do Diário de Notícias: “O ano escolar começou na perfeição? Não. Ainda assim, os problemas foram em número reduzido e rapidamente resolvidos? Não. Então o que se passa para os sindicatos estarem tão caladinhos?” Esta só não é a pergunta do milhão de dólares porque a resposta está escarrapachada à frente do nosso nariz. Os sindicatos estão caladinhos porque a sua primeira fidelidade não é para com os seus sindicalizados, nem para com as escolas onde os seus professores trabalham. A sua primeira fidelidade é para com o PCP. Se o dono os manda fechar a boca, eles fecham. Donde, fechada está e caladinhos estão.
Outros são obrigados a falar por eles. Aconteceu no Liceu Pedro Nunes, que encerrou portas na terça-feira, em protesto contra a falta de funcionários. Há duas pessoas a servir 350 almoços diários, dizem. A Escola de Canelas, Vila Nova de Gaia, está, segundo o Expresso, a funcionar “a meio gás” pelas mesmas razões. Idem para o agrupamento Gil Vicente, em Lisboa. O curioso é que quem visitar o site da Fenprof encontra vários textos a denunciar “insuficiências” e “pré-rupturas”. O tom do site e dos artigos não mudou muito. O que mudou radicalmente foi o número de intervenções do mediático Mário Nogueira – e, por consequência, o peso dos protestos do sector da Educação no alinhamento dos telejornais.
Esta situação oferece-nos duas lições preciosas, tenhamos nós olhos para as ver e boca para as comentar – a primeira sobre os sindicatos, a segunda sobre a comunicação social. Comecemos pelos sindicatos e pelo grande mérito da solução de governo inventada por António Costa: trazer para o arco da governação o Bloco de Esquerda e, sobretudo, o PCP. É certo que eles insistem em manter um pé dentro e outro fora, mas aí o abraço de Costa tem-se revelado eficaz – ninguém se pôs ao fresco. Qualquer português reconhece na actual solução de governo o envolvimento do PCP e respectivas consequências a nível sindical, com uma diminuição acentuadíssima da conflitualidade social, que antes era intensamente produzida por sindicatos da CGTP, sobretudo na educação e nos transportes. Veja-se o Metro de Lisboa: nunca havíamos assistido a uma queda tão acentuada na qualidade do serviço e não há uma greve para amostra.
Isto demonstra que o sindicalismo português é pura encenação. Já toda a gente sabia que a CGTP era menos uma agremiação de sindicatos do que um braço político do PCP, mas agora está demonstrado para além de qualquer dúvida razoável. Quando o governo voltar a ser de direita e os sindicatos voltarem a sair à rua, iremos todos lembrar-nos da sabática do senhor Mário Nogueira, o homem que no seu monopólio sindical nunca vai à 5 de Outubro sem passar primeiro pela Soeiro Pereira Gomes.
A segunda lição a tirar daqui é para a comunicação social portuguesa e para o seu estado de dependência das fontes institucionais, sejam elas gabinetes ministeriais, agências de comunicação ou sindicatos. O alinhamento do Telejornal não pode estar dependente das iniciativas da Fenprof: se Mário Nogueira fala as escolas estão mal, se ele está calado as escolas estão bem. É mais do que tempo de os media começarem a sair para a rua e definir a sua própria agenda, deixando para o Avante! a agenda do PCP.

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