segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O debate que tinha tudo para ser feio conseguiu ser assustador


Donald Trump levou o passado de Bill Clinton para o debate e prometeu investigar Hillary Clinton se for eleito. Mas o problema do candidato mantém-se: a sua estratégia fez vibrar apenas os apoiantes mais fiéis, o que não é suficiente.
Começa a ser ridículo descrever um qualquer acontecimento na caótica campanha para a Presidência dos Estados Unidos como o mais penoso, cruel ou agressivo, mas depois do segundo debate entre Donald Trump e Hillary Clinton, esta madrugada, parece que temos um vencedor: nunca os eleitores norte-americanos tinham assistido em directo à promessa de um candidato à Presidência lutar pela prisão do seu adversário se for eleito.
Após 48 horas a encher como um balão de fúria por causa do vídeo em que se gaba dos seus avanços sexuais sobre qualquer mulher que lhe desperte a atenção, e ressentido com as dezenas de republicanos que o abandonaram por causa disso, Donald Trump entrou no palco da Universidade Washington, em St. Louis, como um animal acossado.
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Antes do debate, alguns dos seus conselheiros mais mediáticos, como o antigomayor de Nova Iorque Rudolph Giuliani e o ex-speaker da Câmara dos Representantes Newt Gingrich, tinham sugerido que o candidato do Partido Republicano iria resolver a questão do vídeo com um novo pedido de desculpas e partir depois para uma discussão mais centrada nas questões políticas.
Mas o que se desenrolou perante dezenas de milhões de eleitores foi quase uma hora e meia de ataques pessoais, com alguns desvios para explicações mais sérias sobre temas como o sistema de apoios para a compra de seguros de saúde conhecido como Obamacare, a reforma do sistema fiscal norte-americano ou a guerra na Síria.
O discurso para a sua base de apoio foi tão deliberado que na questão da Síria Trump mostrou que até o seu companheiro de corrida pode estar por um fio. Depois de o governador Mike Pence ter dito que o Presidente russo, Vladimir Putin, é um "líder pequeno e provocador", e de ter sugerido um ataque contra as forças de Bashar al-Assad na Síria, Trump disse que não falou com ele e que não concorda com a opinião do seu candidato a vice-presidente.
Se havia dúvidas de que Donald Trump ia largar em cima de Hillary Clinton todo o arsenal de acusações que faz vibrar a sua base de apoio mais fiel, elas foram dissipadas uma hora e meia antes do início do debate: numa sala da Universidade Washington, o candidato do Partido Republicano improvisou uma conferência de imprensa perante um pequeno grupo de jornalistas, deixando-se filmar e fotografar ao lado de quatro mulheres que acusam Bill Clinton de assédio sexual - uma delas, Juanita Broaddrick, afirma que foi violada por Bill Clinton em 1978 e que Hillary Clinton lhe agradeceu por ter ficado calada. Este caso nunca chegou a tribunal e os Clinton negaram sempre a acusação de Broaddrick.
Era o sinal de que Trump ia mesmo arrastar Bill Clinton para o debate, numa tentativa de relativizar o vídeo divulgado pelo Washington Post na noite de sexta-feira: “Aquilo era conversa de balneário. Não me orgulho disso. Tenho muito respeito pelas pessoas, pela minha família, pelo povo deste país. Não me orgulho do que disse, mas aconteceu. Se olharem para o Bill Clinton, é muito pior. No meu caso são palavras, no caso dele são acções. Nunca houve ninguém na história da política neste país tão abusador em relação às mulheres. Podem dizê-lo da forma que quiserem, mas o Bill Clinton abusou de mulheres”, disse o candidato do Partido Republicano, apontando para as quatro mulheres com quem estivera antes do debate, e que acabou por levar para a assistência.
Questionado três vezes por um dos moderadores do debate, Anderson Cooper, sobre se nunca tinha feito nada do que disse no vídeo, o candidato do Partido Republicano acabou por dizer que não, mas mudou rapidamente a conversa para outro assunto sem qualquer ligação, como em outras ocasiões ao longo do debate: “Não, não fiz. Vou fazer deste país um país seguro.” Donald Trump queria arrumar o assunto do vídeo o mais rapidamente possível, e logo à primeira pergunta começou a resposta a dizer que tinha sido apenas “conversa de balneário” e acabou a dizer que vai “dar cabo do ISIS”.
Tal como Trump, Hillary Clinton começou o debate com algum nervosismo, antecipando um espectáculo nivelado por baixo. E, tal como Trump, atirou-se ao carácter do seu adversário: “Em relação a anteriores nomeados, eu discordei deles. Em questões políticas e de princípios. Mas nunca questionei a sua preparação para servir. Em relação ao Donald é diferente. Comecei a dizer em Junho que ele não tem preparação para ser Presidente ou comandante-chefe. E muitos republicanos e independentes têm dito o mesmo”, disse Clinton, lembrando ao seu adversário as dezenas de líderes republicanos que o abandonaram nos últimos dias e outros que já o criticavam há mais tempo.
Visivelmente incomodada com a conversa, Hillary Clinton citou a mulher do Presidente Barack Obama, Michelle Obama: “Quando eles desferem golpes baixos, nós passamos por cima.”
O ambiente era tão tenso que os dois candidatos nem sequer apertaram a mão quando subiram ao palco – algo inédito na história recente dos debates presidenciais. E durante grande parte do debate, Donald Trump parecia perseguir Hillary Clinton pelo palco enquanto ela respondia às perguntas de Anderson Cooper e da sua colega Martha Raddatz, da ABC, e também de alguns dos eleitores indecisos que estavam na assistência.
Trump descarregou também tudo o que tem dito na campanha sobre os e-mails de Clinton, mas deixou passar mais ou menos em claro as recentes revelações da Wikileaks de excertos de discursos que a actual candidata do Partido Democrata fez em grandes bancos. Por seu lado, Clinton lembrou toda a retórica ofensiva de Trump – desde a acusação de que muitos mexicanos que entram nos EUA são violadores, à forma como fala das mulheres, passando pela imitação de um jornalista com uma doença congénita –, mas também não aproveitou o brinde que o candidato do Partido Republicano lhe deixou quando reconheceu que aproveitou a perda de quase mil milhões de dólares em 1995 para não pagar impostos federais durante pelo menos 18 anos, como revelou o jornal New York Times. Questionado por Anderson Cooper sobre se tinha usado essa perda para “evitar o pagamento de impostos federais pessoais”, Trump disse que sim, e aproveitou para lançar um novo ataque a Clinton que foi também um piscar de olhos a alguns eleitores que apoiaram o senador Bernie Sanders: “É claro que sim. Tal como todos os doadores dela, ou a maioria deles.”
Mas o momento mais baixo do debate chegou durante a conversa sobre os e-mails de Hillary Clinton – os cerca de 33 mil e-mails que a antiga secretária de Estado mandou apagar do seu servidor pessoal antes de entregar outros tantos ao Departamento de Estado e ao FBI, numa investigação sobre uma possível troca de e-mails confidenciais. Apesar de o director do FBI, James Comey, ter encerrado o caso sem recomendar nenhuma acusação, Donald Trump deixou uma promessa: “Se eu ganhar, vou dar ordens ao procurador-geral para pôr um procurador especial a investigar a sua situação, porque nunca houve tantas mentiras, tanto engano.”
A estratégia de Trump deixou sem dúvida radiante a sua base de apoio mais fervorosa – depois de algumas tentativas para se controlar, o seu candidato estava de volta, e em força. Disse todas as palavras mágicas – Benghazi, Bill Clinton, e-mails, e ainda sugeriu a prisão de Hillary Clinton. Nas redes sociais e em sites da direita radical, Trump foi levado em ombros e considerado o vencedor incontestável do debate.
Mas uma sondagem da CNN e da empresa ORC mostrou um cenário um pouco diferente – para 57% dos telespectadores inquiridos, Clinton esteve melhor do que Trump, que recebeu 34% das preferências. Mas a sondagem mostrou também que o candidato do Partido Republicano excedeu em muito as expectativas, o que indica que pode ter conseguido travar a hemorragia de apoios entre os líderes do partido. Mas isso só será possível perceber nas próximas horas ou dias, quando todos conseguirem perceber melhor o que fazer depois do debate mais sujo e sombrio de sempre, para usar algumas das palavras que fazem os títulos dos jornais norte-americanos.

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