sábado, 8 de outubro de 2016

Instituições do Ensino Superior acusadas de negligência

ARMAZENAMENTO DE DADOS: 

Algumas instituições do Ensino Superior, públicas e privadas, são acusadas pelos respectivos estudantes, sobretudo finalistas, de irresponsabilidade no armazenamento de informação do aproveitamento pedagógico: em causa está o desaparecimento de notas referentes a certas disciplinas dos cursos leccionados.
A nossa reportagem registou reclamações de alguns estudantes das Universidades Pedagógica, Eduardo Mondlane e São Tomás de Mo­çambique.
Segundo contam, o número de vítimas tende a aumentar. Paradoxalmente, a culpa tem recaído, sempre, sobre o estu­dante, que no final das contas é acusado de não ter feito a cadeira.
Trata-se duma situação que está a deixar as suas ví­timas desnorteadas, pois tem acarretado prejuízos incalcu­láveis nos planos académicos e profissionais.
Por vezes, algumas vítimas são obrigadas a perder um ou dois anos do curso, à espera de resolver o problema, em­perrando o processo de defesa para a culminação do curso.
Segundo relatos dos es­tudantes, essas informações têm aparecido de forma sur­preendente, quando solicitam a atribuição de uma declara­ção de aproveitamento peda­gógico.
As vítimas que falaram para a nossa Reportagem re­tratam actos de desorganiza­ção de arrancar os cabelos. Quando se verifica a falta de alguma informação académi­ca, corre-se atrás dos docen­tes, solicitando cópias em sua posse dos mapas de aprovei­tamento. Quando o azar bate à porta e o docente não localiza o documento, não resta outra alternativa ao funcionário se­não
 dizer: “tens de repetir a cadeira”.
Nesta dança há que contar com o efeito contrário: “exis­tem situações em que o estudante não faz a avalia­ção, mas no fim do semes­tre surpreende-se com uma nota na pauta”, relatam as testemunhas.
PAGAR PARA OBTER NOTAS
O desaparecimento de no­tas de aproveitamento peda­gógico transformou-se, tam­bém, numa forma de arrancar dinheiro dos estudantes. Há quem pensa que as notas so­mem propositadamente, para gerar lucro para certas pes­soas.
Alguns estudantes da Uni­versidade São Tomás de Mo­çambique garantem que foram vítimas desse negócio: tiveram de desembolsar 800 meticais no Registo Académico para pagar pela cadeira perdida.
Paulo, do curso de Infor­mática, testemunha o paga­mento desse valor, o que, mi­lagrosamente, trouxe de volta a sua nota.
"Paguei os 800 meticais, procuraram a nota, um tem­po depois informaram-me que a tinham localizado”. Mas os males não se estan­caram dessa feita: “depois de um tempo fui novamen­te comunicado que tenho outra cadeira em falta…”, disse.
José, estudante da Univer­sidade Pedagógica, cidade de
 Maputo, referiu que as falhas da instituição fizeram com que, só este ano, perdesse três oportunidades de emprego. As candidaturas requeriam certi­ficado de conclusão do curso.
José viu as suas expectati­vas goradas pela falta do do­cumento que devia comprovar o término do curso, e passou por mentiroso nas instituições que haviam lançado as candi­daturas.
Somos formados, mas não podemos ter o certi­ficado por negligência de algumas pessoas. Há muita gente a passar pela mesma situação”, revelou.
TROCA DE ACUSAÇÕES
Os dirigentes das Univer­sidades Eduardo Mondlane (UEM) e Pedagógica (UP) acu­sam os estudantes de serem negligentes e faltarem com a palavra, pois a maior parte das vítimas são indivíduos que ti­nham reprovado nas referidas cadeiras, e deixaram-nas para última hora.
O director pedagógico da Fa­culdade de Direito da Universi­dade Eduardo Mondlane (UEM), Henriques Henriques, garantiu que não constituem verdade as preocupações apresentadas pelos estudantes, pois, segundo disse, aquela universidade tem três arquivos onde ficam con­servadas as notas, um electró­nico, outro da faculdade e um terceiro, geral, que foi montado no Campus Universitário.
Incomodado com a situação, solicitou aos estudantes visa­dos a entrarem em contacto com a sua direcção para clari­ficarem o cenário.
Por sua vez, Elena Maguma­ne, directora do Registo Acadé­mico da UP, reconhece a exis­tência de falhas no registo das notas do aproveitamento, mas, segundo refere, deram-se numa altura em que a informação não estava centralizada. Segundo explicou, isso acontece quando o estudante reprova na mesma cadeira ou quando a frequenta sem ter feito a respectiva ins­crição.
Para fazer face a esta situ­ação foi montado um sistema electrónico "online", em 2014, no qual “é obrigatório todos os docentes tanto da sede, assim como das delegações introduzirem a informação, sobretudo, dos estudantes inscritos e do seu aproveita­mento pedagógico”, afirmou.
Acredita-se que esta pla­taforma vai ajudar tanto o do­cente, assim como o Registo Académico na conservação da informação institucional, e, quiçá, evitar que os problemas apresentados pelos seus estu­dantes não voltem a acontecer.
“Mas posso adiantar a es­ses estudantes que apresen­taram a sua preocupação ao jornal que não têm outra sa­ída senão repetir a cadeira. A maior parte dos estudan­tes é negligente. No entanto, registámos, recentemente, um caso raro para a nossa instituição: estudantes dum determinado curso vieram ter connosco para denunciar um docente que, segundo referiram, nunca os avaliou e no fim atribuiu-lhes notas. Eles disseram que preferem repetir a cadeira”, disse.
Refira-se que a nossa re­portagem tentou, sem sucesso, colher a reacção do director da Faculdade de Informática da Universidade São Tomás de Moçambique.
 Governo preocupado
O Ministério de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e Técnico-profissional não confirma a recepção de denúncias sobre o desaparecimen­to de notas de estudantes, mas refere que está preocupado com o actual sistema de gestão de informação das diferentes instituições do Ensino Superior no país.
A preocupação vem pelo facto de, depois duma visita, terem constatado que a informação daquelas instituições encontra-se espalhada, fac­to que dificulta o seu controlo.
Para fazer face a este problema foi aprovada, recentemente, a instalação de dois pacotes elec­trónicos "online", nomeadamente, Sistema Uni­versitário do Registo Académico (E-SURA) e Sis­tema de Informação do Ensino Superior (SIES), cujo objectivo é fazer a recolha e conservação da informação de cada instituição do Ensino Supe­rior em actividade no país.
Os dois pacotes serão geridos pelo Ministé­rio de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e Técnico-profissional. No entanto, o E-SURA será instalado nas instituições do Ensino Superior, en­quanto o SIES no ministério.
Segundo Anésio Baptista, técnico da Direcção do Ensino Superior do Ministério de Ciência, Tec­nologia e Ensino Superior e Técnico-profissional, as instituições vão depositar os seus dados no E-SURA, que serão posteriormente introduzidos no SIES. Adiantou que depois de um determinado tempo nenhuma instituição terá a permissão de fazer alterações da informação depositada.
Anésio assegurou que a sua direcção está a tra­balhar de forma a evitar a sua invasão por piratas.
A medida, que se espera seja de cumprimen­to obrigatório, numa primeira fase, vai abranger apenas as instituições públicas, para posterior­mente serem contemplados as privadas.
"Neste momento, estamos a fazer testes da sua eficácia dentro do ministério. O nos­so desejo é ver a funcionar nas instituições universitárias a partir do próximo ano, 2017, mas tudo vai depender dos resultados da ava­liação que estamos a fazer”, disse.
Texto de Abibo Selemane
abibo.selemane@snoticicas.co.mz

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