domingo, 2 de outubro de 2016

Como Costa Montou a Geringonça em 54 Dias


Como foram os primeiros dias da “geringonça”

24 Setembro 2016142

A ideia estava há muito na cabeça de Costa: com a derrota provável nas eleições de 2015, era urgente falar com a esquerda. Estes são os bastidores de uma máquina política a que chamaram "geringonça".
No livro Como Costa Montou a Geringonça em 54 Dias — Os Bastidores do Acordo Histórico de Esquerda, as jornalistas Márcia Galrão (Visão) e Rita Tavares (Observador), espreitam para lá da cortina e contam como António Costa conseguiu juntar, peça a peça, a máquina que seria batizada de “geringonça”.
Escrevem as autoras na introdução do livro: “(…) Esta solução só existe porque os resultados eleitorais empurraram para ela a esquerda, ao mesmo tempo que é uma jogada de sobrevivência política de um líder que ficou em xeque dentro do seu partido. Uma prova de como, na política, a distância entre a derrota humilhante e a vitória retumbante por vezes é curta.”
O Observador faz a pré-publicação de parte do primeiro capítulo, “Dia 1. Domingo, 4 de outubro. Dia de Nervos”. Como Costa Montou a Geringonça em 54 Dias está nas livrarias a partir de terça-feira, 27 de setembro.
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Como Costa Montou a Geringonça em 54 Dias (Lua de Papel). Preço: 15.90€
“’Em política, a comunhão de ódios é quase sempre a base das amizades’. A frase de Alexis de Tocqueville assentava que nem uma luva a António Costa e às expectativas com que o líder do PS acordou naquela manhã de domingo de céu cinzento, a prometer chuva em dia de eleições legislativas.
Sabia que havia uma comunhão entre o PS e os partidos à sua esquerda que lhe seria muito útil: era a comunhão de quem queria derrubar aquela direita que governava o país há quatro anos com o garrote apertado da austeridade. E para isso não seria preciso, sequer, ganhar naquele dia as eleições.
Fora, aliás, com essa convicção que, na quinta-feira, dia 1 de outubro, o “inveterado do SMS” – é assim que quem priva com António Costa descreve a relação do socialista com as mensagens escritas –, tinha pegado no seu iPhone 6 para, freneticamente, enviar mensagens a um grupo restrito de socialistas em quem confiava. Já há muito que tinha claro que não ganharia as legislativas, mas a luta estava tão dividida que era tempo de começar a perceber o que pensavam os seus sobre alguns cenários concretos.
No texto ia um pedido de reflexão, a dias de toda a verdade. O líder do PS queria saber o que os seus camaradas mais próximos pensavam que deveria acontecer: se o partido perdesse as eleições, mas tivesse o maior grupo parlamentar; se perdesse em toda a linha, com menos votos e menos deputados, mas fazendo maioria com a esquerda; se num cenário que não a maioria absoluta da coligação Portugal à Frente devia entregar as cartas à direita.
No domingo, depois de votar e de almoçar com a família, queria ouvir as respostas, numa reunião de um grupo restrito. Nesse início de tarde, foram chegando ao Largo do Rato as figuras de topo do costismo, mas não necessariamente pertencentes aos órgãos de cúpula do partido. Eram aqueles com que António Costa sabia que ia poder contar nas semanas difíceis que teria pela frente. Homens e mulheres que já lhe tinham demonstrado (há mais ou menos tempo) uma lealdade assinalável. Carlos César, Fernando Rocha Andrade, Fernando Medina, Pedro Nuno Santos, Eduardo Cabrita, José António Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira, Duarte Cordeiro, Mariana Vieira da Silva, Ana Catarina Mendes e Augusto Santos Silva.
Tinham sido alguns dos destinatários daqueles SMS e estavam ali para definir com o líder socialista a estratégia dessa noite. Augusto Santos Silva, ministro em vários governos socialistas, achava que o PS devia apostar tudo na ideia de que teria o maior grupo parlamentar. E valer-se desse argumento para pedir a legitimidade de ser governo.”
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“A porta principal era, sem dúvida, a de comunicação com os comunistas. Mas também com o BE. Estes entendimentos eram a única via de salvação que as sondagens lhe apontavam até àquele momento. PS, CDU (PCP e PEV) e BE juntos conseguiriam formar uma maioria no Parlamento contra uma coligação de direita entre PSD e CDS enfraquecida nas urnas.
Mas havia um muro erguido há mais de 40 anos entre o PS e algumas das figuras daquela esquerda, sobretudo a esquerda comunista. Um muro que parecia intransponível e que só um trabalho de paciência, pedra a pedra, conversa a conversa, encontro a encontro, poderia derrubar. Algo que Costa cultivara ao longo de uma vida inteira na política. Há muito que negociava com o PCP. Na Câmara de Lisboa, sempre que foi necessário. No PS, para uma coligação em Lisboa que levou Jorge Sampaio à presidência da capital. Muitas vezes no Parlamento, quando foi responsável pelos Assuntos Parlamentares, no Executivo de António Guterres, nos anos 90.
Se havia alguém com experiência negocial com o PCP era António Costa. E tinha praticado muito a sua sedução política ao longo do último ano. Retomara encontros com velhos parceiros comunistas de outras lutas, como Ruben de Carvalho ou Jorge Cordeiro – aliás, este histórico comunista e António Costa eram os únicos elementos comuns a duas negociações PS/PCP: a da Coligação por Lisboa, em 1989 (onde também esteve Luís Sá), e a que estava prestes a começar.”
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“À tarde, quando chegou ao Hotel Altis, António Costa trazia uma certeza: o PCP tinha disponibilidade para viabilizar um governo do PS. Tinha-o confirmado, na véspera, a quem com ele se cruzou de manhã na casa de Ana Catarina Mendes e Paulo Pedroso. Não terá adiantado grandes pormenores, apenas a certeza de que a barreira entre PS e PCP estava prestes a cair depois das eleições, caso a direita não conseguisse a maioria absoluta. Em que termos? De que forma? Sob que compromissos? Tudo isso eram questões às quais só seria possível responder depois das eleições. Mas as cartas estavam na mesa. E, nessa noite, António Costa e, do outro lado, o PCP com Jerónimo de Sousa, dariam os primeiros sinais dessa aproximação.
A partir dali seria um jogo de xadrez e cada peça tinha de ser movimentada com muita cautela. O puzzle, esse jogo de paciência que é o preferido de António Costa, havia de chegar mais tarde. E com milhares de peças, como ele gosta. Agora era tempo de calculismo do mais puro.”

Uma manchete profética

“A ideia de fazer entendimentos à esquerda estava na cabeça de António Costa muito antes de ele conhecer estes resultados concretos. Tinha sido mote de vários encontros e conversas informais com as pessoas do PCP com quem se foi relacionando ao longo daquele ano. Fontes próximas de António Costa garantem que falou muitas vezes com Domingos Abrantes, com Francisco Lopes, com Jorge Cordeiro ou com Ruben de Carvalho. Também os sindicalistas do PCP que estão muito ativos na Câmara Municipal de Lisboa terão sido, a determinado momento, um ponto de contacto para o líder e um dos polos comunistas onde foi aumentando o seu grau de confiança. Foi ele que preparou as ligações que iam ser cruciais nos dias seguintes. E também foi ele que foi preparando aqui e ali os seus mais próximos e os que podiam até estar mais reticentes para o que, na perspetiva de Costa, era uma coisa ‘natural’ – a aproximação do PS à sua esquerda, especialmente ao PCP.”
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“Embora os sinais de que PCP e PS se podiam entender fossem ficando em frases e recados deixados por ambos os líderes, o certo é que – e à medida que a campanha ia avançando, e que a imprensa e a opinião pública pareciam cada vez mais convencidas de que a direita podia voltar a ganhar as eleições e a ser governo, apesar de todo o período de austeridade a que estava associada – o secretário-geral do PS achou que era preciso um ponto de ordem à mesa. Não queria que o acusassem mais tarde de ter mentido aos portugueses. E também não queria que o seu PS lhe dissesse em determinado momento que ele os tinha enganado na estratégia que queria para o partido.”
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“Era preciso deixar claro qual seria a estratégia dos socialistas no pós-eleições – sobretudo numa altura em que na caravana eleitoral do PS já ninguém acreditava que vencer as eleições fosse sequer possível, uma vez que a esmagadora maioria das sondagens dava a vitória à coligação – e também mostrar, de alguma maneira, que a esquerda não era um bicho papão para o PS; aliás, se a direita perdesse a maioria absoluta, PCP e BE podiam mesmo vir a ser parceiros desejáveis.
Costa não queria ser acusado de ter escondido totalmente o jogo. E nada melhor do que veicular na imprensa de referência parte da tática que tinha em mente.
Aproveitou o dia em que Luísa Meireles [jornalista do Expresso] o acompanhou no carro entre uma iniciativa de campanha e o hotel onde ia dormir para levantar a ponta do véu: o PS não viabilizaria um governo minoritário da direita. E mais: ele acreditava que se os portugueses tirassem a maioria a Passos Coelho e Paulo Portas, o PS tinha então o caminho livre para formar governo, bastava para isso que os partidos à sua esquerda aceitassem entendimentos.
Era esta a maior incerteza de António Costa naquele dia, a uma semana ainda das eleições. Mas essa parte preferiu guardar para si. É hábil na arte da dissimulação e em nenhum momento podia deixar transparecer à experiente jornalista que, na sua cabeça, esses entendimentos tinham alta probabilidade de acontecer. A 26 de setembro de 2015, a manchete do Expresso era clara: ‘Costa chumba Governo de direita minoritário’. Estava plantada a primeira semente da estratégia do futuro entendimento à esquerda.”
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“Aquela notícia do Expresso não passou ao lado da caravana Portugal à Frente. Mas mais não era do que a confirmação daquilo que Passos Coelho e Paulo Portas já tinham percebido há muito tempo: Costa queria ser primeiro-ministro e ia fazer tudo para lá chegar. E na caravana da direita ia ganhando terreno a suspeita de que PCP e BE estavam a jogar no mesmo tabuleiro que António Costa e que as resistências históricas deste relacionamento começavam a dar sinais de cedência.”

Os camaradas abrem os braços

“No Centro de Trabalho Vitória, em plena Avenida da Liberdade, em Lisboa, os comunistas já conseguiam ver pelas sondagens à boca das urnas que iam ter um péssimo resultado naquela noite. O BE voltava a ultrapassá-los. No Parlamento iam passar de quarta força partidária para quinta. Mas Francisco Lopes, o primeiro a falar naquela noite, não se quis demorar nas más notícias.
O importante estava à vista: a esquerda teria ‘um reforço real da votação’. A direita tinha perdido a maioria e, com isso, ‘a capacidade de formar governo’. E até ousava desafiar, logo ali, o Presidente da República, dizendo que ‘só um entorse em relação aos resultados eleitorais’ por parte de Cavaco Silva poderia recolocar a coligação aos comandos do governo.
Mas não tinham PSD e CDS vencido aquelas eleições? As palavras de Francisco Lopes soavam estranhas a muitos dos que o ouviam, mas não àqueles com quem ele preparara o discurso na Soeiro Pereira Gomes (a rua do bairro de Santos, em Lisboa, onde fica a sede do PCP). O PCP resolvera a questão antes mesmo da ida às urnas: se a direita não tivesse maioria, o partido não poderia demitir-se da sua responsabilidade de uma união à esquerda para governar.”
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“O discurso de Francisco Lopes naquela noite eleitoral dava a entender que o PCP tinha percebido a mensagem. E, para uma colaboradora de António Costa, aquele foi um ‘momento-chave disto tudo’.”

Reagir em Bloco

“O discurso de Francisco Lopes mudou o jogo no cinema São Jorge [sede eleitoral do Bloco de Esquerda]. Catarina Martins ouviu o comunista numa sala no piso inferior do edifício, juntamente com Jorge Costa, membro da sua direção, e Pedro Sales, assessor de imprensa do partido.
Sales foi lá acima pedir aos jornalistas que estavam a acompanhar a noite eleitoral no cinema São Jorge para ouvir as palavras de Francisco Lopes. O partido precisava de se certificar da abertura comunista, antes de alinhar o discurso da porta-voz. Discutiram, as opiniões não eram unânimes, mas Catarina Martins acabou por achar melhor modelar a posição, torná-la mais próxima daquilo que os comunistas tinham feito.
Era preciso substituir a assunção da vitória da direita, que [Mariana] Mortágua tinha frisado [numa primeira reação aos resultados eleitorais], pela expressão ‘força política mais votada’ e entrar no jogo da negociação que o membro do Comité Central do PCP deixava em aberto naquelas palavras. Além disso, a líder do Bloco tinha um argumento perfeito para entrar nesse jogo. Tinha sido ela quem, no debate televisivo com António Costa, ainda durante a campanha, impusera três condições para se sentar à mesa dos socialistas depois das eleições [abandonar a ideia de cortar 1660 milhões de euros nas pensões, deixar cair o corte da TSU e desistir ideia do regime conciliatório].”
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“A ideia de impor aquelas três condições terá tido a mão de Francisco Louçã, uma das pessoas com quem Catarina Martins mais se aconselha. E o objetivo era simples: deixar o BE numa posição que seria sempre de vencedor, quer o PS respondesse sim, quer respondesse não. Se dissesse que sim, abriria um campo político novo. Se dissesse que não, o BE podia sempre dizer que tinha tentado e que só não havia acordos entre os partidos porque os socialistas não aceitavam.”
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“Embalada por este desafio que tinha lançado na campanha, e percebendo que ele agora, a 4 de outubro, lhe permitiria reforçar a sua posição de abertura, Catarina Martins adaptou o seu discurso da noite eleitoral e voltou às condições.
‘O Bloco vai cumprir a sua palavra. A coligação será a candidatura que teve mais votos, mas perdeu votos e mandatos. Se, como tudo indica, não tiver maioria, que fique bem claro, que não será pelo Bloco de Esquerda que conseguirá formar governo. Se o Presidente da República, por filiação ou pouca atenção aos votos, convidar a direita a formar governo, saiba que o Bloco vai rejeitar essa possibilidade no Parlamento. Esperamos agora resposta dos outros partidos. A do Bloco é clara’.
Minutos depois, às 22h36, Jerónimo de Sousa dava a certeza que faltava. O PCP estava disponível para o que viesse a seguir e isso sintetizava-se em duas ideias: o PS ‘tem condições para formar Governo’ e a CDU rejeitará qualquer tentativa de governo PSD-CDS. Sem especificar em que termos e em que condições se podia juntar ao PS, o líder comunista dava sinal de que bastava Costa estar disposto a romper com todas as políticas que prejudicam ‘os portugueses e os trabalhadores’. E um entendimento com o PS e o BE? ‘Ainda a procissão vai no adro’, respondeu.
Nas duas salas do 13.° andar do Hotel Altis, as televisões estavam ligadas a acompanhar os resultados, comentários e declarações da noite. António Costa foi parando aqui e ali para conversar. A ideia de que não se demitiria, mesmo assumindo a derrota do PS, era clara e unânime entre a sua entourage. Aos telefones do seu núcleo duro, ali concentrado, chegavam mensagens de apoio de todo o país. Presidentes de federação, deputados, militantes de base tentavam mostrar solidariedade. Costa ia ouvindo. Mas a sua principal preocupação naquela noite eram os discursos dos dois líderes da esquerda. E o que ouviu da boca de Jerónimo deu-lhe alguma tranquilidade.
Aqueles que o acompanhavam naquele momento não tinham dúvidas nas leituras que iam fazendo. Lá estavam os chamados “jovens turcos”, um grupo da nova geração socialista, que alinha pela ala mais à esquerda do PS e que nos anos anteriores tinha ganhado protagonismo, sobretudo pelas posições assumidas em matérias económicas (sempre mais radicais do que a linha moderada que governava o PS).
Eram, ao mesmo tempo, os mais entusiasmados com o que se podia seguir, mas também os mais incrédulos de que fosse possível construir alguma coisa perante a vitória da direita.
Duarte Cordeiro, Pedro Nuno Santos, João Galamba ou Pedro Delgado Alves tentavam convencer-se uns aos outros: ‘Os gajos [coligação de direita] perderam a maioria absoluta, eles também estão numa situação complicada, eles vão cair’, ouviu-se.
António Costa já não estava concentrado na direita. Tinha ouvido Catarina Martins e Jerónimo de Sousa e também aqueles que à sua volta temiam que aquilo fosse simplesmente tática política, típica daquela noite. Os líderes da esquerda à esquerda do PS tinham tentado colocar a pressão do lado de António Costa. Mas o secretário-geral do PS não ia deixar.
Alinhavou as principais ideias com Carlos César e José Manuel dos Santos – amigo, militante do PS, administrador da Fundação EDP, e uma das pessoas com quem Costa mais se aconselha na hora de preparar o que vai dizer. Leu-as logo no 13.° piso. Todos de acordo? Sim, mas muitos não tinham atingido o alcance total da ideia que ia ser lida na sala do piso -1 do Altis.
Costa mostrava ali que queria explorar aqueles resultados eleitorais, que traziam uma série de novidades potencialmente vantajosas para a sua posição algo frágil. O PS não tinha vencido, portanto, precisava mesmo da esquerda para poder chegar ao Governo. O Presidente da República não trocaria um governo minoritário que vencera nas urnas por um outro governo minoritário – do PS – que não tivesse garantias de estabilidade ou justificação para derrubar PSD e CDS”.
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“António Costa ia tentar. A abordagem à esquerda era um passo que não podia conter qualquer hesitação. Derrota sim. Derrotado, nem tanto.”

Censura mas construtiva

“22h40. Tinha chegado o momento de olhar os portugueses nos olhos. De assumir a derrota e de distribuir a pressão. A sala estava cheia e mergulhada num ambiente de derrota, onde até já se tinham ouvido vozes – como Ana Gomes ou Álvaro Beleza – a lançar dúvidas sobre a continuidade do líder à frente do partido. António Costa subiu ao palanque em frente ao ecrã com o slogan da campanha ‘Portugal segue em frente’; tinha um sorriso aberto no rosto.
Em 29 minutos agradeceu a todos, assumiu a derrota como única e exclusivamente sua, enviou os parabéns à coligação vencedora e deitou por terra qualquer aspiração interna de o destituir: ‘Manifestamente não me demito’.
O sinal mais importante que António Costa deu naquela noite passou despercebido a muitos dos que o ouviram – ainda a digerir a derrota ou a vitória, consoante o lado ideológico – e foi para o futuro: estava disponível para criar uma alternativa de governo estável, com os partidos à sua esquerda.
O PS tinha a ‘responsabilidade de garantir que a vontade dos portugueses’ não se perderia ‘na ingovernabilidade nem no vazio’, justificou António Costa, que retomou uma ideia que o PS tentou introduzir em várias revisões constitucionais: a moção de censura construtiva. Não era mais do que a obrigatoriedade imposta a quem quiser derrubar o Governo de apresentar logo uma alternativa. A figura não existia, a direita nunca a aceitou, mas António Costa obrigava -se a ela, como se estivesse firmada na Lei Fundamental.
‘Não rejeitamos governos sem termos governo para viabilizar. Ninguém conte connosco para viabilizar a prossecução, pela coligação, da sua política como se essa política fosse a nossa política nem para sermos só uma maioria do contra, sem alternativa credível’, esclareceu. E até lançou logo as condições: um virar de página na política de austeridade, a defesa do Estado Social, relançar ciência e inovação e, last but notleast, o respeito pelos compromissos europeus – aquele ponto em que sabia que as divergências à esquerda haviam sido sempre inultrapassáveis.
Era fundamental deixar todas as portas abertas. Não fechava a porta à direita, porque não alinhava em ‘maiorias negativas’. Mas deixava claro que PSD e CDS não podiam manter uma política de austeridade, como se nada tivesse acontecido naquela noite.
Marcelo Rebelo de Sousa, que seria dali a uns meses Presidente da República, leu imediatamente, na TVI, as palavras de António Costa. ‘Apesar de felicitar e reconhecer a vitória da coligação e a sua derrota, não se comprometeu – e essa foi a parte mais aplaudida pelos mais frenéticos anticoligação – e, ao mesmo tempo disse que não alinhava em aventuras de deitar abaixo [o Governo] sem ter no bolso uma viabilização, que tem de ser muito bem falada.’ ‘Deve ter na cabeça um Governo minoritário’, com o apoio dos outros ‘partidos da esquerda’, dizia. E não se enganava.
Na verdade, quando escreveu aquele discurso, António Costa já tinha na cabeça muitos dados, muitas horas de conversa, muitos sinais de abertura – em especial do PCP – para estar confiante no que se podia seguir àquela noite.
Poucos sabiam, aliás, que na véspera, sábado, dia 3 de outubro, ele tinha estado em casa de Ana Catarina Mendes a discutir exatamente aquela hipótese. Ana Catarina, neta de um comunista, sentia como ele o que era aquele partido. Sentia e sabia, como ele, que quando o PCP dá um sinal de abertura, geralmente não recua. E isso dava-lhe o conforto necessário para acreditar que as várias conversas que foi tendo ao longo dos meses com Domingos Abrantes, Ruben de Carvalho, Jorge Cordeiro e outras figuras de peso no partido podiam claramente vir a ter um desfecho positivo no futuro.
E o PCP, com todos os seus formalismos, não chegava a 4 de outubro sem ter já lido muito bem o que as sondagens lhe diziam: a coligação de direita ia perder a maioria absoluta, mas o PS também não a ia alcançar. Como garantiu Domingos Abrantes, a decisão do PCP de se unir ao PS “não surgiu a 4 de outubro à noite’. Foi discutida e trabalhada muito antes em ‘conversas informais’.
Naquele sábado, em casa de Ana Catarina Mendes e Paulo Pedroso, António Costa falou disso. Tinha a certeza do que o PCP diria se a coligação de esquerda fosse uma hipótese viável: não se colocaria de fora. O resultado final dependeria depois da capacidade de cada um para compromissos e cedências. Mas isso era o puzzle que se seguiria.”

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