segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Comissão omitiu documentos sobre a relação entre Barroso e o Goldman Sachs


Uma ONG belga teve acesso a outros mails e cartas trocados entre o gabinete de Durão Barroso e o banco, revelando convites e aproximações que não constavam dos documentos a que o PÚBLICO teve acesso.
Durão Barroso já assumiu o lugar de CEO do Goldman Sachs International em Julho YVES HERMAN/REUTERS
No mesmo dia, 5 de Agosto, a secretaria-geral da Comissão Europeia registou dois pedidos semelhantes para aceder aos arquivos do “gabinete Barroso”, através da legislação europeia de acesso a documentos oficiais. O do PÚBLICO, que tinha sido enviado no dia 15 de Julho, e o da Corporate Europe (CE), uma organização não-governamental que vigia as acções de lobby nos centros políticos da União Europeia.
Os pedidos eram ligeiramente diferentes quanto ao período temporal (o do PÚBLICO pedia acesso aos dois mandatos de Barroso, enquanto a CE requeria apenas os dois últimos anos). O PÚBLICO recebeu 11 documentos, tal como a Corporate Europe, mas a maioria deles são diferentes. Existem nove emails que se referem a encontros e pedidos do Goldman Sachs a Durão Barroso que não forma enviados ao PÚBLICO.
É o caso de um novo pedido para um encontro a sós entre Barroso e Lloyd Blankfein, CEO do Goldman Sachs, sugerido para os dias 11 ou 12 de Outubro de 2013, em Nova Iorque. “Se for possível gostaríamos de o acolher no Hotel Ritz Carlton (1150, Rua 22)”, termina o e-mail agora divulgado pelos serviços da Comissão. Não há nenhuma confirmação de que este encontro tenha acontecido. Mas o PÚBLICO já revelou que antes dessa data, em Setembro, Durão Barroso teve outro encontro privado com Lloyd Blankfein, desta vez na sede do próprio banco.
Em todo o caso, este é apenas um dos nove documentos que a Comissão Europeia decidiu não enviar ao PÚBLICO. A justificação é a seguinte: “Os 11 documentos que [o PÚBLICO] recebeu dizem respeito a todos os documentos encontrados que dizem respeito a reuniões em que o Sr. Barroso ou o seu gabinete mantiveram com o Goldan Sachs. Os documentos do outro requerente são trocas de correspondência que dizem respeito a reuniões em que o Sr. Barroso e o seu gabinete não asseguraram a sua presença.”
O argumento da Comissão Europeia é frágil. Não há nenhuma prova de que todos os convites dirigidos pelo Goldman Sachs que constam dos documentos a que o PÚBLICO teve acesso tenham, de facto existido. Por isso, apenas escrevemos sobre aqueles em que foi possível provar a presença do Presidente da Comissão Europeia, deixando de lado outros encontros que não tinham nenhuma prova de terem acontecido.
Por outro lado, a Comissão também não consegue explicar como chega a esta conclusão. Após a insistência do PÚBLICO, a responsável na secretaria-geral  da Comissão admite que nos arquivos do gabinete de Durão Barrosos não existem agendas: “Não foi identificado nenhum extracto ou cópia das agendas do Sr. Barroso.” O que deveria ser o bastante para que a Comissão não garantisse que certas reuniões aconteceram, e outras não.
O mesmo acontece com as abordagens de lobby que os representantes do banco faziam ao gabinete do Presidente da Comissão sobre matérias da competência de outros comissários. Além do que o PÚBLICO já revelou, sabemos agora que ouve outras tentativas. Um pedido para que alguém, em nome de Barroso, recebesse uma “delegação de 6-10 dos nossos clientes”, como pediu Jenny Cosco, no dia 6 de Setembro de 2012. “Eles gostariam muito de trocar ideias convosco, de uma perspectiva de investidores, sobre a crise das dívidas soberanas da zona Euro e as propostas da União Bancária”.
Desconhecido era também um novo convite de Lloyd Blankfein para um jantar privado com Barroso, à margem do Fórum Económico Mundial, em Davos, em 2013. Desta vez, contudo, existe uma resposta negativa registada.
Um novo convite chegou em Abril de 2014. O Goldman Sachs queria ter Barroso como orador na sua conferência anual, e dada a falta de resposta do gabinete, Jenny Cosco adiantava no e-mail que uma colega sua já tratara de formular o convite “via embaixador Vale de Almeida” (agora representante da UE na ONU e, então, chefe de gabinete de Barroso).
O último convite do Goldman surgiu em Junho de 2014, também para participar numa conferência do banco, a realizar em Novembro, O gabinete de Durão Barroso respondeu, lembrando que o mandato do Presidente da Comissão terminaria antes disso, em 31 de Outubro.
Dois anos depois, Barroso viria a ser contratado pelo banco, e a polémica mantém-se. Em resposta ao PÚBLICO, o actual chairman do Goldman Sachs International recusou qualquer tipo de relacionamento privilegiado com o banco enquanto desempenhou as suas funções políticas: “É importante sublinhar que se enquadra naturalmente nas competências e deveres do presidente da Comissão a realização de contactos com entidades externas. Mas, ao singularizar-se uma determinada entidade financeira, pode estar a sugerir-se que houve de algum modo uma relação privilegiada. Desminto categoricamente qualquer contacto ou relação especial com qualquer entidade financeira durante o exercício dos meus mandatos na Comissão.”

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